Lembrete

Quero deixar somente um lembrete
Eu quero ser aquele que não deixa sua felicidade se afetar
Por uma ação ou palavra torta. 
Aquele que aproveita as raras amizades, que veem como valiosa a companhia ao lado.
Não quero a pessoa que se veste com um sobretudo refletindo ao mundo uma faceta irreal
Quero uma humanidade que busca fazer memoráveis os poucos minutos de simples balbuciar.
Quero mais pessoas que ficam até o final da festa,
Quero longe dessa residência quem não se doa por inteiro,
Quem sai à francesa, deixando o presente em qualquer canto da casa!
A humanidade precisa de mais carinho pelo outro,
Sem viver temerosamente ao demonstrar o que sente.
Esse alguém pode ser fictício, talvez nesse sujeito caiba o mundo inteiro!
Mas confrontar-me-ei com ele,
Sujeito pertencente à vida de qualquer pessoa,
Marcando a cada passo o lembrete que fiz.
O convite que faço é o de lançar-se ao mar
À infinidade de nomes desconhecidos na História,
Entrar em um mundo que nunca me pertencera,
Respirar a vida de um conhecimento infinito,
Ficar sem fôlego com a presença de quem busca o mesmo.
Lançar-me-ei pela multidão, tentando alcançar um significado,
Na rua que me sustenta, no latido do cachorro, no pão quentinho assando na padaria.
Quero abraçar um mundo receptivo aos vários mundos que quero fundar!

Uma pílula

Há certos dias que são cinzentos demais.
Aguarda-se por um fio de luz tímido por entre as nuvens
Pronto para se expandir e mudar a própria existência.
E nesses dias o que peço é um poema!
Um poema-pílula, que cure as desavenças,
Decepções e tristezas.
Mas no mercado e na farmácia já o procurei.
O vendedor encarou-me duvidando de minha sanidade.
O médico não soube o que receitar para tal pedido.
Indicou apenas uma novalgina,
Como se meu mal fosse uma mera dor de cabeça!
Resta-me produzir essa pílula,
Com palavras e frases entrelaçadas
Unidas a ponto de se enrolarem ao meu coração
E fortificá-lo a cada segundo que fraquejar.

 

Para este poema me inspirei numa matéria curtinha do blog Não me culpem pelo aspecto sinistro, da Revista Bravo. Ela fala sobre a ideia do artista Morten Sondergaard em criar caixinhas de remédios simulando substantivos, adjetivos, pronomes, cada uma com sua bula poética, como se a gente pudesse encontrar na farmácia a solução para a falta de inspiração! Aqui está o link: http://www.almirdefreitas.com.br/blog/?p=10500

Todo mundo

Todo mundo já se viu sozinho na multidão
Apertou-se ao casaco querendo fugir
Resistindo à dor que sonha um dia sorrir
Nas tardes que contemplam o chão.

 

O calafrio denuncia o medo de escolher
Como dar aos dias uma utilidade,
Analisar os limites para viver.
A escolha é a dolorosa liberdade.

 

O passado já está todo emaranhado,
O coração, com a tristeza, acostumado
Pulsa no casaco com uma mera lembrança,
Vestindo a face da desiludida criança.

 

Sonhos no bolso pedem o fôlego de uma nova vida
Mas encontram as asas destruídas no chão.
Voar se torna restos de uma expectativa diluída
A revolucionária vida que se reduzira em ínfimo grão.

 

Todo mundo já sorriu com os olhos devastados,
Tentou arrumar a própria casa com as emoções confusas.
Viu o céu outrora azul se fechar em temores resignados.
E quis ser racional apesar das ideias difusas.

 

Todo mundo passa a ver que a vida é um turbilhão,
Aprende-se que o humor vive ao lado da melancolia.
O segredo é fazer de tal antítese uma harmonia
E não olhar um mundo vivo na escuridão.

 

Cólera e matéria-prima

Ressoa em meus ouvidos os gritos coléricos de Álvaro de Campos.
Todo o ímpeto de gritar, a vontade de a sociedade esmagar
Os erros nomear…
Hoje, talvez, ele entendesse:
Falar de seu problema não o faz ser fútil diante de outros
O choro e a lamentação tem prazo de validade
Isso é fato.
Permitir o desmoronamento interior,
Como uma marca constante relembrando as dores,
Destrói a humanidade.
Mas o avançar do mundo anseia por uma circularidade louca
Possível?
Ascensão, queda…humores
Não são pelas lamentações que se pretende um ato a mais?
Esbravejar ao mundo o que o irrita é melhor do que não fazê-lo!
Então é isso!
Desejo do mundo o correr da água, veloz
Chegar a algum lugar!
Enlouquecidamente, a cada passo, quero o melhor!
Cansaço vai e vem…abstrato
Uma ilusão criada…
É dele que tento arrancar freneticamente
A matéria-prima
De quem eu sou.

Corredores metafísicos…

Imaginação à solta leva a caminhos misteriosos
Tanto que já me perguntaram uma vez:
Como seria a USP à noite?
Na madrugada, majestosamente silenciosa?
Então me peguei em devaneios…
A luz pálida encobriria os corredores da Filosofia
Fraca luminosidade que proporciona o saber em qualquer circunstância
Que nunca se apaga, mesmo com o fechar de uma última porta.
Talvez soassem pelos corredores os sussurros dos que já se foram?
Heidegger dialogaria com Descartes animadamente!
Quem sabe?
As árvores que adornam os arredores
Farfalham ao leve soprar da sabedoria, à espera da completa luz do dia seguinte.
Dentro delas a seiva matemática as alimenta
E os galhos buscam agarrar a verdade a todo custo.
As raízes metafísicas se prendem ao passado.
Então sossegam ao ver que são lindamente limitadas.
Nos dias e nas noites aquele prédio ganha encantos incomensuráveis…
 
P.S. Para os uspianos, especialmente a Renata que fez a pergunta “como seria a USP de madrugada?”

