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Oscar 2016 | Carol

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Indicado a seis categorias: Melhor atriz (Cate Blanchett), Melhor atriz coadjuvante (Rooney Mara), Melhor roteiro adaptado (Phyllis Naggy), Melhor Fotografia, Melhor figurino, Melhor trilha sonora (Carter Burwell)

O aperfeiçoamento do olhar diante do mundo é tido como um rito de passagem. Registrar o brilho e as fissuras das cenas cotidianas, pela fotografia, além de ser uma tarefa técnica, é também um trabalho de vivência. E é este o dilema de Therese Belivet (Rooney Mara) no filme Carol. A jovem trabalha em uma loja de departamento vendendo brinquedos, no Natal, quando conhece a enigmática e encantadora Carol Aird (Cate Blanchett), por quem se apaixona e quem a acompanha nesta inauguração do mundo, para esta menina que gosta de fotografia, mas tem receio do próprio mundo o qual retrataria.

Ambas se encontram descontentes em suas vidas. Therese comenta que diz “sim” a tudo o que surge, pois não possui perspectiva alguma. O que ela tem é uma promessa de enviar o portfólio de fotos para tentar uma vaga no The New York Times, e sua vida se encontra adormecida na rotina. Mesmo a fotografia ainda é frágil. A presença repentina de Carol surge como o grande espetáculo ao qual ela, secretamente, esperava. Encontra não apenas uma musa, mas nos gestos poéticos, na elegância de Carol, em sua altivez, Therese encontra a articulação de seu olhar para os gestos poéticos que se passam, também, pelo mundo. Fotografar pessoas, no fim das contas, é se reconhecer entre elas.

Carol, por sua vez, vive uma vida de negação em um casamento que está em processo de divórcio. Ela se vê como mãe presente, mas não como esposa. E o casamento a faz negar o passado com a amiga Abby. Therese é, como ela diz, um anjo caído porque traz o frescor de finalmente assumir quem ama. Carol vive entre o artifício de suas luvas, dos casacos de pele e da casa de campo. Mas tudo chega às ruínas quando a verdade é exposta: não é aquele casamento o que ela sonhava para si mesma.

Estas duas personagens se encontram, então, numa Nova York pós-guerra dos anos 50, que será hostil à liberdade de viverem juntas. Neste cenário, o próprio olhar de Therese como fotógrafa ecoa nos enquadramentos do diretor Todd Haynes. É possível sentir a perfeição do período em todas as roupas escolhidas, a ambientação, a trilha sonora. E a delicadeza da fotografia revela o rosto de Therese sempre por entre as janelas manchadas pela chuva, as cabines de telefone, como se o mundo que ela visse, agora, estivesse sendo analisado, e a encantasse tal qual o olhar por trás da câmera fotográfica. Carol, porém, aparece abertamente. Cate Blanchett incorpora perfeitamente a figura de sua personagem. É esmiuçado pelo diretor todos os gestos, os cachos loiros, o olhar e os objetos que circundam Carol Aird. Mas Therese não deixa de ser vista também, com encanto, por Carol. E é assim que a relação das duas se constrói a partir de um encontro inesperado.

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O cenário de uma Nova York sexista, contudo, passa levemente pelo enredo. O seu embate é apenas em breves cenas, pontuais, à liberdade de Carol. Parece ter sido uma opção do roteiro não estender a temática a uma posição mais afirmativa, politicamente falando, para que o filme focasse na descoberta pessoal de Therese. No fim das contas, ela não sabia muito bem o que se passava com Carol. O ponto é que desenvolver este embate duro de uma sociedade moralista com a relação homoafetiva poderia ter engrandecido as histórias. No fim, sabemos pouco destas duas personagens. Nenhum passado, pouco é dito. Fica claro, então, que a ideia foi relatar apenas uma (bela) história de amor. Mas que, mesmo assim, poderia ter trazido à tona o mundo do qual estas personagens faziam parte, o ambiente doméstico do casamento, a fotografia e o jornalismo para uma mulher. E um tribunal que cerceia a liberdade de viver publicamente com quem se ama.

