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Hamlet, a representação de Ofélia na arte e na cultura pop

Publicado no site Literatortura

As idealizações sobre o feminino foram diversas no período do século XIX. O exotismo do oriente na forma de odaliscas, as cortesãs parisienses, as bailarinas no ambiente do entretenimento burguês nos cafés-concertos e teatros, os ambientes domésticos como destinados às mulheres casadas, e a ainda constante presença de Vênus.

De fato, estas são representações significativas, posteriormente, para a história da arte quando se trata do século XIX. De acordo com a obra estudada Idols of perversity, de Bram Dijkstra, esse século possuiu ainda mais fantasias sobre o feminino que se misturavam à mitologia grega, à literatura de época, às referências clássicas à figura de Vênus e ao contexto sócio-histórico, de mulheres que eram contempladas como um público de consumo pela moda das musselinas e espartilhos, e ainda símbolo do perigo pela histeria e manifestações sexuais.

Trabalharei aqui, portanto, entre os tantos exemplos dados no livro Idols of perversity, com a imagem de Ofélia, personagem de Hamlet e a qual aparece fortemente entre as pinturas do século XIX. E, em seguida, a influência de Ofélia no mundo pop. Foram muitos os artistas que retrataram a figura feminina desfalecendo em leitos rodeados por flores, e o tema do auto-sacrifício feminino era frequente. Em Ofélia, pois, ele é determinante.

Tomando a leitura de Shakespeare, após ter seu pai, Polônio, morto por Hamlet, Ofélia passa a apresentar fortes indícios de loucura, até ser encontrada morta ao se afogar. O diálogo entre dois coveiros, no quinto ato da peça insinua, porém, que a jovem teria se matado, e eles questionam se “deve ser sepultada em terra santa aquela que voluntariamente conspira contra a própria salvação”. Se Ofélia morreu, ela o fez voluntariamente, segundo os dois coveiros, sendo o suicídio contrário aos preceitos religiosos. E o que alimentou o ideário do século XIX, aparecendo representado em inúmeros quadros, foi o instante da morte de Ofélia.

Por isso, é importante deter-se aqui na obra de Shakespeare para buscar os motivos para tal idealização. A grande representação de Ofélia desfalecida nas águas, entre as flores, éOphelia, de Sir John Everett Millais (1851). Nela, a morte se torna sublime pelas diversas flores e cores intensas que, em vez de indicarem o horror da morte de uma jovem, emolduram um corpo que poderia só estar dormindo. Mais uma vez, a figura feminina é disposta para o olhar voyeur. Independente se o espaço é um leito ou um lago, há uma figura que foi feita, na obra, para ser contemplada sem que esta o saiba ou que não o demonstre. A obra permite somente a contemplação de uma sublime exaltação desta figura feminina, a jovem Ofélia, que morre em auto-sacrifício, insana após as consequências entre seu pai e Hamlet.

O contraste, obviamente, entre os valores presentes em uma peça impressa em 1603 e as obras que a representam na metade do século XIX é grande e deve ser levado em consideração. É preciso compreender, então, como se deram tais representações de Ofélia e o porquê de apresentá-la por um viés puro e altruísta em vez da ênfase acerca de sua loucura.

Oposta a esta imagem da ingenuidade feminina, encontramos outra versão de Ofélia por Ernest Hébert (1890s) e Madeleine Lemaire (1880s). Em ambos, encontramos a insanidade de Ofélia. Na primeira, Hébert alia os cabelos desarrumados às olheiras doentias de seu rosto e concede à Ofélia o contraste entre a pureza das flores e a dominação da loucura. Totalmente distante do corpo desfalecido, adornado por flores e a leveza dada à morte, a Ofélia de Hébert olha diretamente ao espectador, desafia por todo o seu aspecto doentio e os olhos parecem ter um vislumbre da loucura indecifrável a nós. Desta forma, a Ofélia de Hébert se situa em um campo difuso: ela se permite ser vista, mas devolve um olhar próprio, de uma loucura particular e só sua. E, ainda assim, o artista preserva o ideário da mulher insana que possui algo o qual nenhum homem irá ter acesso, o mistério alimentado sobre a figura feminina no século XIX.

Na sequência, Madeleine Lemaire, porém, escolhe por despir Ofélia e emaranhar os fios de seu cabelo, o que Dijkstra afirma ser a produção de uma versão própria e um tanto rara de Ofélia, com nas palavras dele “um olhar vampirizado”, “na precariedade”, tendo o desejo sexual como origem de sua loucura, pelo vestido que revela os seios. Podemos questionar, então, se a obra de Shakespeare daria a possibilidade de imaginar a loucura de Ofélia como tendo uma origem sexual também.

Tomando exclusivamente alguns trechos de Hamlet, é possível levar adiante, aqui, a suposição de que Madeleine Lemaire buscou uma abordagem alternativa. O único instante em que Ofélia demonstra estar louca, antes de sua morte, é o breve diálogo com a rainha. Por meio de uma canção, Ofélia parece falar mais do que aparenta. De início, ela apresenta uma canção que parece ser uma breve história de uma jovem que perde a virgindade e se vê desiludida pelo amado e abandonada. Cito apenas os últimos versos da canção:

– Antes – diz ela – de me derrubar,

Tu prometeste comigo casar.

– Pela luz do sol, tê-lo-ia feito,

Não tivesses tu, vindo pro meu leito”

Esta canção proferida por Ofélia se torna ambígua durante a leitura. Sabemos que a jovem enlouqueceu após a morte do pai e tinha alguma proximidade com Hamlet, o assassino de seu pai.  Ofélia precisou simular uma conversa com Hamlet, que estava sendo ouvida pela rainha, o pai Polônio, e o rei. A conversa que se segue é obscura e Hamlet se mostra agressivo com ela, ironiza a honestidade de Ofélia enquanto ela afirma que guarda dele lembranças que gostaria de lhe devolver. Hamlet reconhece que Ofélia está, nesta conversa, representando um papel. Contudo, ele acrescenta “amei-te antes”, ao que Ofélia rebate “Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizestes acreditar”, o que se aproxima do verso da canção. E, por fim, Hamlet responde “Entra para um convento”. No original, Shakespeare faz uso da palavra “nunnery” que, de acordo com a nota do tradutor da edição usada nas citações anteriores, tem um sentido, como gíria, de prostíbulo. O que é um fato curioso, pois no século XIX, tanto artistas franceses quanto americanos, representavam o máximo da delicadeza e auto-sacrifício feminino na forma da freira ou da mulher no leito de morte, ou retratavam, em contraste, as cortesãs.

