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Haikai do não-saber

Haikai do não-saber

Sei que nada sei

Sabendo o não saber

Fiz-me grand’ sábio

(Manhã de 26 de novembro de 2009)

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Chopin e um sobrevivente

O pianista de Roman Polanski

França, 2002

Com Adrien Brody, Thomas Kretschmann , Frank Finlay , Maureen Lipman , Emilia Fox

Varsóvia, 1939. Um pianista tocando delicadamente Chopin, numa rádio. Repentinamente, o local começa a ser bombardeado, mas o pianista não deixa de tocar a sua música, mesmo que todos já tenham ido. É como se estivesse imerso num sonho; continua a tocar enquanto estilhaços de vidro e segmentos de pedra caem sobre sua cabeça. Ele vê o que ocorre à sua volta, mas prefere não desistir. Esse é Wladyslam Szpilman, personagem do filme O pianista. E é assim que somos apresentados a ele.

Roman Polanski, diretor do filme, ou melhor, da obra-prima, consegue chocar-nos com o filme. Retrata os horrores da Segunda Guerra Mundial. Hoje esse tema pode já estar um tanto repetitivo, porém depende do diretor que o aborda. E Roman Polanski, sem dúvida, conseguiu colocar O pianista como um dos melhores filmes atuais, vencedor de 3 Oscar (diretor, ator e roteiro adaptado).

Revendo filmes acerca do Holocausto e Segunda Guerra Mundial, O pianista se difere em um ponto importante: a proeza do herói é sobreviver. Parece que a morte lhe acompanha por todo o caminho, mas é como se ela desviasse de Szpilman. Ou ele desvia dela.

Acompanhamos Szpilman na sua tentativa de sobreviver. De um esconderijo a outro, ele consegue fugir. E assim, a cada tentativa de sobrevivência até o final da guerra, é que nos surpreendemos. O mais interessante é que não se trata de ficção, Szpilman realmente existiu. E o seu livro, hoje nomeado de O pianista, foi a base do roteiro. Após ter passado pela Segunda Guerra Mundial, ele relatou o que ocorrera, mas a sua perspectiva da guerra incomodara as autoridades (grande novidade). Assim, teve a tiragem de livros reduzida.

Para quem quiser ver o filme (o que aconselho, vale a pena), devo destacar que preste atenção nas músicas do filme. São do pianista polaco Chopin e são elas que direcionam o filme às melhores cenas. É surpreendente “sentir” a emoção da música, como se estivéssemos com Szpilman na mesma jornada. A cena em que ele toca Ballade nº1 diante de um soldado é incrivelmente emocionante e é o clímax do filme. Depois dela, não se sabe o que vai ocorrer com o personagem. É o primeiro momento que ele pôde tocar, deixar-se ouvir. A música, representando a alma de Szpilman, precisou manter-se reprimida para sobreviver. O toque do piano existia apenas na memória dele. Quando se depara com um futuro extremamente incerto, se sobreviverá ou não, Szpilman expõe sua alma e a infelicidade pela qual passara. E é Chopin que silencia-nos a fim de ouvirmos o sentimento do personagem. A música invade o filme e nos emociona.

O pianista do início do filme, aquele que continuou a tocar mesmo com a cidade sendo bombardeada, sempre esteve em Szpilman. A guerra apenas tratou de colocar o sobrevivente num palco principal. Apenas ele e o piano.

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Compaixão

Uma bela borboleta passou pela majestosa janela de vidro. As asas possuíam uma mistura fascinante de rosa e lilás. Tinham algumas pintas amarelas e pretas. A forma de voar era leve, suave, lembrava uma delicada e tímida bailarina que não tinha conhecimento de quanto era bela. A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro.