Portanto, Carol é um filme de sensações e exposição da beleza ao olhar. Ele encanta pela leveza do amor entre Carol e Therese, e pela fotografia a qual revela as particularidades do mundo desta personagem que redescobre a beleza numa compra de árvore de natal entre a neve. E o poético no observar, pela primeira vez, todo o espetáculo presente nos gestos de uma só pessoa.

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Gesto ao céu

Alguns podem dizer que ele se ergue

Em mais profunda fátua,

Bela e pequena estátua

No alto do Grand Palais.

Seria ele dono do mundo

Que fica na ponta do pé

Porque sabe que sua mão de pedra

Quase toca o mais azul brilhante céu.

Mas sei que é um simples homenzinho,

Que não é feito de carne,

Mas que deseja igualmente

Ser parte da lua.

No fim,

Esta pequena divindade

Funda o mais belo espetáculo

Visto da rua.

(créditos de imagem: Marina Franconeti)

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Major Tom, uma homenagem a David Bowie

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A respiração pesada dentro do capacete podia ser a pior parte de todo o trajeto entre a superfície do planeta. Era a acompanhante ruidosa de todas as noites que viravam dia onde não era mais a sua casa. Ela ocupava pesadamente o capacete tanto quanto seus pensamentos, que variavam entre as tarefas de montar mais uma sonda e a impressão de que qualquer vida havia acabado na terra que, antes, povoara. A respiração era vida e morte em mesmo discurso.

Por isso cada passo denso que dava nesta superfície era o mesmo que carregar consigo todos os humanos já mortos. O próprio tempo, agora, era outro. Esvaziado, morto, desnudo. O relógio não fazia a menor diferença, e o tempo humano soava longínquo. A Terra vivia sua quarentena mais obscura e, ele, tivera a sorte por possuir os conhecimentos científicos necessários para tal expedição, o sonho de desbravar outro mundo e curar a Terra da mortalha que carrega há séculos, de lugar que ansia pelo progresso cego. Ele era, agora, o guia nesta cegueira.

A angústia de se sentir digno de pisar em outro planeta vinha de vez em quando, em forma de pesadelos. Vinham sempre entoados pela respiração ruidosa. Se um dia Tom voltasse para a Terra, o som que escutara da própria respiração iria acompanhá-lo como mais uma trilha sonora irritante de filmes sci-fi. Era como a criança que já havia assistido o mesmo filme centenas de vezes. Esgotamento profundo era o que ele tinha no sonho, como se o corpo cedesse ao desespero e a respiração tomasse conta de tudo. “Mas ao menos estou respirando”, pensou ele. Isso poderia servir de consolo, mas por vezes, ele só queria que o som cessasse.

Mas houve o dia em que todos morreram na superfície do planeta inóspito. Por uma tempestade intensa de poeira, ele viu amigos desaparecerem na cortina avermelhada, e ficou sozinho. Tentou contato, muitas e muitas vezes. Mas, no fim, assumiu para si o personagem das histórias de ficção científica, o sobrevivente abandonado no espaço.

Na vida real, contudo, isso era mais desesperador. Havia pouca comida, e o pouco que havia gostava de lembrá-lo da decadência que era estar em outro planeta, sem nada de útil a fazer como a NASA, pelo contrário, gostava de glorificar, e imaginando os amigos mortos. Tentou por dia procurá-los, queimou no sol e achou que morreria na poeira por conta da sede. Só havia a respiração para acompanhá-lo. Sempre ela.

Nos dias que retornava para a sua recente casa, encontrava as comidas imprestáveis e o tempo de vida que escorria rapidamente. Irônico para quem queria tanto se livrar do som da respiração. Contava a comida e tentava contato. Mas houve o dia em que ele veio.

