11 de fevereiro: o Dia Internacional das Mulheres na Ciência

11 de fevereiro: o Dia Internacional das Mulheres na Ciência

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Publicada no NotaTerapia 

No dia 22 de dezembro de 2015 a Unesco criou o Dia Internacional das Mulheres na Ciência, após estabelecer a igualdade de gênero como prioridade global. Este dia é tomado tanto como um modo de apontar a disparidade de gênero na área das Ciências quanto incentivar mulheres e meninas a identificarem seu espaço de direito na profissão.

As estimativas da Unesco são preocupantes: menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo são do gênero feminino. Existem diversos fatores, tanto sociais quanto econômicos, que levam mulheres a não optarem por áreas STEM (acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Um deles é o fato de que, quando atingem a adolescência, meninas são desmotivadas a prosseguir na área de Exatas. Mas, mesmo quando mulheres adentram na área STEM, encontram esse desestímulo entre colegas da própria área e no mercado de trabalho.

Associa-se, ainda, a concepção equivocada de uma hierarquia entre conhecimentos. Como se Exatas fosse o único domínio a exigir “pensamento abstrato e inteligência”. Isto é, desqualifica-se também as Ciências Humanas, espaço onde, em alguns domínios, as mulheres estão mais presentes. Somado a isso, estão concepções tomadas pelo menos desde o século XVIII de que mulheres são mais emotivas, sensíveis, com a impossibilidade de serem vistas como geniais e criativas no domínio das Ciências.

A realidade no Brasil não se distingue disso quando se fala em disparidade de gênero. Na Universidade de São Paulo (USP), o curso de Química conta com 33,5% de mulheres. Na Matemática, são 26,3%, na Física e Astronomia, 20,3%. Geologia, 12%. E, mesmo em cursos de Humanas como Filosofia, a quantidade de mulheres na graduação, mestrado e doutorado é bem pequena. Esses dados do relatório de avaliação socioeconômica da Fuvest demonstram que ciência ainda é majoritariamente masculina.

Elysandra Cypriano, especialista em Astrofísica Estelar e professora do IAG-USP, é graduada em Física, e conta para o Jornal do Campus USP em matéria de 2018 que “é como se o curso acinzentasse as mulheres. É preciso lidar com um machismo muito forte. Quando coloca muito seu lado feminino, passa a ser criticada e julgada”. É este embate com o qual a mulher se vê constantemente em ambiente de trabalho e estudo. Se age de forma “feminina”, é vista como inferior. Mas se não se identifica com a performance esperada do gênero feminino, é igualmente condenada. O seu conhecimento e formação se tornam irrelevantes.

Alguns projetos passaram a ter espaço na discussão sobre mulheres na ciência. Surgiram o Lab das Minas (EACH), o prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência, programa Mulheres na Ciência (British Council). Ainda assim, a discussão pede participação e compreensão maior no diálogo entre escola e família, que vai desde educação sexual até valorização das Ciências como fonte de conhecimento em sala de aula.

É preciso dizer que a presença das mulheres no meio acadêmico no Brasil é escassa nos níveis de pesquisa, especialmente nas áreas de ciências exatas, de acordo com um estudo sobre a distribuição de Bolsas de Produtividade de Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Publicada em artigo na revista científica “PeerJ”, a pesquisa observou a distribuição de mais de 13,6 mil bolsas entre 2013 e 2014, e o gráfico abaixo aponta severamente a disparidade entre gênero nas áreas STEM.

pesquisa CNPq

Além dessa pesquisa, temos o relatório “Gênero no cenário global de pesquisa”, divulgado pela editora científica Elsevier em 2017. Ele mostra que nos últimos 20 anos a proporção de mulheres na população de pesquisadores passou de 38% para 49%. Com maior presença em humanidades e serviço social, na área das engenharias, ciências exatas e da Terra, porém, a participação feminina cai abruptamente. 

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Sendo assim, no contexto global atual, é relevante trazer à tona a existência desse dia 11 de fevereiro. Na Agenda de Desenvolvimento Sustentável para 2030, que inclui melhora na saúde pública, medidas de combate ao aquecimento global, a diversidade se tornou pauta urgente. O estímulo às ciências, tanto exatas quanto humanas, é fazer perceber que o espaço público é um direito básico à mulher. Espaço esse onde, por séculos, homens puderam se construir social e intelectualmente. A dificuldade ainda permanece para as mulheres, as quais encontram situações como assédio moral e sexual em seu campo de trabalho até a invisibilidade dada às suas pesquisas.

O conhecimento, o experimento, a criatividade para apresentar dúvidas e resoluções aos contextos culturais são parte fundamental da construção humana. De Hipátia de Alexandria, a primeira mulher matemática, a Ada Lovelace, quem escreveu o primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina, e Katherine Johnson, responsável por calcular a trajetória da expedição de Alan Shepard à Lua em 1961, temos histórias de mulheres cientistas que passaram muito tempo invisíveis. Este apagamento intencional é nocivo para toda a história do mundo. Pois permite que apenas um lado seja conhecido, exaltado e eternizado para além do tempo. É problemático também por tornar nebulosas as fontes de estudo e conhecimento para pesquisadores e pesquisadoras futuros. Elucidar o apagamento histórico e dar visibilidade às mulheres cientistas é mostrar que o conhecimento é igualmente expansivo, e que suas pesquisas merecem o devido reconhecimento pela sua contribuição acadêmica.