Essa fração de segundo parece que durou uma eternidade. Houve uma compaixão por parte da pequena menina pela borboleta e vice-versa. A garota tocou o vidro com sua mãozinha, buscando um toque, uma aproximação. Os grandes olhos castanhos da menina observavam a delicadeza e a presença de belas cores na borboleta, num misto de curiosidade e fascinação. É raro hoje em dia ver algo tão natural e belo. O clima preto, branco e acinzentado da cidade, essa rigidez não é exatamente um bom plano de fundo para a fragilidade da borboleta. Nada mais é percebido, notado. Os olhos do ser humano possuem apenas função prática, assim deixam de metaforizar ao contemplar o mundo. O cotidiano não permite que se pare para admirar o que ocorre a sua volta. E ver uma pequena e delicada borboleta faz pensar que algo tão ingênuo se contradiz a severidade da cidade. A borboleta incorporara uma antítese. Comumente a beleza não é notada, porém, naquele momento, a borboleta tornara-se a bailarina principal de um grande espetáculo. 

Para a borboleta, era incrível ver algo, alguém, tão grande. Tão diferente de si. Mas ao mesmo tempo em que aquela figura por trás do vidro lhe encarava, também via fascinação por parte dela. Um carinho, respeito. Tão diferente de muitos dos sentimentos que ela presenciara em outros momentos.

O chamado ser humano devastando florestas, devastando ao mesmo tempo habitat de diversas espécies. Os animais se sentiam aterrorizados. Pássaros viam seus ninhos destruídos e a perspectiva de continuar a espécie também.

Tráfico de animais silvestres, crueldade a que animais eram submetidos. Fatos assim não ocorriam perto apenas da borboleta. Focas lá no Ártico são friamente mortas apenas para satisfazer um tolo capricho de alguém que acha interessante ostentar uma pele ou uma bolsa de crocodilo. Fêmeas de ursos polares chegam a ficar um bom tempo sem se alimentar, esperando seus filhotes nascerem. Quando estes nascem, ela vai em busca de alimento para ela e para a cria. Porém, com o derretimento das calotas polares, não há um solo seguro para ela procurar alimento e muitas vezes nada por quilômetros em busca de um gelo rígido sob suas patas.

A borboleta, ao ver a expressão da garota lhe admirando, começou a acreditar que em algum lugar poderia haver um ser humano que saiba admirar o animal sem querer tê-lo. O quanto pode ser diferente amar sem possuir, o quanto apenas um gesto, apenas um olhar, poderia significar para a Humanidade.

"A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro"

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O telefonema

Esse foi o meu primeiro conto publicado no jornal! Ele é meio velho já, mas tá valendo…

O telefonema pegou-a de surpresa. Atendeu com impaciência, os olhos presos a um livro que tinha nas mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa aquelas páginas. A personagem parecia estar vivenciando o mesmo que ela vivenciara. Seus olhos se encheram de lágrimas. Não queria mais lembrar do passado. Seus pensamentos voaram para aquele dia fatídico, enquanto segurava o livro. O lugar onde estava era para ela uma espécie de redoma, onde se isolava do que acontecia lá fora, preferindo ficar naquela sala. Era um lugar especial. No meio, dois sofás vermelho-berrantes confortáveis, apinhados de velhas almofadas. Um tapete comprado num brechó, o pó encobrindo os pequenos detalhes daquela raridade, as frágeis mesinhas, com estátuas de anjos. As estantes de velhos livros, de capas duras e de couro, as poltronas de veludo antigas, confortáveis, a escrivaninha quase vazia, os belos quadros nas paredes mostravam diversos cavalos, correndo em campos de trigo. Queria experimentar aquela liberdade dos encantadores cavalos. Porém, lembrou-se do telefone em sua mão. E sim, o som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu a contragosto.

– Alô

– É a… Clarice?

– É, sou eu. Quem está falando? – Clarice disse num tom de voz já um tanto exasperado. Quem será àquela hora?

– Bom, talvez não se lembre de mim, sabe, o Eduardo, da faculdade de…História.

A menção sobre a faculdade de História fez Clarice mudar seu tom de voz. Empertigou-se na velha poltrona que estava sentada.