Desta forma, há uma possível interpretação para as entrelinhas deixadas na obra de Shakespeare e a leitura ambígua de Ofélia feita no século XIX, na pintura. A partir dessa interpretação, torna-se compreensível por que Madeleine Lemaire retratou uma Ofélia possuída por uma loucura também sexual, o que faz pensar na complexidade tanto do texto de Shakespeare quanto nas simplificações que se fazia da figura feminina na época, já que muitos destes artistas preservavam, ainda, a representação de Ofélia como a moça altruísta que se sacrifica e cai em decadência, mas sempre exaltada por esta pureza entre as flores.

As referências a Ofélia

Não é difícil encontrar, entre ensaios fotográficos de moda, a figura feminina entre flores, ou aliada às flores e às águas. Há algo do mistério e delicadeza cultivados nesta composição das imagens, e a influência da história da arte é grande. Um exemplo é Ophelia siglo XXI, de Sofia Sanchez e Mauro Mongiello.

Melancolia, de Lars von Trier

Podemos pensar também a grande referência a Ofélia no filme Melancolia, de Lars Von Trier. Na primeira parte, acompanhamos a personagem Justine (Kristen Dunst), em sua festa de casamento. Cheio de pomposidade tal qual os artifícios da corte em Hamlet, Justine busca se desvencilhar a todo custo desta alegria falsificada da festa, como se a todo tempo em que sai do centro das atenções, entre os jardins e os quartos, procurasse uma identidade verdadeira e perdida. Os primeiros instantes do filme trazem Izolda, de Richard Wagner e a personagem deitada entre as águas de um lago, segurando nas mãos a pureza dos lírios e vestida para o casamento. Antes desta cena, Justine arrasta-se, com o vestido cheio de lama e lodo, como se estivesse constantemente nestas águas. Toda esta composição, aliada ao enfoque do enredo – a aparição do planeta Melancolia – faz pensar e muito na personalidade de Justine e também com respeito a Ofélia, em Hamlet.

Ambas as personagens se encontram no limiar entre a alegria e a depressão, dois extremos com os quais Justine se vê confrontada constantemente. A melancolia seria, portanto, o equilíbrio em que se sabe reconhecer as diluições dos sentimentos, tal como uma abertura para o mundo. Justine lida bem com a perspectiva de morte que o planeta traz, enquanto sua irmã, tão controlada no primeiro ato do filme, se desespera. Vemos, então, Justine neste esforço em resistir: ela alcança o equilíbrio da melancolia – e não o desvario das emoções do primeiro ato – quando aceita que todos morrem. Mas é uma resistência frágil, como todo sentimento humano, quando ela busca proteger a família numa cabana feita por poucos galhos.

Há, assim, no gesto de Justine e também no de Ofélia, um esforço, uma resistência na depressão. No século XIX, poetas como Baudelaire e Rimbaud alimentavam a imagem de que o suicídio, em meio a uma sociedade tão corrompida e perdida em sua própria identidade (um meio urbano que destrói o próprio passado para dar espaço ao moderno),  era a alternativa destas almas massacradas diariamente. Visto pelo ultrarromântico como um gesto artístico, o suicídio era, em muito, a coragem de não apenas lançar-se às águas, mas carregar, a todo instante, o lodo daquelas águas que nunca os deixavam. No caso de Ofélia e seu contexto, o suicídio fora o seu último gesto de desespero, enquanto Justine ainda sobrevive, na metáfora completa da melancolia e o planeta que nunca a deixa, como a depressão.

Tanto Ofélia quanto Hamlet se correspondem em suas relações com a loucura. Apesar do desfecho de ambos ser a morte, Hamlet ainda poderá ser cantado pelo seu gesto de príncipe que tenta salvar a corte do último instante de corrupção. Enquanto Ofélia é uma figura da qual se esquece as suas causas e sofrimentos em vida, para apenas dizer que foi aquela que se suicidou e, mesmo assim, enterrada em “terra santa”.

 

Ophelia, The Lumineers

Em 2016, a banda norte-americana The Lumineers lançou um novo álbum chamadoCleopatra. Nele, tanto a música que dá título ao álbum quanto à faixa Ophelia são referência direta às duas heroínas trágicas de Shakespeare, Ofélia de Hamlet, e Cleópatra de Antonio e Cleópatra. Apesar do viés romântico, do eu-lírico que fala da imagem de Ofélia a qual está em sua mente desde “o dilúvio” e que “o céu ajuda o tolo que se apaixona”, há algo de Ofélia na obra. A presença do azul melancólico e da água parada após uma chuva, no videoclipe, concede uma atmosfera próxima ao do quadro e mesmo da estética do filme de Lars von Trier. A letra continua dizendo “eu não sinto nada / e você não pode sentir nada pequeno”, “você já esteve em minha mente, menina, como uma droga”. Tudo isso compõe uma música mais romântica, contudo com leves referências à personagem, na dificuldade entre a relação, que se assemelha às decepções de Hamlet, mas fortalece o mistério da personalidade de Ofélia.

 

A morte de Padmé, em Star Wars III

Na trilogia nova de Star Wars, quando a personagem Padmé Amidala (Natalie Portman) morre após dar a luz aos filhos Luke Skywalker e Leia Organa, heróis na trilogia clássica, a imagem de seu funeral é rápida, contudo a referência é marcante. Claramente semelhante às barcas onde eram postos os corpos que iam às águas após o falecimento, Padmé é levada por uma cápsula e está vestida com o mesmo azul que dá o efeito das águas, e contornada por flores nas roupas e nos cabelos, como Ofélia. A trajetória da jovem como Senadora de Naboo e defensora da democracia é forte nos primeiros filmes, mas dada a ascensão de Anakin e do chanceler Palpatine, a personagem acaba por se tornar apenas a imagem clássica que ainda morre em sacrifício pela vida dos filhos, no parto. Esquece-se, porém, que na jornada do herói a força de Padmé é quase herança concedida aos filhos Luke e Leia que, posteriormente, acabam por representar, por seus atos, a voz da mãe à favor da democracia, na vitória presente na trilogia clássica.

