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Parvos e o riso

Após um longo mas excelente debate sobre o riso, o autor Gil Vicente e o parvo (o bobo da corte ou atualmente o Chaves, do seriado, que nos faz rir de maneira debochada sobre tudo), minha professora de Literatura ofereceu uma carona até o metrô, a mim e a mais dois amigos. Ela é assim, busca fazer de tudo pelos alunos, desde dar uma carona até ficar horas explicando uma pergunta feita. Ela é única.

Bom, já estava em cima da hora, era rodízio. Minha amiga falava de psicologia, meu amigo cantarolava uma música de Glee, dentro do carro era uma verdadeira representação do teatro vicentino: alegre, profano, uma forma de promover uma “válvula de escape” – claro, todos se sentiam bem por ser finalmente sexta-feira.

Eis que no meio da bagunça, cada um comentando um fato, um livro que leu ou o quanto determinada aula foi cansativa, minha professora diz, repentinamente:

-Cadê os “marronzinhos”?

Rimos demais. Para alguns isso pode realmente não ter humor algum. Ela repetiu a pergunta. Precisávamos ver se havia algum “marronzinho”, um fiscal da CET que poderia multá-la por ter passado dez minutos do limite estipulado do rodízio. Claro, estava chovendo e com grande trânsito, óbvio que é comum se atrasar em São Paulo.

Muitas vezes determinada frase, palavra dita não é engraçada. Mas se alguém do seu lado ri, o riso torna-se contagiante. É a Catarse, segundo Aristóteles. Sem ser teórica demais, a Catarse é o riso coletivo – ou choro – que é causado quando o indivíduo se identifica com o que vê num teatro grego. Rir traz prazer, mas contar a piada não tem só a intenção de ver o outro apreciá-la, e sim sentir o mérito por ter contado, o que gera o prazer. Assim, o riso precisa ter limites.  Não dá para rir descontroladamente num jantar ou reunião. O riso é uma arte que precisa ser usada nos momentos certos para causar impacto, o de desestabilizar quem ouve a piada ou até mesmo numa causa social, como ser irônico com o governo atual.

O riso tem um forte poder. Desde usar uma linguagem debochada para apontar os erros da sociedade tal qual José Simão faz nos textos da Folha de São Paulo até unir pessoas, sentir que há algo em comum entre elas. Após uma grande discussão sobre o riso, percebe-se que “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”, como Charles Chaplin disse. É necessário ter um pouco de parvo em si mesmo.

O Gustavo Saito fez uma crônica sobre o tema. É interessante ver uma outra forma de narrativa!

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Sob a perspectiva de um rasgo

“Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que batizamos de realidade é uma ilusão até maior do que o mundo dos sonhos” Salvador Dalí

"Dream Provoked by the Flight of a Bumble Bee", Salvador Dalí

Um elefante em tamanho descomunal anda sobre o mar. Tigres saltam da boca de um peixe. Assim descreve-se a obra surrealista de Salvador Dalí. Pelo ponto de vista pragmático, nada do que foi narrado é possível. Mas como um verdadeiro artista, Dalí coloca em questão o que se conhece como real. Para ele, há um mundo surrealista, em que são possíveis tigres irromperem de peixes.

Deleuze e Guattari, ambos filósofos, disseram que os artistas e pensadores em geral buscam promover “rasgos” no guarda-sol. Obviamente é uma metáfora, tal qual a pintura de Dalí. O guarda-sol representa a realidade, tudo aquilo em que o sujeito se apóia, se debruça para que seja possível organizar o pensamento.

Por exemplo, quando tentamos entender um problema matemático ou até mesmo um acontecimento do cotidiano. Antes se organiza os fatos, tudo o que ocorreu para que seja possível chegar a uma conclusão e o assunto fica “resolvido”; é um processo empírico. Porém, permitir que tudo seja visto como concluído, determinado, leva o sujeito a se estabilizar totalmente em face da realidade que o guarda-sol abriga e passa a não questionar o mundo a sua volta.

Então, surge a função dos artistas: abrir fendas no guarda-sol, desafiar a suposta realidade que a maioria aceita, e mostrar que há uma escuridão além desse rasgo, no firmamento. A escuridão é tudo aquilo que desconhecemos. O sentido de vida e morte, Deus, amor. A função do artista não é rasgar e mostrar uma outra realidade, como se a dele estivesse certa. Pelo contrário, a intenção é desmascarar aquilo que se diz real e promover o caos, a tentativa de refletir sobre o que está “lá fora”. Certas questões sempre irão precisar de “rasgos”, reflexões. Mas é preciso fazer um adendo: o fato de desconhecer grande parte do mundo não pode trazer ao ser humano a necessidade de ser supersticioso, pois isso causa sofrimento e medo, que não permitem a reflexão.

Sendo assim, o artista ensina que nunca saberemos tudo, tal qual o filósofo Sócrates pensava, “Só sei que nada sei”. Melhor ainda, em vez de pensar na frase do pré-socrático, a ensolarada música do Kid Abelha diz o mesmo. “Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber”. É possível ter em comum com Salvador Dalí muito mais do que se imagina. A loucura é aceitar a realidade exatamente como ela se mostra. O bom senso é permitir que tigres irrompam de peixes.

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Tornar-se mulher

Um poema atrasado para o Dia Internacional da Mulher!

