Escolhas e milhas

Amor sem escalas, de Jason Reitman

EUA, 2009

Com George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga

Amor sem escalas rendeu seis indicações ao Oscar, que irá ocorrer em março, e tem gerado elogios, como um filme que questiona as escolhas que se toma em face da vida. Para quem viu o filme Juno, Amor sem escalas é do mesmo diretor (Jason Reitman). Dá para perceber o humor sutil e a irreverência até mesmo em retratar o drama humano apenas em poucas cenas. Ao analisar o título, se espera um filme romântico. Mas, além disso, ele mescla drama e comédia de uma forma que logo cativa quem o assiste. O início pode ser um tanto maçante, mas logo o filme ganha fôlego e as personagens que surgem trazem um novo rumo à história.

O personagem Ryan Bingham é um sujeito contratado por diversas empresas para demitir pessoas pelo mundo inteiro, algo que os seus superiores temem, não têm coragem. Ryan viaja para diversos lugares, é um verdadeiro andarilho que tem o aeroporto como o seu próprio lar. No trabalho, Ryan é extremamente profissional e procura seguir à risca o roteiro que tem para si mesmo: fala as mesmas frases para todas as pessoas, ao demiti-las, como se procurasse consolá-las.

Porém, essa vida que ele escolheu encenar, a de uma suposta liberdade em ir e vir sem se responsabilizar por ninguém, começa a falhar quando conhece duas mulheres: Natalie e Alex. A primeira é uma jovem recém-formada na faculdade, que entra na empresa com a proposta de tornar a demissão ainda mais impessoal e utilitarista, utilizando a videoconferência. Essa ideia de Natalie acaba com a utilidade do emprego de Ryan; ele deixaria de viajar e teria que se fixar, ou seja, viveria como qualquer pessoa normal junto à família. Já Alex é a mulher pela qual Ryan se encanta por simplesmente ser a sua versão feminina. Ambos procuram casualidade nos encontros e não querem responsabilidade, veem na viagem uma maneira de fugir das relações sociais.

O único objetivo que Ryan possui é acumular milhas. O sonho dele é conseguir 10 milhões de milhas, algo que quem viaja deseja muito, porque assim poderia escolher o que quiser, desde as vantagens de não enfrentar filas até escolher o seu destino. Mas para que Ryan deseja tantas milhas se sempre suas viagens são bancadas pelas empresas? As milhas são apenas uma desculpa para Ryan reafirmar a sua humanidade, a necessidade de possuir um objetivo. E, quando conhece Natalie, esta lhe aconselha escolher, pela primeira vez, o lugar que sonha em conhecer.

Desta forma, o perfil psicológico de Ryan é traçado. Mesmo que ele tenha que viajar a fim de demitir pessoas e, possivelmente, arruinar vidas com a tal notícia, Ryan se sente menos desumano em comparecer às demissões, talvez a tentativa de dar rumo à vida dos demais, já que isso parece ser mais simples. Mas e quanto à própria vida? Ryan gosta de definir a vida como uma mochila que nunca deve proporcionar peso demais. Se for preciso retirar a família, os relacionamentos dessa mochila para que diminua o peso, Ryan o faz sem hesitar. Neste processo de cada vez retirar mais “objetos” da mochila, Ryan vê-se vazio, solitário. E assim, o filme mostra que vale a pena ter um pouco de peso na própria mochila, pois assim sabe-se que pelo menos ela possui algo dentro de si.

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2 comentários sobre “Escolhas e milhas

  1. Nossa!!! Muito interessante esse perfil que você traçou sobre esse filme, tinham me falado uma coisa totalmente diferente do filme, o que causou o meu desinteresse por este. Mas essa resenha, bem mais detalhada, me dispertou o interesse.
    Muito bom texto!

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