Seja italiano

Nine, de Rob Marshall

EUA, 2009

Com Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson

O filme Nine é um musical baseado no filme 8 ½ do diretor italiano Frederico Fellini. É um musical estilo burlesco que exalta o cinema italiano da década de 50-60, possui um elenco invejável, excelente figurino e músicas que logo cativam quem as ouve. Porém, o roteiro é razoável, pois o filme deixa no ar algumas cenas que poderiam ocorrer e um necessário aprofundamento na essência das personagens.

O enredo centra-se em Guido Contini, grande cineasta que, após alguns filmes que foram fracassos de bilheteria, está com um grande bloqueio para criar um que retome a sua grandiosidade no cinema. Além da falta de criatividade, Contini passa por uma crise de idade, como se questionasse a si mesmo sobre o rumo que sua vida tomou.

Contini teve mulheres importantes, verdadeiras musas durante a vida. E é a elas que o cineasta recorre, sem saber qual irá inspirá-lo. A memória traz as influências da falecida mãe, a amante Carla, a esposa Luisa, a atriz musa de seus filmes Claudia, a jornalista Stephanie, a prostituta Saraghina e a amiga e figurinista Lilli.

Essas mulheres são a essência do filme, pois constituem o sujeito Contini. Nisso, o filme lança interpretações implícitas que precisam ser desvendadas até mesmo após o filme, a posteriori. Contini ensaia o herói que a mãe deseja que ele seja. Mesmo que tenha crescido e seja um adulto relativamente bem-sucedido, Guido parece estar totalmente sem rumo, não tem segurança acerca da sua competência como cineasta e parece querer sempre o apoio da mãe, como se ela pudesse voltar e dar um rumo à vida dele.

Toda essa carência pela comodidade que o colo da mãe lhe dava reflete nas relações amorosas que Contini teve. Em todas as suas musas ele busca o que a mãe era capaz de lhe dar: segurança, amor, a certeza de que alguém tomaria as decisões por si mesmo. Obviamente, tudo isso facilita a vida quando se é criança. Mas o defeito de Contini é exatamente isso. Ele, inconscientemente, não aceita que cresceu e que precisa fazer escolhas, enfrentar crises na vida.

Sendo assim, Contini percebe que todas as mulheres com o qual conviveu representavam um pouco de si mesmo. Saraghina foi a prostituta que o ensinou a arte do amor; Carla era a sua amante; Luisa assegurava uma vida equilibrada; Lilli o aconselhava. Stephanie era a jornalista que admirava o seu trabalho; Claudia trazia beleza às personagens que criava. E a mãe esperava certo heroísmo do filho, que este deveria ser um homem digno ou algo do gênero. Contini apropriou-se das expectativas maternas para se autoconstruir. E então, o cineasta percebe que todas deixaram uma marca nele; todas poderiam ser musas de seu filme, porque exerciam uma influência no sujeito Contini.

O filme em si é um bom entretenimento. Kate Hudson protagoniza uma das músicas mais dançantes do filme, Cinema Italiano, mas “some” no roteiro. Fergie canta Be Italian, música grandiosa estrelada no palco de um teatro. Judi Dench traz humor com o número de Folies Bergère. Penélope Cruz canta com grande sensualidade. Por fim, Marion Cotillard consegue fazer de Luisa uma personagem profunda e emocionante.

Todo o conflito psicanalítico que Contini apresenta fica implícito no filme e pode ser interpretado de várias formas. Ao perceber que fora influenciado por mulheres tão únicas, Contini encontra inspiração para o seu filme no próprio passado, na constituição de si mesmo.

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8 comentários sobre “Seja italiano

  1. Bom… Apesar de algumas falhas apontadas nessa crítica (que eu acho demais essa sua capacidade de montar críticas tão elaboradas), é um filme que me despertou o interessante antes e mais ainda depois de ter lido esse post…

    Ótima crítica!

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  2. Adoro.
    Só não concordo em uma coisa na sua crítica: na minha visão, quem assegurava estabilidade pra ele era a Lilly, uma vez que ela convivia com ele, o aconselhava e o dirigia a decisões sensatas. Ja a esposa dele era como um “tira peso da consciência”, porque com ela ele pensava estar extremamente feliz, mesmo deixando ela infeliz.

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  3. Bru,
    Realmente a Lilly é aquela que o faz tomar decisões sensatas. No que o Contini mais erra é querer, com o casamento, encenar uma vida feliz. Pra sustentar o casamento com a Luisa, essa falsa felicidade, ele a trai com várias mulheres! Mas acho que as duas são as mais equilibradas que o Guido conhece…
    Ah, não podemos esquecer que a Sophia Loren e a Nicole Kidman foram muito “úteis”no filme, nem dá pra lembrar direito delas hahah

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