*A imagem de capa é de Rachel Ignotofsky para o seu livro Women in Science: 50 fearless pioneers who changed the world

Fontes:

As meninas estão fazendo ciência (Jornal do Campus USP 2018)

Just 30% of the world’s researchers are women. What’s the situation in your country? – UNESCO

Crescem iniciativas que dão visibilidade a mulheres cientistas e divulgadoras de ciência – UNICAMP 2018

Gender in the Global Research Landscape (Elsevier 2017 – pdf)

10 grandes mulheres da ciência

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Pega (The Magpie), de Claude Monet

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Pega (The Magpie), de Claude Monet

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Claude Monet, France, 1840-1926, A Pega (The magpie), 1868-1869, óleo sobre tela, 121.4 x 164.1 cm. Musée d’Orsay, Paris, France

A pintura A Pega (The Magpie) foi composta por Claude Monet em 1868, como uma das mais belas representações que o artista fez da neve. O desafio do tema, de conciliar as cores e atmosfera fria, pálida às ideias do impressionismo estão presentes, mais o tom de melancolia na contemplação da natureza diante da Pega, o pequeno pássaro que repousa na cerca e o qual dá nome ao quadro.

Era dezembro de 1868, quando Claude Monet saiu para o campo com seu equipamento de pintura, ansioso para pintar os campos cobertos de neve perto de sua nova casa em Étretat, na costa da Normandia. Longe do pai que o desaprovava, ele havia se mudado para uma casa onde ele e sua namorada Camille Doncieux e seu filho recém-nascido Jean poderiam estar juntos. Foi neste local em que ele iria produzir The Magpie.

O desafio era mostrar a grandiosidade da paisagem transformada pela neve e testar formas de apresentar a atmosfera. Como aplicar sombra em um território todo branco? E o sol invernal, de que modo ele se projeta no cenário? O quadro todo presentifica a neve como aveludada, densa, equilibrando tanto a sua delicadeza quanto sua rigidez. A pintura é quase escorregadia tanto quanto a textura da neve. Percebemos a consistência afofada que pende pelos galhos das árvores, pelo telhado da casa. E que, principalmente, transforma as imagens de fundo em apenas silhuetas embranquecidas pela neblina e pela neve. A imagem é de um retiro silencioso, onde a vida repousa por completo.

O recorte do cenário é dado tanto pela cerca quanto pelo telhado, sendo assim duas linhas paralelas que dividem o quadro. O que torna o cenário vivo são dois elementos graciosos: a sombra projetada na neve e o contemplativo pássaro preto que se destaca por entre o tapete branco.

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O que faz desta pintura encantadora é, primeiro, a escolha das cores. Monet, seguindo as práticas do impressionismo em que se pinta aplicando a influência da atmosfera nas matizes de cor, torna a sombra um tom azulado, pendendo ao lilás. Segundo o próprio pintor, “quando você sai para pintar, tenta se esquecer de quais objetos você tem diante de si, uma árvore, uma casa, um campo, o que for. Apenas pensa, aqui é um pequeno quadrado de azul, aqui é um retângulo de rosa, aqui está uma faixa de amarelo; e pinte isso da mesma forma que lhe aparece, a cor e a forma exatas, até que você tenha uma impressão natural da cena diante de você”.

Reunido a essa tonalidade delicada dada pelo pintor ao cenário, o pássaro coroa uma ideia distinta do inverno. Em vez de indicar espaços vazios, infrutíferos, abandonados pela vida humana por conta da temperatura, Monet apresenta a vivacidade da natureza na sua melhor forma. Ela continua potente no inverno, promissora enquanto local de introspecção humana tal qual o pássaro que se mostra contemplativo.

Assim, The Magpie (A Pega) é uma representação do inverno dada com o frescor do raro sol invernal. Ele se encena branco no horizonte e se projeta pelo solo, estende a sombra azulada das cercas e convida o pássaro e o olhar a repousar. E se formula como uma doce e etérea cena de locais sonhados no mundo onde se pode respirar em consonância com a natureza vivaz.

In The Magpie, Monet found all the colour in a snowy day

GAGE, John. Color and Culture Practice and Meaning from Antiquity to Abstraction. Los Angeles, University of California Press, 1999, p.209.

Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

Crítica | Como me tornei freira, de César Aira

como me tornei freira

Como me tornei freira

Editora Rocco (col. Otra Língua), 254 páginas.

A obra do escritor argentino César Aira é de um tom inventivo peculiar. O autor se faz herdeiro das vanguardas do século 20, sendo Como me tornei freira carregada de surrealismo. Composta por dois romances na mesma edição da Rocco, o livro traz na primeira metade o romance Como me tornei freira, e na segunda, A costureira e o vento.

De início, somos apresentados à dúvida sobre o gênero da protagonista: enquanto os personagens a veem como menino e dá a ela o nome do autor, César Aira, o relato todo é feito no gênero feminino. A garota que nos conta sua infância a descortina por um episódio surreal, entre a mistura do cômico e do grotesco: o pai sai com a filha para tomar sorvete, mas o sorvete de morango é terrível. O gosto é amargo. Mas o pai insiste que a filha o tome, pois onde já se viu uma criança odiar sorvete? Logo a história se torna opressiva e Aira consegue dar tons de horror ao doce rosado e anuncia: o amargor do sorvete é porque havia arsênico nele.

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Acompanhamos, assim, o tempo em que a protagonista fica no hospital, o retorno à vida e seu olhar diferenciado para a realidade. Ela passa por um curioso processo de redescoberta do mundo pela linguagem. Atrasada em comparação aos colegas de escola, a garota compreende o mundo por meio de uma realidade brutal que, ao mesmo tempo, se torna lúdica com sua imaginação sem limites. Como se, ao acessar o rosa do outro mundo, ela tivesse ganhado uma percepção aguçada.

