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Um mundo inteiro em um abraço

Maternal Carres, de Mary CassattAcordei numa sensação de convalescência. Depois de alguns dias de cama (nada sério), pensei que não iria escrever algo sobre minha mãe. De início sempre parece difícil acertar. “Para mim só meia dúzia de palavras está bom”, ela disse. A questão é que nem meia dúzia, nem centenas de palavras acertam em cheio para falar da minha mãe.

Ontem vi um pouco de Tom e Jerry e, quando vejo o desenho na TV, recordo, no mesmo instante, dos dias em que sentávamos à mesa da sala, eu desenhando os personagens do desenho, enquanto minha mãe escrevia a história que eu contava. Ainda em início de alfabetização, eu não sabia escrever. Mas não deixava de registrar a história. No fim, a gente juntava as páginas e fazia uma brochura usando durex colorido (tinha que ser colorido, para apresentar um trabalho estético sério). E aqui surgiam pequenas HQs de uma menina de seis anos e sua mãe sobre gatos e ratos e, creio, o início do meu gosto por contar histórias e escrever.

Sempre acho curioso quando eu e minha mãe lembramos de pequenos instantes em que a surpreendia, junto ao meu pai, quando eu dizia que um prédio estava machucado ao vê-lo em reforma. No hospital, eu dizia para ela que ficaria tudo bem após o exame de sangue, que não iria doer (como contei aqui), usando as mesmas palavras que ela disse para mim. O registro da minha história é feito junto com a minha mãe e, nisso, a companhia vai além do que essa relação pré-estabelecida nomeada família. Já é um vínculo que criamos a cada instante vivido.

Os finais de semana em que eu saía para mostrar imóvel com meus pais se tornavam pequenas aventuras porque, além de fazer parte do trabalho deles, aprendi a gostar de ver prédios vazios, antigos, imaginar quem havia morado naquele apartamento. A cada vez que os acompanhava, minha mãe sempre dava um jeitinho de comprar gibis da turma da Mônica – melhor ainda quando era o Almanacão, com inúmeros desenhos para pintar – e a gente inventava pequenos jogos quando precisava esperar no carro por algum cliente que estava para chegar. Escolhia uma palavra e dava pistas sobre ela. Eram jogos infinitos que, de certa forma, me levaram a gostar das palavras. E o melhor, na ingenuidade do brincar infantil e da descoberta.

No fim das contas, é muito simples lembrar do que vivo com a minha mãe. Porque a memória é tão infinita quanto aqueles jogos de palavras. E essas, que eu escrevo hoje, não só se iniciaram por aquelas páginas desenhadas e registradas pela minha mãe, mas estavam em potência no silêncio vivido e encontrado em seus abraços, nas fotos em que eu sorria com ela quando ainda era pequena. No amor mútuo construído em cada segundo, engrandecido pela memória que destaca o momento em que percebo, mais e mais, o quanto vale um mundo inteiro estar ao seu lado.

***** Imagem de capa: Maternal Carres, de Mary Cassatt (1896)

Leia também: As vésperas de uma ceia 

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A arte de pedir, de Amanda Palmer

Resenha publicada no site Indique um livro

A arte de pedir, editora Intrínseca, 2015, 293 páginas.

amanda palmer the art of askingA dificuldade de pedir é a mesma que bloqueia a conexão humana. A impressão de sempre ter uma patrulha analisando se você é ou não uma farsa e, assim, será logo julgado por pedir ajudar, por pedir uma troca. É sobre isso que se trata a bela autobiografia da cantora e compositora Amanda Palmer. De início, é possível se questionar como este pode ser um tema abrangente, capaz de servir de fio condutor de um livro. Logo a pergunta se dilui e encontramos muitos motivos para ela ser discutida.