De My Fair Lady* a Beauvoir**

Vê-se a construção da mulher

Vista-se e fale como a sociedade quer

E seja uma excelente esposa do lar

 

Hoje a mulher coloca seu scarpin

E vai trabalhar

Muitas vezes é o marido quem faz o jantar

Mas só isso basta para se ver emancipada?

 

Beauvoir já dizia

“Não se nasce mulher,

Torna-se mulher”

E é a cada dia

Que a mulher cria algo de sua autoria

♥♥♥

*My Fair Lady é um filme que narra a transformação de Eliza Doolitle, uma vendedora de flores ambulante com uma pronúncia péssima do inglês, em uma verdadeira dama.

**Simone de Beauvoir foi uma filósofa existencialista que, em diversas obras, tratou da questão da mulher na sociedade, como no livro O Segundo Sexo (vol. I e II)

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Curiosidades sobre o Oscar

Amanhã é o Oscar! Então, para entrar no clima da premiação – eu já estou ansiosa há muito tempo! – é interessante saber algumas curiosidades do Oscar que se descobre a partir de revistas, sites.

Meryl Streep foi indicada ao Oscar por Julie & Julia. A atriz já é veterana. Ganhou duas vezes, como atriz coadjuvante e melhor atriz. Recebeu mais 14 indicações, é a verdadeira recordista do Oscar em indicações. Porém, a que ganhou mais prêmios foi Katherine Hepburn, que nunca compareceu para recebê-los, só foi uma vez para prestar uma homenagem ao amigo Lawrence Weingarten.

Há uma história bem curiosa quanto a atriz Julie Andrews. Ela atuou na peça da Broadway, My Fair Lady, como a protagonista Eliza Doolitle. Porém, Julie foi chamada para interpretar, em seguida, Mary Poppins, enquanto a atriz Audrey Hepburn foi convidada, no mesmo ano, para interpretar a protagonista em My Fair Lady. Julie ganhou o Oscar por Mary Poppins e enfrentou Audrey na indicação de Melhor atriz, justamente pela personagem que ambas interpretaram. No ano seguinte, Andrews interpretou Maria que a fez ser eternamente reconhecida por A Noviça Rebelde. Mas não ganhou o Oscar, perdeu para Hepburn pelo filme Charada. Alguns diziam que havia rivalidade entre Audrey e Julie, mas sem dúvida ambas eram excelentes atrizes para serem indicadas ao Oscar.

E agora com o Oscar para ocorrer no domingo, há dez filmes como indicados a categoria de Melhor Filme. Porém, alguns críticos dizem que o único capaz de bater de frente com o sucesso de Avatar – o filme com a maior bilheteria de todos os tempos – é Guerra ao Terror. Avatar foi dirigido por James Cameron e Guerra ao Terror pertence a ex-mulher dele, Kathryn Bigelow. Como será o embate entre eles? James Cameron conquistou popularidade através dos homenzinhos azuis, além de ultrapassar a bilheteria de Titanic, filme que ele mesmo dirigiu. Cameron, quando recebeu o prêmio por Titanic, disse que era o rei do mundo. Guerra ao Terror é um filme mais cult, trata-se de uma realidade, a de soldados em missão no Iraque. Além desses dois filmes, UP-Altas aventuras foi indicado a Melhor Filme, algo que não acontece desde A Bela e a Fera, já que poucos desenhos conseguem emocionar crianças e adultos.

A crítica de Rubens Ewald Filho e outros profissionais valem mais que a minha, porém assistirei ao Oscar o máximo que puder (acaba tarde e dá sono!) e escreverei sobre a premiação!

Para saber mais algumas curiosidades, aqui está o site que me inspirou a escrever esse post: http://www.omelete.com.br/cine/100025523/O_Oscar_e_as_Mulheres.aspx 

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Ética e ciência

Redação de Filosofia – 2010

“Neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias; e não há ignorância que não seja miséria”. Padre Antônio Vieira

Heráclito e Demócrito

De acordo com a obra do artista Bramante, os filósofos Heráclito, o “pai da Dialética”, e Demócrito, que estudou o átomo como indivisível, observam o mundo sob aspectos distintos. Heráclito chora, enquanto Demócrito ri. Dessa forma, Padre Antônio Vieira, conhecido pelos sermões que escreveu, analisa o valor de ambas as reações.

Ao chorar, Heráclito demonstra insatisfação com as “misérias” do mundo, isto é, com os acontecimentos que não se modificam. Dentro da filosofia criada por Heráclito, “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”, o mundo está em frenética mudança. O choro do filósofo parece indicar certa falha na filosofia que ele mesmo criou. A vontade de poder, o totalitarismo, a ética perdida são fatos que não se modificam por si mesmos, como as águas de um rio. Saber que existem “misérias” é apenas um passo para a mudança, todavia ter consciência delas não costuma modificá-las naturalmente. Essas mudanças, portanto, não podem constituir uma “origem”; elas são invenções do ser humano.

No quadro, tendo uma reação oposta, Demócrito ri. Não possui uma conotação arrogante e nem se posiciona como um “velhaco” que detém todo o conhecimento. Mas, ao creditar a ideia do átomo, Demócrito sente que possui um trunfo. A ciência é capaz de alimentar milhões de pessoas, de criar armas para defendê-las (em certo sentido). Mas a ciência não se apropria da segregação ou pobreza na África. Ambas as idéias, de Heráclito e Demócrito, são válidas, auxiliam na constituição da sociedade. Entretanto, debater a ética é fundamental para que facilite um pouco a convivência humana e estabeleça um limite na ciência.