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Vincent – A história de Vincent Van Gogh, de Barbara Stok

Publicado no site Indique um livro 

L&PM, 2014, 144 páginas

van gogh 2Inspirada na biografia e nas cartas trocadas com Théo, a HQ Vincent expõe a história do artista pós-impressionista Vincent Van Gogh. É possível dizer que, hoje, é unânime a adoração por ele. Geralmente não discutimos a profundidade acerca dos matizes de cores exploradas pelo artista e como sua fatura foi revolucionária. Porém, as obras de Van Gogh provocam emoções indescritíveis, como, bem, muitas obras conseguem incitar. Aquela necessidade de explicar o belo pela própria obra, sem encontrar palavras que resumem as sensações.

É aceitando esta popularidade de Van Gogh, e as várias adaptações ao cinema sobre sua vida e obra, que a história em quadrinhos de Barbara Stok ganha espaço como mais uma exposição da genialidade de Van Gogh. É curioso ver como ele se tornou um ícone, um personagem no imaginário coletivo, parcialmente pelas experiências conturbadas de sua vida, mas também pelo pouquíssimo reconhecimento que obteve em vida. É como se a sociedade se sentisse em dívida com ele. E, de fato, sempre estamos, em certa medida, com nossos antepassados.

O trabalho de três anos de Barbara Stok rendeu a ela o Prêmio Holandês de Melhor Autor de HQ 2009. Com um traço delicado, que beira ao infantil, a vida de Van Gogh se apresenta com uma simplicidade interessante. A HQ consegue aliar a cronologia dos fatos e as palavras do próprio artista às necessidades de um público leigo em história da arte. Não será encontrada uma análise das obras. É verdade que a HQ, neste tratamento mais simples e um tanto infantil acerca da vida de Van Gogh pode acabar perdendo a oportunidade de aprofundar, em alguns momentos, a complexidade que envolvia esta figura tão exaltada. Contudo, a obra obtém saldos positivos ao reconstituir os quadros do pintor, em dar voz às palavras escritas por ele ao irmão.

Crédito: Editora LP & M editores/Divulgação. Ilustrações do livro Vincent.

Vincent, apresentando-se como uma HQ que toma o primeiro nome do pintor como destaque em vez do grande título que ‘Van Gogh’ acabou por se tornar, faz com que ele se aproxime mais intimamente do leitor. Os diálogos simples, próximos das conversas rotineiras, auxiliam a compor um cenário verossimilhante e Van Gogh agora nos aparece como uma figura que preserva sonhos, inseguranças, desespero por não ter dinheiro para o aluguel e a tinta, um desejo de dizer ao mundo o que pensa da natureza, de expor o seu olhar singular.

A HQ alcança o êxito de apresentar, em cores, as explosões magníficas de Van Gogh. Tanto ao público adolescente quanto ao público adulto, Vincent fortifica a ideia de ícone dada a Van Gogh. Mas, desta vez, ele surge em tons delicados como uma pequenina figura simpática chamada Vincent, quem será exaltado por nós, estas figuras posteriores que, ainda com pesar, lamentam que ele não tenha tido um vislumbre de sua própria beleza. Assim, Vincent é um doce retrato para quem desejar vê-lo em mais uma adaptação. Contudo, vale apontar, também, para a urgência que é ver os quadros do artista pessoalmente. Pois são nelas que Van Gogh vive. Mais do que no ícone que veneramos.

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O homem despedaçado, de Gustavo Melo Czekster

O homem despedaçado

O homem despedaçado

Resenha publicada no site Indique um livro

Ed. Dublinense, 2011, 157 páginas

O homem despedaçado é uma coletânea de contos de Gustavo Melo Czekster que reúne pequenos mundos possíveis. Encontramos a condição de seres humanos que vivem em verdadeiros abismos, levando outros a um buraco negro, guerras travadas com Deus ou entre os homens, a teoria de um mundo regido por moscas, porcos que começam a explodir misteriosamente, humanos abandonados entre o perigo de cair em um paradoxo.