– Aqui é Major Tom em mensagem ao Controle do Solo, eu não sei mais o que fazer. Tento enviar relatório e não obtenho nenhuma resposta. Eu estou sozinho em A-457, e a cada instante a comida se esgota, eu estou com…

O medo foi interrompido pelo ruído de uma fala. Desta vez a respiração quase cessou. E depois ganhou impulso, e se intensificou.

-Eu posso ouvir, Major! Por favor, responda, preciso de um relatório sobre a sua situação – houve uma pausa longa – Para que possamos tirá-lo daí.

-Ah, me tirar do espaço não é lá uma tarefa fácil – sorriu ele tristemente, olhando para a sala de controle vazia.

Foram dias tentando contato que eram cortados e, mais uma vez, seguidos pelo silêncio e o desespero. Mas houve um dia, em que a resposta definitiva veio. “Sim, eles sentem muito”, Tom tentou se convencer, mas a raiva e o choro eram descontrolados. Ele comeu por dias com um sabor amargo na boca, e tentava imaginar como seria morrer. A família que ficara na Terra, em meio a toda a fome e sede, repetiria por décadas, entre sussurros, para aqueles que sobraram, a tristeza de ter os restos de um parente em um planeta distante, onde morreu sem ao menos ser visto. Mas Tom sabia que sua família poderia assegurar que ele tentou.

Muito foi pensado naqueles intervalos. Os dedos de Tom tocavam o vidro gelado de onde via a Terra. Não sabia mais distinguir o que era menor ou maior, se sua latinha tecnológica cheia de luzes azuis e vermelhas, na qual estivera abandonado até mesmo pela Morte, ou se a esfera azul no seu horizonte feito de vazio negro e explosões brancas. Lata e Terra eram o mesmo mundo, em uníssono respiravam, dentro do pequeno astronauta.

Neste olhar que ligava as duas realidades, Tom sabia sentir o passado vivo. O perfume da camisola da esposa, os cabelos desgrenhados dos filhos em sua mão, o domingo arrastado de toda semana com cheiro de frango e batatas, os sabres de luz e heróis que adotou nas mãos e na mente quando criança, as noites estendidas em estudo e contas, o amor e vício pela ciência, que vinha misteriosamente da criança que foi, a contagem regressiva e a vontade de vomitar ao entrar no foguete, as mãos trêmulas da equipe, as partidas de poker, e a primeira vez que chorou ao ver a Terra.

O reservatório de souvenirs se enchia e respirava mais alto que a sua própria respiração ruidosa, porque agora chorava. A Terra soava nova a cada lembrança. Sabia não poder voltar. Era a criatura mais sozinha, que olhava do alto a solidão em sua pureza, de um silêncio incurável. Não era visto por ninguém, era ignorado pelas estrelas, e nos planetas não havia os vestígios das palavras e nem das poesias que se pregam a todas as coisas na Terra.

Parecia, porém, que se estava sozinho com sua respiração, havia um pouco da Terra em seu pesar, souvenirs e existência. Como se fosse um hospedeiro do espaço, propagando pelo seu próprio corpo a poesia perdida e deixada na Terra. Crescera olhando os céus, mas agora eram dos céus que ele olhava. Não negava que em vida soubera ver o encanto de sua própria existência. Mas agora ela era como a primeira gota d’água descoberta, a origem de tudo o mais que queremos segurar nas mãos. Ele alcançara o máximo. E, mesmo com tempestades, sobrevivera. Era um espécime sobrevivente, humano, hospedeiro no espaço. Em suas contas, ele era o impossível.

Tom, então, olhou para as luzes da nave, que piscavam inutilmente em cada botão. Apertou um deles, e com um sorriso, viu a porta se abrindo lentamente. Desnudo, apenas em suas roupas brancas e estupidamente frágeis, desceu as escadas, tocou a poeira e sentiu os últimos instantes de sua mais pura existência.

