Ah, aquele dia…
13 mai 2012 2 Comentários
em crônicas, literatura Tags:amor, confiança, família, mãe, relação
Sala de espera, as minhas mãozinhas suavam frio e sentia certo nervosismo ao ver aquelas pessoas altas com casacos brancos. Várias pessoas sentadas na recepção, aguardando para serem atendidas no hospital. Eu, meu vestidinho, o cabelo bem longo, com cachinhos na ponta, usando uma tiara para afastar a franjinha dos olhos. Apenas 4 anos de idade. Ao meu lado minha mãe esperava que me chamassem para fazer o exame de sangue.
A enfermeira se aproxima e diz:
- Vamos lá, garotinha, tirar o sangue?
Olho perdida para a minha mãe. Será que vai doer?
-Ma, não fica com medo. A moça só vai dar uma picadinha com uma agulha no seu braço para fazer o exame, vai sair um pouco de sangue, mas não vai doer quase nada. Será bem rápido, tá?
Assenti com a cabeça e fui fazer o exame. Lembrei do que minha mãe disse, virei o rosto para o outro lado e, num instante, foi feito o exame. Em seguida, percebi que minha mãe iria passar pelo mesmo. Sentei-me ao lado dela, pousei a minha mão na dela, acariciei o seu braço e disse:
-Ó mãe, só vai dar uma picadinha no seu braço pra fazer o exame, não vai doer nada, tá? Vai ser rapidinho.
A enfermeira olhou atônita para nós duas e deu uma risadinha.
Creio que a nossa relação de cumplicidade e confiança se iniciou a partir desse momento de pura compaixão.
Negação
09 out 2011 4 Comentários
em crônicas, filosofia, literatura Tags:conhecimento, dúvidas, devaneios, Hume, Meia-noite em Paris
Não penso que saiba muita coisa. A melancolia que me envolve por essa constatação não tem nenhum fundo socrático. Não, não quero parecer demonstrar uma sabedoria que não tenho. Isso fica com Sócrates. Não li muitos dos livros que a maioria considera clássicos da Literatura. Dostoievski, Hemingway, Tolstói. Gostaria de lê-los com o mesmo ímpeto que tenho ao comprá-los! E o Cinema, então? Inúmeros filmes à minha espera. Planejo o meu futuro, mas não sei se tais objetivos irão se consumar. E quem sabe? Não consigo decidir (e acho que nem precisa) se Capitu traiu mesmo Bentinho. Perguntaria ao Machado se pudesse. Provavelmente não conseguirei ler todos os livros de filosofia que desejo. Não sei fluentemente outras línguas. Só o português, e então ecoa em minha mente Pessoa, com “a minha pátria é a língua portuguesa”. Não sei por que, apenas mera lembrança. Talvez eu tenha tempo para aprendê-las, assim espero! Não sei grandes frases e poesias para recitar por aí. Ou seja, eu não daria certo vivendo na Grécia Antiga, talvez não conseguiria declamar um só canto de Homero! Por fim, essa crônica não é uma referência intencional ao último capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que tudo é uma negação. Imagina, pessoas citadas aqui foram apenas homenageadas, são admiradas por mim. Nem sei o que me levou a escrever tudo isso. O propósito de ser irônica? A intertextualidade? Um desabafo que não leva a lugar nenhum? Quem sabe se por uma negação, encontro uma afirmativa? Digo que não sei, mas pelo menos conheço tais autores. Meio complicado isso. Então sei alguma coisa? Hm, talvez. Mas vamos combinar que conhecer e apreciar autores e filósofos vai além de citações. Lembro-me dos indivíduos pedantes que desfilam por aí, orgulhosamente, as citações que decoraram para recitar em jantares ou conversas informais, apenas com a intenção de parecer um conhecedor das artes ou algo do gênero. Talvez o único propósito aqui seja perceber que um conhecimento pode ser compreendido como superficial. Pois o engano ocorre quando o tal pedante se vê como especialista em tudo o que diz. A verdade é que admiro quem se diz amante de Literatura ou Cinema. Compreendo amante como aquele que é apaixonado pela