A premissa comum que permeia estes enredos é o que dá vida ao título, a formulação de um ser humano que vive entre os próprios fragmentos, com o sonho, por vezes tolo, mas compreensível, de encontrar a totalidade que simplifica a existência humana. Não é o que por vezes desejamos?

O homem despedaçado revela, nesta narrativa também fragmentada, que tais pedaços de ficções fazem parte de uma totalidade mais complexa e inconstante do que poderíamos imaginar. Um mundo onde o fantástico dialoga com o estranhamente cômico, trabalhado com excelência por Gustavo Melo Czekster, que conduz o leitor a caminhos realmente inesperados. Não é estranho sentir o ímpeto de continuar a ler, de conto a conto, falando em voz alta, surpreso por constatar que, por instantes, vivemos as mesmas indagações destes personagens. O desenvolvimento da narrativa é feito com simplicidade para que, apesar dos nomes e situações distintas, encontremos humanos fragmentados, como nós, nesta tentativa de simplesmente viver.

Desta forma, se torna comum o leitor se ver pesquisando para só dar uma conferida se não existe mesmo alguma teoria perdida por aí sobre um mundo regido por moscas. Ou se vigiar para não cair em paradoxos, justamente o buraco onde mais caímos na comunicação. O destaque dado ao estranho pelo autor funda um mundo inédito e, ao mesmo tempo, reconhecível aos nossos olhos. O drama humano envolto entre as religiões, as batalhas pela conquista, a destruição do outro estão lá, como estão aqui.

É sutil a construção que o autor propõe, entre contos que são levemente interligados. É trabalho do leitor buscar estas nuances na escrita. Antes da batalha dá início ao livro apontando para o grande criador como uma figura também cruel. Para existir nós, humanos, houve deformações pelo caminho. Este tom de uma suposta perfeição na figura humana logo se torna quebradiça em contos comoBuraco negro, Salamandra, Lição de macho, Uma relação indecorosa. Se neles o homem ganha a face da crueldade, contudo, em outros contos como Pequena parábola para os homens-rio, Resgate, o homem aparece por uma luz mais heroica e poética.

Em Divertissements sobre a dilatação dos porcos e Um mundo de moscas os homens parecem diminuídos diante do grande mistério natural, de como a morte se impõe e a vida se esvai sem explicação. Nestes dois, vale ressaltar que a comicidade torna os contos a perfeição de uma narrativa que quase leva o leitor à loucura das dúvidas. Com um tom mais urgente, Eu, tu, eles, os homens tridimensionais, A gênese dos paradoxos brancos e o conto que dá nome à obra revelam a proximidade à distopia, em um quadro que não soa irreal.

O homem despedaçado é uma obra que consegue a proeza de proporcionar um bom entretenimento e ser desconfortável ao mesmo tempo. Não é à toa que um ou outro tenha comentado, com o autor, que teve sonhos estranhos enquanto lia O homem despedaçado. Sentir-se fragmentado como o clima que faz parte da obra não é impossível, e a grande probabilidade é que O homem despedaçado passe a figurar entre seus livros favoritos. A resposta dada pela obra não é nada reconfortante, de que podemos fazer parte de um grande mundo cheio de estranhas possibilidades, de sentir medo, de encontrar dúvidas, de cair em paradoxos e enfrentar batalhas, descobrindo que é impossível ser um homem em estado pleno ao fim delas.

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Oscar 2015 | Meus palpites

listaoscar2015.jpgE chegou domingo, dia 22, dia do Oscar! Para mim o ano se inicia mesmo depois do Oscar. A meta era ver 28 filmes, mas não deu, paciência. Pelo menos assisti 22 filmes, com 9 resenhas escritas que deram muito trabalho e consegui melhorar bastante no exercício de analisar um filme. É o que vale! Os outros que faltaram da lista, principalmente de melhor filme estrangeiro e animação, vão ser vistos, sim. As resenhas você pode ler, reler, compartilhar, criticar, vir comentar depois de ver quando quiser, e elas estão aqui.