Primeiro, é necessário que se saiba que este livro foi fruto de um trabalho de três meses de Amanda após ser convidada a escrevê-lo em razão de sua palestra no TED, que teve milhões de visualizações e leva o mesmo título. Mas por que tratar da arte de pedir? Amanda foi estátua viva por cinco anos, a começar em 1999, incorporando em dois metros sustentados sob sol e chuva em um engradado A Noiva, em sua face e vestidos brancos. O relato deste período preenche o coração do leitor de uma maneira inexplicável. Se a arte de pedir é dar um gesto convidando a proximidade, é aqui que Amanda conquista, logo, o carinho e respeito do leitor. Da mesma forma que cedia o seu corpo para criar aquela personagem e entregava uma singela flor como uma dádiva ao desconhecido passante.

amanda palmer the bride

Este contato com um público diário, com pessoas que ajudavam pagando um café ou dando as flores que sobravam no final do dia já mostrou para Amanda como é preciso pedir. Pois arte é troca. Pedir em todos os âmbitos da vida. Se a família quer ceder ajuda para pagar a faculdade, não aceitar porque haverá os outros que podem pensar o quanto você é fraco em aceitar é o grande ponto que Amanda questiona. Qual é o problema em pedir ajudar? Em deixar-se ajudar? São os outros o problema?

A questão se aprofunda no decorrer da autobiografia da cantora. Com a banda chamada The Dresden Dolls, ela se apresentou inúmeras vezes por tantas cidades que surpreende como alguém tenha quase conhecido todo o mundo, pela estrada. E foi nela que Amanda e sua banda precisaram contar com esta arte de pedir. Um público foi se formando no boca a boca, um presenteava o outro com um CD, Amanda os confeccionava na cozinha da casa de algum adorável desconhecido que cedeu o sofá ou o quarto para a banda passar a noite. O final de cada show era um acontecimento, quando autografava todos e ouvia as histórias dos fãs. Foi nesta ajuda misteriosa, vinda de estranhos que só queriam fazer parte do processo criativo de Amanda e ajudar por ajudar, é que a arte de pedir foi sendo constatada.

Amanda Palmer foi uma das primeiras que fez da Internet uma aliada para a sua arte. Como precursora do uso do site Kickstarter, ela teve a brilhante ideia de pedir doação aos fãs para fazer o seu CD, depois de uma disputa estressante com a gravadora que não repassava praticamente nenhum valor das vendas. Muitos críticos, logo, diminuíram o seu ato para um “mero mendigar”, “que a verdadeira arte não se faz assim, mendigando dinheiro para os outros”, e outras falas absurdas.

A cantora, então, alcançou um milhão de dólares em poucos dias pelo Kickstarter. Produziu seu álbum, pagou toda a banda na tour que organizou. O fã podia escolher o valor que pagaria, se iria querer pagar mais para receber brindes – que aliás, deram um trabalho imenso para Amanda encomendar – e até pocket shows pelo mundo inteiro. Aqui ficou comprovado como Amanda Palmer tinha um contato que muitos cantores precisam aprender a cultivar. E, olha só, hoje, nós podemos criar projetos literários, CDs, o que for, pelo site brasileiro Catarse.

Só para se ter uma ideia da vantagem de Amanda permanecer conectada às pessoas pelas redes sociais, eu acompanhei o processo de escrita e revisão dela no facebook, as épicas 72 horas em que ela, a agente literária e Neil Gaiman (sim, ela é esposa de Neil Gaiman!) revisaram as mais de 300 páginas de uma só vez, confinados em um quarto de hotel. O resultado não poderia ter sido melhor. Amanda migra das gírias às frases que se tornam facilmente inesquecíveis sobre o seu trabalho.

Desta forma, a leitura da autobiografia de Amanda Palmer surpreende da melhor maneira possível. Você ingressa neste mundo cultivado na vida da cantora, nas suas inseguranças muito semelhantes às nossas, encontra um apoio em quem também vive a arte como constante dádiva.

E vale dizer que ter visto uma estátua viva nas ruas me fez sentir uma emoção renovada, após a leitura de seu livro. É como se Amanda abrisse outras perspectivas sobre a vida que não irá abandonar o leitor. Serão dias compartilhados com a autora e, mais uma vez, ela criará vínculos com pessoas ao redor do mundo. A arte de pedir é um excelente convite. Pegue a flor e agradeça.

Há muito para se conhecer de Amanda Palmer. Acompanhe sua página no facebook e o perfil no Twitter, procure seu posicionamento feminista também em posts e matérias. Assista sua palestra no TED, The art of asking, legendada. Escute seu album The Dresden Dolls (é fantástico, tem um quê de cabaret circense), Theatre is Evil e Who Killed Amanda Palmer. E a música e o clipe de The Bed Song é uma das mais poéticas.

