São Paulo desvairada
25 jan 2011 3 Comentários
em crônicas, história, literatura Tags:457 anos de São Paulo, burguesia, comportamento, Mario de Andrade, Paulicéia Desvairada
“São Paulo! comoção da minha vida…Os meus amores são flores feitas de original…”. É assim que Mario de Andrade exalta – e critica também – a cidade através do livro Paulicéia Desvairada. Nessa frase, o autor mostra a inspiração que São Paulo lhe dá, ao mesmo tempo em que aponta o burguês como o culpado pelos grandes males dessa composição desvairada que é São Paulo.
Para Mario de Andrade, a burguesia é retrógrada, passadista. Como a Ode ao burguês foi um poema modernista, serviu como um convite à inovação. Afinal, foi lido frente a frente à burguesia criticada, elite que preza pelo ar aristocrático e sua posição no high society. Porém, não há como negar a importante participação dessa elite na arte que conservamos hoje.
A burguesia passou a ser mecenas – a patrocinadora das artes. E não deixou de empregar o seu poder também nesse quesito. A cultura considerada erudita é herança dessa aristocracia, o padrão do que se diz Arte, com letra maiúscula tal qual uma instituição que prega seus valores. Mesmo patrocinados por essa burguesia, os modernistas inovaram, mostrando que eram capazes de criar uma cultura nacional a partir das ideias estrangeiras.
Então, qual a ligação dessa burguesia com a atual São Paulo? Nossa História é composta por esse modo burguês de agir. A voracidade com a qual a cidade se move, os erros cometidos pela aristocracia retrógrada, a paixão pela ideia de desenvolvimento e progresso. Tudo isso podem ser características nada admiráveis na vestimenta de um bom burguês. Mas ao viver em São Paulo, é possível ver que isso também faz parte de quem somos.
Por isso, São Paulo é uma cidade com muitas definições e ambiguidade; retrógrada, mas inovadora. Como? É só ver a antítese que há entre o concreto – símbolo da imobilidade – e o movimento das pessoas nas ruas. São Paulo continua respirando freneticamente, iluminada pela luz das cidades, dos carros modernos e ainda enfeitada pelo passado que tem guardado nos museus.
Só lendo Ode ao burguês para ver o tom irônico com que Mario de Andrade ataca a elite
Em meio a Atenas e aos modernistas
08 dez 2010 2 Comentários
em crônicas, filosofia, história, literatura Tags:Atenas, conhecimento, estudo, Mario Quintana, modernistas
Assim como Mário Quintana disse na crônica “Coisas e pessoas”, sinto que também possuo a tendência de personificar as coisas. Desde pequena eu gosto de imaginar as matérias da escola como pessoas. Já que não tenho muita facilidade em Matemática, essa logo foi um velhinho com sobrancelhas arqueadas e um olhar inquisidor. Hoje, está mais para um velhinho sarcástico que ri da gente quando põe na lousa uma fórmula que “explica” o mundo. Como um amontoado de números e letras ao quadrado pode explicar por que estamos aqui?
História sempre me pareceu alguém que logo saca do bolso uma linha do tempo e começa a falar, empolgadamente, do processo de emancipação que a Revolução Francesa simbolizou. Ao mesmo tempo, narrava com muita emoção as revoltas que ocorreram na República Oligárquica. Essas narrativas sempre foram compatíveis às aventuras de Ulisses, cheias de perigo e significados, sempre empolgantes. O término de cada capítulo sobre História sempre significou para mim o mistério do que viria a seguir.
Já Literatura sempre me faz evocar a imagem de Camões ou Machado de Assis, é normal. Mas a palavra em si, tão imponente, vai de encontro à imagem simpática que tenho dos modernistas, poetas e intelectuais numa roda de samba celebrando a vida. Definir Literatura personificando-a é injusto; ora parece a tradição clássica de Olavo Bilac; ora a irreverência do Oswald de Andrade e a paixão pela vida de Vinicius de Moraes.
Enquanto algumas matérias criaram em minha mente a ideia de uma matéria antiga, clássica, Filosofia é o oposto de todas. É a “velha-nova” disciplina, imagino-a tal qual uma jovem, mas parecida com a deusa Atenas que mitifiquei. Não é à toa vê-la como a deusa, pois a Filosofia veio exatamente do conflito entre razão e mito. Seria a deusa Atenas apenas por simbolizar a sabedoria; e jovem, pois sempre está se modificando através do pensamento e da dialética. Embora tenha essa ideia da Filosofia, prefiro não vê-la incorporada apenas na figura de Sócrates ou algum outro filósofo. É o mesmo impasse que ocorre com Literatura: seria injusto achar que a disciplina se concentra apenas na imagem de uma pessoa.
De qualquer forma, sei que as matérias que personifiquei fazem parte do meu cotidiano, reinventam-se, estão sempre jovens como Atenas ou o espírito modernista da geração de 22. Pode parecer loucura, mas personificar as disciplinas é fazê-las vivas, independente dos séculos aos quais pertenceram.
Capacete paulista
09 jul 2010 1 Comentário
em crônicas, história Tags:Clineu Braga de Magalhães, Getúlio Vargas, Revolução Constitucionalista
Feriado no Brasil ou no estado de São Paulo é sinônimo de descanso, viagem, dormir mais tarde. Porém, hoje, a data Nove de julho remete à Revolução Constitucionalista de 1932. Assinalar a importância de conhecer a História como um modo de perpetuar a existência humana e a Cultura já se tornou lugar-comum. Mas é a verdade.
Desde os sete anos de idade tenho um grande fascínio pelo túmulo de Clineu Braga de Magalhães, localizado no Cemitério São Paulo. Todo ano, quando ia deixar as flores no túmulo dos meus parentes, eu passava diante do túmulo adornado por um capacete e ficava maravilhada pela delicadeza dos traços e curiosa para entender o motivo da morte do soldado. A criança idealiza o soldado como uma imagem heroica de filmes norte-americanos e esquece – ou desconhece – o fato de São Paulo ter lutado em algumas revoluções.
Por óbvio, a imagem do soldado heroico é puramente ideológica e ufanista. Porém, é necessário entender o porquê do feriado existir e os motivos da revolução.
Entre 1930 e 1934, Getúlio Vargas estava no poder, mas o governo foi chamado de Provisório. As primeiras medidas do presidente foram suspender a Constituição, fechar o Legislativo e nomear interventores militares nos estados. Um deles foi João Alberto, interventor nordestino que residiria em São Paulo. Entretanto, o estado queria alguém paulista para ser interventor. E era um absurdo um país ser governado sem uma Constituição! Praticamente uma ditadura disfarçada, já que foi apenas em 1937 que Vargas deu um golpe, iniciando o Estado Novo, puramente ditatorial, repressor.
O sentimento populacional estava em estado de ebulição. No dia 23 de maio – sim, mais um nome de rua! – ocorreu o conhecido episódio MMDC, com as mortes de Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, considerados jovens heróis do sonho paulista. E foi no dia 9 de julho que realmente começou a luta armada.
Clineu Braga de Magalhães participou do Batalhão 14 de julho. Era estudante do terceiro ano de engenharia do Mackenzie College. Morreu com um tiro no coração, aos 21 anos.
O curioso é que sempre fui fascinada pelo túmulo dele, sem saber de sua participação na luta armada. Só sabia dos acontecimentos históricos. Deixar uma rosa sobre o ramo de café, a espada, a bandeira paulista e o capacete fez desse Nove de julho um motivo para renovar o clima histórico.