área, mas reconhece o vasto conhecimento que ainda está à sua frente para ser aprendido. Melhor, vivido. Eu diria que Woody Allen, em Meia-noite em Paris, se expressou melhor. No filme, a arte deve ser vivida, não pelos livros, mas pela imaginação. O texto em si é uma profusão de autores, pela admiração que tenho por eles. Essas são ideias lançadas aleatoriamente aqui. Provavelmente compreenderei muito do que escrevi, no momento, aos poucos. Como isso é possível? Não sei! Com uma escrita descontrolada, sem parágrafos ou alguma formalidade necessária entre os grandes autores, encerro apenas dizendo que tudo fora uma vivência sobre o sentido da escrita, o conhecimento. Parece-me mais um devaneio, um monólogo que sempre terá continuidade…
Livros-promessa
28 jul 2011 3 Comentários
em crônicas, filosofia, literatura Tags:dúvidas, futuro, lembranças, livros
Tenho minhas dúvidas do que é mais agradável: possuir diversos livros na estante ainda intocados, inéditos para meus olhos e razão, ou contemplar aqueles que já li, dos quais tenho agradáveis lembranças. Se eu fosse imaginar uma situação – veja bem, hipotética – de um incêndio dramático numa enorme biblioteca (o tamanho não importa), o que eu salvaria? O que é digno de salvação, como relíquia para a humanidade? Ou o que é valioso apenas para mim e a minha mortalidade?
Acredito que sejam perguntas complexas com respostas ainda mais difíceis. Por elas aguardo respostas. Os livros que não li guardam em si o sonho, a idealização dos sentimentos e ideias que terei quando os ler, pelo menos o que desejo sentir ao lê-los. Carregam consigo as palavras dos amigos que os indicaram, as críticas literárias e a alma do autor ainda desconhecida para mim. Não me perdoo por não ter me embrenhado ainda pelas páginas de Crime e Castigo, por exemplo. Ou Anna Karenina, de Tolstói. São livros admirados pela Literatura. E pela minha biblioteca também, certamente os salvaria. As capas charmosas, o conjunto que o livro apresenta seduz também. Sentiria dificuldade em escolher as minhas relíquias: o que amei e o que idealizo amar.
Não poderia esquecer, porém, dos livros marcantes na minha vida. Desde aquele com os contos e desenhos da Disney, que ganhei durante a alfabetização, até Apologia de Sócrates, primeiro livro de Filosofia que li. Parece que uma segunda história ocorre simultaneamente durante a leitura. Não é preciso definir se determinado livro é considerado uma grande obra literária, importa a impressão deixada por ele aos nossos olhos.
A verdade é que sentimos a imensa dificuldade de escolher em face de grandes opções. E tendemos a escolher o que representa concretamente as lembranças das quais temos saudade e queremos reforçar na memória. As perguntas ficam aqui lançadas. Sei que na estante sempre haverá livros que não li e realmente não faço ideia de quando lerei. Mas saber que estão aguardando pela minha leitura proporciona a expectativa de que há novas ficções prestes a serem redescobertas. Tornam-se livros-promessa.
Ficções pela esquina
24 jul 2011 4 Comentários
em crônicas, filosofia, literatura Tags:ficções, memória, olhar, realidade, saudade
Sou construída por saudade. Nostalgia. Pelo que ocorreu, pelo que sonhei um dia e pelo que nunca terei a possibilidade de vivenciar. O dito passado de outras gerações que, hoje, só é contado a mim por livros e imagens. A memória limitada e a necessidade de guardar tudo o que foi especial se faz presente em diversos momentos. Lembro que esqueço algumas sensações passadas, e isso traz frustrações, claro. Elas permeiam meu pensamento. Mas, de tão fugazes, mostram-se semelhantes aos sonhos que coloco em dúvida. O paradoxo de nossa existência está nesse lembrar-esquecer. Relato o que lembrei e, em seguida, esqueço.