A personagem brasileira Moema

Podemos considerar, também, a representação da figura de Moema. A personagem é originariamente citada no poema “Caramuru” de Frei Santa Rita Durão (1781). Para entender melhor a lenda indígena, Arilda Ines Miranda Ribeiro a descreve em sua tese de mestrado, intitulada: Mulheres educação no Brasil Colônia: histórias entrecruzadas.:

“No Brasil, no início da colonização dos portugueses, vivia na Bahia, na cidade que seria chamada mais tarde de São Salvador, Diogo Álvares Correa. Ele era um “galaico-minhoto” (região da Galícia), que naufragou nas águas do mar tenebroso, próximo à Bahia de Todos os Santos, nos baixos de Maiririquiig (Maraquita). Salvou-se matando dois pássaros com um arcabuze, sendo reverenciado pelos indígenas como amássununga, que quer dizer entre outros: O Trovão, Caramuru, a grande moréia, o dragão que surgiu do mar, homem de fogo. Foi assim que em 1509 Diogo Álvares Correia, o Caramuru tornou-se uma grande liderança entre os tupinambás, e como presente do cacique, podia se deitar com as mais belas mulheres. Dentre elas, escolheu Moema, concebendo os primeiros mestiços, que seriam mais tarde denominados de “Brasileiros””

Porém, logo mais tarde Diogo Álvares Correa conhece Paraguaçu e casa-se com ela na tribo. Ele volta à aldeia de Piatã e leva consigo Paraguaçu, o que devasta Moema. Quando o casal parte para a Europa, Moema, no máximo de sua tristeza, quando vê o amado deixar a tribo, lança-se “desesperada na água e nada com fortes braçadas perseguindo a embarcação, gritando o nome de Caramuru, até que as velas sumissem no horizonte”.

Moema, de Rodolfo Bernardelli, 1895/1998 – Pinacoteca do Estado de SP

Moema, Victor Meirelles, 1866 – MASP

Referências bibliográficas

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.301

DIJKSTRA, Bram. Idols of perversity. Nw York: Oxford University Press, 1986.

Sobre Moema: https://peregrinacultural.wordpress.com/2009/04/18/dia-do-indio-o-amor-de-moema/

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Hamlet, de William Shakespeare

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Publicado no site Indique um livro

“Há algo de podre no reino da Dinamarca”. “Ser ou não ser, eis a questão”. “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”. As três frases são marcantes quando falamos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Reproduzidas sem cessar até os dias atuais, junto a figura de Hamlet contemplando um crânio, a peça de 1603 é atemporal. Em meio aos governos que se corrompem, tiranos que sobem ao poder, cortes que criam as mais sórdidas histórias, jovens que se veem de mãos atadas diante do reinado que podem herdar, Hamlet fala muito ainda pela nossa época.

A título de curiosidade, o mito de Hamlet é antigo e presente na história escandinava. De acordo com a edição da Abril Cultural, foi um dinamarquês do século XII, Saxo Grammaticus, quem passou a história adiante, no terceiro livro de sua compilação História Danica. Mas outros autores podem ter servido de inspiração a Shakespeare, como Thomas Kyd e Belleforest. Impressa em 1603, acredita-se que a peça foi escrita entre 1601 e 1602.

Após ter visto o espírito do pai morto, Hamlet se encontra insatisfeito com o decorrer da trama na corte, na qual a sua mãe casa-se com o irmão do marido falecido poucos meses após sua morte. O desfecho do rei choca o filho, que deixa os estudos na Universidade de Wittenberg para retornar à corte, em Elsenor. Inconformado com as corrupções a sua volta, Hamlet tem Horácio e Ofélia como únicos confidentes, sendo esta a mulher que ama, mas que promete ao pai Polônio não se casar com Hamlet.

A loucura que o príncipe parece ter é vista pela corte como um efeito da rejeição de Ofélia. No decorrer da peça, o leitor se encontra em dúvida quanto a sanidade do personagem, pois a aparição do pai fora forte para o jovem, e tamanhas decepções desta corte controlada, as falas exaltadas de Hamlet e a peça que ajuda a produzir para provocar o rei Cláudio levam a crer que ele pode estar, de fato, louco.

O grande mérito de Shakespeare é impor esta dúvida. O Hamlet que ele cria possui uma vivacidade incomum de quem sobrevive no caos pela ironia, sem medo de incitar os outros por sua fala. É um apaixonado pelo teatro e com um olhar crítico o qual dá voz ao próprio Shakespeare, constituindo uma bela representação dos bastidores da criação de uma peça de época.

A presença fantástica do rei morto surge como a epifania necessária, como um sopro aos ouvidos desta alma conturbada, para que algo seja feito. Hamlet tem um heroísmo feito de uma impetuosidade incorrigível, uma presença fortificada, principalmente por sua ironia, a qual vem junto a um intelecto peculiar. A famigerada fala “ser ou não ser, eis a questão” é muito mais profunda do que se pensa. Nela, o jovem questiona se vale mais a pena sofrer com os “dardos” desta contingência, desta corrupção entre as cortes, ou “tomar as armas”, lutar “contra um mar de calamidades”, mas no fim, morrer resistindo. Não haveria diferença entre o morrer e o dormir, como ele diz. Seria fácil crer que dormir ou morrer é acalmar as dores do coração. Mas sonhar, “eis a dificuldade”. Pensa-se que o sonho seria a sobrevivência mesmo no “sono da morte”, o que faz suportar “os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo”. Mas justamente por isso, sonhar é dificuldade. Se o sonho fosse fácil assim, teríamos uma recompensa imediata, obtida no sono, Hamlet questiona por que o homem, então, não acaba com a própria vida para obter a tão esperada paz. Ele completa dizendo que, no fim, nossa consciência teme pelo o que há após a morte, esta “região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou”.

Com este monólogo compreendemos qual é o propósito de Hamlet, na peça. Ele assume o medo que o acometeria ao pensar nesta viagem sem volta que é a morte. Contudo, mais adiante na peça, ele logo nota, quando se depara com coveiros lidando com os crânios de homens célebres, no passado, que morre-se e torna-se crânio debaixo da terra, e reputação alguma importa. Quer dizer, a reputação é preservada apenas na mente dos homens. O seu heroísmo não está em querer provar sua sanidade e, portanto, limpar a sua reputação, mas sim em possuir uma ação que resulte em algo na vida terrena. E que o amigo, Horácio, leve adiante a sua história como realmente deve ser contada. Por isso, a história criada por Shakespeare demonstra esse avançar e recuar nos argumentos de Hamlet, entre viver pela reputação e aceitar que a morte virá e seremos todos pó, novamente.

A peça Hamlet também traz, nas entrelinhas, uma correspondência que normalmente se perde entre as adaptações da peça. É a sua relação com Ofélia. Ambos perdem os pais e ambos morrem nesta corte corrupta. Dela, é esperado apenas um bom casamento, a submissão e o altruísmo. E de Hamlet espera-se que herde o reino. Contudo, envolvidos entre as tramas desprezíveis da corte, Ofélia e Hamlet se encontram desiludidos quanto ao futuro. E nunca se permitem a sinceridade, pois, na corte, ambos representam seus papéis. A insanidade de Hamlet permitira atuar por debaixo dos panos. Mas para Ofélia não é dada a opção de agir à favor da justiça, pois o seu papel, como mulher, é unilateral, na corte, servindo como a esposa concedida nas alianças.