Certo, vou deixar meus palpites para o Oscar. Veja bem, é o que eu acho que vão premiar, coloquei entre parênteses o que eu gostaria que ganhasse. Este é o dilema quando a gente participa de bolão do Oscar, porque às vezes você precisa assinalar aquele que você gosta muito, para ficar com consciência tranquila durante a cerimônia. E tem outras categorias que você precisa deixar de lado seu favoritismo e considerar quem realmente se destacou como melhor ator ou atriz com um personagem completo que o filme possibilitou desenvolver. Então vamos lá! E dê seus palpites!

Melhor filme: categoria muito difícil, talvez Boyhood. Mas teve gente aí, como o excelente crítico Pablo Villaça que disse aqui que há a possibilidade de premiarem O Jogo da Imitação, veremos. Eu torço para Birdman ou Grande Hotel Budapeste!
Melhor diretor: Richard Linklater por Boyhood (Iñárritu, por Birdman)
Melhor ator: Eddie Redmayne (fico entre ele, Michael Keaton e Benedict Cumberbatch. Confesso que ficaria mais contente se o Michael Keaton ganhasse, por Birdman. Foi azar do Ben concorrer esse ano, ele merecia muito, mas muito destaque pela importância de Turing. Porém, a categoria está bem equilibrada).
Melhor atriz: Julianne Moore (não consigo opinar muito, só faltou ver Para sempre Alice. Mas vale dizer que esta categoria está maravilhosa e todas se destacaram mesmo, em filmes excelentes)
Melhor atriz coadjuvante: Patricia Arquette por Boyhood (se ela ganhar, ficarei feliz, foi a personagem que eu gostei em Boyhood. Mas metade do meu coração sempre torcerá por Meryl Streep, essa mulher é sensacional)
Melhor ator coadjuvante: J.K.Simmons (sim, consegui amá-lo e odiá-lo em Whiplash)
Melhor animação: não tenho ideia. Pode ser Operação Big Hero, porque é Disney e a Academia costuma premiá-la com frequência, ou Como treinar seu dragão 2, que seria aceitável, pois é um bom filme, mas a Academia tem resistência em premiar a Dreamworks. Posturas aleatórias do Oscar. Eu votaria em Boxtrolls, criativo do início ao fim e em stop motion. Mas tem Song of the sea e O conto da princesa Kaguya que não deu tempo de ver, mas parecem ser ótimos.
Melhor documentário: não vi, mas torço por Sal da Terra, sobre Sebastião Salgado!
Melhor montagem: O Grande Hotel Budapeste ou Whiplash
Melhor canção original: não sei qual a Academia escolheria, eu amo Lost stars, de Begin Again
Melhor design de produção: Grande Hotel Budapeste, por favor!!!
Melhor edição de som: Birdman e sua bateria insana.
Melhor mixagem de som: Birdman ou Whiplash, ambos tem a bateria como protagonista, o que é curioso.
Melhores efeitos visuais: não vi alguns da categoria, mas acho que eu votaria em Interestelar.
Melhor fotografia: Grande Hotel Budapeste
Melhor figurino: Grande Hotel Budapeste
Melhor filme estrangeiro: talvez o prêmio vá para Leviatã ou Relatos selvagens, porque imagino que os velhinhos preguiçosos do Oscar não vejam todos desta categoria, o que é um erro grave, acabam por ver aqueles que ganham destaque entre público e bilheteria. Pelas críticas positivas, Timbuktu é surpreendente e poderia merecer também a estatueta, assim como Ida. Categoria difícil, de grande qualidade. Eu voto em Relatos selvagens, porque assisti e achei excelente.
Melhor trilha sonora: é do Desplat! Ele concorre com ele mesmo, deem o prêmio para esse homem! Grande Hotel Budapeste ou Jogo da imitação. Ambas são de outro mundo.
Melhor roteiro adaptado: eu acho que Garota exemplar deveria estar aqui. Mas não está. Não faço ideia de qual será a preferência da Academia, poderia ser Jogo da imitação, Teoria de Tudo, Whiplash.
Melhor roteiro original: Birdman. Mas pode ser de O abutre ou Grande Hotel Budapeste também, que ficarei feliz.