Se a memória é uma grande característica humana, é evidente que ela pode nos enganar. Invento ficções para a minha vida e isso é inevitável. O super-herói que desejamos ser cede o lugar para o profissional bem sucedido. As manias de nossos pais ganham pinceladas de dramaticidade quando as observamos com a peculiaridade de nosso olhar. Escolhemos os heróis (e os vilões também) que nos inspiram por meio da Literatura e do Cinema. O que denominamos como realidade é permeada por criações, diariamente. Idealizo algo para mim e para o outro e, assim, costuro ficções. Juízos fazem parte da maneira com que escrevo os personagens do cotidiano. E eu não fujo dessa pena que seguro. Mas há um detalhe: o fato de criar ficções para nós mesmos não quer dizer que estejamos imersos na pura mentira. Afinal, se a nossa memória é tão aberta ao lembrar e ao esquecer, podemos ver o nosso passado como uma comédia ou um filme musical. É como dar um encanto distinto ao que parece extremamente comum.
E a saudade não está muito longe do que é criado pela memória. A distância de alguém, momentos vividos existem concretamente. Porém, a forma com que os contemplo é criação minha. Tento resgatar eventos, repasso-os mais uma vez pela mente. Renovo o que outrora foi apenas um momento. Agora ele é interminável. E a saudade é uma reflexão sobre o que temo esquecer; é a memória que me acompanha na tarefa de apanhar pedaços de fatos e ideias, juntando-as, talvez sem nenhuma ordem. Um mundo à parte criado por mim. Personagens que vejo por aí, outros imaginados por escritores, artistas. As realidades criadas são paletas de cores misturadas a cada olhar que direciono para o cotidiano. O que você vê quando resolve enquadrar a realidade? Escolho o que destacar nessa pintura diária, imersa na saudade e ganho uma memória reinventada.
Tábula rasa
03 mar 2011 3 Comentários
em crônicas, filosofia, literatura Tags:filosofia, John Locke, mudanças, reflexões, tábula rasa
Uma página em branco à minha frente e outras preenchidas espalhadas pela mesa. Não vejo mais o vazio que a mesa possuía antes de complementá-la com livros, papéis demarcados com conteúdos que resistiram aos séculos e hoje são transmitidos a mim. Linhas e mais linhas novas e velhas, simultaneamente, esperando para serem recebidas por essa página em branco que sou eu. Verdadeira tábula rasa.
É claro que nunca estamos completamente “vazios”. Mas é essa a sensação que dá ao contemplarmos a mudança. Não somos meros receptores, prontos para receber as linhas que outros escrevem em nós, sendo uma tábula rasa, como diria Locke. Porém, gosto de atualizar um pouco esse pensamento, em colocá-la como uma tábula em constante preencher-se e esvaziar-se de alguns itens.
E aí entram as páginas já citadas acima. Folhas que já ocuparam a mesa como se fossem parte dela, extremamente necessárias, hoje parecem mais elementos acumulados nela. Como abrir espaço para as novidades, sem ignorar as folhas que fazem parte do passado? Não é necessário jogar todas fora, mas tem algumas que não teriam exatamente uma utilidade. Hm, não gosto muito dessa palavra, já que é bem relativa a utilidade dos objetos. Para mim, uma fotografia antiga pode ser “útil”, resgata boas lembranças. Mas, para você, ela só pode ser um indício do tempo irrecuperável.
