Engrenagens e um cinema mágico

Magia. É assim que A invenção de Hugo Cabret se apresenta. É mágico, de tirar o fôlego. A história de um menino que vê o mundo como um relógio, a necessidade de consertar a vida das pessoas e mudar o rumo de tudo através da magia do Cinema.

Hugo Cabret é um órfão que mora escondido numa estação de trem parisiense, no início do século 20. Ele dá corda nos relógios do local e tem o dom de consertar tudo pela frente. Antes de morrer, o pai e o garoto estavam tentando consertar um misterioso autômato, uma espécie de boneco de ferro movimentado por engrenagens pertencentes aos relógios, com a função de escrever. A dificuldade encontrada pelo menino é achar uma chave compatível para dar a corda no boneco, além de consertá-lo. É uma maneira de relembrar o pai e ver se ele lhe deixou algum recado antes de morrer. Porém, aos poucos, o menino descobre que esse boneco está relacionado ao passado oculto do sr. George, dono de uma loja de brinquedos na estação de trem e tio de sua amiga Isabelle. Assim começa uma aventura surpreendente rumo à História do Cinema.

A beleza do filme está em todos os cantos. A poeticidade e o lirismo presentes na linguagem utilizada para mostrar a capacidade do cinema em realizar os sonhos faz o espectador sorrir e chorar simultaneamente, de tamanha delicadeza. Da mesma forma com que Hugo descobre o cinema como um estímulo à vida, o filme traz à tona memórias que cada pessoa já teve ao assistir um filme. A obra que mudou a sua vida, os atores que saíram das telas e se tornaram importantes no nosso dia a dia. A magia é envolvente demais.

Pode ser que aparenta ser inicialmente um filme infantil, mas ele cresce e fala das maiores questões humanas: os sonhos. Em um dos diálogos mais tocantes, Hugo diz a sua amiga que ele deseja consertar o sr. George, pois acredita que o mundo possui uma harmonia tal qual a de um relógio, que tudo tem um sentido. Quando uma pessoa perde o seu propósito de vida, nada tem mais sentido e é preciso consertar essa pessoa. Os passos dados por Hugo, além de trazer o sr. George novamente à vida, mudam tudo ao seu redor e o ajudam a encontrar o propósito para si mesmo.

Com uma Paris romântica e clássica, o filme é maior do que a tela. Serve para emocionar e estimular o espectador a olhar o Cinema com mais paixão. A invenção de Hugo Cabret recebeu 11 indicações ao Oscar e é difícil pensar se ele ou O Artista, também uma obra grandiosa que faz uma homenagem ao Cinema, merece ganhar o prêmio de Melhor Filme. O que importa é que, ao contemplar a última cena de ambos os filmes, a emoção e o estado de leveza continuam por um bom tempo na memória do espectador.

Meryl e Margareth

Sabe-se o quanto é difícil fazer um filme biográfico, ainda mais quando a figura é controversa, polêmica e ainda ativa politicamente. A dicotomia direita-esquerda pesa muitas vezes no roteiro e na direção, cada palavra hoje pode ser compreendida de uma maneira e por isso o cuidado ao tratar da Dama de Ferro, apelido sarcasticamente dado à primeira mulher no cargo de Primeira-Ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher.

A frieza, o conservadorismo, o pulso firme ao governar a Inglaterra proibindo as manifestações sindicais, o gasto excessivo com uma guerra de motivos questionáveis tal qual a Guerra das Malvinas, a privatização e a recessão econômica após a Crise do Petróleo de 1979. Tudo isso caracterizou o governo de Thatcher. E ninguém menos que Meryl Streep para interpretar tal personagem complexa.

O filme aposta em flashbacks, com uma Margareth surpreendentemente envelhecida e frágil, com uma maquiagem muito real que consegue tirar qualquer vestígio do rosto conhecido de Meryl Streep, transferindo cada ruga da política para o rosto da personagem. Há cenas bonitas no filme, mostrando alguns fatos marcantes de sua história, mas o filme é de Meryl e Margareth juntas. As duas ofuscam o que poderia ser um filme biográfico, com os diálogos e o rigor característicos de um filme que tem como objetivo informar com maior exatidão.