– Eu nunca quis que você parasse. Mas acho que chegamos ao fim – a voz embargada era mais forte que a falta de ar – Foi bom viajar com você, querida.

Diante da Terra mais azul, espectadora em sua melancolia silenciosa, a respiração deu mais um suspiro, respondeu com um sorriso, e cessou.

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Este conto é uma homenagem a David Bowie (1947-2016), pela genialidade e beleza de suas letras, como Space Oddity, a maior referência para este conto.

Imagem de capa: ilustração de Andrew Kolb para o livro infantil inspirado na música

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O encanto vitoriano no especial de Sherlock

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Publicada no site Literatortura

SEM SPOILERS

Dois anos se passaram e o detetive, finalmente, retornou ao 221b Baker Street. Ou sempre esteve por lá, em uma espécie de palácio mental coletivo, adormecido, apenas esperando para o instante em que a ficção o despertaria para o episódio mais aguardado. No primeiro dia de 2016 foi exibido, pela BBC, o especial em que Sherlock Holmes e John Watson retornaram um tanto diferentes para os seus lugares. Em trajes vitorianos, a série contemporânea de Steven Moffat e Mark Gatiss trouxe os ares da Londres feita por carrocerias, cartas e cachimbos, um século XIX sentido pelas palavras de Sir Arthur Conan Doyle, finalmente às telas.

De início, a escolha de situar o especial na época de origem do personagem britânico parecia ser apenas uma saída para acalmar os corações de fãs deixados à mercê do terror do hiato. Dois anos sombrios de muita espera. Imagine aguardar por uma temporada composta por apenas três episódios, de qualidade inquestionável, com um final capaz de deixar qualquer um ansioso por respostas. Felizmente, a escolha por retratar o episódio na era vitoriana foi muito feliz e bem justificada. Se a espera foi longa, ela foi merecida, resultando no melhor episódio de todas as temporadas de Sherlock.

Sem revelar os detalhes que tornam o episódio fantástico, podemos dizer que ele foi feito em camadas. Coordenadas pela excelência da interpretação de Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, a sensação é de que todos estão nostálgicos, o clima tácito é de alívio em fazer tais personagens existirem. Eles estão de volta. Mas agora, temos a chance de ver Sherlock Holmes vitoriano, dos livros, em atuação. A trama conta com o mistério de uma noiva que se suicida diante de uma multidão e que, em seguida, retorna dos mortos para assassinar seu marido. A dúvida acerca do sobrenatural, já vista em O cão dos Baskervilles, retorna neste episódio, e sim, você irá hesitar diversas vezes, sem saber qual será a resposta dada pelo episódio.

A genialidade do roteiro envolve cada frase dita, milimetricamente disposta para que o espectador se lembre que há muito tempo as ouviu, proferidas pelos mesmos personagens, mas em nossa época. O prazer de ouvir Sherlock Holmes recitando seu endereço clássico é impossível de se explicar. Esse episódio tão bem escrito, em camadas que colocam em dúvida a sanidade de seus personagens e a do próprio espectador – que entenderá tudo apenas no desfecho, como um detetive que junta as peças -, faz jus à figura do grande detetive da literatura. Somos tragados pela excelente fotografia e os recursos narrativos que a série apresenta com criatividade, como a de colocar Sherlock Holmes diante da cena do crime narrando cada detalhe e seu significado; os movimentos em câmera lenta; os gestos poéticos na beleza dos figurinos; o humor sórdido do protagonista; e finalmente, o amor pelo texto de Doyle, como as referências aos contos O carbúnculo azul e As cinco sementes de laranja.