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[Inédito] Van Gogh e Paul Gauguin reunidos em foto rara

Publicado no site Literatortura 

Este é um documento excepcional que acaba de ser exumado e o qual o site L’Express revela a sua existência: Vincent Van Gogh e Paul Gauguin posam em uma mesma fotografia. Esta é a primeira vez que esses dois artistas considerados geniais na história da arte figuram em um mesmo clique.

Tal descoberta extraordinária foi possível pelo célebre marchand de fotografias, Serge Plantureux. Apenas algumas raras fotografias de Van Gogh, quando criança, haviam sido apresentadas até hoje. Contudo, nós podemos ver aqui, pela primeira vez, talvez, o grande pintor holandês na idade adulta (outros retratos circulam, mas os quais têm sua autenticidade discutida). Ele é o terceiro contando da esquerda, com um cachimbo nas mãos.

Detalhe (um tanto difícil de ser visualizado): sobre a mesa está repousando – no primeiro plano, diante da garrafa – o famoso chapéu em pele de coelho de Van Gogh, com o qual ele se representa em seu célebre autorretrato com a orelha cortada, em janeiro de 1888.

Rue Blanche, em Paris

Paul Gauguin está na extrema direita. Ele veste um “bragou berr”, calça bufante tradicional da região de Pont-Aven, onde ele se instalou em 1886. Na data em que este registro foi feito – imagem em cartão, de 9 centímetros por 11 -, ele acaba de retornar de uma viagem ao Panamá.

Este clique histórico é datado do fim de 1887, sem dúvida do mês de dezembro. Ele foi tirado no pátio da Rue Blanche, 96, em Paris, onde André Antoine havia convidado jovens artistas à expor no Théâtre-Libre. Van Gogh apresenta, também, um quadro neste anexo, Le jardin avec amoureux. Estão igualmente presentes na fotografia Emile Barnard (o segundo a partir da esquerda, com uma barbicha), pintor que havia reencontrado Paul Gauguin em Pont-Aven no ano anterior; Félix Armand Jobbé-Duval (o segundo contando da direita), artista bretão próximo de Gauguin; André Antoine, no centro; e Arnold Koning, um amigo dos irmãos Van Gogh (na extrema esquerda, com a boina).

O quadro exposto por Van Gogh, em 1887, Le jardin avec amoureux

Entre 120 mil e 150 mil euros

A pesquisa de Serge Plantureux, que já havia revelado uma foto inédita do escritor e poeta Charles Baudelaire (aqui), em 2013, pôde comprovar que todos esses artistas, quase personagens para a posteridade, estavam em Paris no mês de dezembro de 1887. Van Gogh somente partirá em fevereiro de 1888 para Arles, com as trágicas consequências que conhecemos: a violenta disputa com Gauguin, ameaçado com uma navalha, antes de o pintor holandês cortar a orelha. Esta cena terrível irá ocorrer em dezembro de 1888, exatamente um ano após a foto tirada na rue Blanche.

Por fim, este precioso clique for recuperado por Serge Plantureux do acervo do editor e bibliotecário Ronald Davis, fornecedor oficial da família Rothschild. Será oferecido em leilão no dia 19 de junho, em Bruxelas, em uma venda de fotografias antigas. Está estimado entre 120 mil e 150 mil euros.

Fonte: L’Express

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Reinvenção do abandonado

caneta kerbyrosanes sketchy stories

Uma peça se sobrepõe à outra e compõe um engenhoso sistema que indivíduos por aí levam nos bolsos. Uma máquina que, nas mãos humanas, traz à tona as mais insanas ideias que, postas no papel, se concretizam como um grande mundo fundado. Um mundo que se reinstala no mundo onde este pequeno dispositivo está apenas guardado nos bolsos e estojos de alunos.

A verdade é que, se elas somem por entre o cotidiano, são porque precisaram de restauro. Uma nova peça interna para esta grande e massiva nave que, vista por fora, é apenas um objeto diário. É preciso, primeiro, abri-la para recolocar a peça. Homenzinhos passam um ao outro a peça, isolam a área com cones, tais como parados numa estrada. Perambulam pelos corredores desta potencial nave para chegar, enfim, ao grande ponto: os canos levam a uma ponta externa. A tinta é reposta e aguarda ser usada e ser libertada.