Os fatos parecem estar meio soltos durante o filme, dando uma leve impressão de que falta uma autonomia do enredo em relação à personagem. Porém, ele não soa apenas como um filme comercial que busca a polêmica de uma personagem, colocando-a com uma só face. Devido à sensibilidade de Meryl ao tratar das nuances psicológicas de Margareth, é possível mergulhar nas lembranças da política sem qualquer peso na consciência por se envolver com a tristeza dessa mulher que assumiu um papel fortíssimo e com grandes responsabilidades. Não se trata de uma mulher maligna, apenas fria. Ela pode ser uma dama de ferro e inflexível até mesmo com os colegas de partido, mas a atuação de Streep permite humanidade e conquista o espectador.

Certamente, Margareth, com a sua firmeza insistente e até cega, tem a ambição ilimitada como fonte de seus erros. Os livros de História e os diálogos ideológicos a colocam como feita de ferro. O filme ousa em tentar ultrapassar as suas lembranças e achar uma mulher determinada em crescer. Talvez não seja possível dizer qual é a Margareth mais realista, porém a complexidade dada pelo filme parece aceitável.

O Cinema não precisa ser necessariamente real para contar uma história. Se quiser saber mais sobre Margareth, busque um livro, pois ele trará mais informações. O filme é uma oportunidade para presenciar uma excelente atuação que, sem sombra de dúvidas, dá um encanto novo a essa personagem histórica. Não dá para afirmar com exatidão se essa Margareth é verdadeira ou falsa, porém fica claro que sempre nos rendemos a Meryl Streep.

O silêncio do Cinema

Com tantas inovações tecnológicas, homenzinhos azuis pipocando nas telas com Avatar e desenhos animados feitos pela Pixar, é de se ousar pensar que um filme mudo, hoje, não faria muito sucesso nos cinemas. Porém, O Artista prova o contrário. Ainda há sensibilidade para a estrutura dos filmes que iniciaram o encanto pelo Cinema.

Nos anos 20 em Hollywood, George Valentin é um ator famoso pelas caras e bocas que encena em seus filmes mudos, juntamente ao seu cãozinho Jack Russel. Em um momento inusitado conhece a jovem Peppy Miller e se encanta pela moça. Mais tarde, ambos atuam juntos. Mas os planos para o Cinema mudam, e George se vê diante do abandono de seu público, esse migrando agora para os filmes falados. É com a depressão que o ator vê o tempo passar repentinamente, o sorriso que antes enfeitava o seu rosto durante as cenas dos filmes agora se transforma em tristeza definitiva, ainda mais quando Peppy começa a ganhar notoriedade como atriz.

O personagem se depara com uma crise terrível que o leva a pensar qual é o real valor que possui na sociedade. As companhias foram embora quando o último filme mudo fora valorizado e para George só restou um amigo e o cachorro. Uma das belas cenas do filme mostra o ator jogando amarguradamente o uísque que bebia no próprio reflexo da mesa, com a angústia de ver o que sobrara se deteriorar. E agora que precisa escolher se ficará apenas lamentando ou tentará se adaptar, a corrosão de si mesmo se torna uma culpa que George não aguenta mais carregar. Entre os restos de rolos de filmes em sua casa destruída, também ficou o George que ele havia sido, para dar espaço a uma incógnita sobre quem ele seria deste momento em diante.

O filme trata de temas que já surgiram em outros filmes com a leveza e a simpatia proporcionadas por George e a adorável Peppy. É possível visualizar muito do musical Cantando na Chuva, a semelhança com o enredo, a transição do filme mudo ao falado, as cenas delicadamente engraçadas e até mesmo o ator Jean Dujardin, intérprete de George, é muito parecido com Gene Kelly. Sabe-se que Carlitos foi um ator renomado por dar vida a Charles Chaplin em seus filmes mudos. Mas uma das obras audaciosas e belas de Carlitos foi o filme falado Luzes da Ribalta, que mostra justamente um comediante angustiado com a distância do público que não ri mais de suas piadas. Como ambos os personagens dos filmes citados, George Valentin representa uma era e, principalmente, incorpora uma homenagem ao Cinema. Seja no musical de Gene Kelly ou na obra de Carlitos, George Valentin ressuscita o ator conhecido por seus grandes trabalhos; o sujeito angustiado por estar ultrapassado; o ator com medo de iniciar algo duvidoso. E ainda George é a transformação do Cinema.