A leitura de Como me tornei freira é fascinante. Com tom de comédia, traça alguns pontos sobre o ato artístico da criança de ver o mundo e ainda consegue passear por gêneros literários distintos, rendendo ao fim em um suspense surrealista. O título coroa a temática da obra, apresentando essa criança, tão jovem e tão despida dos vícios humanos, que parece se tornar pouco a pouco a figura da mais extrema pureza, um ser humano nascido da quase morte e revestida por uma linguagem tão sensorial e sagrada que prende-se à língua dela tal qual o sorvete, como a hóstia. Assim, parece que Aira correlaciona linguagem ao corpo, de modo que a criança entenda tudo de forma literal. Ela povoa o mundo com uma presença etérea, alia a herança da linguagem a um desfrutar do mais puro sagrado, o qual parece se perder enquanto crescemos e nos fixamos na linguagem habitual. O autor, ao final dá tons graves, e consegue a proeza de tornar o horror gélido, sentido pelo leitor de forma pungente, agressiva. Por isso, Como me tornei freira é uma leitura de experiência única.

No caso do segundo romance, A Costureira e o Vento, a obra se desvincula do estilo do primeiro, em certa medida. Se em Como me tornei freira Aira preserva uma estrutura, concedendo um final e um clímax exatos, o segundo vai além dos limites. É uma narrativa que pode agradar apenas alguns por essa inconstância.

O leitor se vê diante de um autor que não sabe bem o que escrever ainda. Sentado em um café parisiense, ele pondera como iniciar uma história. Logo há um salto, porém feito com sutileza, em que a fantasia se mistura à vida desse autor, e não sabemos mais dizer se ele está nos contando uma ficção ou sua própria vida. Há elementos poéticos bem delicados, como o vento que se apaixona pela mocinha. Mas há certos pontos, como a existência de um Monstro nascido de circunstâncias bizarras, que soam fora do tom da narrativa e injustificável. E a presença desse Monstro e como ele foi concebido pode causar desconfortos que prejudicam, de certa forma, a leitura e o sentido da obra.

Ao fim, Como me tornei freira é o que há de melhor da mente de César Aira romancista, tendo um impacto maior comparado à Costureira e o Vento. Ainda assim, o livro traz narrativas incomuns que servem para expandir as noções do realismo fantástico e passear por terras inimagináveis do inconsciente e da convivência com o bizarro. Pois dos homens podem vir tanto o belo quanto o grotesco.

Crítica | Lizzie

Crítica | Lizzie

filme lizzie

A história de Lizzie, filme dirigido por Craig Macneill, converge à crítica sobre o século XIX que cria narrativas em torno do feminino como o belo mal e o perigoso, e a perniciosa reverência aos homens. O poder sem rédeas de chefes de família, os quais podiam ameaçar internar suas filhas, e os assédios morais e sexuais usados por esses homens por não haver controle algum são os temas principais do filme. E sente-se a atualidade do tema, em época de movimentos como Me Too e Time’s Up entre as estrelas de Hollywood.

Acompanhamos Lizzie Borden (Chloë Sevigny), como mulher solteira e com episódios de um possível quadro de epilepsia. O lar é composto pela madrasta, a irmã e o pai Andrew (Jamey Sheridan), com o qual ela sofre inúmeros embates e passa a notar as ações paternas que a colocam em perigo na própria casa. Em meio a isso, há a presença da jovem Bridget Sullivan (Kristen Stewart), empregada contratada recentemente pela família e com quem Lizzie logo cria laços afetivos.

É preciso dizer que o filme toma a história real de Lizzie Borden, acusada de assassinato da própria família. Americana, Lizzie teria sido uma figura central no caso do brutal homicídio a machadadas de seu pai e sua madrasta em 1892, Massachussets. Ela foi inocentada e mesmo o uso da arma do crime nunca ficou muito claro. A polícia ignorou diversas pistas dadas à época, até mesmo sobre a vestimenta de Lizzie na suposta hora do crime. Criou-se em torno de Lizzie Borden todo um ideário e fascínio pela acusação de assassinato. Há mesmo a teoria de que ela sofria de crise epiléptica durante seu ciclo mensal, no qual às vezes entrava num estado de sono, cometendo assim os assassinatos inconscientemente. Canções populares foram criadas, como essa aqui:

Lizzie Borden took an axe (Lizzie Borden pegou um machado)

And gave her mother forty whacks. (E deu a sua mãe quarenta golpes)

When she saw what she had done, (Quando ela viu o que ela tinha feito,)

She gave her father forty-one”. (Ela deu a seu pai quarenta e um.)

Ficheiro:Lizzie borden.jpg

É tomando essa história como base que o filme conta sobre a vida de Lizzie até o momento do assassinato. De início, pode-se dizer que Lizzie é uma obra que sabe expressar bem a claustrofobia do ambiente doméstico. Percebemos os limites e as amarras femininas do lar até as ruas e ambientes públicos, nos quais é impossível existir qualquer tipo de expressão de identidade. As finanças são manipuladas pelos homens, e mesmo quando uma mulher propõe reavaliá-las sugerindo um possível golpe que está prestes a acontecer, são tratadas com o desprezo que considera a inteligência como inata somente aos homens.

Quanto ao filme, ele tem uma estrutura bem convencional. A trilha sonora entra nos momentos corretos de tensão e as atuações são acertadas para a proposta. Contudo, o filme não consegue trazer por inteiro a poderosa narrativa desta personagem real. Ao roteiro falta expandir mais as personagens femininas, que acabam por ser encerradas em estereótipos sobre o próprio século XIX com apenas poucos elementos, sem que seja possível adentrar de fato no psicológico de Lizzie e Bridget.

