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Que frio!

Agora um momento meio inútil, mas merece um pequeno comentário. A designer espanhola Andrea Ayala Closa criou um cobertor-luva, que possui quatro “mangas” com luvas a fim de aquecer as mãos ao desfrutar um bom livro! Claro que é impossível pensar em sentir frio (nem lembro mais como é!) com o calor de São Paulo. A invenção é criativa, ajudaria quem pretende ler um livro de suspense da Agatha Christie num quarto apenas iluminado pelo abajur ou uma obra obrigatória para o vestibular.

Quem estiver curioso, aqui está o link com a matéria e as fotos:  http://gnt.globo.com/EstarBem/Materias/Cobertor-luva–para-ler-na-cama-com-conforto-na-hora-do-frio.shtml

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Patinação artística

O riscar do gelo, brilho, um vestido esvoaçante. É assim que a patinação artística, nos Jogos de Inverno de Vancouver 2010, apresentou-se. A dupla canadense Tessa Virtue e Scott Moir ganhou a medalha de ouro, a quinta nas Olimpíadas, mas a primeira na categoria de patinação artística. A apresentação foi belíssima, ovacionada por longos minutos, e emocionou ao retratar de forma tão sublime a 5ª Sinfonia do compositor Gustav Mahler.

A dupla que ficou em segundo lugar fez também uma excelente apresentação, ao som da trilha sonora de O Fantasma da Ópera, The Music of the Night. O figurino era semelhante ao do filme e a dupla conseguiu mostrar a leveza que a obra do compositor Andrew Lloyd-Webber imortalizou no teatro.

Oksana Domnina e Maxim Shabalin, a dupla russa que venceu ano passado, ficou com o bronze. Apresentou sensualidade e uma boa técnica, mas não chamou a atenção do público tanto quanto a dos canadenses.

Às vezes é tão difícil manter-se em pé numa superfície plana! Imagina patinar no gelo? Uma proeza difícil, sem dúvida! Depois de assistir à patinação artística, fiquei fascinada com a técnica, a beleza e a arte de apresentar uma história no gelo.

5

Mais um ano

Mais um dia, como outro qualquer,

Relembro a minha recente infância:

Brincar de boneca quando quiser!

Os dias são mais coloridos quando se é criança

 

Vem o vestibular e, mais tarde,

As contas pra pagar

Vê-se que o mundo não é perfeito

Como a criança tende a sonhar

 

A criança cresce e amadurece

A infância fica no passado

Como um tesouro num baú, guardado

 

Mas aquela boneca

Que na gaveta tira uma soneca

Sorri-lhe e mostra a infância

Que a menina nunca deixará

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Escolhas e milhas

Amor sem escalas, de Jason Reitman

EUA, 2009

Com George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga

Amor sem escalas rendeu seis indicações ao Oscar, que irá ocorrer em março, e tem gerado elogios, como um filme que questiona as escolhas que se toma em face da vida. Para quem viu o filme Juno, Amor sem escalas é do mesmo diretor (Jason Reitman). Dá para perceber o humor sutil e a irreverência até mesmo em retratar o drama humano apenas em poucas cenas. Ao analisar o título, se espera um filme romântico. Mas, além disso, ele mescla drama e comédia de uma forma que logo cativa quem o assiste. O início pode ser um tanto maçante, mas logo o filme ganha fôlego e as personagens que surgem trazem um novo rumo à história.

O personagem Ryan Bingham é um sujeito contratado por diversas empresas para demitir pessoas pelo mundo inteiro, algo que os seus superiores temem, não têm coragem. Ryan viaja para diversos lugares, é um verdadeiro andarilho que tem o aeroporto como o seu próprio lar. No trabalho, Ryan é extremamente profissional e procura seguir à risca o roteiro que tem para si mesmo: fala as mesmas frases para todas as pessoas, ao demiti-las, como se procurasse consolá-las.

Porém, essa vida que ele escolheu encenar, a de uma suposta liberdade em ir e vir sem se responsabilizar por ninguém, começa a falhar quando conhece duas mulheres: Natalie e Alex. A primeira é uma jovem recém-formada na faculdade, que entra na empresa com a proposta de tornar a demissão ainda mais impessoal e utilitarista, utilizando a videoconferência. Essa ideia de Natalie acaba com a utilidade do emprego de Ryan; ele deixaria de viajar e teria que se fixar, ou seja, viveria como qualquer pessoa normal junto à família. Já Alex é a mulher pela qual Ryan se encanta por simplesmente ser a sua versão feminina. Ambos procuram casualidade nos encontros e não querem responsabilidade, veem na viagem uma maneira de fugir das relações sociais.

O único objetivo que Ryan possui é acumular milhas. O sonho dele é conseguir 10 milhões de milhas, algo que quem viaja deseja muito, porque assim poderia escolher o que quiser, desde as vantagens de não enfrentar filas até escolher o seu destino. Mas para que Ryan deseja tantas milhas se sempre suas viagens são bancadas pelas empresas? As milhas são apenas uma desculpa para Ryan reafirmar a sua humanidade, a necessidade de possuir um objetivo. E, quando conhece Natalie, esta lhe aconselha escolher, pela primeira vez, o lugar que sonha em conhecer.

