“Liberdade moderada”

 

A Duquesa, de Saul Dibb

Inglaterra/França/Itália, 2008

Com Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper

O filme A Duquesa narra a história real de Georgiana Spencer que, prestes a completar dezessete anos, casa-se com o inglês duque de Devonshire. Torna-se a duquesa de Devonshire. Porém, o casamento de ambos está longe de ser feliz e apaixonado. Georgiana, como todas as mulheres da época, em meados do século XVIII, devia conceber um filho a fim de ser o herdeiro do trono. Após alguns abortos, meninos que nasceram mortos, Georgiana teve apenas duas meninas e cuidou de uma que era filha do duque com uma criada que falecera. A vida de Georgiana era apenas cheia de luxos, roupas belíssimas, mas total infelicidade. O casamento piora quando Georgiana descobre que sua melhor amiga era amante do duque e, assim, percebe que nunca teria o final feliz que encenara para si mesma.

O cenário e o figurino do filme são belíssimos, traz à tela o Ancien Regime, período que antecedia a Revolução Francesa. A atuação de Ralph Fiennes é excelente, de tal forma que consegue transmitir a arrogância e o egocentrismo do duque, enquanto Keira Knightley incorpora a duquesa e lhe traz elegância e beleza.

Logo no início, percebe-se que a duquesa era engajada em questões políticas, diferentemente das mulheres da época. No primeiro jantar que Georgiana tem com o duque, após o casamento, convidados de um partido da época fazem um discurso sobre a ideia de liberdade regado a um bom vinho e jantar suntuoso exclusivamente ao duque. Quando questionada sobre o que achara do discurso dito no jantar, Georgiana diz diante de todos que a liberdade deve ser absoluta, direcionada a todos. Nessa questão, há apenas “sim” ou “não”. Georgiana não acreditava numa liberdade “moderada”, que fosse apenas para alguns; não se pode ser moderadamente morto, moderadamente livre. Desta forma, a duquesa logo mostra que sua intelectualidade se destacava além das roupas impecáveis que usava.

Mas, durante o filme, percebemos que é possível ser “moderadamente” livre, pois é o que acontece com ela. Georgiana não poderia separar-se do marido após saber de suas traições; não poderia casar-se com quem verdadeiramente amava e, muito menos, cuidar de suas filhas por conta própria. Sempre deveria ser a sombra do marido e aceitar as suas vontades. Aos poucos, a sua liberdade diminui;  a única “liberdade” que possuía era vestir o que quisesse, permanecer em casa com as crianças e encenar o casamento que toda a Inglaterra desejava ver. Nem ao menos ficar com a filha que tivera Georgiana pôde. Mas, claro, como boa esposa que deveria ser, aceitou as traições do marido.

Chega um momento em que o duque suspira e diz “como é bom ser livre”. O mesmo não se aplica a Georgiana, que vê sua liberdade e os sonhos serem meramente deixados de lado; a duquesa nem consegue conquistar a sua total liberdade (uma proeza que é impossível de se conseguir) e nem ter a tal liberdade moderada, que seria na medida certa. Georgiana renuncia todos os seus sonhos e ideais, tornando-se presa em si mesma.  A liberdade nunca será para todos, já que assim todos poderiam agir da maneira que quisesse, sem pensar na liberdade do próximo. Portanto, a liberdade precisa ter limite. Mas no caso da duquesa, a liberdade foi diminuíndo aos poucos até chegar o momento em que tudo com o qual sonhara fora renunciado.  Então, a pergunta que resta é como ser livre? Quanto vale renunciar alguns sonhos e ideais para ser feliz?

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2 comentários sobre ““Liberdade moderada”

  1. parece um bom filme
    a contra gosto admito que a liberdade absoluta não pode ser alcançada, pelo menos não por todos ao mesmo tempo… porém nos resta tentar alcançar o máximo que o limite nos permitir

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  2. Admito que até então, não tinha assistido ao filme, que me interessei depois de ler o texto.
    Por sorte passou no telecine, e assisti.
    Mais uma vez eu não preciso dizer de como o texto capturou a essência da história.
    E quando o duque fala da liberdade, do lado dela, chega a ser congelante a ironia da situação.
    Acho que devemos ressaltar a atuação, que nesse filme foi ótima dos atores, principalmente da Keira e de como o amor pelos filhos faz com que você se prive de tudo, até mesmo de seus desejos e de sua liberdade.
    Ótimo filme, ótima história e sem sombra de dúvidas, uma ótima mulher… Mulher que só queria ser feliz.

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