Melhor maquiagem ou penteado: Grande Hotel Budapeste, que fez Tilda Swinton ficar irreconhecível.

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Oscar 2015 | Teoria de Tudo

Direção: James Marsh

Com Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior

Indicado a cinco categorias do Oscar 2015: Melhor ator (Eddie Redmayne), Melhor filme, Melhor atriz (Felicity Jones), Melhor trilha sonora, Melhor roteiro adaptado.

teoria de tudo posterDois anos de expectativa de vida. E Stephen Hawking continua à ativa aos 72 anos. Esta é a resposta que o filme concede antes mesmo de se iniciar nas telas. Diferente de uma obra que expõe o trabalho científico de Hawking, Teoria de Tudo apresenta, baseando-se nas memórias de Jane Hawking, sua esposa, a vida deste físico em formação que aos 21 anos descobre ter uma doença motora degenerativa.

O peso da vivência de Hawking por si só permeia com força a narrativa do filme. Uma pessoa que deseja preservar e resistir pelas ideias às dificuldades e limitações que a doença gera é humanamente heroica. Mas vale ressaltar também que quem cresce à altura de Hawking é sua esposa, Jane, que não hesita em se casar e cuidar de Stephen apesar do desafio incomensurável que cabe às exigências dadas a ela como esposa, mãe, pesquisadora em Literatura e companhia imprescindível de Hawking em meio à doença.

 O amor entre eles, sem repetir-se em discursos, mas sim pelos gestos, é de uma beleza singular. O espectador encontra a dificuldade de se posicionar entre o desejo por ver Jane ter suas próprias vivências – desde um instante de tranquilidade até finalizar sua tese em Poesia Medieval – e entender a necessidade de tê-la como apoio de Hawking. Vemos uma relação que não se perde em dramas pequenos entre um casal, mas sim a maturidade de lidar com decisões complexas. E, acima de tudo, reconhecer que os limites humanos são um verdadeiro mistério.

Teoria de tudo acaba por não se aprofundar no trabalho científico de Hawking. É verdade que poderia ter trazido à tona juntamente a dimensão de sua pesquisa na área acadêmica. Mas em parte é compreensível que isso não ocorra em um filme que retrata mais sua vida pessoal pela óptica de Jane, baseando-se em suas memórias escritas. Se isso poderia ser arriscado, gerando um filme emotivo e parcial demais, não ocorre com Teoria de Tudo. O receio inicial, pelo trailer divulgado, é que tivesse sido produzido com o único intuito de competir pelas categorias do Oscar em uma cinebiografia feita para chorar. O que ocorre, porém, é que o espectador encontra um filme emotivo na medida certa. Emociona pela narrativa real de Hawking e a força e admiração que passamos a ter pela figura até então desconhecida de Jane. Contudo, vale dizer aqui que não significa que o filme aplique a frase “por trás de um grande homem há uma grande mulher”. Felizmente, Teoria de Tudo expõe que existe uma cumplicidade igual entre os dois, e que Jane é grandiosa por si mesma.

Em relação à montagem técnica do filme, ela é bem coesa. No caso, porém, da trilha sonora, ela não apresenta sobressaltos interessantes na composição. Se em Jogo da Imitação, O Grande Hotel Budapeste, alguns de seus concorrentes à categoria no Oscar, vemos um trabalho exato e detalhado de composições complexas e belas, Teoria de Tudo perde e muito neste quesito, com um único ritmo tocado ao piano que não se sobressai na totalidade. Mas quanto à fotografia, ela é fortemente bem explorada no filme. Seu trabalho concede um teor mágico e delicado à trama, o que ajuda a entender como é, por fim, poética e intensa a visão de um físico diante da tentativa de encontrar uma “simples e elegante” equação para o Universo. Isso fornece a curiosa sensação de ver que, apesar de Hawking lidar com o estudo de algo fundamental a toda a existência humana, esta se encontra valorizada nos pequenos instantes vividos na Terra, nos pequenos milagres ocasionados pelos humanos.