-Eu…ahñ…não me recordo…de você, quero dizer…você estava lá? – disse insegura, fechando bruscamente o velho livro de suas mãos.

-Bem, estava. Sabe, eu me encontrava na biblioteca, fazendo pesquisas, aí ouvi vozes bem elevadas, parecia uma discussão. Mas achei que não fosse algo realmente grave a ponto de… – sua voz foi sumindo. O fato ocorrido, Clarice já tinha conhecimento e sentir alguém falar daquilo despertou tudo o que relutara a dizer em voz alta. As lágrimas escorriam por seu delicado rosto, o coração parecia querer irromper, ardia tanto, parecia sangrar de tamanha dor. A terrível dor da perda. Mas então um lampejo; se lembrou, o Eduardo, aquele com quem estava naquele momento ao telefone, a tirou rapidamente da cena terrível para que não visse mais aquilo. Agora se recordava, as mãos desconhecidas puxando com firmeza os punhos de Clarice, como se aquele estranho quisesse tirá-la daquele mundo agora difuso, sem sentido, que parecia não pertencer a ela.

-Eu…me lembrei de você…hum…obrigada por me tirar dali. Sabe, depois daquilo tudo, resolvi sair da faculdade, não…tinha mais sentido seguir sem ele. Planejávamos tantas coisas…e ele se foi – sua voz estava trêmula. A idéia de falar sobre o que sentira naquele dia com um desconhecido, era ao mesmo tempo, estranho, porém reconfortante. Pelo menos, não teria que agüentar seu olhar penalizado, pois afinal, estavam se falando por um telefone.

-Eu…sinto muito, Clarice, eu não pude fazer nada! Eu sei que não a conheço de verdade, mas…se eu pudesse adivinhar que o seu irmão…bem, morreria num corredor perto ao da biblioteca, onde eu estava, eu faria alguma coisa. Sabe, o Felipe tinha um bom coração. Ele era o único que não me ignorava. Por isso, eu devia ter feito algo…

-Vamos, não se culpe – interrompeu Clarice. Uma repentina compaixão por Eduardo se aflorara. Ninguém tivera culpa, só…tinha que acontecer. E os mistérios da morte ninguém, algum dia, irá explicar. Por que Felipe a deixara? Esse pensamento a perturbava. Então, desabafou:

-Ele me faz uma enorme falta, ele se preocupava muito comigo – disse com a voz fraquinha, as lágrimas lhe molhando o rosto. Respirou fundo, tentando se acalmar – o Felipe era meu único irmão. Éramos muito ligados. A faculdade era um sonho para nós. E, após nos esforçarmos tanto para entrar na faculdade, o Felipe, que antes vivia em um mundo pequeno, onde suas amizades eram as mesmas durante anos, começou a entrar em conflito. As pessoas eram diferentes dele. E aí começaram as confusões, principalmente com alunos mais populares. E bem, eles não tinham lá um bom caráter e resultou…neste trágico desentendimento e ele…me deixou, com uma vida sem sentido nas mãos. Falar tudo aquilo, explicar o que aconteceu, aliviava um pouquinho o sofrimento em seu coração – Mas, e se eu não tivesse insistido em entrar naquela faculdade, esta desventura teria ocorrido?

– Clarice, esta dúvida irá nos perturbar sempre. Às vezes, a vida é incerta, mas acredite, somos nós que a construímos até o momento que vivenciamos hoje. Por que você não se dá uma nova chance, recomece tudo. Já faz um ano que aconteceu e você precisa retomar tudo o que deixou – sua voz deixava claro de que a apoiaria, mesmo ambos sendo desconhecidos um para o outro, sentiam a mesma tristeza.

Então, Clarice viu naquele momento que a própria vida estava lhe dando um recomeço. E ela, Clarice, deveria fazer as próprias escolhas. Eduardo ligara para ela justamente naquela noite que, no início, atendera ao telefone com impaciência; e agora, após combinar de se encontrarem, vira que deveria sim, mudar. E seria a partir daquele momento.