Desta forma, o perfil psicológico de Ryan é traçado. Mesmo que ele tenha que viajar a fim de demitir pessoas e, possivelmente, arruinar vidas com a tal notícia, Ryan se sente menos desumano em comparecer às demissões, talvez a tentativa de dar rumo à vida dos demais, já que isso parece ser mais simples. Mas e quanto à própria vida? Ryan gosta de definir a vida como uma mochila que nunca deve proporcionar peso demais. Se for preciso retirar a família, os relacionamentos dessa mochila para que diminua o peso, Ryan o faz sem hesitar. Neste processo de cada vez retirar mais “objetos” da mochila, Ryan vê-se vazio, solitário. E assim, o filme mostra que vale a pena ter um pouco de peso na própria mochila, pois assim sabe-se que pelo menos ela possui algo dentro de si.

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Seja italiano

Nine, de Rob Marshall

EUA, 2009

Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson

O filme Nine é um musical baseado no filme 8 ½ do diretor italiano Frederico Fellini. É um musical estilo burlesco que exalta o cinema italiano da década de 50-60, possui um elenco invejável, excelente figurino e músicas que logo cativam quem as ouve. Porém, o roteiro é razoável, pois o filme deixa no ar algumas cenas que poderiam ocorrer e um necessário aprofundamento na essência das personagens.

O enredo centra-se em Guido Contini, grande cineasta que, após alguns filmes que foram fracassos de bilheteria, está com um grande bloqueio para criar um que retome a sua grandiosidade no cinema. Além da falta de criatividade, Contini passa por uma crise de idade, como se questionasse a si mesmo sobre o rumo que sua vida tomou.

Contini teve mulheres importantes, verdadeiras musas durante a vida. E é a elas que o cineasta recorre, sem saber qual irá inspirá-lo. A memória traz as influências da falecida mãe, a amante Carla, a esposa Luisa, a atriz musa de seus filmes Claudia, a jornalista Stephanie, a prostituta Saraghina e a amiga e figurinista Lilli.

Essas mulheres são a essência do filme, pois constituem o sujeito Contini. Nisso, o filme lança interpretações implícitas que precisam ser desvendadas até mesmo após o filme, a posteriori. Contini ensaia o herói que a mãe deseja que ele seja. Mesmo que tenha crescido e seja um adulto relativamente bem-sucedido, Guido parece estar totalmente sem rumo, não tem segurança acerca da sua competência como cineasta e parece querer sempre o apoio da mãe, como se ela pudesse voltar e dar um rumo à vida dele.

Toda essa carência pela comodidade que o colo da mãe lhe dava reflete nas relações amorosas que Contini teve. Em todas as suas musas ele busca o que a mãe era capaz de lhe dar: segurança, amor, a certeza de que alguém tomaria as decisões por si mesmo. Obviamente, tudo isso facilita a vida quando se é criança. Mas o defeito de Contini é exatamente isso. Ele, inconscientemente, não aceita que cresceu e que precisa fazer escolhas, enfrentar crises na vida.

Sendo assim, Contini percebe que todas as mulheres com o qual conviveu representavam um pouco de si mesmo. Saraghina foi a prostituta que o ensinou a arte do amor; Carla era a sua amante; Luisa assegurava uma vida equilibrada; Lilli o aconselhava. Stephanie era a jornalista que admirava o seu trabalho; Claudia trazia beleza às personagens que criava. E a mãe esperava certo heroísmo do filho, que este deveria ser um homem digno ou algo do gênero. Contini apropriou-se das expectativas maternas para se autoconstruir. E então, o cineasta percebe que todas deixaram uma marca nele; todas poderiam ser musas de seu filme, porque exerciam uma influência no sujeito Contini.

O filme em si é um bom entretenimento. Kate Hudson protagoniza uma das músicas mais dançantes do filme, Cinema Italiano, mas “some” no roteiro. Fergie canta Be Italian, música grandiosa estrelada no palco de um teatro. Judi Dench traz humor com o número de Folies Bergère. Penélope Cruz canta com grande sensualidade. Por fim, Marion Cotillard consegue fazer de Luisa uma personagem profunda e emocionante.

Todo o conflito psicanalítico que Contini apresenta fica implícito no filme e pode ser interpretado de várias formas. Ao perceber que fora influenciado por mulheres tão únicas, Contini encontra inspiração para o seu filme no próprio passado, na constituição de si mesmo.

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Ser utópico

 Após alguns meses, aqui está a minha redação do Enem 2009!

Na contemporaneidade é comum ouvir indivíduos dizendo que todos os políticos são corruptos. Ao falarem isso, cada um isenta-se desse “grupo” de corruptos e opta em permanecer, narcisicamente, fechado no próprio mundo. Mas, vivendo em sociedade, a grande questão é como estimular a ética coletiva em meio a tanta corrupção e receio de indignar-se com o que ocorre.