Volto o meu olhar para as folhas, novamente. Dá um aperto no coração saber que algumas precisam ser recicladas. Outras eu guardarei, não pela dita “utilidade”, mas pelo carinho que representam. Difícil esse papel de escolher o que irá preencher a tábula rasa…
São Paulo desvairada
25 jan 2011 3 Comentários
em crônicas, história, literatura Tags:457 anos de São Paulo, burguesia, comportamento, Mario de Andrade, Paulicéia Desvairada
“São Paulo! comoção da minha vida…Os meus amores são flores feitas de original…”. É assim que Mario de Andrade exalta – e critica também – a cidade através do livro Paulicéia Desvairada. Nessa frase, o autor mostra a inspiração que São Paulo lhe dá, ao mesmo tempo em que aponta o burguês como o culpado pelos grandes males dessa composição desvairada que é São Paulo.
Para Mario de Andrade, a burguesia é retrógrada, passadista. Como a Ode ao burguês foi um poema modernista, serviu como um convite à inovação. Afinal, foi lido frente a frente à burguesia criticada, elite que preza pelo ar aristocrático e sua posição no high society. Porém, não há como negar a importante participação dessa elite na arte que conservamos hoje.
A burguesia passou a ser mecenas – a patrocinadora das artes. E não deixou de empregar o seu poder também nesse quesito. A cultura considerada erudita é herança dessa aristocracia, o padrão do que se diz Arte, com letra maiúscula tal qual uma instituição que prega seus valores. Mesmo patrocinados por essa burguesia, os modernistas inovaram, mostrando que eram capazes de criar uma cultura nacional a partir das ideias estrangeiras.
Então, qual a ligação dessa burguesia com a atual São Paulo? Nossa História é composta por esse modo burguês de agir. A voracidade com a qual a cidade se move, os erros cometidos pela aristocracia retrógrada, a paixão pela ideia de desenvolvimento e progresso. Tudo isso podem ser características nada admiráveis na vestimenta de um bom burguês. Mas ao viver em São Paulo, é possível ver que isso também faz parte de quem somos.
Por isso, São Paulo é uma cidade com muitas definições e ambiguidade; retrógrada, mas inovadora. Como? É só ver a antítese que há entre o concreto – símbolo da imobilidade – e o movimento das pessoas nas ruas. São Paulo continua respirando freneticamente, iluminada pela luz das cidades, dos carros modernos e ainda enfeitada pelo passado que tem guardado nos museus.
Só lendo Ode ao burguês para ver o tom irônico com que Mario de Andrade ataca a elite
Imponentes rosas
25 jan 2011 2 Comentários
em crônicas Tags:457 anos de São Paulo, arte, Casa das Rosas
Imponente. Clássica. Charmosa. Qualidades utilizadas para definir São Paulo e também a Casa das Rosas. Sim, tenho uma grande admiração pela casa e o seu jardim de rosas. Quando, criança, passava em frente ao atual Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, ficava admirada com o aspecto antigo do local e , com um olhar infantil e sonhador, imaginava como seria morar lá, envolvida pelas rosas que já enfeitavam a Casa por muito tempo. Para mim, o espaço e as rosas eram eternas. Afinal, se as rosas adornam o nome, precisam estar lá sempre, como verdadeiras damas a conduzirem quem entra na Casa, em busca de uma viagem à Cultura. Uma pena quando vi que essas rosas só eram eternas no nome. Mas elas renascem, sempre desabrochando em novos botões, novas gerações. Ah, essas rosas já devem ter visto muitas faces dessa cidade paulistana…
Em meio a Atenas e aos modernistas
08 dez 2010 2 Comentários
em crônicas, filosofia, história, literatura Tags:Atenas, conhecimento, estudo, Mario Quintana, modernistas
Assim como Mário Quintana disse na crônica “Coisas e pessoas”, sinto que também possuo a tendência de personificar as coisas. Desde pequena eu gosto de imaginar as matérias da escola como pessoas. Já que não tenho muita facilidade em Matemática, essa logo foi um velhinho com sobrancelhas arqueadas e um olhar inquisidor. Hoje, está mais para um velhinho sarcástico que ri da gente quando põe na lousa uma fórmula que “explica” o mundo. Como um amontoado de números e letras ao quadrado pode explicar por que estamos aqui?