Abriu novamente o suspense policial na parte em que parara e reparou, então, que a personagem se dera conta de que nunca há um fim e sim, um recomeço.

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O dia da Criação

Nada como começar esse blog com a crônica que escrevi, O dia da criação, uma releitura do poema de Vinicius de Moraes. A crônica ficou entre as cinco finalistas do concurso estadual promovido pela Companhia das Letras em homenagem ao poeta.

O sábado é o tempo presente, o aqui e agora. É impossível escapar da realidade de que o domingo é imprevisível e que possuímos apenas o sábado para valorizar a nossa existência. “Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar”. Se Deus tivesse descansado no Sexto Dia, não haveria o ser humano. Como seria o mundo sem a nossa presença?

 É no presente, sábado, que observamos a ação humana no mundo. Ao ler o jornal, deparo-me com os absurdos cometidos pelo Homem: a mulher que apanha e cala; as criancinhas que não comem; o piquenique de políticos; adolescências seminuas; um grande aumento de consumo. Tudo isso foi feito pelo Homem. Se Deus não tivesse nos criado, haveria injustiça e maldade?

Será culpa do Homem, ao olhar para uma criança de rua passando fome, simplesmente desprezá-la e deixá-la à mercê do mundo? As crianças são abandonadas; são como andarilhas, vagam pelo mundo sem orientação de um tutor que possa zelar por elas. Nem os pais, nem o governo procuram mais responsabilizar-se pelas crianças, pois querem ver-se livres de obrigações, o que implica na isenção da transmissão da História da Humanidade às próximas gerações.

A imagem do jovem é construída com grande apelo sexual, que expõe o adolescente de forma precoce ao mundo adulto. Quando passam a integrar, antes do tempo, o mundo público, a criança e o jovem sentem-se perdidos e encontram nos objetos consumíveis uma forma de aproveitar a vida. Estamos nesse mundo narcísico, cada qual na própria “ilha”. Tudo isso é o que presenciamos no “sábado”, é preciso apenas olhar em volta.

Então, como seria se não houvesse seres humanos? Deus teria descansado no sábado após a divisão das luzes e trevas, a separação das águas, a fecundação da terra e a gênese dos animais. Não haveria a maldade, o egoísmo e a vontade do poder. Entretanto, Deus perderia a oportunidade de construir o homem à sua imagem e semelhança. Com a criação do homem, foi possível a construção da História. O fato de sermos uma substância pensante diferencia-nos dos animais. E foi o uso da razão que trouxe a luz do conhecimento ao mundo. Muito desse conhecimento possibilitou que o Homem prolongasse a própria existência ao contar as conquistas do passado, a História. Porém, em momentos como a Segunda Guerra Mundial, o desejo de poder falou mais alto e a ação humana originou uma barbárie.

Contudo, retorno à pergunta inicial: como seria o mundo sem a nossa presença? Não haveria a História para ser transmitida aos demais povos, não haveria os sentimentos que predominam a existência humana como a felicidade, o amor, a amizade. Imagina não presenciar o milagre da vida, o momento do indivíduo nascer a partir da dor do parto? Talvez seríamos apenas pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas. Não sofreríamos os males do amor, sentimento que engrandece o ser humano; não suaríamos o “pão nosso de cada dia”.  Seria apenas a beleza das terras e das águas, a paz e o poder dos astros, a pureza dos animais.

Em vez de descansar, Deus optou em fazer o Homem à sua imagem e semelhança, que possuísse tanto uma parte material, o corpo, quanto uma parte imaterial, o espírito. Portanto, mesmo que tenha originado a maldade, as desavenças, há também coisas boas construídas a partir do Homem. E, hoje, pode acontecer de tudo nesse mundo paradoxalmente fascinante e imperfeito. Constituir o hoje é garantir um futuro baseado no passado, nos erros e acertos do Homem, porque simplesmente “hoje é sábado, amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar”.