O enredo da noiva que volta à vida também traça uma correspondência com outro detalhe do enredo de Sherlock que, por sua vez, busca compreender o desfecho deste caso para entender o que ele mesmo vivencia em outro. Vemos as fragilidades de Sherlock Holmes, mais uma vez, expostas, e a profundidade de sua relação com John Watson. Ele é como o ponto fixo que consegue resgatá-lo em suas inúmeras quedas. E este personagem se mostra cada vez mais envolvido com o detetive, em um jogo no qual ele conhece bem o amigo, mas sabe identificar qual versão de Holmes ele criou a partir de seus escritos.

No fim, o especial The Abominable Bride é uma grande homenagem tanto à arte da escrita, como a capacidade de se criar labirintos de ficções para sobreviver ou compreender a profundidade do que é dito real, quanto uma verdadeira aula de roteiro e direção. Porém, mais do que isso, o especial de Sherlock alcança o máximo de uma epifania: Sherlock Holmes é o grande personagem da literatura que sobrevive a qualquer século.

Não importa quantas adaptações forem feitas, há uma essência desta mente brilhante preservada pelo encanto que o fez nascer pelas mãos de Conan Doyle. Esta beleza da palavra que sobrevive ao tempo a série apresentou como a sua mais importante premissa, que será descoberta profundamente pela sua experiência de espectador. Para Sherlock Holmes as cortinas de Baker Street sempre vão se levantar para que se conte uma nova história. Ele existe em cada canto da Londres atual, literária, imaginária, e bem, sobrevive a todos os tempos.

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Ambrosia

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Procurei pelos mercados

Entre plásticos, pessoas e potes

Os vestígios de sabores perdidos

Da boca que prova o passado

E o devora guardando

No mais interior profundo

As memórias digeridas.

Elas aguardam,

Para em choque retornar

Na forma de cereja vermelha

Que minha mãe segura entre as mãos.

Juntas escolhemos,

Em busca infantil,

Em comunhão de mãos que pesquisam

A pequena ambrosia

Em vinho lustrado.

Como dói ver aquelas vermelhas

Quase pretas,

Ostensivas em suco e doçura.

Os dedos cavam entre as manchas

Na busca das mais maduras

Mas o caminho mistura os dedos,

Em carne e vermelho

E eis que se convocam as memórias

De infanta vontade

De provar a pequenina.

A preciosa cereja,

Que antes era breve frutinha,

Mas que agora ganha ares

De grande simbologia,

De uma comunhão guardada pelo tempo

Grandioso e atemporal.

De cereja que veste o Natal

Em vinho resplandecente

Que compõe, ao fim,

O grande pavilhão brilhante

De minhas memórias, vivas, enfim.

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Em valsa eu avanço

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Meu blog completou 6 anos em novembro e, com toda a correria, eu esqueci. Orgulho deste espacinho que cultivo desde os 16 anos. Então aqui está meu poema Em valsa eu avanço. Escrevi nos dias posteriores ao atentado em Paris e encontrei algum abrigo ao escrevê-lo. Mas ontem, quando o reli, acabou se encaixando perfeitamente com a figura da escultura La valse, de Camille Claudel. Acho que a poesia é esta morada das nossas mais diversas sensações.

Em valsa eu avanço,

Presa em tecidos

Quero voltar,

E me desfazer,

Só para te dizer

Em choros

Que os lenços vêm

Em papel unido

Para em ti,

Sobreviver.

Tocam a face,

Misturam-se à pérola

Aos pós encharcados

De olhos cansados.

Que avançam

E recuam,

Num compasso sem fim.

Em cílios molhados

Para uma dança

Que a vida impede

De parar.

Os passos desferem

Golpes ao chão

Para penetrar

O desespero atroz

Deixado no vão,

De lágrimas

De outrora.

Quando cidadãos

Ao chão se dirigem

Sem mais vida

Que bate em sustenido,

Resta a sobrevivência

Desses passos sombrios

Que valsam

Desequilibrados.

Um espetáculo

Que corre

Nos mais internos rios.

As águas de tenebrosas

Correntes humanas

Inundam o pavimento

E gotas poderosas, essas,

Ah, empurram-me!