Elas não são vistas propriamente como instrumentos de criação. São mais vistas como objetos necessários nos momentos em que se precisa anotar alguma coisa. É sempre em vista de algo que se torna importante do nada. Logo é esquecida no fundo da bolsa. Se ela mancha o papel, irrita. Mas não é bem sua culpa. Às vezes vaza tinta pelo pedido de escrever mais.

Desenhistas fazem delas o essencial. E escritores também. Como uma boa amiga à disposição destes mesmos instantes efêmeros. O que eles fazem é recolocar este objeto em sua devida importância. Veio uma ideia? Ela é quem socorre.

É por isso que os pequenos instantes guardam novos mundos. E a escrita é o eterno reconstruir. E tudo pode começar por esta pequena forma comprida e com tampa. Ela se ergue imponente no papel e encara a ponta como se esperasse o que pode sair. Mas a mão que a incorpora é o grande segredo. O gesto no papel é inaugurador e projeta, incessante, a tinta. A caneta guia-se pelo artista, a escrita nasce e está no ínterim do processo também, na hesitação, no colocar a caneta sobre o papel. Na ideia, no desenvolvimento, na recriação, na releitura, na ponderação. Um grande empreendimento sobrevivente é a escrita.

****A imagem de capa é da página no facebook Sketchy Stories, de Kerby Rosanes (veja seus trabalhos aqui)

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Os 217 anos de Delacroix e seus diários

Publicado nos sites Indique um livro e Literatortura

delacroixjournalTer nas mãos o diário de alguém é uma experiência, no mínimo, curiosa. Como se fosse necessário embrenhar-se pelas confissões de um desconhecido durante a madrugada, com a lanterna acesa e escondido de olhares à espreita. Esta é a primeira impressão que temos ao imaginar-se lendo um diário. Agora, pense como é ter em mãos o volume de um diário acalentado por um pintor excepcional. A atmosfera é tão misteriosa quanto a que foi narrada. Encontrar na biblioteca o primeiro dos três volumes dos Diários do pintor romântico Eugène Delacroix, no idioma original, é o mesmo que acessar e respirar, por uma janela, o século XIX. E é em vista do aniversário do pintor, comemorado no dia 26 de abril, que aqui você poderá conhecer alguns trechos traduzidos, por mim, do primeiro volume. Breves comentários sobre pintores, sobre sua criação, e o que significa ser artista.

Em 26 de abril de 1798, nascia Eugène Delacroix, em Charenton-Saint-Maurice. Como parte de uma família tipicamente burguesa, recebeu sua educação artística, após perder o pai aos sete anos, no Lycée Impérial. Em março de 1816, iniciou, então, os estudos na Beaux Arts. Curiosamente, no mesmo ano, Delacroix ingressou na Cabinet des Estampes da Biblioteca Nacional, onde copiava, por muitos anos, manuscritos do período medieval.

Com uma educação admirável em música, Delacroix também era um grande leitor de latim e grego, além de contemplar as obras de Dante Alighieri, Virgílio, Shakespeare, Racine, Voltaire e Lorde Byron. Não é à toa que o artista transferiu às telas cenas literárias, como A barca de Dante (1822), Hamlet e Horácio no cemitério (1835).

A obra mais conhecida de Delacroix

O quadro A Liberdade guiando o povo às barricadas (1831) se inscreve em um ideário de heroísmo, personificado na forma de uma mulher, no caso pertencente à classe operária e que comanda uma multidão. Engana-se quem crê que Delacroix decidiu fazer da Liberdade e sua obra a grande e única representação da República. Em meio a tantas definições da Liberdade como alegoria nas artes, o momento que fervilhava na História acabou por dar à figura da Liberdade a representação que o povo via nela.