Mesmo assim, esquece-se que Shakespeare dá uma ambiguidade interessante à trama de Ofélia. Há algo complexo na sua loucura: ao mesmo tempo em que, posteriormente, no século XIX, a imagem de Ofélia será louvada justamente pelo seu auto-sacrifício em função de dois homens, a peça de Shakespeare demonstra que a loucura dela pode ter sido originada também por uma relação amorosa ocorrida, às escondidas, com Hamlet. E o seu suicídio pode ter sido a única forma encontrada (considerando o espaço feminino extremamente limitado na época) para a sua salvação, o fim da dor, o sono pela morte. Mesmo assim, vale pensar o quanto inúmeras personagens na literatura de época encontraram tal fim trágico. Embora Hamlet o encontre também, o seu nome ainda será cantado na História, enquanto o de Ofélia será sempre o da jovem que se suicidou e, contrário aos princípios religiosos, foi enterrada em “terra santa”.

Desta forma, a peça de Hamlet possibilita pensar as tragédias que envolvem as cortes, a corrupção da alma, a tentativa de obter justiça em meio à lama, as relações conturbadas e complexas entre homens e mulheres, o espaço delimitado a cada um, na corte. Mas também, a peça de Shakespeare dá voz a um heroísmo que tenta sobreviver no sono da morte, o qual se conscientiza da vida humana decadente e, mesmo com o crânio e a morte contemplados na mão, persiste nos mares revoltos e insanos da vida terrena.

Visão de Hamlet, Pedro Américo (1893), Pinacoteca do Estado de São Paulo

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Novidades nos 400 anos da morte de Shakespeare

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Esta semana é comemorativa. Celebramos os 400 anos da morte de Shakespeare. Por isso, pelo mundo todo, várias intervenções em forma de peças, palestras, clubes de leitura, matérias irão tomar o centro do palco por meses, para homenagear o escritor.

Assim, deixo aqui duas novidades; A primeira é que terá adaptação da BBC de Richard III, peça de Shakespeare, com estreia marcada para 7 de maio. E a outra, mais próxima, é que neste final de semana o mundo todo poderá assistir a peça Richard II, disponível online, em stream live, com David Tennant.

Benedict Cumberbatch ganha o centro do palco na série da BBC, The Hollow Crown, que estreia dia 7 de maio na BBC 2. Adaptação da peça Richard III, de Shakespeare, e intitulada The Hollow Crown: The Wars of the Roses (A coroa vazia: As Guerras das Rosas), a série contará também com a impecável Judi Dench, Hugh Bonneville e Sophie Okonedo.

O ator intérprete do detetive Sherlock Holmes, também pela BBC, comanda o elenco como Richard III na série britânica que celebra os 400 anos de morte de Shakespeare.

A história irá seguir a derrocada de Richard III à loucura e os caminhos tortuosos de sua vida desde a infância. O autor Dominic Cook, em comentário ao The Express, disse sobre o rei, “ele é um tanto monstruoso, ele termina até assassinando crianças. Ele é um psicopata. Não há outras formas de dizer isso: ele é um psicopata. Mas como ele se tornou assim? Há uma história que o conduz a isso”.

E ele adiciona, “há alguns incidentes que ele testemunha enquanto criança que são horríveis e contribuem para que ele se torne um ser humano que não é apto a ter empatia por outros humanos”.

Para os fãs da série Sherlock, além de Benedict Cumberbatch, a série contará com a interpretação de Andrew Scott, que interpreta Moriarty na série do detetive britânico.

A série é mais uma ênfase nas escolhas de Cumberbatch em interpretar mais um personagem de Shakespeare. No ano passado, ele deu vida a Hamlet, na peça londrina do Barbican Centre.

The Hollow Crown: The Wars of the Roses é a segunda parte entre as séries The Hollow Crown, da BBC, que são adaptações das peças de Shakespeare, Henry VI partes 1, 2 e 3, e Richard III.

A trilogia original, que reconta a história de Henry V, VI e VII, foi gravada em 2012, com Tom Hiddleston e Patrick Stewart no elenco.

The Hollow Crown: The Wars of the Roses começa dia 7 de maio na BBC2.

Clique aqui para ver o trailer da produção.

Fonte: The Sun

Peça de Shakespeare será transmitida no mundo todo

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Dia 23 de abril celebramos os 400 anos da morte de William Shakespeare. Por isso, o presente será para o mundo inteiro. Além de suas peças e sonetos, que podem ganhar novos leitores a cada instante, teremos a oportunidade de assistir a uma peça neste grande dia de homenagem. A produção de Richard II, da Royal Shakespeare Company, estrelada por David Tennant (Doctor Who e Jessica Jones) estará disponível por stream live via BBC, no meio do clímax do aniversário.

A peça foi gravada no palco pela Royal Shakespeare Company, no dia 13 de novembro de 2013, e agora estará disponível para ser assistida durante o fim de semana do Shakespeare Day Live, um canal digital especial que será patrocinado pela BBC e o British Council.

E a notícia boa é que o stream estará disponível para todo o mundo, onde quer que você esteja. Será possível assistir pelo BBC Shakespeare Day Live, site da BBC que vai ser lançado no dia 22 de abril, é só ficar atento.

Ainda participam da produção Nigel Lindsay, Oliver Ford Davies, Jane Lapotaire e Michael Pennington. David Tennant atualmente está reprisando sua célebre performance de Richard II em Nova York, com parte do ciclo de apresentações King & Country Great Cycle of Kings.

Shakespeare Live é um festival online que acontecerá ao longo de seis meses, com performances, análises, debates e diversão, feito para todo o público do Reino Unido e demais países. Portanto, é a oportunidade de tirar aquele exemplar de Shakespeare da estante e aproveitar esta atmosfera comemorativa para dar nova vida às histórias do autor.

Richard II será lançado no stream live no dia 23 de abril, às 18h30 (horário de Brasília), numa transmissão exclusiva. O Shakespeare Day Live terá vários conteúdos no seu menu, com várias peças shakesperianas a partir de sexta, 22 de abril, com contribuições do BFI, The Hay Festival, The Globe Theatre, The Royal Conservatoire of Scotland, The Royal Opera House e, claro, The Royal Shakespeare Company.

Mais cedo, pelo final da tarde, David Tennant e Catherine Tate, que atuou ao lado dele como Donna Noble em Doctor Who, apresentarão o Shakespeare Live. O evento contará também com Judi Dench, Sir Ian McKellen e Benedict Cumberbatch. Direto da The RSC, será uma celebração de duas horas toda voltada para Shakespeare, com variadas atrações, que será transmitido pela BBC Two, a partir das 16h30 até 18h:30 (horário de Brasília), quando finalmente será possível assistir a peça.