História sempre me pareceu alguém que logo saca do bolso uma linha do tempo e começa a falar, empolgadamente, do processo de emancipação que a Revolução Francesa simbolizou. Ao mesmo tempo, narrava com muita emoção as revoltas que ocorreram na República Oligárquica. Essas narrativas sempre foram compatíveis às aventuras de Ulisses, cheias de perigo e significados, sempre empolgantes. O término de cada capítulo sobre História sempre significou para mim o mistério do que viria a seguir.
Já Literatura sempre me faz evocar a imagem de Camões ou Machado de Assis, é normal. Mas a palavra em si, tão imponente, vai de encontro à imagem simpática que tenho dos modernistas, poetas e intelectuais numa roda de samba celebrando a vida. Definir Literatura personificando-a é injusto; ora parece a tradição clássica de Olavo Bilac; ora a irreverência do Oswald de Andrade e a paixão pela vida de Vinicius de Moraes.
Enquanto algumas matérias criaram em minha mente a ideia de uma matéria antiga, clássica, Filosofia é o oposto de todas. É a “velha-nova” disciplina, imagino-a tal qual uma jovem, mas parecida com a deusa Atenas que mitifiquei. Não é à toa vê-la como a deusa, pois a Filosofia veio exatamente do conflito entre razão e mito. Seria a deusa Atenas apenas por simbolizar a sabedoria; e jovem, pois sempre está se modificando através do pensamento e da dialética. Embora tenha essa ideia da Filosofia, prefiro não vê-la incorporada apenas na figura de Sócrates ou algum outro filósofo. É o mesmo impasse que ocorre com Literatura: seria injusto achar que a disciplina se concentra apenas na imagem de uma pessoa.
De qualquer forma, sei que as matérias que personifiquei fazem parte do meu cotidiano, reinventam-se, estão sempre jovens como Atenas ou o espírito modernista da geração de 22. Pode parecer loucura, mas personificar as disciplinas é fazê-las vivas, independente dos séculos aos quais pertenceram.
Toy Story 3
05 set 2010 2 Comentários
em cinema, crônicas, filosofia Tags:adolescência, disney, infância, pixar, separação, Toy Story 3
Filmes infantis, muitas vezes, demonstram mais os anseios humanos do que propriamente o único objetivo de entreter as crianças. O atual Toy Story 3 é um exemplo disso. Já se sabe da competência da Pixar para criar filmes aliados à tecnologia e ao bom enredo. Nesse caso, muito se torna secundário diante a história bem construída.
Cresci vendo os filmes da Disney – mesmo que não tenha visto com tanta frequência – e me identificava com a Bela, de A Bela e a Fera, já que ela é encantada pelos livros, como eu. Não é à toa que esse desenho foi o único a ganhar o Oscar de melhor filme, mesmo sendo uma animação. Mostra a antítese entre o grotesco e o belo (característica da escola literária Romantismo) e a Bela tem um pouco da emancipação feminina, lê e ousa pensar diferente da coletividade de sua aldeia e do arrogante Gaston.
E o que isso tem a ver com Toy Story 3? O filme mostra o embate com o coletivo. Afinal, o Lotso – aquele urso fofinho – é praticamente o Stálin! Aparentemente, a sociedade que ele cria entre os brinquedos é harmoniosa, perfeita, tal qual a ideia do socialismo implantado na URSS. Mas, aos poucos, os brinquedos que ficam na sociedade do Lotso, começam a sofrer repressão por não concordarem com o coletivo e ser uma ameaça para o governo sólido. Tudo isso é narrado sutilmente e sem moralismo.