Ademais, a grandiosidade de Hawking é alcançada pela atuação de Eddie Redmayne com um cuidado quase científico nos gestos, expressões, dicção apreendidos para dar vida a esta figura. O ator dá espaço ao personagem e, pelo olhar, passamos a tentar desvendar o que Hawking sente ao contemplar os outros, rimos do humor dele, acompanhamos a sua comunicação.

Se falta apenas à Teoria de Tudo dar espaço ao trabalho do físico, o filme ganha pela seriedade com que expõe detalhes da vida de Hawking. É uma vivência que precisava estar nos cinemas e desperta o interesse pela leitura das memórias de Jane ou Uma breve história do tempo, de Hawking. O mérito de Teoria de Tudo é, assim, a capacidade de manter exposto o humor e a emoção em boa dose por todo o seu filme e o espectador terminá-lo com a vontade de ver mais de Hawking e Jane. Está posto, então, o encanto de presenciar uma vida que, desde o início dos tempos de Hawking, teve como equação única uma cumplicidade tão simples, bela e elegante quanto à procura pela teoria acerca do Universo.

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Oscar 2015 | Boyhood – Da infância à juventude

Direção: Richard Linklater

Com Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater

Indicado a seis categorias no Oscar 2015: Melhor filme, Melhor direção, Melhor ator coadjuvante (Ethan Hawke), Melhor atriz coadjuvante (Patricia Arquette), Melhor montagem, Melhor roteiro original.

boyhood-poster164 minutos que condensam 12 anos de trabalho. Este é Boyhood, filme do diretor Richard Linklater, que apresenta a infância, a adolescência e a chegada à vida adulta, fases vivenciadas pelos próprios atores do elenco que fizeram parte destes 12 anos do projeto. O produto final é um filme que revela, com verossimilhança e simplicidade, as fases que todos enfrentam em vida.

Em primeiro lugar, o que dá um tom realista ao filme é a escolha de Linklater por apresentar este crescimento. Não apenas vemos Mason crescer, o garoto interpretado por Ellar Coltrane, mas também sua irmã Samantha (Lorelei Linklater), sua mãe (Patricia Arquette) e seu pai (Ethan Hawke) desenvolvem seus dilemas e conquistas na tela. Por entre perguntas típicas das crianças, deveres de casa não entregues, cortes de cabelos, separações e brigas, vemos esses quatro personagens apresentando à vida quem eles desejam ser e as mudanças de percurso. O curioso é constatar que o espectador quase os coloca em teste, buscando ver se realmente a sua fase vivida está lá. E isso acontece muitas vezes.

As primeiras evidências são as músicas escolhidas para o filme. De Coldplay a Daft Punk e Lady Gaga, reconhecemos o período não por uma legenda que indica a passagem do tempo, mas pelas trilhas dispostas na película e suas mudanças corporais. Essa saída perspicaz de Linklater já insere uma das grandes relações que temos com os personagens: como nós, eles têm suas fases embaladas por músicas. Ou, na infância perguntam pela existência da magia e leem Harry Potter. Reconhecemos o tempo em Boyhood por elementos que, por vezes, fazem parte das lembranças do próprio público.

Em segundo, estes personagens são comuns. É possível reconhecer neles as nossas próprias fases, quando testamos um penteado ou roupa na adolescência, em busca de uma identidade em formação, ou a pressão de escolher a carreira e assumir as responsabilidades. Boyhood é um exercício nostálgico, porém sem cair no excesso de apelar para as emoções do público. O que vemos na tela é um retrato familiar próximo da realidade. E contemplar o crescimento desta família, a surpresa em notar como o garoto cresceu, mudou seus costumes e passa a se expressar mais, acaba por provocar até mesmo orgulho por passar três horas conhecendo a história desta família, que pode, muito bem, ter proximidade com a nossa.

Com a indicação de Patricia Arquette como Melhor atriz ao Oscar, compreende-se como a sua personagem, mãe de Mason, pode também ser outra perspectiva para se levar em conta ao ver Boyhood. Se o garoto está crescendo para ser o adulto apresentado à sociedade, esta mãe que se separa, buscando ter um companheiro que a mereça, que estuda com a esperança de ser professora, apesar da dificuldade de cuidar da família, se vê abandonada pelos filhos e sem perspectiva ao final, quando os vê crescer.

