Os “garotos perdidos”

 

Trabalho de Filosofia “O fim da infância” (adaptado) – Setembro de 2009

No livro de J.M.Barrie, Peter Pan, há os garotos perdidos. No enredo, eles são aqueles que, por descuido da babá ou da mãe, caíram do carrinho durante passeios no parque e foram levados à Terra do Nunca. Lá, como não possuem mães, estão isentos de obrigações, obedecem apenas ao Peter Pan. Baseando-se nesses personagens, hoje se vê exatamente “garotos perdidos” em sociedade, crianças que são abandonadas a si mesmas e que não possuem a proteção de tutores que os guiam à luz do esclarecimento. Os garotos perdidos na sociedade buscam algum caminho para seguir e estão crescendo rapidamente, até de forma precoce. Ou seja, a infância está acabando.

Com a ideia de fim da infância, analisa-se a crise na educação e a sua influência na concepção de infância a partir de Hannah Arendt, que criticou três pressupostos básicos. O primeiro demonstra a existência de um mundo da criança e uma sociedade formada entre crianças. O adulto, ao não assumir a responsabilidade pela criança, deixa esta a mercê da tirania da maioria.  É um engano acreditar que a criança possui a liberdade de agir e ser independente a partir do momento que o adulto livra-se da obrigação de zelar por ela; pelo contrário, quando é abandonada pelo tutor diante de outras crianças, ela precisará fazer a escolha de rebelar-se e sofrer as consequências por ser a única a agir de tal maneira, ou aceitar a tirania da maioria, isto é, “solidarizar-se” com as demais de sua classe.

Para exemplificar, é possível imaginar uma rua em movimento. Há um grupo de crianças prestes a atravessar a rua e uma delas segura a mão de seu tutor. Este solta-lhe a mão e simplesmente a deixa diante do movimento dos carros. A criança terá que escolher se seguirá em frente com as demais, se continuará parada ou se sairá correndo em outra direção, sem destino. Assim, a criança é abandonada a si mesma, pois não possui a “direção estranha” que possa guiá-la, ou submete-se a tirania do grupo. Ela não consegue retornar ao mundo adulto – foi banida deste – e nem argumentar com as outras crianças.

O segundo pressuposto relaciona-se com o ensino. Antes se acreditava que o professor era aquele que poderia ensinar qualquer coisa, detinha um grande conhecimento. Entretanto, agora o professor se forma baseando-se mais na metodologia de ensino, isto é, como irá encaminhar os alunos, do que na matéria em si. Ao prezar demais o método, em vez de preocupar-se mais com o conteúdo, o professor procura saber apenas um pouco mais que o aluno, e este é abandonado aos próprios recursos, tendo que aprender sozinho. Esse papel dos professores só se tornou possível com a ideia do terceiro pressuposto, o da aprendizagem.  Nesse, o pragmatismo é uma grande característica; é substituir o aprender pelo fazer, pela experiência. A criança aprende sozinha como se brincasse, característica “natural” dela. Assim, a instituição escolar busca satisfazer o desejo lúdico e narcísico de brincar, levando a criança a aprender apenas através do entretenimento.

É exatamente a partir dos três pressupostos que se entende o porquê do autor Kincheloe afirmar que as crianças vão aprender sozinhas e sem pedirem permissão aos adultos, em matéria publicada pela revista Superinteressante. A partir do momento que o professor e os tutores deixaram de legitimar a sua autoridade, a criança foi abandonada a si mesma. Com isso, ela precisou recorrer a outros meios de aprendizagem como a mídia (TV, internet); o fácil acesso a esses meios permite, através do entretenimento, do fazer, que a criança absorva informação rapidamente.

Desta forma, pergunta-se: afinal, o que é o conhecimento? As crianças que recorrem às mídias não aprendem como agir perante a sociedade, os preceitos que constituem o mundo público. Elas não têm contato com as ideias do passado a fim de reconstruir o futuro; têm apenas contato a informação, esta totalmente imediata, ao alcance da maioria. Como os adultos podem sonhar com um futuro nas mãos das crianças se preferem livrar-se da responsabilidade de cuidar delas? A construção efetiva de um futuro bom apenas ocorrerá se a criança receber uma base para isso.  E essa base é o conhecimento, algo que se conquista aos poucos, com a dúplice proteção, protegendo a criança do mundo e vice-versa. Se a criança é abandonada, mesmo que represente ainda o mito da infância, não terá a capacidade de construir a própria geração. As crianças estão simplesmente a mercê do narcisismo adulto. É um paradoxo e tanto: o adulto idealiza a criança como perfeita e única esperança para as frustrações humanas, mas é abandonada pelos tutores, pois estes não querem assumir a responsabilidade pelo curso do mundo.  

Essas crianças podem ser comparadas ao personagem criado por Antoine de Saint-Exupéry em O pequeno príncipe. O principezinho, como as crianças atuais, é um andarilho, percorre o mundo em busca de uma orientação. Na história, o pequeno príncipe encontra diversos adultos como o empresário, o vaidoso, o bêbado, o rei, o geógrafo. Nenhum deles espanta-se com o fato de uma criança vagar pelos “planetas” ou pelo mundo a fim de descobrir por conta própria alguns dos mistérios da vida; eles estão apenas preocupados com a própria vida dentro de uma redoma de vidro que os isola do restante.

Portanto, é isso que se sonha para o tão esperado futuro? Que crianças, como o pequeno príncipe, vaguem sozinhas pelo mundo em busca de alguma direção, sem possuírem uma base para constituir-se como sujeito? Os mesmos que idealizaram o mito da infância deveriam perceber que ela está acabando e que o seu fim realmente irá repercutir no futuro. Incentivar o isolamento dos indivíduos, seja criança ou adulto, levará a sociedade à deterioração. Devemos preocupar-nos em reassumir a autoridade, garantir a transmissão do conhecimento e preceitos às próximas gerações a fim de preservarmos um “livro” de História. Um povo com um livro em branco não tem por que existir. Possuir uma História que possa ser passada ao longo do tempo permite a permanência do homem na Terra, de ser lembrado por sua relevância. E, assim, prossegue a Humanidade, em que “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”.

Anúncios

2 comentários sobre “Os “garotos perdidos”

  1. Sou sua fã!A sua reflexão, sensibilidade e bagagem cultural é de deixar pais e educadores perplexos!!!!Que seu exemplo possa ser seguido por muitos jovens…
    Marina vc é DEZ!!!.Citar Saint-Exupéry me fez reviver a adolescência, a paixão que tive pelo “pequeno príncipe” e o gosto pela leitura.
    SUCESSO QUERIDA!!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s