Após uma desilusão política, de uma expectativa por um liberalismo que não veio, Liberdade guiando o povo foi exposta mais uma vez em 1848 (depois de ser ocultado em exposições várias vezes) e ganhou uma nova conotação. Este período também pode ser encontrado em Os Miseráveis, de Victor Hugo, e não é aleatório o fato de que algumas edições trazem a obra de Delacroix na capa. A Liberdade acabou erguendo a bandeira que muitos que a seguiam desejavam segurar nas mãos. Por isso, quando pensamos em heroísmo que caminha entre corpos desfalecidos, mas sem temor, não é incomum lembrar desta Liberdade.

O grande representante do Romantismo

Falar de Delacroix é trazer à tona, obviamente, a densidade de um século que começava a lidar de forma distinta com o tema proposto pela Academia, a nudez feminina e, por consequência, a presença constante e quase fantasmagórica dos grandes nomes da pintura, evocados nos Salões e entre os críticos, como Rafael, Leonardo, Rubens, Caravaggio.

Diante disso, é ilusão, em primeiro lugar, crer que uma obra artística encontrou recepção calorosa desde sempre. Estudando não apenas o trabalho de Delacroix, mas o de Ingres, de Manet, e outros pintores do século XIX  – para não ir tão longe-, é possível encontrar uma linha tênue entre o breve reconhecimento na época e o processo de criação que avançava baseado na intenção do próprio pintor.

Para tratar rapidamente de Romantismo, é só mencionar a referência à obra Sardanapalus – a tragédia, do autor-símbolo do Romantismo Lorde Byron, no quadro A morte de Sardanapalo (1827). A história é a do rei assírio que precisa por fim a todos os seus bens – o que incluía o harém de escravas e seu ouro – e se suicida por entre o fogo a fim de não se entregar. Na obra literária, o personagem soa mais heróico e se entrega ao fogo junto com sua amante Myrrha. Porém, com três cores, o cenário é outro pelas tintas de Delacroix. O vermelho que tinge a cena, a pele perolada das jovens entregues à morte e o dourado que ostenta a riqueza do personagem se somam em uma espécie de vórtice atormentado, que converge para o espanto diante do olhar complacente de Sardanapalo. A obra provoca, assim, o horror diante da morte e placidez do personagem, e engrandece as figuras femininas, que lutam em um último instante de vida. O heroísmo, aqui, ganha novas faces.

Diálogos com o passado

Delacroix via em Rubens e Géricault a realização do que ele queria alcançar com suas obras. Nos Diários, Delacroix enaltece Géricault, “que sublime modelo e que precioso presente deste homem extraordinário” (DELACROIX, p. 66). Mas Delacroix não expunha o claro e o escuro de Géricault que, por sua vez, se seguia de Caravaggio. A cor era o grande princípio do pintor romântico e uma característica que advinha, em certa medida, de Rubens.

Oposição ao neoclassicismo

Não tem jeito, quando falamos sobre a biografia de alguém, os conflitos sempre retornam. Só que, neste caso, havia uma grande oposição entre Delacroix e simplesmente o pintor neoclassicista Ingres. Por parte de Delacroix, a relação era de admiração, tanto que coloca Ingres, nos seus Diários (p.74) entre os artistas em que encontra um trabalho de grande mérito, assim como em Velasquez, Leonardo, Bertin. Por outro lado, Delacroix incomodava Ingres, que chegou a afirmar que ele e Géricault eram “apóstolos do feio”. O grande ponto que se apresenta como a distinção entre ambos é que Delacroix era um colorista, algo que Ingres abominava e defendia a sua submissão total à linha. Este era o seu princípio, em um trabalho que poderia chegar a durar décadas, para alcançar, enfim, o Ideal que ele defendia pela execução da linha.

Por isso que, ao observar suas obras, o destaque dado à linha fica claro nas formas de A Grande Odalisca, O banho turco. A questão é que não dá para afirmar que os dois estão tão distantes assim. A cor em Ingres é também participativa da obra e a linha se apresenta em Delacroix, com um arabesco unido à cor. Em A morte de Sardanapalo (acima), é bem interessante constatar como a linha e a cor formam, juntas, um vórtice que converge ao personagem, porém é a cor, ainda, que tem a grande função de destacar a morte. Por isso, é muito mais complicado colocar os dois tão distantes assim, já que compartilhavam o mesmo século.