Este ponto apresentado por Linklater é tão forte que eleva a sua personagem ao grande espaço que merece, ao de heroína, como muitas mães que conduzem famílias se equilibrando entre os conflitos. Assumimos um carinho por ela, nesta atuação simples e intensa de Arquette para, então, entender que o grande papel que Linklater assume com seu filme não é apenas mostrar a passagem do tempo. Boyhood aposta nas marcas que o tempo deixa nesta passagem. A força materna e a maturidade que o pai, aos poucos, vai ganhando, compõem a personalidade de Mason e Samantha. Linklater mostra como os pequenos e grandes momentos se somam na formação de um indivíduo. Com brigas, conquistas, cortes de cabelo.

Na opinião de alguns críticos, o filme pode oscilar entre uma suposta falta de roteiro e uma obra que não precisava de 12 anos para ser desenvolvida e resultar em um filme simples. Ambas as perspectivas são exageradas. O que Boyhood verdadeiramente pretende é apresentar a passagem do tempo como uma relação possível ao espectador. Sem saltos que poderiam falsificar esta relação, Boyhood expõe a simplicidade que é pouco vista no cinema. Talvez o pouco que falte para Boyhood ser um filme grandioso em todos os sentidos seja encontrar alguns elementos ficcionais no enredo. Pois ainda o cinema consegue insuflar ao real o poético que faz de uma cena ser inesquecível. Mesmo que o objetivo seja apresentar um realismo, não se pode negar que a vida comum tem suas tomadas de ficção.

Desta forma, o mérito de Boyhood é caminhar com diálogos e cenas próximos à vivência comum. Se muitas vezes reclamamos que não nos vimos retratados no cinema, Boyhood é uma resposta. É a chance de visualizar a trama da própria vida. Como diz o pai de Mason ao garoto ainda pequeno, uma baleia pode ser tão mágica quanto elfos. Um animal que canta cruzando os oceanos pode ser mágica e parte do real. Boyhood acena pelo mesmo caminho, de uma vida feita inteiramente de momentos que compõem esta bela realidade que reside em um eterno presente.

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Oscar 2015 | Dois dias, uma noite

Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

Com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée

Indicado a uma categoria do Oscar 2015: Melhor atriz (Marion Cotillard).

poster dois dias uma noiteA solidão do trabalhador no século XXI e a disputa entre seres humanos que preenchem o mundo entre o dilema de uma ação moral e o desafio de resolver os próprios problemas. São esses pontos que o filme francês Dois dias, uma noite explora com excelência. Sandra (Marion Cotillard) corre o risco de ser demitida. O chefe da empresa argumenta que o trabalho de 17 pode ser feito por 16 pessoas. Ele, então, oferece um bônus a cada um e, numa votação aberta, os funcionários dizem optar pelo bônus, mesmo que isso implique demitir Sandra. Com um histórico de depressão, a moça agora recuperada faz de tudo, então, para conversar com cada um dos funcionários antes da segunda votação.

São dois dias e uma noite em uma batalha que envolve pegar o ônibus e descobrir o endereço de cada um deles, na dificuldade de pedir que abram mão de mil euros de bônus para que possa continuar no emprego e conseguir fechar o mês com os gastos familiares. É ela ou o bônus. O filme acompanha, com um realismo e simplicidade surpreendentes, a tentativa de Sandra em pedir ajuda. Mesmo que precise lidar com os conflitos que surgem a partir deste seu pedido e a mera ameaça de se perder os preciosos mil euros, que para alguns salvará o mês, e para outros será apenas mais uma ajuda nos gastos para alguma reforma.

