O poder pelo poder

1984, de George Orwell

George Orwell, autor inglês conhecido pela obra A revolução dos bichos, também se tornou marcante pelo livro 1984. Este foi publicado em meados da década de 40 e retrata uma sociedade do futuro (para quem o escreveu em 1949!) extremamente distópica, coletivista, totalitária. Mesmo que o título refira-se a uma data específica, o romance é atual e traz questões que sempre devem ser levantadas pelo ser humano: o desejo de poder, o sentido de liberdade, democracia, a relação com o passado, a valorização das novas gerações, o controle do Estado.

O enredo narra a história de Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade que não concorda com os ideais do Estado (nomeado Partido), “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Então começa a escrever num diário todo o descontentamento pela sociedade totalitária em que vive, apaixona-se por Júlia (isso era contra o Partido, que prezava mais a admiração pelo líder totalitário Grande Irmão do que o amor entre os indivíduos), tem acesso ao livro, secretamente escrito por Emmanuel Goldstein e que compõe a Confraria, organização contrária ao Partido.

1984 possui uma escrita simples, direta, bem explicativa e envolvente. Especialmente para o enredo o autor criou a Novafala, o idioma oficial da Oceânia, lugar onde se passa a história. É uma maneira criada pelo Estado para reduzir as chances de se expressar um pensamento. Além disso, há o termo duplipensamento, que Orwell criou: “é a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas”. Por exemplo, saber que a ideia do Partido é errada, mas se convencer de que é a certa.

A Novafala, os personagens, os departamentos que constituem o Ministério (do Amor, da Paz, da Verdade) trazem tamanha verossimilhança ao enredo que, ao final da leitura, o leitor preocupa-se com o perigoso poder totalitário concentrado na figura de o Grande Irmão, que é apenas um símbolo. A estrutura do Partido é semelhante ao comunismo da extinta União Soviética e ao poder exercido por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, há algo novo nesse Partido do Grande Irmão. O nazismo e o comunismo soviético possuíam métodos semelhantes ao do Partido fictício, porém não confessavam o que de fato os motivavam: o poder. Para o Partido, o poder é um fim em si mesmo; “nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.

Ao longo da História, para se obter uma sociedade totalitária, é como se o ditador dissesse que assume o poder temporariamente a fim de dominá-la para o próprio bem do ser humano, que não é capaz de governar-se sozinho. No caso, o ditador é uma espécie de tutor que “cuida” da sociedade. Mas, no enredo do livro, a figura do Grande Irmão é fictícia; o líder não é de carne e osso, ele veste apenas uma ideologia, a do Partido.

O passado, no livro, mostra-se mutável. Tudo pode ser modificado, desde as obras de Shakespeare até os documentos que comprovam promessas não cumpridas pelo Partido. Nessa sociedade distópica a memória é destruída, o que o Partido diz é uma verdade absoluta. Mesmo que “ontem” tenha dito que dois mais dois é quatro, no dia seguinte todos devem acreditar que dois mais dois é cinco, se for a versão contada pelo Partido.

Portanto, 1984 não pode ser lido como um relato das sociedades totalitárias. George Orwell foi mais ambicioso. Ele quis deixar o livro como um legado para a futura geração de 1984 ou para qualquer outra época. A sociedade distópica onde o personagem Winston vive pode estar mais perto de nós do que pensamos. A obra serve como um alerta para o que pode ser feito no futuro. Na História já existiram homens como o Grande Irmão. E a vontade de poder existe de fato. Sempre pode haver um Grande Irmão à espreita, “de olho em você”.

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Um comentário sobre “O poder pelo poder

  1. Ainda não li o livro, que será o próximo que pretendo ler, mas…

    Será que a mídia já não desempenha esse papel pois, torna realidade o que há tempos já foi absurdo e anula totalmente a capacidade de pensar e agir do ser humano? Ou estou pessimista demais?

    E mais uma vez, nem preciso dizer que é um ótimo texto, né?!

    Parabéns Má!!!

    Curtir

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