A responsabilidade pelo excelente filme tem como origem as destacáveis atuações de Jean Dujardin como Valentin e Bérénice Bejo, como Peppy. O ator encarna a expressividade merecida de um ator desiludido, parecendo muito à vontade na tela, fazendo-nos jurar que realmente se trata de um filme dos anos 20. Bérénice é a mocinha dos filmes clássicos, sem tirar nem pôr. O mesmo charme, a simpatia e a doçura. Mas seria injusto deixar de falar sobre o cachorrinho Jack. Ele é o destaque do filme, poderia dizer personagem? O cachorrinho, na vida real, chama-se Uggie e até ganhou um Prêmio em Cannes por sua participação adorável no filme.

Não há dúvidas de que O artista é um filme especial. Consegue trazer os anos 20 de volta e testa o espectador. Inicialmente há o choque por notar que se trata de um filme mudo, parece ser necessária uma reeducação para ver um filme do gênero. Entretanto, o George cativante e expressivo ao sorrir e franzir a sobrancelha coloca-nos diante da magia cinematográfica apenas contando com a criatividade e o lirismo de uma boa história. Já inúmeras vezes narradas nas ficções, a história de amor ganha frescor e apresenta a poeticidade de uma arte que não precisa de palavras para emocionar e se tornar atemporal.

Ao encontro da liberdade

Liberdade, escrita, e a coragem de expor o racismo numa época em que a segregação entre empregadas negras e patroas era aceitável. Tais definições correspondem ao filme Histórias Cruzadas, situado na década de 60, que leva em seu enredo as ações decisivas de várias mulheres em busca de mudanças.

Skeeter é uma jovem formada em jornalismo e anseia por ser escritora. Em mais um dos diversos encontros entre as mulheres da cidade de Mississipi, para tomar chá e falar de futilidades, a jovem ouve os comentários racistas das patroas que pretendem fazer um banheiro separado da casa apenas para as empregadas negras utilizarem, enfatizando que elas transmitiriam supostas doenças a seus filhos e que tal ação é apenas uma prevenção necessária. Diante desse racismo tão naturalmente aceito em relação às empregadas, Skeeter conclui que precisa relatar o outro lado da história. Aibileen é a primeira que lhe dá apoio, relatando as tristezas pelas quais já passara e como se sente por ter a responsabilidade de criar os filhos das patroas, quando essa devia ser a função delas. Aos poucos, outras empregadas aceitam o desafio de relatar as suas histórias, percebendo que podem mudar alguma coisa.

Curiosamente o filme é regido pela ideia da escrita como liberdade. Skeeter opta em trabalhar e criar algo relevante em vez de acomodar-se ao padrão da época, uma mulher que se casa e deixa os filhos para as empregadas cuidarem. A resposta que ela dá à cidade em que vive por meio dos relatos das empregadas é o jeito que encontra de se libertar. Aibileen e a amiga Minny também veem no momento em que narram as suas histórias, tão grandiosas para a pequena cozinha em que preparam o café na madrugada enquanto falam, o sacrifício que estão fazendo por uma resposta que muitas queriam dar. É claro que a exclusão, a vida de tristezas e sonhos despedaçados não se equiparam à escolha de Skeeter em não ser a mulher que se desejava na época, mas juntas conseguem alterar o significado de suas vidas.