O curioso é constatar o abandono de um trabalhador diante desta situação delicada. O chefe propõe algo que, para ele, é fácil, só quer supostamente cortar gastos para investir em outros. Porém, esquece-se que tanto o emprego quanto o bônus significam colocar comida na mesa, pagar luz e água, manter os estudos dos filhos, a família que agora tem um recém-nascido para cuidar. Todos esses dramas não são explorados com grande destaque em cenas dramáticas ou excessos de diálogos, o que é um mérito dos diretores. Algumas destas dificuldades aparecem na fala e no choro de algum personagem, ou somos postos diante de crianças e conflitos familiares junto com Sandra. E o espectador passa a lidar com o mesmo dilema: será que vale a pena receber um bônus e saber que outro foi demitido? E será que vale também conversar com cada um deles? Quem é o culpado nesta história? Quem pode dar uma terceira opção?

Diante desses questionamentos, o mais doloroso que Sandra parece encontrar é se ela tem realmente algum valor em seu trabalho e se é justo implorar por manter seu espaço no emprego, levando os outros a perder algo importante. De maneira tocante e delicada, o filme vai desvelando esses problemas e mostra como seu roteiro pode ser o roteiro de qualquer vida espalhada pelo mundo. Nós somos Sandra. Em algum momento parece que já recebemos esse baque, de fazer parte de um sistema bem engendrado entre dinheiro e propostas abstratas, que esquecem da humanidade envolvida. E mais, traz à discussão um exercício moral valioso e a consideração da existência do outro.

Nesta batalha que o marido incentiva Sandra a enfrentar, vemos a fragilidade desta que saiu da depressão, que se sente solitária e desprezada no local de trabalho que, em geral, a sociedade nos fez crer que é onde mostramos nosso verdadeiro valor e significado. Em meio aos remédios que toma, Sandra tenta controlar o desespero de se ver implorando pelo impossível e sofrer pelo outro também. O resultado é uma personagem que se torna forte mesmo em seus passos desequilibrados e os ombros curvados, bem construída por Marion Cotillard. A atriz já se mostrou excelente como Piaf e, aqui, ela ganha destaque pela aparência simples de Sandra e a expressão de seus dilemas.

Desta forma, Dois dias, uma noite pode ser muito bem uma espécie de filme de superação. Contudo, em vez de épicas batalhas, ele expõe os esforços diários que se normalmente se ignora. Passamos a torcer que Sandra resolva sua vida, que se mantenha no emprego ou encontre outro. Vemos em Sandra o heroísmo de uma batalha mais cruel do que a que envolve armas ou criaturas estranhas. É uma batalha que envolve o outro semelhante a ela, uma batalha contra o próprio medo e sofrimento de bater na porta deste outro e pedir que abra mão de suas vontades ou necessidades para dar um pequeno espaço a ela. É o pedido pela sobrevivência em comum.

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Oscar 2015 | Livre

Direção: Jean-Marc Vallée

Com Reese Witherspoon, Gaby Hoffmann, Laura Dern

Indicado a duas categorias do Oscar 2015: Melhor atriz (Reese Witherspoon) e Melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).

livre-posterCheryl Strayed é uma heroína belamente humanizada no filme Livre, de Jean-Marc Vallée, diretor de Clube de Compras Dallas. Com o objetivo de exorcizar o mal que permeia o seu passado doloroso após a morte da mãe e com a intenção de “caminhar até voltar a ser a menina que a mãe criou”, a jovem resolve completar a trilha de 1700 quilômetros pela costa do Oceano Pacífico, a PCT, do México ao Canadá. Sem experiência em trekking e tentando lidar com as dificuldades climáticas à falta de água pelo trajeto, Cheryl completa três meses e vê a dor do passado surgir a cada instante que caminha. Uma dor tão intensa quanto o peso que carrega na mochila.

A história real da jovem, adaptação de suas memórias, é valiosa em expor mais uma narrativa sobre uma pessoa que busca redenção heroicamente por um desafio inimaginável. Contudo, diferente de alguns deles como Na Natureza selvagem – com o qual é comparado – ou o recente 127 horas, Livre é um filme que investe mais na introspecção de sua personagem, pela recuperação sem a ênfase desta caminhada como uma grande aventura. Ela é tida mais como uma autopunição, pelos cortes e marcas no corpo feitos pela mochila, pelo peso quase impossível de carregar, pela descrença que os outros têm de ver uma mulher desejar completar uma trilha difícil até mesmo para quem tem experiências com trekking.