Torna-se um filme que cristaliza o século XIX, sem buscar entender as suas motivações reais. Por vezes há o perigo de, ao contar essas narrativas sobre o feminino por ser um tema em voga, de encerrá-las em abordagens superficiais e concepções fáceis de se manipular, deixando de humanizá-las com todas as suas complexidades. Com a desculpa de dar ao espectador um filme “empoderador”, a obra não emancipa suas personagens, seja pela relação lésbica que ao fim é tratada em pouquíssimas cenas, seja pela ameaça permanente de uma portadora de epilepsia se ver internada por uma situação de saúde que foge de suas escolhas. Assim, são apenas versões romantizadas de uma história marcante demais entre os jornais de época. O verdadeiro instante que poderia fazer crescer o filme é deixado de lado, a tensão do julgamento de Lizzie Borden e a recepção da imprensa. Pois lá percebe-se que a imagem da mulher e da classe à qual pertencia eram sugestões completas de inocência para o olhar masculino.

Já é raro encontrar histórias sobre uma mulher assassina. E quando ela se manifesta, suas razões são, muitas vezes, distintas da motivação da violência masculina. No caso, a relação destrutiva do lar e a própria clausura da mulher, a ciência que em vez de tratar quadros de convulsões concedem uma perspectiva demonizada do feminino, são perspectivas muito profundas para se levar em consideração.

Diante disso, o filme Lizzie acaba por se sustentar apenas pelo talento de Chloë Sevigny, que entrega uma protagonista com força dramática, principalmente nas cenas finais. Assim, o filme é razoável do ponto de vista técnico e deixa apenas no ar algumas promessas de mergulhar, de fato, na complexidade de Lizzie Borden e as visões sobre o feminino no século XIX.

Para saber mais, a matéria O Julgamento de Lizzie Borden 

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

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Publicado no site NotaTerapia

A tradição da leitura de poemas e pequenas histórias no Reino Unido é fortalecida pelos inúmeros especiais da rádio BBC. Porém, na semana do Natal, essa tradição ganha um gostinho nostálgico de querer recontar histórias entre a família, a ceia e a sensação de que elas aquecem o coração contra o frio europeu. É com isso em mente que o especial With Great Pleasure at Christmas, com o autor Neil Gaiman, reaviva a magia por entre as folhas dos pinheiros de cada casa e as folhas do papel.

Autor de grandes obras icônicas como SandmanDeuses Americanos e Coraline, Gaiman já tem uma presença, em si, mágica. Para esse especial da rádio BBC, ele ainda conta com diversos convidados para ler os textos escolhidos pelo autor como seus favoritos. Para nós, brasileiros, é a chance de conhecer nomes que não são tão reconhecidos por aqui e ainda ter o prazer de ouvi-los na língua original.

Por entre os convidados, temos Peter Capaldi. Ator que interpretou o 12th Doctor, o personagem mais icônico da cultura britânica, da série histórica de 55 anos Doctor Who, ele é certamente o culpado por dar ao especial o tom de um mágico ou professor (ou no caso um alien, como o Doctor), revelando mistérios por entre as palavras. O especial ainda conta com a presença de Nina Sosanya (Good Omens, Killing Eve); John Finnemore (Cabin Pressure); Mitch Benn (The Now Show) e Ukulele Orchestra of Great Britain.

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O especial da rádio BBC fica disponível para todo o mundo ouvir até dia 24 de janeiro de 2019. Então corre para clicar no link aqui e acompanhar o especial com todos os textos abaixo, na íntegra. Alguns estão traduzidos para o português.

Trecho de Mary Poppins Comes Back (A Volta de Mary Poppins, editora Zahar), de P.L.Travers, lido por Nina Sosanya. A introdução de Neil Gaiman é em 04:20, a leitura ocorre entre 06:50 e 07:49. Neil comenta que o primeiro livro que comprou com o próprio dinheiro foi com 6 anos, o primeiro volume de Mary Poppins. Já esse trechinho do segundo volume virou uma tradição na família do autor, de lê-lo toda vez que um bebê nasce. Como Mary Poppins pode falar com bebês, esse momento da história é um capítulo sobre nascimento, quando finalmente ficamos sabendo que bebês são feitos da terra, do ar, do fogo e da água. Significam a origem do mundo.

“Annabel remexeu as mãos dentro do cobertor.

— Eu sou terra e ar e fogo e água – disse ela suavemente. – Eu venho da Escuridão onde todas as coisas começam.

— Ah, essa escuridão! – suspirou o Estorninho, recostando a cabeça no peito.

— Era escuro dentro do ovo, também! – piou o Filhote.

— Eu venho do mar e das marés – continuou Annabel. – Eu venho do céu e das estrelas, eu venho do sol e de seu brilho…

— Ah, tão brilhante! – o Estorninho falou, concordando com a cabeça.

— E eu venho das florestas da terra.

Como num sonho, Mary Poppins balançou o berço – para a frente e para trás, para a frente e para trás, num embalo firme e constante.

— Sim? sussurrou o Filhote.

— Eu me movia muito devagar no começo – disse Annabel -, sempre dormindo e sonhando. Eu me lembrava de tudo o que fui e pensava em tudo o que vou ser. E quando terminei de sonhar meu sonho, despertei e vim ligeira”.

TRAVERS, P.L. A volta de Mary Poppins, São Paulo: Zahar, 2018, pp 156-157

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Fair Mistress Dorothy, de A.A.Milne, lido pelo elenco. Em 08:05 Neil Gaiman faz uma introdução, e o elenco começa a leitura em 09:47 e termina em 16:17. A página 1 pode ser lida aqui e a página 2 aqui. O humor do texto reside principalmente na leitura que os atores fazem, de forma caricata. Ele ganha vida com a leitura feita para o especial. E o texto é uma grande sátira da própria estrutura teatral, com piadas inseridas nas rubricas, tornando o texto, que seria informativo apenas para o ator que vai encená-lo, um personagem com tom próprio.  E muito confuso sobre o que está acontecendo na própria peça.