Fonte: David Tennant

 

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Paris em seis atos

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Publicado no Literatortura

Tudo o que eu busco imprimir ao papel não alcança o canto onde a sua camada mais profunda se oculta. Uma cidade que foi a celebração mais pura da criação artística nos meus seis meses de estudante. Em suas ruas, o frescor no pavimento morava, inquieto, um frescor que se recompunha de outros tempos, à beira de um rio que mudava a cor de suas águas. Mesmo quando ganhava ares nublados, de tempestades ainda não anunciadas, era a mais pura promessa. Cidade de histórias, trabalhada no infinito dos séculos, vai ver era isso que o ar carregava todo dia. O tempo pode ter sido, muito bem, seis meses. Mas era impossível lidar com as horas. Por vezes, elas tinham a solidez de um tempo que acabava na hora de dormir, entre as obrigações da cozinha aos estudos. E, em outras, o tempo era como um véu que se lançava fluido, tornando os gestos em acenos tremeluzentes, nos quais meus olhos se demoravam para obter o máximo de sua pintura.

 

No verão, o ar era quente e o sol permanecia até que ele decidisse dormir quase às 22h. O tempo acabou por ser comprimido nesta luz diária que nunca acabava, e não sei bem dizer o que vivi, mas havia sorvete de cenoura, de lavanda, escadas descascadas em Montmartre, um rapaz dizendo que reconhecera meu sotaque paulistano pelo jeito que eu dizia “carote” em francês. Houve também o por-do-sol em um dos primeiros dias, com a trilha mais óbvia de um senhor tocando acordeão, e o rio tremeluzindo com as luzes que a cidade ganhara em poucos instantes. A Notre-Dame já parecia, então, mais do que uma igreja: uma pedra fincada na terra em sua estrutura que ganhava pernas, sempre me parecera uma aranha delicada. À noite, ela era presença eterna que acordava por seu próprio brilho. Durante o dia, era uma presença grandiosa que vigiava seus turistas e franceses por entre suas portas adornadas, a areia em seus arredores, as pessoas que repousam no parque.

A dita flânerie passou a ser mais do que uma palavra francesa bela que eu encontrava nos textos de Benjamin e Baudelaire para ser o ato mais fácil, uma cidade que pedia de seu andarilho a curiosidade por cruzar mais uma rua, tem mais uma, e o que tem atrás daquela igreja? Cinco horas andando, frutas e água, Louvre e d’Orsay vistos, e mais de vinte corvos no gramado aceitando pãezinhos dos humanos, em um cenário estranhamente doce para estas aves hitchcockianas. Lá eu descobri que os corvos eram cômicos, tentavam ser intimidadores, mas no fim corriam desengonçados, gordinhos, alimentados por sementes, nozes e, como são espertos, baguettes e croissants.

Descobri a sonoridade do francês, que era mais do que a fala certinha dos CDs e exercícios de sala. A impressão é que eles falavam pouco, gostavam das reticências, de hesitar, balbuciar, o que dava em muitos “bah…oui”, “mais non!”, que seriam o nosso “mas é claro!”, “não!” em um tom surpreso diante do absurdo, e sempre um “en fait” em início de frases, o que me fazia pensar se sempre queriam criar ressalvas com este “na verdade”, se pareceria com o “indeed” ou “actually” do inglês.

A língua francesa, aos poucos, foi soando mais como um mar tranquilo com breves ondas, em um ritmo quase constante, mas que por vezes surpreendia com a aparente alegria ao se pronunciar os simples e exigidos “bonjour”, “salut” e “bonne journée”. O mais engraçado era constatar alguém falando no que, aos meus ouvidos, parecia bem contente, e constatar que a pessoa só estava usando uma entonação normal para ela, em sua expressão até um tiquinho entediada. Aliás, o ar blasé parisiense, imortalizado na sua própria palavra francesa, existia aqui e ali. Havia a tal polidez admirável, no que eu apelidei livremente de “petites politesses”, pequenas gentilezas que era belo de se ver: ajudam a carregar malas nas intermináveis escadas dos metrôs, a subir com carrinho de bebê, a achar os caminhos, mesmo se seu francês ou se seu inglês forem básicos, em geral garçons educados, ao contrário das críticas nos últimos anos, garçons que queriam falar palavrinhas em português, saber de onde vinha e surpreendiam quando sabiam bastante da língua portuguesa.

A atmosfera nos ônibus são mais leves e doces do que nos metrôs, e às vezes optava por eles a fim de ter a vista da cidade. Não sei se o fato de os metrôs serem exaustivos em sua quantidade de escadas, e carecer de um pouco (muita) limpeza, com odores peculiares (desagradáveis), muitos daqueles que eu via todo dia no metrô preferiam preservar o ar cabisbaixo, mal humorado, entediado ou enfiado em algum mundo encarando um ponto fixo por um bom tempo. Mesmo quando a Torre Eiffel se enfeita do lado de fora ao som de um bem-vindo acordeão no interior do vagão.

Os nomes das estações de metrô eram cada vez mais reconhecidas, e com orgulho se pronunciava os seus nomes, quase como uma vitória interna por imitar o sotaque da moça ao anunciá-los, todo dia. Era Denfert-Rochereau, que com este nome fazia pensar nos infernos guardados pelas catacumbas, as clássicas Saint-Germain des-Près e Saint-Michel-Notre Dame, a Luxembourg que me deixava na universidade, a elegante estação Musée do Louvre – Rue de Rivoli, os cinemas próximos de casa na Montparnasse-Bienvenue, e tantas outras estações que levavam para museus mais distantes, a Champs-Élysées Clemenceau, a Concorde. O tramway era outra opção de caminho que se tornava agradável: quase um trem à la Jetsons em meio a cidade clássica, levando de uma ponta a outra até a Bibliothèque Nationale de France (BNF) ou pontos periféricos que pouco se conhecia. Cada estação, uma música especial, Porte d’Italie com ares italianos ou o mercado em Porte de Choisy, e a vasta Avenue de France.

E entre a vida parisiense, é preciso adicionar que a burocracia é grotesca. Conseguem deixar que se sinta todo o desconforto em pedir por algo simples pela quinta vez na universidade, no banco, em responderem sempre o “je ne peux faire rien pour vous”, como se dizer “não posso fazer nada por você” três vezes fosse real. Talvez seja uma tentativa de repeti-lo tantas vezes para ver se o torna realidade. O fato é que a burocracia francesa é realmente uma parte desagradável, não apenas em relação a papéis, mas até mesmo em situações de atendimento em hospitais ou retirada obrigatória do titre de séjour para estar legal no país. Agora some a toda esta situação também o desconforto de levar horas nestas situações burocráticas, para ter que ouvir que o endereço é errado, que na verdade você precisa ir pela quinta vez em outro lugar, com mais fila, para conseguir um papel ou um nome.