A viagem ao Marrocos

Em 1832, Delacroix fez uma viagem ao Marrocos. O quadro Mulheres da Argélia (1834) apresenta como o pintor visualizou o Oriente pelo exotismo idealizado nas paredes adornadas por azulejos, a porta em vermelho vibrante, os tons complementares das vestimentas femininas em grande contraste. Toda a atmosfera se torna pulsante e viva, e é ela que foge, em certa medida, do imaginário do século XIX de um Oriente feito apenas por odaliscas sedutoras.

Nos Diários, vol.1, Delacroix relata sobre as colunas de mármore brancas que encontra, os locais visitados, almoços com o cônsul, é um mundo se descortinando ao pintor que vivia em torno da vida parisiense.

Os Diários de Delacroix

Em três volumes, cada um tendo por volta de 700 páginas, Delacroix relata a sua vida. É um diário que tem comentários sobre música, pintura, e não escapa aos devaneios do artista sobre alguma mulher que conhece em seu meio. Fala dos pintores que o inspiram, das cópias de obras em que trabalha indo ao Museu do Louvre. E o curioso é encontrar até mesmo algumas breves tabelas de gastos com o almoço, o jantar, as tintas.

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Infelizmente, não há tradução destes Diários (chamado de Journal), há apenas a versão original, em francês, em poucas bibliotecas. É por isso que resolvi traduzir alguns trechos do volume 1, disponível na biblioteca Florestan Fernandes, da USP (tem os outros volumes também). É uma forma  de conhecer um pouquinho das palavras de Delacroix no dia de seu aniversário.

Sobre o processo de criação: “Fazemos sempre coisas as quais não estavam nos planos, e por conseqüência são (escolhas) ruins. Mais as fazemos, mais as encontramos. A cada instante, me vêm excelentes ideias, e no lugar de colocá-las em execução, no momento onde elas são sonhadas do charme que emprestam da imaginação na disposição onde ela se encontra no momento, nós prometemos em fazer mais tarde, porém, quando? Nós esquecemos, nós não encontramos mais nenhum interesse àquele que surgiu próprio à inspiração (…) Elas estarão lá, então, postas em reserva para esperar friamente o retorno, e jamais a inspiração do momento irá animá-las com o sopro de Prometeu: será necessário tirá-las da gaveta, quando for preciso fazer um quadro! Esta é a morte do gênio. O que se passa essa noite? Eu estou, há uma hora, ponderando entre (as ideias de quadros) Mazeppa, Don Juan, le Tasse, e cem outras ideias” (DELACROIX, p.73).

Este trecho é muito, muito importante pelo simples fato de Delacroix demonstrar, claramente, que o pintor, sobretudo o artista romântico, não é um gênio. Suas ideias não são postas no quadro depois de rompantes apaixonados e delirantes que a inspiração os deu, como se tende a crer quando definimos o romantismo. É um trabalho de ponderação, escolha, execução, e mesmo o de descartar ideias.

Sobre pintura: “A primeira coisa e mais importante na pintura são os contornos. O resto será extremamente negligenciado que, se eles estão lá, a pintura é fechada e terminada” (DELACROIX, p. 69). Isso faz pensar com mais profundidade a questão de nomear Delacroix apenas como um colorista, como se o trabalho da linha, responsável pelo contorno, fosse só mérito e escolha de Ingres.

“Quando você descobrir uma falha em você, em vez de dissimulá-la, suprima uma parte do papel e seus erros, corrija-se. Se a alma combate somente com o corpo! Mas ela tem também más inclinações, e é necessário que uma parte, a mais reduzida, mas a mais divina, combata a outra sem descanso. (…) Quando eu faço um belo quadro, eu não escrevo um pensamento. É isso o que eles dizem. Que eles são simples! Eles suprimem da pintura todas suas vantagens. O escritor diz quase tudo para ser compreendido. Na pintura, ele se estabelece como um ponto misterioso entre a alma dos personagens e a do espectador. Ele vê as figuras, da natureza exterior, mas ele pensa interiormente, da verdade pensada que é comum a todos os homens: àquelas que dão um corpo ao escritor, mas alterando sua essência delineada. Também os espíritos grosseiros são mais mudos os dos escritores do que dos músicos ou dos pintores. A arte do pintor é tão íntima do coração dos homens que ela parece mais material, porque nele, como na natureza exterior, a parte é feita vastamente à qual é terminada e à qual é infinita, isso quer dizer que a alma encontra o que mexe interiormente nos objetos e que afetam os sentidos”. (DELACROIX, p.17-18)

“Cada homem se inquieta muito mais com a menor de suas misérias do que com as incomparáveis calamidades de uma nação inteira” (DELACROIX, p. 18).