Para mais uma dança

Que se segura

Numa existência

Que resiste ao esquecimento.

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***Imagens: La valse (A valsa) – Camille Claudel

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Ode ao outono

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O lamento pela morte que o outono anuncia é o mesmo que celebrar uma vida que se desmancha no chão e, heroicamente, persiste até as últimas cores. O verde se converte a um amarelo e laranja que cultivam a vida de cor a qual clama pelos últimos instantes de sol. A cor se aproxima da divindade e toca a fenda da qual se libertam os segredos da morte.

O fechar dos olhos diante do sol reproduz a mistura de cores que surgem ao abrir os olhos. Fecho e vejo o milagre das cores que se unem em manchas, e o descobrir das pálpebras é o movimento que ascende ao repetido, as mesmas cores, olhos e natureza unidos por um instante da percepção, percebendo o outono.

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Dir-me-ia Flora que a primavera é a cor dos séculos, a mais bela e persistente. Contudo, digo que o outono encanta por resistir entre os ventos. Estes mesmos ventos balançam as árvores, as quais sustentam por dias as folhas que mudam em mesmo ciclo a cada ano, árvores inauguradas pela cor mais impossível. E, então, nestes dias que parecem eternos, o vento começa a tocar as folhas. Em sua resistência frágil, as folhas reproduzem uma dança nos céus em que seus lados tremeluzem nos galhos e, juntas, as pequenas sobreviventes se comunicam harmonicamente ao falar de sua preservação no galho que as sustenta. Por mais um minuto ou dias.

A morte das folhas é, porém, por completo o último suspiro. Pois elas ainda se esparramam pelas terras e perdura a cor que antes enfeitava o céu. Vê se um mar imponente na terra, parecendo ter destilado do sonho a pureza absurda e, assim, a natureza surpreende por trazer o oceano aos bosques mais ocultos. E, lá em cima, os galhos costuram o cinza do quase inverno, como se guardasse para si o esforço que fora, antes, de preservar e produzir aquelas folhas. Ficam como costuras entremeadas na neblina, e as poucas folhas que ainda respiram se formam como pequenas folhas-estrelas, com suas pontas iluminando o céu e a morte.

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A noite passa a se anunciar com prontidão e as seis horas da tarde viram noite, abafando as cores. Não é fácil presenciar a morte do outono. Pois como celebração, ele encanta; mas a ameaça do inverno e os galhos descobertos se tornam táteis a cada dia. Mais um passo próximo à queda. Talvez seja injusto dizer isso do inverno, o qual virá como estação de mais novos encantos e nova vida à cidade parisiense. Contudo, o outono fala da morte exaltando suas cores e sua fragilidade, alerta para o instante seguinte e obriga a se apegar ao olhar e ao instante de forma tão profunda quanto a folha que ainda resiste. É uma força pela consciência da fragilidade. Talvez seja por isso, então, que o outono é uma estação corajosa.

São as cores das folhas as quais os pássaros em revoada se aproximam para se alimentar, em um sobrevoo conjunto que deixa desenhos no céu e liberta mais folhas dos galhos. A queda delas é a vida deles. E o encanto natural persiste. O cachorro que rola pelas centenas de vidas amarelas na terra enquanto uma pequenina folha se prende a unha dele e sobrevoa o corpo do cãozinho, e o faz novamente, formando um arco, como se folha e cão brincassem na terra das folhas que descansam. Ambos rolando e embalando a vida e morte do outono, na celebração que dura um mês belo e inesquecível pelas cores e as folhas guardadas em livros. Para que o humano preserve em corpo da folha, entre as páginas, o espetáculo visto nos mais belos dias de cores que saem dos sonhos dos artistas e permeiam céu e chão. Um rompimento do impossível de todos os mundos, o outono.

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Créditos de imagem: Marina Franconeti, meus dias encantada com o outono de Paris