Comparado a outros filmes que retratam o racismo marcante na década de 60, Histórias Cruzadas é um tanto “solar” e mantém uma leveza ao proporcionar algumas risadas e mostrar uma Mississipi colorida pelos vestidos das moças ricas. Poderia detalhar mais o contexto histórico, a importância de Martin Luther King e a luta por liberdade em outros estados.  Mas, surpreendentemente, consegue tocar com sutileza em um assunto tão triste quanto o racismo, levando o espectador às lágrimas facilmente, exatamente pelas ótimas atuações que preenchem a tela. Emma Stone, que não atuou em grandes filmes elogiados pela crítica, faz um ótimo trabalho, desenvolvendo uma personagem simpática e inteligente. Octavia Spencer dá o tom de rebeldia com a adorável Minny. E Viola Davis se destaca com uma grande atriz ao interpretar Aibileen, personagem multifacetado, cheio de memórias e o dom de contar histórias.

Mostrando com simplicidade o papel importante das mulheres pela luta de direitos civis, Histórias Cruzadas denomina a essência do homem como um ser livre. A escrita e a comunicação se colocam como parte dessa luta. Contando os próprios dramas e pensamentos, essas mulheres conseguem sobreviver e dar um sentido a si mesmas, livres de quaisquer grilhão social.

Por entre os fios, a solidão

Medianera, o lado de um prédio que apresenta as falhas, as rachaduras, o que se tenta esconder com merchandising, propagandas falsas. Duas pessoas com dificuldade de mostrar seus sentimentos, veem a existência engolida pela multidão da cidade, aceitam viver anônimos. Essas frases não correspondem apenas a um filme e sim, dois: Românticos anônimos e Medianeras.

Jean-René e Angélique fazem parte do primeiro. São emotivos demais, sentem a ansiedade em cada parte de seus dias. A insegurança não permite que exponham seus talentos e, quando amam, optam pelo sentimento oculto, anônimos em tudo. O medo de enfrentar o que vem à tona faz Angélique cantarolar para si mesma I have confidence, do musical A Noviça Rebelde. Como se houvesse uma voz em si mesma – que ela desconhece – capaz de proporcionar confiança e salvá-la dos possíveis fracassos pelos quais pode passar se der um passo adiante em sua vida. Jean-René cresceu sob a cautela exagerada dos pais, que comemoravam se não ocorresse nada de diferente em suas vidas, pois assim significava que estavam em segurança. Para Angélique e Jean-René, viver em segurança é a forma que encontram de não enfrentar o inesperado do lado de fora. Optam pelo que é cômodo e duradouro. Mas como agir se duas pessoas inseguras e com medo de arriscar se apaixonam?

Martin e Mariana também são solitários. Vivem numa Buenos Aires emaranhada por fios que – dito pela própria Mariana – serviriam para unir as pessoas, o que não ocorre, apenas separam as pessoas na cidade, colocando cada um em seu devido lugar. Martin tem como companhia uma cadelinha e o computador. As músicas que ouve servem como refúgio para um cotidiano vazio, cheio de fobias. Leva a vida de forma metódica e evita ao máximo sair de casa. Ele vê na fotografia uma maneira de encarar o mundo à sua maneira e tentar transformar a realidade que vê. Mariana ama observar os prédios, pois é formada em arquitetura. Mas, como tudo em sua vida, vive de projetos. Trabalha como vitrinista de uma loja. Em casa guarda os manequins masculinos e femininos, que mudam de roupa de acordo com a estação. Na casa da jovem, os manequins se encontram despidos, talvez demonstrando as fragilidades que Mariana tem. Ela se sente observada apenas quando se encontra na vitrine, montando uma realidade paralela à da ampla Buenos Aires, e insiste em procurar o Wally por entre a multidão representada no livro “Onde está Wally?”, aguardando por alguém que mude sua vida repentinamente.

Esses quatro personagens, apesar de constituírem filmes de nacionalidades diferentes – um é francês e o outro é argentino – conseguem transmitir com delicadeza, profundidade e inteligência a solidão em meio às relações sociais. Não é difícil se identificar com tais personagens. Uma cidade que vê o seu passado, seja o chocolate maravilhosamente criado há muito tempo e existente na memória de gerações, ou os prédios históricos apagados pela novidade do edifício recém-construído, demonstra a necessidade que as pessoas sentem de conseguir dizer quem são, construir uma identidade e deixar-se interligar por outras pessoas.