O filme eleva a sua qualidade ao explorar a personagem por meio da excelente atuação de Reese Witherspoon. Mais conhecida pelo adocicado Legalmente Loira, a atriz tem investido em papéis mais complexos nos últimos anos, o que vale lembrar de seu bom desempenho em Johnny & June. Porém, é com Cheryl Strayed que se torna possível encontrar uma força genuína bem construída por Reese, sem exageros e com humanidade, numa atuação que faz o drama de Cheryl ser bem recebido pelo espectador. A sua atuação, aliada à direção de Vallée, que investe em flashbacks descontínuos, na apresentação do enredo por camadas e numa bela fotografia, faz de Livre um filme com um resultado emocional positivo e aprofundado.

Cheryl troca o sobrenome para “Strayed” com o intuito de adotar para si o espírito errante que precisa para essa tarefa. O curioso é constatar que fazer essa trilha não consiste em uma mera fuga ou passatempo: Cheryl demonstra lidar melhor com a solidão, as necessidades básicas que a trilha exige e a vida selvagem que presencia do que a responsabilidade de estar entre adultos numa cidade. A trilha é o grande experimento de um sentido existencial ignorado, por vezes, nesta concepção de vida urbana. Com isso, o filme consegue conduzir o espectador à experimentar uma trilha em sua exaustão mais realista, sem exagerar em momentos de diálogos solitários que poderiam soar falsos ou em colocar perigosos ficcionais na estrada. O que Cheryl enfrenta na trilha é o que se enfrentaria, de fato, a dificuldade em se alimentar, a dor corporal e, o mais doloroso que se encontra a qualquer canto, a urgência de uma mulher em não confiar na presença masculina.

Com este ponto, pode-se dizer que a peculiaridade de Livre está no investimento em uma temática sobre o feminino. Mais do que uma relação amorosa, o sofrimento de Cheryl é levado a sério pois compreende-se a premissa de que uma jovem pode encontrar o caos em sua vida após perder a mãe, com quem tem um passado de boas memórias e arrependimentos também. Essa premissa é suficientemente forte para dar ao ato de Cheryl uma base para o objetivo de sua trilha. A tentativa de voltar a ser a filha que ela foi aponta para algo ainda mais profundo: não é possível ser apenas filha ou apenas mãe porque é uma função requisitada pela sociedade. Cheryl e sua mãe lidam com esse mesmo dilema em períodos diferentes. É preciso reunir essas identidades a uma mais forte ainda. Cheryl percebe que perdeu aquilo que dava estabilidade à sua vida. E mais ainda, perde quem realmente era seu modelo. O que resta, então, de sua personalidade?

Todo o trabalho do filme aponta para o desejo dessas duas figuras femininas em transgredir, de alguma forma, a representação acabada que dão a elas. Desde abandonar o marido, estudar até experimentar o perigo ou fazer uma trilha. Isso é fundamental para acompanhar a narrativa, pois não foi uma mera vontade de acordar e pegar uma mochila. Foi porque todas as alternativas de Cheryl se esgotaram, todos os pontos em que ela encontrava a sua identidade se esvaíram. A caminhada, porém, não é para se punir pelo que fez aos outros apenas, mas principalmente entender por que fez determinadas escolhas e destruiu a si mesma. Assim, Cheryl passa a lidar com o fato de que a perfeição pode estar nas marcas de seu corpo, que há dignidade no pó que suja as suas vestes.

O título em inglês, Wild, com referência ao selvagem, é mais apropriado para lembrar que Cheryl lida com um embate entre sua mente e o corpo, que se torna muito mais presente pelas dores e necessidades. A trilha parece ser realmente a melhor forma de encontrar uma nova saída sem deixar de lembrar de cada falha e dor em seu mais puro significado. Pelas lembranças do passado apresentadas em um flashback descontínuo, o filme Livre ganha muito mais do que incluir apenas aventura e ações épicas. Ele representa com lirismo as infinitas dores que a mente e o corpo possuem numa trilha que vai além dos mil e setecentos quilômetros.