Quanto à universidade, ela é admirável. Pensar nos corredores que já ganharam tantos e tantos alunos na Université Sorbonne Paris IV, muitos deles famigerados, como Merleau-Ponty ou a presença de Sartre, pode torná-lo pequeno, mas mesmo assim dá encanto a toda a experiência. O respeito pelas bibliotecas é um dos pontos mais belos de Paris, e sentar horas em uma delas para estudar é gratificante. As aulas podem ser fascinantes pela sua temática, como poder estudar a história dos museus franceses, ler o segundo volume inteirinho de Proust, ou poder estudar mais Kant. Mesmo assim, há algo curioso no cenário acadêmico: exige-se, por um programa impossível, a leitura de muitas, muitas obras relevantes que exigem discussões cuidadosas, para apenas dois meses de aula. A ponto de pedirem sete romances em uma disciplina de literatura. Não é possível que todos os alunos já tenham lido aquelas obras, ou que vão conseguir em dois meses. E mesmo que consigam, a experiência, a qualidade da leitura serão a mesma? Talvez não. Você se atropela no tempo e nesta aparente autonomia que se diz que a faculdade francesa concede, não é o melhor para a obra que merece ser discutida em sala com o professor. No fim das contas, o trabalho desenvolvido em sala numa universidade brasileira, muitas vezes tão criticada entre nós, concede muito mais dignidade à obra porque lhe dá tempo para o estudo. Talvez se o tempo fosse maior, e isso mudaria, portanto, a estrutura do próprio curso, na quantidade de horas de aula e um programa mais sensato, o resultado seria melhor.

E, bem, ler Proust foi um caso particular. Sabemos que a relação pessoal com uma obra se ganha, por vezes, quase em rasgos internos de esforço e comprometimento. De certa forma foi assim com Proust. Não é exatamente impossível a sua leitura em francês. Mas era o primeiro livro longo que eu estava lendo no idioma – e, devo dizer, a edição com suas letrinhas pequenas foi uma das dificuldades também. Contudo, foram as palavras proustianas que deram densidade à experiência, o que é irônico e bem-vindo, já que seu próprio narrador se aprofunda nas mais diversas sensações que seu cotidiano, entre Paris e Balbec, em gostos da infância rememorada, podem dar. Com o personagem vi a sua cidade ecoar naquela que eu tomava como minha, em um tempo que se intercalava pelas memórias de leitora e as memórias de um personagem com o qual eu me unia cada vez mais em seu fascínio pelos detalhes. Foram minhas as conversas com Bergotte e o pintor com ares de impressionista Elstir, fui descobrindo com o narrador as faces de Albertine, o frescor desta juventude e transgressão na presença das jovens raparigas em flor, os diversos mundos contidos nas inúmeras palavras que ele encontrava para descrever as cidades despertadas onde morava, o encanto pelo apartamento e o mundo de Madame Swann. No fim das contas, não difere muito o fato de estar ou não dentro das páginas de um livro para as mesmas cenas serem vivenciadas. Proust sussurrava a cada canto nos seis meses em Paris. E pode sussurrar em qualquer cidade do mundo.

Aos poucos, o espetáculo da vida parisiense ia se mostrando um suspense sem fim diante do tão temido inverno. Houve o outono, que foi o mesmo que brindar a morte em forma laranja de cada árvore que deixava de ser cheia e destilava suas folhas ao chão, criando um mar absurdo de tonalidades nunca vistas. O outono foi a época mais eterna destes seis meses, a mais memorável e a mais curta.

Porém, em novembro, dentro da normalidade cotidiana, houve o atentado em Paris. Uma sexta-feira na qual eu saía de uma visita ao Louvre, um dia em que especialmente a atmosfera do museu era de grande comoção se você observasse os diversos grupos espalhados pelo museu encantados com as obras. Parecia uma grande bolha ativa, de pessoas conversando, crianças desenhando. Uma ironia tudo isso: enquanto observar aquelas pessoas povoando um lugar que traz a criação de diversos artistas na humanidade, eu era descolada da realidade quando estava lá, por entre os tons terrosos de Rembrandt. Para depois ter mais um descolamento ao saber do atentado chegando em casa, desta vez muito mais pungente e grave, que parece ter relativizado o primeiro que tive no museu. Eu pensava por dias como estavam as famílias que perderam alguém naquele dia. E pensava também se as pessoas que eu vi, naquele dia no museu, estavam bem, como estavam encarando aquela semana de choque. No fim, parece que aquela visita ao museu conseguiu se eternizar com duas camadas que se misturavam tanto ao sublime quanto ao horror da perda. Tudo isso deu a dimensão do quanto instantes tão breves são perdidos injustamente em um tempo e ação que não controlamos. E alguns ficam, à sua própria maneira, bons ou ruins. A experiência acabou por fortalecer os vínculos com as artes, que, por mais estranho que possa parecer, foram a companhia mais importante naquela semana pós-atentado, com muito medo de sair nas ruas e pegar o transporte, de ter esta rachadura sempre injusta na vivência, quando a violência se impõe.

Na medida do possível, a cidade continuou com seu movimento. Depois o que se seguiu, no fim, foi um inverno mais ameno como o de costume. Alguns dias com o termômetro próximo de zero graus, dias de vento e garoas que geravam um frio inexplicável. Paris é insana em suas mudanças de temperatura, quando agregadas ao vento. A garoa molha o cachecol e você se vê em análises febris de quais camadas exatas de roupa deve usar para não passar frio. Depois que as encontra, vesti-las é quase o mesmo gesto de um explorador que sairá de casa rumo a alguma escalada. O casaco grosso, a segunda pele, e o cachecol (e descobrir que o lugar onde você tem mais frio é a bochecha e a orelha). O único dia de neve foi em meados de janeiro, um dia que a cité universitaire amanheceu branca, enquanto o restante da cidade estava aparentemente normal, com os poucos indícios de floquinhos de neve já derretendo no sol. Havia um pouco aqui e ali próximo da Torre Eiffel, e mais nada. Porém, a atmosfera da novidade daquele dia transformou o frio numa das mais agradáveis sensações. Pelo menos naquele dia.

