Noite estrelada
12 jul 2010 1 Comentário
em arte, contos, literatura Tags:Akira Kurosawa, girassóis, inconsciente, Noite estrelada, sonhos, Van Gogh
Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.
A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.
Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.
Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.
Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.
Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.
**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (:
Audrey
24 abr 2010 4 Comentários
em arte, cinema, desenhos Tags:Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo, cinema clássico, My Fair Lady, Sabrina
Esguia, delicada, olhos de gazela profundos, elegante. É assim que podemos definir a atriz Audrey Hepburn, conhecida por filmes de 50-60 como Bonequinha de Luxo, My Fair Lady, Sabrina, etc. Abaixo o desenho que fiz da Audrey, ela foi um luxo mesmo =)
Cats
12 abr 2010 6 Comentários
em arte, resenhas, teatro Tags:Broadway, Cats, gatos, musical, Paula Lima, Saulo Vasconcelos, Teatro Abril, Toquinho
Peça musical Cats Brasil/2010 Com Saulo Vasconcelos, Paula Lima, Sara Sarres
As silhuetas de gatos iluminadas pelo luar, olhos felinos reluzentes no escuro. Assim que os gatos aparecem entre a plateia, a peça Cats, musical oriundo da Broadway em cartaz no Teatro Abril, cativa com músicas belíssimas e uma excelente construção metafórica de cada gato-personagem.
Os gatos do enredo são da tribo Jellicle que esperam ter uma chance de renascer, uma oportunidade que, a cada ano, o líder Old Deutoronomy dá àquele que a merece. Já que todos os gatos têm sete vidas, o líder escolhe um que poderá renascer.
A protagonista é a gata Grizabella, um tanto velha e maltrapilha que retorna à tribo depois de ter saído explorando o mundo. A personagem pode ser comparada ao indivíduo que sai da caverna, encontra o conhecimento e retorna a sua origem a fim de falar aos demais o quanto é vasto o mundo fora da caverna, narrado na Alegoria da Caverna, de Platão. Mas quando Grizabella retorna, tal qual o indivíduo na Alegoria, é incompreendida por aqueles que optaram em viver eternamente junto à tribo. Para os gatos Jellicle, a vida baseia-se em andar entre os becos à espera da decisão do líder de enviá-los a outro destino. Já a gata foi mais ousada e sonhou pela sua emancipação, em conhecer o mundo “pós-beco”.
A história não se concentra apenas em Grizabella. As músicas apresentam cada tipo felino Jellicle que não foge nada dos estereótipos humanos. Há o gato malandro, a dupla que vive de roubos, o ator que vive das recordações de sua era de ouro. São tipos com características humanas, personificam a malandragem, o mistério e a tristeza em recordar do passado que podem muito bem ser encontradas no ser humano.
A condição enfrentada por Grizabella e pelos demais gatos encena a marginalização humana. Ao ficarem à margem da sociedade, os gatos tentam viver da melhor maneira possível, sonhando com o dia em que poderão viver uma vida diferente da atual. É a ideologia humana por um lugar mais justo, igualitário.
A peça é bem amarrada e com cenas surpreendentes. As músicas traduzidas por Toquinho ficaram devidamente abrasileiradas e emocionantes. A cena em que Paula Lima, como Grizabella, canta a versão de “Memory” é de levar o espectador às lágrimas. Mais uma vez o ator Saulo Vasconcelos traz um personagem encantador ao palco, atuando como o líder sábio e cativante Old Deutoronomy. Os atores que assumem os demais gatos conseguem representar muito bem os trejeitos felinos, como a agilidade e o andar sinuoso. É uma verdadeira obra-prima, grandiosa e inesquecível.
Parvos e o riso
26 mar 2010 13 Comentários
em arte, crônicas, filosofia, literatura Tags:Aristóteles, catarse, Gil Vicente, parvo, riso
Após um longo mas excelente debate sobre o riso, o autor Gil Vicente e o parvo (o bobo da corte ou atualmente o Chaves, do seriado, que nos faz rir de maneira debochada sobre tudo), minha professora de Literatura ofereceu uma carona até o metrô, a mim e a mais dois amigos. Ela é assim, busca fazer de tudo pelos alunos, desde dar uma carona até ficar horas explicando uma pergunta feita. Ela é única.