A filósofa Hannah Arendt contextualizou adequadamente o sentindo de conviver em sociedade: essa seria, metaforicamente, como uma “mesa”, em que aqueles que estivessem sentados permaneceriam com singularidade própria, as suas convicções, mas que, em face da mesa, buscariam um senso comum, ideias que pudessem ser justas a todos. A partir do momento em que o sujeito generaliza a corrupção, é como se a aceitasse e deixasse de buscar estabelecer culpas gradativas, isto é, punir aqueles que deixaram de exercer a autoridade (no sentido de conservar os direitos da sociedade).

Nesse ponto, na discussão acerca da culpa, Arendt também a diferenciou de responsabilidade. Ser responsável é aceitar transmitir preceitos, Cultura, História às próximas gerações; é não permitir a deterioração do mundo diante da nova geração que está se formando. E é exatamente da concepção de responsabilidade que a política necessita.

Portanto, estabelecer culpa a todos impede de haver justiça em sociedade. Dizer-se solitário por ser honesto é um equívoco, pois é função do sujeito cobrar justiça da autoridade que lhe representa. Como o filósofo do século XX, Isaiah Berlin, expressou, sonhar com um mundo igualitário em sua máxima expressão, é utópico demais. A ideia de liberdade e igualdade não consegue caminhar lado a lado, ambas se anulam entre si. Porém, é a utopia que move o ser humano a fim de tornar a sociedade a mais justa possível em face do impossível, da perfeição da utopia. É necessário construir um futuro baseado no passado e tentar alcançar as grandes narrativas, “repetir, repetir até ficar diferente”, como Manuel de Barros sabiamente escreveu.

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O poder pelo poder

1984, de George Orwell

George Orwell, autor inglês conhecido pela obra A revolução dos bichos, também se tornou marcante pelo livro 1984. Este foi publicado em meados da década de 40 e retrata uma sociedade do futuro (para quem o escreveu em 1949!) extremamente distópica, coletivista, totalitária. Mesmo que o título refira-se a uma data específica, o romance é atual e traz questões que sempre devem ser levantadas pelo ser humano: o desejo de poder, o sentido de liberdade, democracia, a relação com o passado, a valorização das novas gerações, o controle do Estado.

O enredo narra a história de Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade que não concorda com os ideais do Estado (nomeado Partido), “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Então começa a escrever num diário todo o descontentamento pela sociedade totalitária em que vive, apaixona-se por Júlia (isso era contra o Partido, que prezava mais a admiração pelo líder totalitário Grande Irmão do que o amor entre os indivíduos), tem acesso ao livro, secretamente escrito por Emmanuel Goldstein e que compõe a Confraria, organização contrária ao Partido.

1984 possui uma escrita simples, direta, bem explicativa e envolvente. Especialmente para o enredo o autor criou a Novafala, o idioma oficial da Oceânia, lugar onde se passa a história. É uma maneira criada pelo Estado para reduzir as chances de se expressar um pensamento. Além disso, há o termo duplipensamento, que Orwell criou: “é a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas”. Por exemplo, saber que a ideia do Partido é errada, mas se convencer de que é a certa.

A Novafala, os personagens, os departamentos que constituem o Ministério (do Amor, da Paz, da Verdade) trazem tamanha verossimilhança ao enredo que, ao final da leitura, o leitor preocupa-se com o perigoso poder totalitário concentrado na figura de o Grande Irmão, que é apenas um símbolo. A estrutura do Partido é semelhante ao comunismo da extinta União Soviética e ao poder exercido por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, há algo novo nesse Partido do Grande Irmão. O nazismo e o comunismo soviético possuíam métodos semelhantes ao do Partido fictício, porém não confessavam o que de fato os motivavam: o poder. Para o Partido, o poder é um fim em si mesmo; “nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.

Ao longo da História, para se obter uma sociedade totalitária, é como se o ditador dissesse que assume o poder temporariamente a fim de dominá-la para o próprio bem do ser humano, que não é capaz de governar-se sozinho. No caso, o ditador é uma espécie de tutor que “cuida” da sociedade. Mas, no enredo do livro, a figura do Grande Irmão é fictícia; o líder não é de carne e osso, ele veste apenas uma ideologia, a do Partido.

O passado, no livro, mostra-se mutável. Tudo pode ser modificado, desde as obras de Shakespeare até os documentos que comprovam promessas não cumpridas pelo Partido. Nessa sociedade distópica a memória é destruída, o que o Partido diz é uma verdade absoluta. Mesmo que “ontem” tenha dito que dois mais dois é quatro, no dia seguinte todos devem acreditar que dois mais dois é cinco, se for a versão contada pelo Partido.

Portanto, 1984 não pode ser lido como um relato das sociedades totalitárias. George Orwell foi mais ambicioso. Ele quis deixar o livro como um legado para a futura geração de 1984 ou para qualquer outra época. A sociedade distópica onde o personagem Winston vive pode estar mais perto de nós do que pensamos. A obra serve como um alerta para o que pode ser feito no futuro. Na História já existiram homens como o Grande Irmão. E a vontade de poder existe de fato. Sempre pode haver um Grande Irmão à espreita, “de olho em você”.