E, sendo Paris uma cidade abertamente artística, os museus foram a melhor experiência obtida. Havia todo o processo de pesquisar os horários dos museus, até, no fim, sabê-los de cor; pegar a carteirinha de estudante, o mapa do museu (se era o do Louvre, já estava orgulhosamente amassado), o caderno para anotar títulos dos quadros, e imergir nas paredes de um lugar novo, composto pela graciosidade do passado encaixado nas telas, e o presente fugaz de espectador que passeia pelo museu vencendo a fome e o cansaço, quando ambos chegam. É curioso ver esta relação se compor, pois mesmo que o corpo grite, ele consegue abrandar a respiração e os olhos se preparam para serem receptivos ao que um quadro se propõe. Desta forma, muitos quadros foram se tornando íntimos, próximos, mais profundos do que as reproduções que eu conhecia. Era muito fácil se emocionar entre eles, e muito difícil querer deixar as paredes do museu, pois era o mesmo que ingressar em outras épocas, tocar os vestígios de outros olhares humanos.

O último mês em Paris se compôs pelo desespero em ver tudo o que ainda restava, e a frustração de não ver alguns outros cantos, mas também o de aceitar que eu teria uma cidade novamente infinita, ao voltar, um dia. As visitas aos museus e monumentos resistiram e deram frescor ao estresse burocrático, e os dias pediam para ser mais longos, mas corriam sem que eu pudesse controlar.

No último dia, a cidade reservara um instante de mais uma novidade. Ela deixou realmente o orvalho ser notado entre as folhas de uma árvore nua. Havia uma chuva ameaçadora produzindo ventos que faziam panfletos ricochetearem pelo Quartier latin. O toldo daboulangerie escorria a água da calha quase jogando-se entre o café. Uma última amiga vista em um café, com guarda-chuva cor-de-rosa, e uma última foto. O ônibus parara em um ponto distante sem qualquer motivo, o trânsito parecia mais vivo e turbulento. E, então, a Notre Dame e o Sena apareceram em um tom acobreado, quase melancólico e profético, como se anunciassem uma despedida em forma de chuva. Era uma face do rio e da catedral que eu ainda não havia visto nestes seis atos de intercâmbio, que na verdade, foram seis atos fluidos, sem interrupção, pois continuam aqui. A cor da catedral e do rio era distinta do pastel costumeiro e do esmeralda água abaixo. A cidade parecia ter cantos mais amplos, como se fosse capaz de se esticar e abraçar em meio a possível tempestade. O último pedaço visto de Paris foi o céu cobre se desfazendo nas cortinas das escadas do metrô.

créditos de imagem: Marina Franconeti

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O pintassilgo, de Donna Tartt

O pintassilgo, de Donna Tartt

Companhia das Letras, 719 páginas

 capa pintassilgo

O pintassilgo, escrito por Donna Tartt, é um livro de fôlego. Vencedor do prêmio Pulitzer em 2014, a obra de Tartt tem ares de épico na proposta de perpassar a infância de Theodore Decker, desde seus 13 anos até a fase adulta em cinco partes. O dia soava como normal, tirando o fato de estar suspenso da escola, e a chuva leva Theo e sua mãe, por acaso, ao museu. O enredo se passa em Nova York e o museu narrado tem a atmosfera do Metropolitan Museum of Art. É diante do quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654), que a vida de Theo se altera drasticamente. É com um atentado ao museu e a perda pela morte que sua vida dá a primeira das várias viradas de enredo, e logo Theo se vê com o quadro roubado em suas mãos.

É válido dizer que se deve evitar ler a orelha da edição da Companhia das Letras, pois ela revela os detalhes de cada uma das fases de Theo. E você não irá querer saber, pois o encanto do livro está em viver cada instante com este personagem instável que vai afundando cada vez mais na decadência. Há uma beleza na permissividade livre na sua adolescência compartilhada com o amigo Boris. Este amigo é a figura da marginalidade dos ultrarromânticos e dos punks, dos andarilhos que povoam o mundo sem um lugar fixo: Boris é um viajante desde pequeno, pois se mudou com a família de país em país, e suas falas carregam a experiência de um adolescente envelhecido pela catástrofe da vida, mas com um otimismo mesclado ao decadente que deseja gritar para sobreviver. Boris nunca perde o humor e a piada, enquanto Theo é a parte destrutiva da catástrofe. Theo aceita o que a vida fez de si mesmo. A amizade dos dois é tão épica e substancial quanto a profundidade do que Theo narra nas setecentas páginas da obra.

Pode-se dizer que O pintassilgo bebe na fonte de inúmeros autores grandiosos como Dickens, Dostoiévski. Mas é Proust que ecoa, em certa medida, na maneira com que Tartt assume cada detalhe da vida de Theo, sensações diante dos mais breves objetos e vivências que encaminham justamente para o mais grandioso, o sublime. Theo é este furacão tóxico que contamina o leitor. É possível que se queira sacudir e tentar acordar Theo para que ele siga outro caminho. Mas há algo de muito belo na maneira com que estamos juntos com o garoto. Ele passa pela lama, deixa-se contaminar por ela, e vamos juntos. Caímos com ele nos carpetes e na piscina de Las Vegas, entramos mais ainda em seu vício, na vida inconstante e sem sentido. Mas o pequeno pássaro, o pintassilgo, nos serve como a trêmula luz de vela que não ilumina o quarto por inteiro. Mas que é suficiente para transbordar os olhos de beleza e continuar vivendo.

De início, é possível se questionar qual é o grande valor desta pintura, O pintassilgo, no enredo de Theo. Contudo, a autora conclui a obra expondo a grande verdade sobre ele. E de uma maneira belíssima, que amarra o sentido na vida de Theo, sentido este que só o Theo adulto e maduro poderia, finamente, compreender. Nós, como acompanhantes do Theo adolescente, vimos sua vida pela perspectiva do jovem, para depois nos inserirmos em mais uma de suas versões. A vida do personagem é uma verborragia que, por vezes, pode levar o leitor à melancolia e às sensações de estar afundando junto a ele entre os desertos de Las Vegas. É o quadro que nos ilumina neste desespero, e o grande mérito da autora é transcender este campo da ficção e provocar as sensações de seu narrador entre os leitores.

A escrita de Tartt é envolvente, sofisticada na medida certa, e conta com uma fluidez e realismo certeiros entre os diálogos. Certamente a tradução para o português também é muito sensata ao traduzir as gírias, os palavrões e o coloquialismo, o que faz com que o leitor saiba como admirar, ao mesmo tempo, estas falas tão cotidianas, até os termos mais aprofundados em história da arte. Em nenhum momento a sua escrita se falsifica. Theo, de fato, parece existir: temos um quadro rico da beleza de sua mãe, da presença encantadora de Pippa, o trabalho majestoso de Hobbie em reconstruir mobílias antigas, e a presença forte e hipnotizante do amigo Boris.