Captain Murderer, de Charles Dickens, lido pelo ator Peter Capaldi. A introdução de Neil Gaiman ocorre em 16:32, Capaldi lê entre 18:30 e 26:39. Logo abaixo o texto na íntegra, em inglês, e a tradução para o português pode ser lida em seguida. A leitura de Capaldi, em inglês, é poderosa e dá a vida necessária ao texto de Dickens, a ponto de chegar ao clímax e a gente querer ler junto de coração acelerado.

“The first diabolical character who intruded himself on my peaceful youth (as I called to mind that day at Dullborough), was a certain Captain Murderer. This wretch must have been an off-shoot of the Blue Beard family, but I had no suspicion of the consanguinity in those times. His warning name would seem to have awakened no general prejudice against him, for he was admitted into the best society and possessed immense wealth. Captain Murderer’s mission was matrimony, and the gratification of a cannibal appetite with tender brides. On his marriage morning, he always caused both sides of the way to church to be planted with curious flowers; and when his bride said, ‘Dear Captain Murderer, I ever saw flowers like these before: what are they called?’ he answered, ‘They are called Garnish for house-lamb,’ and laughed at his ferocious practical joke in a horrid manner, disquieting the minds of the noble bridal company, with a very sharp show of teeth, then displayed for the first time. He made love in a coach and six, and married in a coach and twelve, and all his horses were milk-white horses with one red spot on the back which he caused to be hidden by the harness. For, the spot WOULD come there, though every horse was milk-white when Captain Murderer bought him. And the spot was young bride’s blood. (To this terrific point I am indebted for my first personal experience of a shudder and cold beads on the forehead.) When Captain Murderer had made an end of feasting and revelry, and had dismissed the noble guests, and was alone with his wife on the day month after their marriage, it was his whimsical custom to produce a golden rolling-pin and a silver pie-board. Now, there was this special feature in the Captain’s courtships, that he always asked if the young lady could make pie-crust; and if she couldn’t by nature or education, she was taught. Well. When the bride saw Captain Murderer produce the golden rolling-pin and silver pie-board, she remembered this, and turned up her laced-silk sleeves to make a pie. The Captain brought out a silver pie-dish of immense capacity, and the Captain brought out flour and butter and eggs and all things needful, except the inside of the pie; of materials for the staple of the pie itself, the Captain brought out none. Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, what pie is this to be?’ He replied, ‘A meat pie.’ Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, I see no meat.’ The Captain humorously retorted, ‘Look in the glass.’ She looked in the glass, but still she saw no meat, and then the Captain roared with laughter, and suddenly frowning and drawing his sword, bade her roll out the crust. So she rolled out the crust, dropping large tears upon it all the time because he was so cross, and when she had lined the dish with crust and had cut the crust all ready to fit the top, the Captain called out, ‘I see the meat in the glass!’ And the bride looked up at the glass, just in time to see the Captain cutting her head off; and he chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Captain Murderer went on in this way, prospering exceedingly, until he came to choose a bride from two twin sisters, and at first didn’t know which to choose. For, though one was fair and the other dark, they were both equally beautiful. But the fair twin loved him, and the dark twin hated him, so he chose the fair one. The dark twin would have prevented the marriage if she could, but she couldn’t; however, on the night before it, much suspecting Captain Murderer, she stole out and climbed his garden wall, and looked in at his window through a chink in the shutter, and saw him having his teeth filed sharp. Next day she listened all day, and heard him make his joke about the house-lamb. And that day month, he had the paste rolled out, and cut the fair twin’s head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Now, the dark twin had had her suspicions much increased by the filing of the Captain’s teeth, and again by the house-lamb joke. Putting all things together when he gave out that her sister was dead, she divined the truth, and determined to be revenged. So, she went up to Captain Murderer’s house, and knocked at the knocker and pulled at the bell, and when the Captain came to the door, said: ‘Dear Captain Murderer, marry me next, for I always loved you and was jealous of my sister.’ The Captain took it as a compliment, and made a polite answer, and the marriage was quickly arranged. On the night before it, the bride again climbed to his window, and again saw him having his teeth filed sharp. At this sight she laughed such a terrible laugh at the chink in the shutter, that the Captain’s blood curdled, and he said: ‘I hope nothing has disagreed with me!’ At that, she laughed again, a still more terrible laugh, and the shutter was opened and search made, but she was nimbly gone, and there was no one. Next day they went to church in a coach and twelve, and were married. And that day month, she rolled the pie-crust out, and Captain Murderer cut her head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

But before she began to roll out the paste she had taken a deadly poison of a most awful character, distilled from toads’ eyes and spiders’ knees; and Captain Murderer had hardly picked her last bone, when he began to swell, and to turn blue, and to be all over spots, and to scream. And he went on swelling and turning bluer, and being more all over spots and screaming, until he reached from floor to ceiling and from wall to wall; and then, at one o’clock in the morning, he blew up with a loud explosion. At the sound of it, all the milk-white horses in the stables broke their halters and went mad, and then they galloped over everybody in Captain Murderer’s house (beginning with the family blacksmith who had filed his teeth) until the whole were dead, and then they galloped away”.

O texto em inglês foi retirado do site The Charles Dickens Page.

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“Se conhecêssemos bem nossas próprias mentes, num sentido mais amplo, desconfio de que iríamos concluir que nossas babás foram responsáveis pelos cantos mais sombrios do nosso espírito, a que somos sempre forçados a retornar, ainda que contra nossa vontade.

O primeiro personagem diabólico a invadir a tranquilidade de minha infância (como lembrei, buscando na memória, naquele dia em Dullborough) foi um certo capitão assassino. Esta criatura do mal deve ter sido descendente da família Barba Azul; embora, naquela época, a suspeita de consanguinidade não me ocorresse. A advertência no nome aparentemente não criara preconceitos contra ele que, dono de imensa fortuna, era muito bem recebido pela melhor sociedade. O objetivo de vida do Capitão Assassino era matrimônio, e a satisfação de um apetite canibal por ternas e tenras noivas.