Referência bibliográfica: DELACROIX, Eugène. Journal. Tome premier, 1822-1852. Nouvelle édition, publiée d’après le manuscrit original avec une introduction et des notes par André Joubin. Paris: Librairie Plon, 1932.

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Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.

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O Hotel Biblioteca: ‘por favor, me deixe ler’

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Publicada no site Literatortura 

Livros se proliferam pela casa, surgem entre guarda-roupas, móveis esquecidos, mesas de cabeceira, estantes, e encontram, na casa, uma forma de se enraizar vivamente entre nós. Pensando nestes livros que respiram pela casa, eu me deparei com a curiosa matéria no G1 sobre o Library Hotel (Hotel Biblioteca). Imagine como seria se hospedar em um hotel que possui livros por toda parte. Como um grande achado entre os acervos dos hotéis pelo mundo afora, o Library Hotel (Hotel Biblioteca) possui livros a todo canto, pois são mais de 6 mil exemplares, espalhados nos quartos, no lobby e em outras áreas comuns.

Além disso, o hotel é organizado como uma grande biblioteca, com cada um dos dez andares separados em áreas (arte, filosofia, linguagem, entre outros). Os quartos têm nomes como Quarto das Biografias, Quarto do Design de Moda, Quarto do Amor e Quarto da Astronomia – esse último tinha como hóspede frequente o astronauta Neil Armstrong.

Mais ainda, a título de curiosidade, no hotel, os típicos avisos pedindo para não incomodar ou para limpar o quarto foram renomeados para ‘Por favor, me deixe ler’ e ‘Por favor, tire o pó dos meus livros’.

Algumas hipóteses vieram à tona enquanto eu lia a matéria. E se, de alguma forma, os gêneros dos quartos modificassem o comportamento de cada hóspede? Um leitor de Poe ouviria batidas no assoalho, e insistiria com o concièrge que havia algo de errado com o hóspede do andar inferior.

-Ele deve estar batendo alguma coisa no teto, isso porque nem fico andando pelo quarto, sou tranquilo! Por favor, faça algo a respeito, reclama lá.

O concièrge checaria na lista de hóspedes e veria que o quarto abaixo do rapaz exasperado à sua frente estava vago, e em reforma, destruído por um bêbado aborrecido por uma crise existencial que deixara cacos de vidro por todo o carpete, e pequenas manchas de sangue ao pisar em alguns deles. Realmente difíceis de remover, vale dizer.

A noite viria novamente, e os sobressaltos com o assoalho pulsando em desespero deixariam o rapaz sem dormir, mais uma vez. Até começar a achar suspeito o olhar que o Poe emoldurado dirigia a ele do outro lado do quarto temático. O livro do autor deixado de cortesia pelo hotel, na cabeceira, daria a resposta que o assoalho vinha gritando há três noites. A história do rapaz ficaria lembrada como mais um surto de um hóspede que, no caso, arrancou a unhadas os velhos assoalhos do quarto para descobrir que não havia coração algum por lá. Apenas o seu, descontrolado, ainda no corpo.

Um hotel biblioteca precisaria lidar com esses rompantes de desespero, ira ou euforia dos leitores. Por exemplo, dirigir a crítica ao balcão, de que o livro deixado na cabeceira, do único quarto vago, não havia sido uma leitura prazerosa. O dinheiro seria devolvido? Haveria uma caixinha de sugestões ao canto pedindo que Clarice fosse menos ‘hermética’, seja lá o que a pessoa queira dizer com isso? Ou que Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, trouxe profunda melancolia e, por isso, o hóspede precisa de atendimento psicológico? Está aqui instaurado o caos. O personagem morreu no enredo, isso quer dizer que o leitor entristecido receberia, pela manhã, bolinhos de chuva para consolá-lo no café-da-manhã?