Repouso

As cristalinas gotas caem do céu
Olhos, nariz e boca insistem em surgir
O lápis risca linhas difusas no papel
É no desenho que vejo meu sonho dormir
 
Não denomino ao certo o que desejo
Tenho o ímpeto de um mundo retratar
Resguardo-me com cuidado a um lugarejo
A fim de me maravilhar com as cores a passar
 

Caeiro urbano

Hoje, dia 13 de junho, é o 123º aniversário de Fernando Pessoa! Escrevi o poema abaixo, baseando-me no heterônimo Alberto Caeiro, no ano passado, influenciada pelas aulas de Literatura. Resolvi postar como uma homenagem ao Pessoa, um poeta multifacetado que se via em Caeiro, em Ricardo Reis, em Álvaro de Campos, pois “o poeta é um fingidor”.

 

O sol é meu companheiro
Acordo e sinto os raios preenchendo cada camada do meu ser
Mas não venha dizer que o Sol é algo além do Sol
Pois direi que o Sol é o Sol
E ponto final.
Para que se afundar na metafísica,
E esquecer de sentir os raios solares?
Raios que iluminam a flor – que é só uma flor
Iluminam a minha existência
Eu sou eu.
O Sol é o Sol.
Não há nada além dos sentidos.
“Pensar é estar doente dos olhos”.
Neste momento repentino
Somos um: Caeiro e eu.
Quero esquecer o pensar.
Mesmo que seja por um instante;
Guardar a Razão numa caixinha
E usar apenas os meus olhos para brincar com a realidade.
Descascar palavras, esquecer versos e rimas.
Não vou me ocupar com vogais e consoantes.
A alma da palavra está no meio sensorial,
No ipê amarelo-vibrante que consigo ver por entre a mancha cinza urbana.
Eu consigo ver. Você consegue?
Digo que não!
O urbano poluiu seus olhos a ponto de não ver mais a flor e a árvore
Consegue ver a si mesmo?
Não! Está descaracterizado com tanta racionalidade.
Para que eu quero fórmulas absolutas se nenhuma delas me mostra a natureza como é?
Não sou guardadora de rebanhos,
Meu tempo é, para alguns, a pós-modernidade
A pré-filosofia está distante de mim.
Perto? Só nos livros.
Alberto Caeiro foi só um heterônimo
Mas foi o mestre de Fernando Pessoa
Por isso,
Mesmo que seja só por um dia,
Quero a realidade pertencente à flor, ao Sol e a mim.

Boas festas

Nesta época festiva, final de ano, os discursos de “Feliz Natal e um próspero Ano Novo” parecem se repetir há séculos; pipocam nos meios de comunicação e nas despedidas escolares ou do trabalho. A tradição natalina não é estruturalista, mas talvez o desejo que nós temos por mudanças, novidades esteja aí há muito tempo. Pelo menos há 7 mil anos antes do nascimento de Jesus, essa data era a celebração do solstício de inverno, uma noite mais longa no hemisfério norte e o Sol ficava mais tempo no céu, o que representaria o “renascimento” dele. Portanto, o Natal é diferente para cada cultura e momento histórico. Montar a árvore natalina, colocar enfeites é uma convenção social, mas, de alguma forma, nos compõe e nos integra à sociedade. Claro que não se pode deixar de pensar que essa época é muito comercial também. Mas essa questão a gente deixa para Marx analisar, se Natal é capitalista demais ou não. No momento, o que importa é ver que o presente está sendo encaminhado para a posição de passado e o intangível nos aguarda, independente da data escolhida para  comemorar. Todo momento é receptivo para a reflexão, porém o final de ano representa uma mudança temporal (mais uma convenção?) e simboliza a renovação de sonhos. Por isso, renovo neste post a paixão pela escrita que me estimulou a fazer este blog há um ano, de uma forma bem metalinguística: escrevendo mais um post. Deixo o recado poético de Mário Quintana diante Das Utopias:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não quere-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

Face tristonha

Deparo-me com a loucura festiva do Natal e Ano-Novo
E as despedidas batem à minha porta e mostram a sua face tristonha
O ontem não é mais o meu hoje; é simplesmente o não mais.
Esse é mais um enigma a cada dia que passa.
Um velhinho uma vez já falara:
“Não sabemos o que o futuro nos espera!”
Apoiando, sabiamente, os óculos na ponta do nariz…
Óculos que já viram muito…
Gostaria de ter o poder das mágicas cartomantes
Encontrar no tarô as respostas para o mundo!
Mesmo com esse sonho desvairado de entender o futuro
Qual seria a graça de acordar
E saber, matematicamente, o que nos espera?

Prateleiras e sonhos

O abrir da geladeira me frustra
Por entre as prateleiras não há o que anseio
Essa fome vai além da fruta, do pão
Não é material e nem consumível
Talvez seja uma procura em vão
Vejo um espaço vazio ocupado por sonhos
Não-tateáveis
Intratáveis,
Porque imperam a nossa existência
Vêm quando querem…são orgulhosos!
Ora são sonhos sem sabor, incógnitas
Ora sonhos palatáveis, com gostinho de doçura
Sonhar é o constante desejo do paladar à espera da fome abatida

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