Na manhã de cada casamento, ele sempre cuidava que o caminho até a igreja tivesse as laterais plantadas de flores exóticas. E quando a noiva dizia:

— Querido Capitão Assassino, jamais vi flores assim. Como se chamam?

Ele respondia:

— Guarnição para cordeiro à moda da casa — e ria de seu gracejo cruel, numa gargalhada horrível, provocando certo mal estar no cortejo nupcial com a inquietante mostra de dentes afiados e, até então, escondidos.

Costumava namorar numa carruagem de três parelhas, e se casava numa carruagem de 12 cavalos, todos brancos; um branco de leite quebrado apenas por uma mancha no dorso, que ele tinha o cuidado de esconder sob os arreios. Pois as manchas só apareceriam ali mais tarde, e os cavalos —quando comprados pelo Capitão Assassino —eram absolutamente brancos como o leite. As manchas vermelhas eram do sangue das noivas.(A esse ponto assustador da história devo minha primeira experiência pessoal de um calafrio e gotas frias na testa).

Quando o Capitão Assassino anunciava o final dos banquetes e festejos, dispensando a nobre companhia de seus convidados, e ficava a sós com a noiva, um mês depois do casamento, era seu estranho costume aparecer com um rolo dourado e um tabuleiro de prata. Ora, havia essa característica especial nos namoros do Capitão, que era a de sempre perguntar se a moça sabia fazer massa de torta; se não soubesse, por talento ou educação, era ensinada. Muito bem. Quando a noiva viu o Capitão Assassino aparecer com o rolo dourado e o tabuleiro de prata, lembrou-se disso e começou a enrolar suas mangas de seda rendada para fazer uma torta. O Capitão trouxe uma imensa fôrma de prata, e trouxe também farinha, ovos, manteiga e tudo o que era necessário para a massa, mas nada para pôr dentro dela. Ingredientes para o recheio, ele não trouxe nenhum.

Então a bela noiva perguntou:

— Querido Capitão Assassino, vai ser uma torta de quê?

— De carne — Respondeu o Capitão.

— Querido Capitão Assassino, não estou vendo a carne — disse a bela noiva.

O Capitão retrucou brincalhão:

— Olhe no espelho.

Ela olhou para o espelho, mas ainda não via a carne, e então o Capitão riu às gargalhadas e, de repente, fechando a cara e sacando a espada, ordenou que abrisse a massa. Então ela abriu a massa, sem parar de derramar copiosas lágrimas sobre ela porque ele estava tão zangado, e quando havia terminado de forrar o interior da fôrma e cortado um pedaço da massa para a tampa, o Capitão exclamou:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhou para o espelho, ainda a tempo de ver o Capitão lhe cortar a cabeça; e ele a cortou em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

O Capitão Assassino seguiu seu caminho, prosperando às maravilhas, até que precisou escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube qual escolher. Pois, embora uma fosse loura e a outra morena, eram ambas belíssimas. Mas a irmã loura o amava, e a morena o odiava, então ele escolheu a loura. A gêmea morena teria impedido o casamento se pudesse, mas não podia. Entretanto, na noite anterior, cheia de suspeitas a respeito do Capitão Assassino, ela escapuliu, escalou o muro do jardim, espiou pela janela por uma fresta da persiana e o viu afiando os dentes .No dia seguinte, passou todo o tempo atenta e ouviu-o fazer seu gracejo sobre o cordeiro á moda da casa. E, um mês depois, ele mandou a gêmea loura abrir a massa, cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Ora, a gêmea morena tivera suas suspeitas muitíssimo aumentadas pelo afiar dos dentes do Capitão, e depois pelo gracejo sobre o cordeiro à moda da casa. Juntando tudo, quando ele anunciou a morte de sua irmã, ela adivinhou a verdade e decidiu se vingar. Foi então até a casa do Capitão Assassino, bateu a aldrava, tocou a sineta e, quando a Capitão atendeu à porta, disse:

— Querido Capitão Assassino, case-se comigo agora, porque sempre o amei e tinha ciúmes de minha irmã.

O Capitão ficou lisonjeado, respondeu com um galanteio e logo o casamento foi marcado. Na noite de véspera, a noiva subiu outra vez à janela e novamente o viu afiando os dentes. Diante da cena, deu uma gargalhada tão terrível através da fenda da persiana que o sangue do Capitão gelou, e ele disse:

— Espero não ter comido nada que me tenha feito mal!

E ela, ouvindo isso, riu de novo, uma gargalhada ainda mais terrível. As persianas foram abertas e uma busca foi dada, mas ela saiu bem depressa e nada foi encontrado. No outro dia foram à igreja, numa carruagem de 12 cavalos, e se casaram. E, um mês depois, ela abriu a massa e o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Mas, antes de começar a abrir a massa, ela havia tomado um veneno mortal do pior tipo, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. E o Capitão Assassino mal acabava de chupar o último osso quando começou a inchar, a ficar azul, cheio de manchas e a gritar. E continuou a inchar e a ficar cada vez mais azul e mais coberto de manchas e a gritar, até ir do chão ao teto e de uma parede à outra. E então, à uma da manhã, ele rebentou numa enorme explosão. Com o barulho, todos os cavalos brancos como leite dos estábulos romperam os cabrestos e enlouqueceram, galoparam sobre todos na casa do Capitão Assassino (começando pelo ferreiro que lhe tinha afiado os dentes), até que todos estivessem mortos, e de lá saíram a galope”.