Angélique, Jean-René, Martin e Mariana representam os temores, as falhas e os sonhos humanos. Pode-se dizer que os quatro aguardam por alguém que os resgate da monotonia e infelicidade cotidianas. Por entre pessoas desconhecidas e encontros efêmeros, resta buscar a autonomia enfrentando os próprios medos. Esperar por alguém como o Wally, que tanto se ocultara quando se olhou fixamente para uma mesma página, talvez não seja a primeira solução. Tirar a vida da página dos projetos significa olhar as maiores falhas que se possui, tais quais as rachaduras que se deseja ocultar em medianeras. Para encontrar o Wally, há várias opções: a sorte, um olhar clínico,
a análise metódica de cada centímetro da página. Mas, principalmente, a busca por Wally significa encontrar a própria identidade em meio à multidão.

Toy Story 3

Filmes infantis, muitas vezes, demonstram mais os anseios humanos do que propriamente o único objetivo de entreter as crianças. O atual Toy Story 3 é um exemplo disso. Já se sabe da competência da Pixar para criar filmes aliados à tecnologia e ao bom enredo. Nesse caso, muito se torna secundário diante a história bem construída.

Cresci vendo os filmes da Disney – mesmo que não tenha visto com tanta frequência – e me identificava com a Bela, de A Bela e a Fera, já que ela é encantada pelos livros, como eu. Não é à toa que esse desenho foi o único a ganhar o Oscar de melhor filme, mesmo sendo uma animação. Mostra a antítese entre o grotesco e o belo (característica da escola literária Romantismo) e a Bela tem um pouco da emancipação feminina, lê e ousa pensar diferente da coletividade de sua aldeia e do arrogante Gaston.

E o que isso tem a ver com Toy Story 3? O filme mostra o embate com o coletivo. Afinal, o Lotso – aquele urso fofinho – é praticamente o Stálin! Aparentemente, a sociedade que ele cria entre os brinquedos é harmoniosa, perfeita, tal qual a ideia do socialismo implantado na URSS. Mas, aos poucos, os brinquedos que ficam na sociedade do Lotso, começam a sofrer repressão por não concordarem com o coletivo e ser uma ameaça para o governo sólido. Tudo isso é narrado sutilmente e sem moralismo.

O filme é um convite aos adultos para se lembrarem da infância, para as crianças se divertirem. E os adolescentes se sentem como o Andy, dono do Woody. Afinal, ele tem 17 anos, está prestes a entrar na universidade. Precisa fazer escolhas difíceis, a começar pelo abandono dos brinquedos que o acompanhou por boa parte de sua vida. Quem não sente um nó na garganta ao pensar em doar aquele ursinho com o qual você superou o medo do escuro?

Andy passa por algo semelhante às decisões do Woody, o protagonista cowboy. O momento árduo para ambos é saber se deve abandonar o passado ou não. É o momento da separação; porém, não é preciso esquecer o que fora para tornar-se um adulto. Manoel de Barros, na tentativa de narrar em poemas a sua infância, mocidade e velhice, percebeu que não era preciso separá-las. “Eu só tive infância”, declarou o poeta. De fato, não há algo demarcando o fim de cada fase. Claro que esses momentos são feitos de “mortes”, separações. Mas o que você foi continua como memória.

Woody continuará sendo o símbolo infantil para quem viu Toy Story. O filme, como muitos da Disney, é um modo de revisitar a infância. E Woody ainda será um dos brinquedos mais importantes do Andy, pois esse marcara seu nome na sola do sapato do cowboy. Para nunca esquecer o passado ao qual pertencera.

Alice e as mudanças

A polêmica atual é a qualidade do filme Alice no País das Maravilhas, dirigido por Tim Burton. Diversos sites estão discutindo-o: uns dizem que o filme é belo e outros insistem em mostrar certa decepção após um longa que era muito aguardado pelos fãs do diretor.

Sem dúvida, o visual do filme é lindo. Tudo muito colorido, remetendo à infância e ao clima psicodélico típico do desenho produzido pela Disney. O detalhe do enredo que faz de Alice uma adolescente é interessante, porque ela está prestes a ingressar na esfera pública, o que a faz ficar com dúvida sobre quem é diante das escolhas que precisará fazer.