Bom, já estava em cima da hora, era rodízio. Minha amiga falava de psicologia, meu amigo cantarolava uma música de Glee, dentro do carro era uma verdadeira representação do teatro vicentino: alegre, profano, uma forma de promover uma “válvula de escape” – claro, todos se sentiam bem por ser finalmente sexta-feira.
Eis que no meio da bagunça, cada um comentando um fato, um livro que leu ou o quanto determinada aula foi cansativa, minha professora diz, repentinamente:
-Cadê os “marronzinhos”?
Rimos demais. Para alguns isso pode realmente não ter humor algum. Ela repetiu a pergunta. Precisávamos ver se havia algum “marronzinho”, um fiscal da CET que poderia multá-la por ter passado dez minutos do limite estipulado do rodízio. Claro, estava chovendo e com grande trânsito, óbvio que é comum se atrasar em São Paulo.
Muitas vezes determinada frase, palavra dita não é engraçada. Mas se alguém do seu lado ri, o riso torna-se contagiante. É a Catarse, segundo Aristóteles. Sem ser teórica demais, a Catarse é o riso coletivo – ou choro - que é causado quando o indivíduo se identifica com o que vê num teatro grego. Rir traz prazer, mas contar a piada não tem só a intenção de ver o outro apreciá-la, e sim sentir o mérito por ter contado, o que gera o prazer. Assim, o riso precisa ter limites. Não dá para rir descontroladamente num jantar ou reunião. O riso é uma arte que precisa ser usada nos momentos certos para causar impacto, o de desestabilizar quem ouve a piada ou até mesmo numa causa social, como ser irônico com o governo atual.
O riso tem um forte poder. Desde usar uma linguagem debochada para apontar os erros da sociedade tal qual José Simão faz nos textos da Folha de São Paulo até unir pessoas, sentir que há algo em comum entre elas. Após uma grande discussão sobre o riso, percebe-se que “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”, como Charles Chaplin disse. É necessário ter um pouco de parvo em si mesmo.
O Gustavo Saito fez uma crônica sobre o tema. É interessante ver uma outra forma de narrativa!
Sob a perspectiva de um rasgo
23 mar 2010 2 Comentários
em arte, filosofia Tags:Deleuze, guarda-sol, Guattari, realidade, Salvador Dalí, Sócrates, sonhos
Um elefante em tamanho descomunal anda sobre o mar. Tigres saltam da boca de um peixe. Assim descreve-se a obra surrealista de Salvador Dalí. Pelo ponto de vista pragmático, nada do que foi narrado é possível. Mas como um verdadeiro artista, Dalí coloca em questão o que se conhece como real. Para ele, há um mundo surrealista, em que são possíveis tigres irromperem de peixes.
Deleuze e Guattari, ambos filósofos, disseram que os artistas e pensadores em geral buscam promover “rasgos” no guarda-sol. Obviamente é uma metáfora, tal qual a pintura de Dalí. O guarda-sol representa a realidade, tudo aquilo em que o sujeito se apóia, se debruça para que seja possível organizar o pensamento.
Por exemplo, quando tentamos entender um problema matemático ou até mesmo um acontecimento do cotidiano. Antes se organiza os fatos, tudo o que ocorreu para que seja possível chegar a uma conclusão e o assunto fica “resolvido”; é um processo empírico. Porém, permitir que tudo seja visto como concluído, determinado, leva o sujeito a se estabilizar totalmente em face da realidade que o guarda-sol abriga e passa a não questionar o mundo a sua volta.
Então, surge a função dos artistas: abrir fendas no guarda-sol, desafiar a suposta realidade que a maioria aceita, e mostrar que há uma escuridão além desse rasgo, no firmamento. A escuridão é tudo aquilo que desconhecemos. O sentido de vida e morte, Deus, amor. A função do artista não é rasgar e mostrar uma outra realidade, como se a dele estivesse certa. Pelo contrário, a intenção é desmascarar aquilo que se diz real e promover o caos, a tentativa de refletir sobre o que está “lá fora”. Certas questões sempre irão precisar de “rasgos”, reflexões. Mas é preciso fazer um adendo: o fato de desconhecer grande parte do mundo não pode trazer ao ser humano a necessidade de ser supersticioso, pois isso causa sofrimento e medo, que não permitem a reflexão.