Fonte: Nefasto 

Differences of Opinion, de Wendy Cope, lido por Nina Sosanya. Introdução de Gaiman em 28:40, e a leitura entre 29:27 e 29:55.

HE TELLS HER

He tells her that the earth is flat —
He knows the facts, and that is that.
In altercations fierce and long
She tries her best to prove him wrong.
But he has learned to argue well.
He calls her arguments unsound
And often asks her not to yell.
She cannot win. He stands his ground.

The planet goes on being round.

ELE DIZ A ELA

Ele diz a ela que a terra é plana –
Ele conhece os fatos e é isso.
Em altercações ferozes e longas
Ela tenta o seu melhor para provar que ele está errado.
Mas ele aprendeu a argumentar bem.
Ele chama seus argumentos sem fundamento
E muitas vezes pede para ela não gritar.
Ela não pode vencer. Ele se mantém firme.

O planeta continua sendo redondo.

Retirado do Poetry Foundation. Tradução livre para o português.

Em 30:53 começa a tocar uma música com referência ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A performance é da banda  the Ukulele Orchestra of Britain.

The Open Window, de Saki, lido por John Finnemore e elenco. A introdução de Neil Gaiman é em 34:22 e a leitura entre 35:41 e 40:48. O texto pode ser lido em inglês aqui aqui.

Trecho de No Bed For Bacon, de Carl Brahms e S.J.Simon. Lido por Peter Capaldi entre 42:57 e 44:55, a introdução de Gaiman começa em 41:00.

Fonte: Amazon (look inside)

Me & Dorothy Parker, canção de Alan Moore, lido por Mitch Benn. Introdução de Neil Gaiman em 48:58. O quadrinho é de Michael Gaydos (ilustrador) e Roxanne Starr (texto).

As quatro páginas de quadrinhos podem ser lidas aqui.

No Caption Provided

The Wind In the Willows, de Kenneth Grahame. Lido por John Finnemore. A introdução é em 54:59 e a leitura entre 55:37 e 56:33.

“It was a pretty sight, and a seasonable one, that met their eyes when they flung the door open. In the fore-court, lit by the dim rays of a horn lantern, some eight or ten little field-mice stood in a semicircle, red worsted comforters round their throats, their fore-paws thrust deep into their pockets, their feet jigging for warmth. With bright beady eyes they glanced shyly at each other, sniggering a little, sniffing and applying coat-sleeves a good deal. As the door opened, one of the elder ones that carried the lantern was just saying, “Now then, one, two, three!” and forthwith their shrill little voices uprose on the air, singing one of the old-time carols that their forefathers composed in fields that were fallow and held by frost, or when snow-bound in chimney corners, and handed down to be sung in the miry street to lamp-lit windows at Yule-time”.

Fonte: TQE Magazine 

Era uma bela visão, e uma sazonal, que encontrou seus olhos quando eles abriram a porta. No pátio, iluminado pelos raios escuros de uma lanterna de latão, uns oito ou dez pequenos camundongos de campo estavam em um semicírculo, cobertores de lã vermelha em volta de suas gargantas, as patas dianteiras enfiadas nos bolsos, os pés balançando para se aquecer. Com olhos brilhantes, eles olharam timidamente um para o outro, com algumas risadinhas, fungando e se enfiando em seus sobretudos.  Ao abrir a porta, um dos mais velhos que levava a lanterna dizia: “Agora, um, dois, três!” E, imediatamente, suas pequenas vozes agudas se erguem no ar, cantando um dos velhos cânticos que seus antepassados compuseram em campos incultos e congelados pela geada, ou quando cobertos de neve nos cantos das chaminés, e transmitidos para serem cantados na rua árida até as janelas iluminadas por lamparinas no tempo de Yule.

A tradução é livre.

The Magic Wood, de Henry Treece. Lido ao final por Peter Capaldi. É preciso deixar o player terminar a transmissão, para aparecer automaticamente o player dessa última leitura. Capaldi torna cada verso um doloroso relato, como se tivesse visto o mundo inteiro nessa floresta à noite. É uma belíssima leitura do poema.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

I met a man with eyes of glass
And a finger as curled as the wrigglin worm
And hair as red as rotting leaves
And a stick that hissed like a summer snake

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He sang me a song in backwards words
And drew me a dragon in the air
I saw his teeth through the back of his head
And a rat’s eyes winking from his hair.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He made me a penny out of a stone
And showed me the way to catch a lark
With a straw and a nut and a whispered word
And a penn’orth of ginger wrapped up in a leaf

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He asked me my name and where I lived
I told him a name from my Book of Tales
He asked me to come with him into the wood
And dance with the kings from under the hills

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

But I saw that his eyes were turning to fire
I watched the nails grow on his wriggling hand
And I said my prayers all in a rush
And found myself safe on my father’s land.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

Fonte: Live Journal

“A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Eu conheci um homem com olhos de vidro

E um dedo tão enrolado quanto o verme contorcido

E cabelos tão vermelhos quanto folhas apodrecidas

E um graveto que assobiava como uma cobra de verão

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me cantou uma canção em palavras invertidas

E me desenhou um dragão no ar

Eu vi os dentes dele na parte de trás da cabeça dele

E os olhos de um rato piscando de seu cabelo.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me fez um centavo de uma pedra

E me mostrou o caminho para pegar uma cotovia

Com um canudo e uma noz e uma palavra sussurrada

E migalhas de gengibre embrulhadas em uma folha

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me perguntou meu nome e onde eu morava

Eu disse a ele um nome do meu Livro de Contos

Ele me pediu para ir com ele na floresta

E dançar com os reis sob as colinas

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Mas eu vi que seus olhos estavam se voltando para o fogo

Eu assisti as unhas crescerem em sua mão contorcida

E eu disse minhas orações todas com pressa

E me encontrei seguro na terra do meu pai.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!”