A atriz Mia Wasikowska cumpre o seu papel satisfatoriamente, representa Alice com doçura e ingenuidade. Helena Bonham Carter é brilhante, mais uma vez mostra o seu talento como atriz, sendo expressiva mesmo com uma cabeça demasiadamente grande, como mais um efeito especial.

Johnny Depp pareceu uma repetição do famigerado Willy Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolates. O Chapeleiro Maluco pareceu repetitivo e “gentil” demais no enredo, ao contrário do personagem de Carroll, que muitas vezes demonstra impaciência com Alice. A menina, no filme, destaca-se aos olhos do Chapeleiro como uma musa, muito diferente de como ele a visualizava antes.

Detectei mais características típicas da Disney do que do estilo Burton. O clima gótico, a vasta trilha sonora, a atuação cativante de Johnny Depp, perderam-se entre as cenas. O filme faz pensar, assim como o livro de Carroll, e o enredo flui rapidamente. Mas dá a sensação de faltar cenas, momentos de ação, mais relações com o livro. É necessária a adaptação de obras para um público atual, porém deve-se tomar cuidado em como o meio cinematográfico vai apropriar-se da Literatura de modo que respeite o personagem e o enredo que já está imortalizado entre os leitores. Talvez seja o momento de Burton se reinventar e, junto com Alice, aceitar que, como a Lagarta, passar por uma metamorfose de vez em quando pode cair bem.  

Audrey

Esguia, delicada, olhos de gazela profundos, elegante. É assim que podemos definir a atriz Audrey Hepburn, conhecida por filmes de 50-60 como Bonequinha de Luxo, My Fair Lady, Sabrina, etc. Abaixo o desenho que fiz da Audrey, ela foi um luxo mesmo =)

Curiosidades sobre o Oscar

Amanhã é o Oscar! Então, para entrar no clima da premiação – eu já estou ansiosa há muito tempo! – é interessante saber algumas curiosidades do Oscar que se descobre a partir de revistas, sites.

Meryl Streep foi indicada ao Oscar por Julie & Julia. A atriz já é veterana. Ganhou duas vezes, como atriz coadjuvante e melhor atriz. Recebeu mais 14 indicações, é a verdadeira recordista do Oscar em indicações. Porém, a que ganhou mais prêmios foi Katherine Hepburn, que nunca compareceu para recebê-los, só foi uma vez para prestar uma homenagem ao amigo Lawrence Weingarten.

Há uma história bem curiosa quanto a atriz Julie Andrews. Ela atuou na peça da Broadway, My Fair Lady, como a protagonista Eliza Doolitle. Porém, Julie foi chamada para interpretar, em seguida, Mary Poppins, enquanto a atriz Audrey Hepburn foi convidada, no mesmo ano, para interpretar a protagonista em My Fair Lady. Julie ganhou o Oscar por Mary Poppins e enfrentou Audrey na indicação de Melhor atriz, justamente pela personagem que ambas interpretaram. No ano seguinte, Andrews interpretou Maria que a fez ser eternamente reconhecida por A Noviça Rebelde. Mas não ganhou o Oscar, perdeu para Hepburn pelo filme Charada. Alguns diziam que havia rivalidade entre Audrey e Julie, mas sem dúvida ambas eram excelentes atrizes para serem indicadas ao Oscar.

E agora com o Oscar para ocorrer no domingo, há dez filmes como indicados a categoria de Melhor Filme. Porém, alguns críticos dizem que o único capaz de bater de frente com o sucesso de Avatar – o filme com a maior bilheteria de todos os tempos – é Guerra ao Terror. Avatar foi dirigido por James Cameron e Guerra ao Terror pertence a ex-mulher dele, Kathryn Bigelow. Como será o embate entre eles? James Cameron conquistou popularidade através dos homenzinhos azuis, além de ultrapassar a bilheteria de Titanic, filme que ele mesmo dirigiu. Cameron, quando recebeu o prêmio por Titanic, disse que era o rei do mundo. Guerra ao Terror é um filme mais cult, trata-se de uma realidade, a de soldados em missão no Iraque. Além desses dois filmes, UP-Altas aventuras foi indicado a Melhor Filme, algo que não acontece desde A Bela e a Fera, já que poucos desenhos conseguem emocionar crianças e adultos.