Talvez até uma nova noção de crítica surgisse neste hotel, e ele acabaria por aliar gosto às exigências dos hóspedes que sempre exigem o entretenimento imediato.

-Olá, cheguei agora de um voo de 12 horas. Que quarto você me recomenda para repousar?

-Bem, sobrou apenas um andar, os dos ultrarromânticos.

-Hã, não é algo muito tranquilo, né? Essa história de ‘ultra’ deve ser exagerado, não gosto. É todo pomposo?

-Não exatamente – diria o concièrge, tentando defender o autor e ao mesmo tempo garantir o seu lado – Bem, as paredes trazem alguns questionamentos muito importantes sobre a efemeridade da vida e…

-Não, não quero saber de efêmero coisa nenhuma, passei 12 horas apertado naquele avião e aquilo não foi nada efêmero. Não tem nada mais tranquilo, alegre?

-Tem a sessão infantil, mas restou apenas o quarto de Alice no País das Maravilhas.

-Não ajuda muito um quarto vibrante demais, já fiquei uma vez nele e me deu muita dor de cabeça aquelas cores todas. Só queria uma luz ambiente mesmo, sem questionamentos daquela lagarta pedante.

O concièrge tentaria respirar fundo para não demonstrar o desgosto de ouvir tais ofensas.

-Lamento, senhor, mas é o que temos.

-Estou farto desses eruditos mesmo, viu? Deixa para lá, vou procurar outros serviços.

No fim das contas, as exigências não seriam tão distintas assim do que se ouve daqueles que pedem toalhas a mais. Seria mais peculiar, talvez pela expectativa bem falsa de que a literatura precisa satisfazer diretamente o leitor. Ser confortável tanto quanto o edredom disposto na cama, ter um final feliz como o serviço de quarto impecável. Ou com personagens adoráveis como aquelas toalhas em forma de cisne posto na cama para dar boas-vindas.

Hóspedes exigentes e críticos de obras que se baseiam em poucas linhas dispostas pelo hotel em sua superficial representação da narrativa podem se irritar facilmente. E até sem ter lido um livro sequer. Poderia haver leitores enfadonhos também, criticando cada parede do quarto, afirmando que o abstrato não cabia no conceito do design escolhido, que era “um disparate! Um ultraje à Academia”. Muitas, muitas possibilidades de incômodo para o dono do hotel.

Enquanto também poderia haver um hóspede curioso, o melhor de todos. Ele descobriria uma obra nunca vista, convidativa na mesa de cabeceira, pedindo pelo olhar daquele viajante que chegava exausto, um tanto receoso pela realidade que encontraria em outro país. E havia lá, em um quarto aconchegante, um livro ainda mais promissor que o deitar na cama e dormir: abrigar-se nas páginas tão novas quanto as ruas ainda não visitadas pelo turista.

Sendo assim, um hotel biblioteca teria toda a sua complexidade digna do universo literário que abarca os mais diferentes tipos de gêneros. Críticas que engrandecem a obra, livros vendidos com a promessa de ser o mais novo best-seller, o autor esquecido por décadas e recuperado pelos acadêmicos. A literatura é aberta aos mais variados gestos artísticos. E o melhor: sendo obra, está em reforma constante. Acrescenta-se aqui uma observação perspicaz sobre o que o autor pretendeu com determinada cena, um leitor novo que ingressa na literatura e descobre que também quer fazer parte dela escrevendo. A literatura passa a ser um hotel com todas as portas dos quartos abertas.

Por isso, este hotel precisaria ser tão espaçoso e inclinar ao novo quanto é uma biblioteca ao autor contemporâneo. Assim como a biblioteca se faz como o lugar intermediário entre leitor e autor, o hotel também está entre a vivência com o mundo público – o local escolhido a ser desbravado – e a promessa de dar espaço a um novo hóspede que deseja se preservar deste mundo novo que se faz diante de seus olhos. Tanto biblioteca quanto hotel são o solo para o avanço em uma nova realidade, o resgate constante para o inesperado do mundo. E sem deixar de incorporar o inesperado, a batida no assoalho, a surpresa de se reconhecer entre hóspedes desconhecidos.