É possível afirmar, também, que durante a leitura da obra, o poema O pássaro azul, de Charles Bukowski faz sentido para entender o quanto vale o pintassilgo para o garoto. Este é um pássaro pequeno que Theo oculta do mundo, não apenas enquanto obra roubada do museu, mas como parte dele mesmo, este garoto que não segue em frente otimista como as pessoas querem que siga após a sua grande perda. Ele não segue em superações superficiais de enredos hollywoodianos, ele segue à sua maneira. Tal como o pintassilgo preso por uma corrente, Theo resiste, de alguma forma, na destruição. É apenas à noite, escondido de todos, que Theo se deixa ver este pássaro que não pode cantar para que os outros saibam que está lá, um pássaro que ele tenta afundar constantemente entre os vícios.

O pintassilgo é como a figura materna de Theo, a doçura de uma divindade com a qual ele teve a sorte de conviver, que inspira a sobreviver de qualquer forma. Os olhos um tanto selvagens da mãe, como o narrador descreve, têm a delicadeza também por trás deles, de uma existência que envolve o selvagem como a responsável por tranquilizar o inconstante. Tal como o pintassilgo que repousa com dignidade, apesar da corrente que prende seu lado silvestre. Theo é assim também, o seu amor pelo belo que se encontra oculto na vida é o que o faz permanecer forte, mesmo em meio a destruição.

Se no decorrer da leitura pensamos que Theo cada vez mais se assemelha ao pai em suas escolhas erradas, a mãe permanece como a aura do pintassilgo. E, ao mesmo tempo, aceitamos esta complexidade da personalidade de Theo, uma mistura de ambos e ele mesmo. No fim, temos com a obra O pintassilgo todo um caminho tóxico, profundo, mas belo em seu desespero, ao constatar que a arte é a única maneira de resistirmos às catástrofes da vida. Resistir entre a lama amando justamente as imagens e as sensações que se tornam eternas. Ou como o narrador afirma, no fim “é uma glória e um privilégio amar o que a Morte não toca”. Amar a arte e a literatura é salvar tanto a obra quanto os homens da perdição. Assim, a obra de Tartt consegue algo ainda mais admirável: dar novo significado e apresentar O pintassilgo para novos olhares que precisam resistir também às vicissitudes da vida.

O quadro O pintassilgo, de Carel Fabritius (1654) é acervo permanente do museu Mauritshuis, na cidade de Haia (The Hague), na Holanda.

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Cité

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Se pudesse deixar em seu chão

Parte de minha pele, suor,

Sangue e ossos,

Deixaria aqui meu corpo,

Para repousar, enfim,

Toda vez que a rotina mata esperança.

Na lembrança que você arrasta,

Pelas suas cores, formas e gostos,

Assim, fundaria, meu paraíso mental.

Cidade cheia de morte renascida,

Eu deixaria, em cada canto,

Um pedaço de meu olhar fraternal,

Se pudesse dividi-lo entre os famintos do mundo,

Tão desesperados quanto eu.

Pegariam meu olhar deixado por aí.

Como não posso fazer tal coisa,

Eu escrevo, eu fotografo.

Para os sedentos

De amor, poesia e companhia.

Guardo o sal dos olhos nas águas já vistas,

Deixo cair entre as folhas da escada,

A sombra do chão,

Sinal do sol que fecha os olhos em concreto.

O repouso eterno de tais figuras

Que nunca vão morrer

Pela aquela foto-olhar sem fim.

Você é cidade que vive sem mim,

Mas se alimenta por um manto de humanos,

De mãos, olhos e gostos mundanos

Que provam você,

A todo instante dos séculos,

Cité.

 

Si je pouvais laisser au sol

Une partie de ma peau, sueur,

Sang e mes os

Je laisserais là mon corps

Pour me reposer enfin

À chaque fois que l’espoir était morte par la routine.

Le souvenir qui vous emmenez

Par vos coulers, formes et goûs

Ainsi, je construis un paradis mentale.

Cité pleine de mort renée

J’abandonnerais, à chaque coin,

Un peu de mon regard fraternel.

Si je pouvais le partager avec les avides

Si désespérés que moi,

Ils prendraient mon regard qui je les lui laisserais par la cité.

Mais comme cela c’est impossible

J’écris, je photographie.

Pour ceux qui ont soif

D’amour, de poésie et de communion.

Je garde le sel de mes yeux dans les eaux déjà vues.

Je les laisse tomber entre les feuilles d’escalier,

L’ombre au sol,

Signal du soleil qui ferme les yeux dans les rues.

Le repos eternel de ces figures

Pour cette photo-là d’un regard sans fin.

Vous êtes la ville qui existe sans moi,

Mais celle qui absorbe la vie

Par un manteau d’humaines,

Des mains, des yeux et des goûts

Qui vous goûtent

À tout le temps dans les siècles,

Cité.

 

Revisão/révisé par: Débora Becker

créditos de imagem/crédits d’image: Marina Franconeti

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Bebida consagrada

Hoje é o dia internacional da poesia! Deixo, então, aqui um poema que nasceu nos jardins de Renoir, em Montmartre, em um calor que colocava o inferno ao lado da Basílica de Sacré Coeur, mas que foi um dia mundano abençoado pelos sinos da basílica e um suco muito bem-vindo. As imagens são do jardim de Renoir, no Musée Montmartre, e um céu amarelo em pleno inverno.

 

A beleza é o belo no gole

Que se demora

Em um tempo interno,

Tempo que não se consome,

Que suspira, vai embora

E fica em gosto, timbrado de outrora.

Depois do gole, o gosto único

De provar o instante em amarelo,

Com os sinos abençoando

O instante eterno.

Deixe que o copo derrame,

Pouco a pouco,

De suas mãos

O amarelo do suco

Que antes era só suco.

Mas nas suas mãos

Ganha ar de puro ouro

Consagrado pelos céus

Após um calor infernal.

Um amarelo que vem doce, no verão,

Como que capaz de tocar o rosto

Com a crueldade dos anjos.

Ah, vocês verão,

Pintar no céu um dourado resistente

De gosto invernal.

Como que surpresa da vida contínua.

Íntegra doçura que ainda se guarda

Ah, tal bebida ambígua,

Em gesto mundano

O mundo modifica.

Calor na negatividade dos ventos.

Se antes a tarde

Era feita de calor,

Suor e estupor,

Agora em festio virou

A mais célebre canção

Sussurrada nos meus dias

De inverno seco,

Esperança no chão.

E os sinos,

Que só tocam em vida sagrada,

De uma torre regrada,

Abençoam sua vida

De bebida dourada,

Em forma da mais pura poesia

Digna liquidez em ambrosia.

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créditos de imagem: Marina Franconeti