A crítica de Rubens Ewald Filho e outros profissionais valem mais que a minha, porém assistirei ao Oscar o máximo que puder (acaba tarde e dá sono!) e escreverei sobre a premiação!

Para saber mais algumas curiosidades, aqui está o site que me inspirou a escrever esse post: http://www.omelete.com.br/cine/100025523/O_Oscar_e_as_Mulheres.aspx 

Escolhas e milhas

Amor sem escalas, de Jason Reitman

EUA, 2009

Com George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga

Amor sem escalas rendeu seis indicações ao Oscar, que irá ocorrer em março, e tem gerado elogios, como um filme que questiona as escolhas que se toma em face da vida. Para quem viu o filme Juno, Amor sem escalas é do mesmo diretor (Jason Reitman). Dá para perceber o humor sutil e a irreverência até mesmo em retratar o drama humano apenas em poucas cenas. Ao analisar o título, se espera um filme romântico. Mas, além disso, ele mescla drama e comédia de uma forma que logo cativa quem o assiste. O início pode ser um tanto maçante, mas logo o filme ganha fôlego e as personagens que surgem trazem um novo rumo à história.

O personagem Ryan Bingham é um sujeito contratado por diversas empresas para demitir pessoas pelo mundo inteiro, algo que os seus superiores temem, não têm coragem. Ryan viaja para diversos lugares, é um verdadeiro andarilho que tem o aeroporto como o seu próprio lar. No trabalho, Ryan é extremamente profissional e procura seguir à risca o roteiro que tem para si mesmo: fala as mesmas frases para todas as pessoas, ao demiti-las, como se procurasse consolá-las.

Porém, essa vida que ele escolheu encenar, a de uma suposta liberdade em ir e vir sem se responsabilizar por ninguém, começa a falhar quando conhece duas mulheres: Natalie e Alex. A primeira é uma jovem recém-formada na faculdade, que entra na empresa com a proposta de tornar a demissão ainda mais impessoal e utilitarista, utilizando a videoconferência. Essa ideia de Natalie acaba com a utilidade do emprego de Ryan; ele deixaria de viajar e teria que se fixar, ou seja, viveria como qualquer pessoa normal junto à família. Já Alex é a mulher pela qual Ryan se encanta por simplesmente ser a sua versão feminina. Ambos procuram casualidade nos encontros e não querem responsabilidade, veem na viagem uma maneira de fugir das relações sociais.

O único objetivo que Ryan possui é acumular milhas. O sonho dele é conseguir 10 milhões de milhas, algo que quem viaja deseja muito, porque assim poderia escolher o que quiser, desde as vantagens de não enfrentar filas até escolher o seu destino. Mas para que Ryan deseja tantas milhas se sempre suas viagens são bancadas pelas empresas? As milhas são apenas uma desculpa para Ryan reafirmar a sua humanidade, a necessidade de possuir um objetivo. E, quando conhece Natalie, esta lhe aconselha escolher, pela primeira vez, o lugar que sonha em conhecer.

Desta forma, o perfil psicológico de Ryan é traçado. Mesmo que ele tenha que viajar a fim de demitir pessoas e, possivelmente, arruinar vidas com a tal notícia, Ryan se sente menos desumano em comparecer às demissões, talvez a tentativa de dar rumo à vida dos demais, já que isso parece ser mais simples. Mas e quanto à própria vida? Ryan gosta de definir a vida como uma mochila que nunca deve proporcionar peso demais. Se for preciso retirar a família, os relacionamentos dessa mochila para que diminua o peso, Ryan o faz sem hesitar. Neste processo de cada vez retirar mais “objetos” da mochila, Ryan vê-se vazio, solitário. E assim, o filme mostra que vale a pena ter um pouco de peso na própria mochila, pois assim sabe-se que pelo menos ela possui algo dentro de si.

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