*Esta matéria foi produzida a partir da disponibilização dos links que o perfil @brinatello cedeu numa thread do twitter, e eu incluí minhas traduções e de outros sites para alguns dos textos citados.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Adoração dos Magos, de Andrea Mantegna

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Adoração dos Magos, de Andrea Mantegna

the adoration of the magi andrea mantegna

Publicado no site Artrianon

A Adoração dos Magos (1460), de Andrea Mantegna, é uma das imagens mais clássicas por entre a iconografia natalina. Tomada como uma espécie de figuração da Incarnação, ela é o encanto diante de Deus na forma humana de Jesus Cristo. A força da imagem reside no instante em que ela representa o reconhecimento de Deus incarnado no bebê e os homens sábios que se colocam em devoção diante da criança abençoada.

Trata-se dos três magos que homenageiam o Menino Jesus, que por sua vez faz um sinal de bênção. Jesus Cristo, a sua mãe, a Virgem Maria, e o marido de Maria, José, têm halos e vestem roupas simples, enquanto os Magos estão vestidos com roupas e joias exóticas, trazendo presentes. Caspar, com barba e cabeça descoberta, apresenta ao Menino Jesus uma rara xícara chinesa, feita de porcelana delicada e cheia de moedas de ouro. Melquior, o rei mais jovem e barbado, atrás de Caspar, segura um incensário turco para perfumar o ar com incenso. À direita, Balthasar, o Mouro, carrega uma taça coberta de ágata.

Na obra, a composição de figuras e objetos de Andrea Mantegna comprimida dentro de um espaço raso baseou-se em seu estudo de antigos relevos romanos. O efeito, ao comprimir os personagens, concede um destaque que torna a adoração à figura divina mais próxima do espectador e o único foco a se concentrar. Além disso, existe uma tensão na qual Maria e José hesitam, em certa medida, ao apresentar a criança, e da parte dos Magos é posto o momento em que se revela ao entendimento o significado do Menino Jesus.

As expressões faciais dos personagens em cena também são relevantes para criar a ideia de veneração à figura de Jesus Cristo. Maria olha de forma delicada para o filho, enquanto a figura dos Magos exprimem adoração, com as cabeças colocando-se à frente em gesto devotado.

A precisão da forma também é uma qualidade destacável de Mantegna. O fundo em preto enfatiza o contorno dos personagens e leva os olhos a passear pelas expressões e pelos detalhes dos objetos. Assim, a xícara de porcelana é feita com a extrema delicadeza em branco e em dourado; o incensário brilha em laranja; e a taça é feita de ouro e pedras. É importante o trabalho de Mantegna nos objetos, pois a riqueza desses como presentes à divindade entram em contraposição com a simplicidade das vestes de Maria e José.

Assim, a obra de Mantegna se concentra inteiramente na ideia de exaltar a adoração à Jesus e por ilustrar a cena bíblica de forma que o espectador vivencie a proximidade da beleza dos presentes delicados cedidos ao Menino Jesus e, principalmente, dar notoriedade ao gesto de revelação da criança como Filho de Deus.

Bibliografia

CARR, Dawson William. Andrea Mantegna: The Adoration of the Magi. Los Angeles: Getty Museum Studies of Art, 1997

Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

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Os Miseráveis, de Victor Hugo, é um dos livros mais emblemáticos sobre a história da França. Já virou filme com Gérard Dépardieu, musical na Broadway, e adaptação também musical para o cinema, com indicações ao Oscar.

Agora, a história de Jean Valjean poderá contar também com a versão da BBC One em um drama de seis partes. Desta vez o roteiro será baseado no romance clássico do século XIX e não será um musical. O trailer liberado no início de dezembro dá uma ideia do heroísmo trágico e romântico presente nas adaptações da obra. E apresenta o seu rico elenco: Lily Collins, Dominic West e Olivia Colman. O confronto clássico entre Jean Valjean (West) e a instituição policial na forma de Javert (David Oyelowo) permanecem como o tom principal, no trailer.

O roteirista e produtor Andrew Davies é responsável pela adaptação e tem uma coleção de sucessos na TV com clássicos. Ele criou a versão de 2016 de War and Peace (Guerra e Paz), de Tolstói, além de ser responsável pela versão de 1995 do Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), com Colin Firth na sua popular interpretação de Mr.Darcy. “Esta é uma história tão intensa e angustiante”, explicou Davies. “Estou muito contente que este estimado conjunto de atores esteja dando vida a ele.”

Sobre o elenco, Davies tem nas mãos nomes grandiosos. Liderando as seis partes da série BBC One está Dominic West, de The Hour, interpretando Jean Valjean ao lado de David Oyelowo, do filme vencedor do Oscar 2013 12 anos de escravidão, como seu eterno rival Javert. Fantine será interpretada por Lily Collins, de Espelho, Espelho Meu e To The Bone, enquanto Adeel Akhtar fará o papel de Monsieur Thénardier, Josh O’Connor será Marius e Ellie Bamber, Cosette. Olivia Colman, de Broadchurch e futura rainha Elizabeth II em The Crown, irá interpretar Madame Thénardier.

Les Miserables
Lily Collins como Fantine
Olivia Colman interpreta Madame Thénardier

Após a notícia de que ela estaria interpretando Fantine, Lily Collins disse para o Radio Times: “Estou muito feliz. A dramatização maravilhosa de Andrew expande a personagem de maneiras novas que nunca vi antes em adaptações anteriores”. Davies reforça que há muito mais para ser contado de Les Misérables do que apenas as versões musicais e promete trazer a carga dramática da obra clássica de Victor Hugo.

A série está prevista para 30 de dezembro de 2018 na BBC One (IMDb).

Fontes: RadioTimes Bustle