Sendo assim, o artista ensina que nunca saberemos tudo, tal qual o filósofo Sócrates pensava, “Só sei que nada sei”. Melhor ainda, em vez de pensar na frase do pré-socrático, a ensolarada música do Kid Abelha diz o mesmo. “Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber”. É possível ter em comum com Salvador Dalí muito mais do que se imagina. A loucura é aceitar a realidade exatamente como ela se mostra. O bom senso é permitir que tigres irrompam de peixes.
Ética e ciência
01 mar 2010 4 Comentários
em arte, filosofia Tags:átomo, ética, ciência, Demócrito, dialética, filosofia, Heráclito, misérias
Redação de Filosofia – 2010
“Neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias; e não há ignorância que não seja miséria”. Padre Antônio Vieira
De acordo com a obra do artista Bramante, os filósofos Heráclito, o “pai da Dialética”, e Demócrito, que estudou o átomo como indivisível, observam o mundo sob aspectos distintos. Heráclito chora, enquanto Demócrito ri. Dessa forma, Padre Antônio Vieira, conhecido pelos sermões que escreveu, analisa o valor de ambas as reações.
Ao chorar, Heráclito demonstra insatisfação com as “misérias” do mundo, isto é, com os acontecimentos que não se modificam. Dentro da filosofia criada por Heráclito, “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”, o mundo está em frenética mudança. O choro do filósofo parece indicar certa falha na filosofia que ele mesmo criou. A vontade de poder, o totalitarismo, a ética perdida são fatos que não se modificam por si mesmos, como as águas de um rio. Saber que existem “misérias” é apenas um passo para a mudança, todavia ter consciência delas não costuma modificá-las naturalmente. Essas mudanças, portanto, não podem constituir uma “origem”; elas são invenções do ser humano.
No quadro, tendo uma reação oposta, Demócrito ri. Não possui uma conotação arrogante e nem se posiciona como um “velhaco” que detém todo o conhecimento. Mas, ao creditar a ideia do átomo, Demócrito sente que possui um trunfo. A ciência é capaz de alimentar milhões de pessoas, de criar armas para defendê-las (em certo sentido). Mas a ciência não se apropria da segregação ou pobreza na África. Ambas as idéias, de Heráclito e Demócrito, são válidas, auxiliam na constituição da sociedade. Entretanto, debater a ética é fundamental para que facilite um pouco a convivência humana e estabeleça um limite na ciência.
Patinação artística
24 fev 2010 5 Comentários
em arte Tags:O Fantasma da Ópera, Olimpíadas de Vancouver, patinação artística
O riscar do gelo, brilho, um vestido esvoaçante. É assim que a patinação artística, nos Jogos de Inverno de Vancouver 2010, apresentou-se. A dupla canadense Tessa Virtue e Scott Moir ganhou a medalha de ouro, a quinta nas Olimpíadas, mas a primeira na categoria de patinação artística. A apresentação foi belíssima, ovacionada por longos minutos, e emocionou ao retratar de forma tão sublime a 5ª Sinfonia do compositor Gustav Mahler.
A dupla que ficou em segundo lugar fez também uma excelente apresentação, ao som da trilha sonora de O Fantasma da Ópera, The Music of the Night. O figurino era semelhante ao do filme e a dupla conseguiu mostrar a leveza que a obra do compositor Andrew Lloyd-Webber imortalizou no teatro.
Oksana Domnina e Maxim Shabalin, a dupla russa que venceu ano passado, ficou com o bronze. Apresentou sensualidade e uma boa técnica, mas não chamou a atenção do público tanto quanto a dos canadenses.
Às vezes é tão difícil manter-se em pé numa superfície plana! Imagina patinar no gelo? Uma proeza difícil, sem dúvida! Depois de assistir à patinação artística, fiquei fascinada com a técnica, a beleza e a arte de apresentar uma história no gelo.