O filme é um convite aos adultos para se lembrarem da infância, para as crianças se divertirem. E os adolescentes se sentem como o Andy, dono do Woody. Afinal, ele tem 17 anos, está prestes a entrar na universidade. Precisa fazer escolhas difíceis, a começar pelo abandono dos brinquedos que o acompanhou por boa parte de sua vida. Quem não sente um nó na garganta ao pensar em doar aquele ursinho com o qual você superou o medo do escuro?
Andy passa por algo semelhante às decisões do Woody, o protagonista cowboy. O momento árduo para ambos é saber se deve abandonar o passado ou não. É o momento da separação; porém, não é preciso esquecer o que fora para tornar-se um adulto. Manoel de Barros, na tentativa de narrar em poemas a sua infância, mocidade e velhice, percebeu que não era preciso separá-las. “Eu só tive infância”, declarou o poeta. De fato, não há algo demarcando o fim de cada fase. Claro que esses momentos são feitos de “mortes”, separações. Mas o que você foi continua como memória.
Woody continuará sendo o símbolo infantil para quem viu Toy Story. O filme, como muitos da Disney, é um modo de revisitar a infância. E Woody ainda será um dos brinquedos mais importantes do Andy, pois esse marcara seu nome na sola do sapato do cowboy. Para nunca esquecer o passado ao qual pertencera.
O olhar sobre o escritor
24 ago 2010 2 Comentários
em crônicas Tags:Ana Maria Machado, Bienal do livro 2010, Contardo Calligaris, Cultura, livros, Moacyr Scliar
O primeiro momento em que se começa a ler determinada obra, o escritor ainda é um enigma. As páginas vão revelando o modo como ele costura a história e surpreende o leitor. Não é muito diferente ao ler crônicas publicadas no jornal. A semana dura tempo demais para chegar finalmente o dia com mais uma crônica publicada. E o mistério de querer saber do tema? Passam-se os olhos pelo texto rapidamente, linha por linha, com vontade de logo satisfazer a curiosidade.
Semanalmente, é grande a minha expectativa de ler a coluna escrita por Contardo Calligaris, às quintas-feiras na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada. São crônicas que reúnem fatos, notícias, com o conhecimento vasto do autor em Psicanálise e Filosofia; conseguem provocar intensas reflexões acerca do homem contemporâneo.
Assim, na Bienal do livro 2010, assisti a uma palestra no Salão de Ideias, com três grandes escritores: Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e já citado, Contardo Calligaris. Consegui autógrafos e fotos com os dois primeiros. Ana Maria Machado é uma senhora com ar jovial e sorridente. Nem é preciso dizer que os três são extremamente cultos. Scliar é simpático e ficou orgulhoso quando lhe disse que, para um trabalho do ensino médio, toda a sala leu e adorara o livro dele, “O centauro no jardim”. Calligaris, após a palestra, já tinha ao seu lado uma jornalista aguardando uma entrevista. Aproximei-me dele e não tinha levado nenhum dos seus livros para um autógrafo. Grande erro! Mas pedi-lhe um abraço. E ele o deu, com um grande sorriso no rosto e ainda surpreso com tal pedido. Foi melhor que ganhar o autógrafo.
Por isso, ver um autor que se admira é incomum. Diante das palavras já na memória do leitor, ver quem as escreve é surpreendente, já que não é totalmente possível imaginar como ele é. Talvez se a sua escrita fosse muito erudita, logo se pensaria em um velhinho rabugento com uma fala difícil. Só estereótipo.
Acredito que não consegui imaginar nenhum desses autores quando li suas obras. Como é possível criar uma “intimidade” entre autor e leitor apenas pelas letras? O livro consegue essa proeza: adorar e ter carinho por Machado de Assis, mesmo que nunca seja possível vê-lo, afinal séculos nos separam. O mistério de quem está por trás das palavras instiga ainda mais o leitor em face do texto. Uma linha que revela um pouco de sua vida pessoal é guardada com carinho por quem a lê. E, mesmo que seja possível conhecer o autor, ele continuará a simbolizar todas as ideias que fascinaram o leitor.
