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“Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”

Sempre é tempo de homenagear José Saramago

Último post feito pelo autor no blog:

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Saramago deixará saudades e, de fato, o mundo ficou mais cego e burro após a morte dele, como disse Fernando Meirelles. O autor continuará a influenciar novas gerações de amantes da Literatura. Pensemos sempre.

José Saramago (1922-2010)

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Poesia do olhar

Tema da redação Fuvest 2010 – 2ª fase

“O mundo por imagens”

 Criar modelos sobre a realidade é uma característica marcante da Cultura. Só o homem é capaz de padronizar o pensamento, cultivar mitos acerca de personalidades, protótipos capazes de enquadrar o ser humano na sociedade. E a Literatura busca, por meio de “personas”, representar os arquétipos humanos, criticar estereótipos e discutir como interferem nas relações sociais.

A personalidade humana é difícil de ser desvendada ou compreendida. Muito do que o homem oculta, tacitamente, mostra uma personalidade dicotômica, multifacetada. Há uma “máscara” que se apresenta conscientemente, ou seja, é apenas uma primeira camada, tênue, do que pode retratar o ser humano.

É conflituosa a relação do sujeito com o objeto. Tende-se a olhar a realidade com olhos mecânicos, que buscam apenas retratar, através de teses e experimentos, a completude daquilo que é observado. Esquecemos que olhar a realidade implica metaforizar o meio; entender que não há um preceito que expressa a certeza de que “o céu é azul”. O olhar precisa ser louco, isto é, brincar com a realidade que é observada e modificá-la, deixando de prender-se apenas aos modelos fornecidos.

Essa mudança de visão diante do mundo é a que pode ser observada em algumas obras literárias tal qual Dom Casmurro, de Machado de Assis. A imagem de Capitu que é apresentada ao leitor se mantém dinâmica. A característica dela são os “olhos de ressaca”, com um fluido misterioso porque possui em si a ambigüidade humana e a metáfora pela qual o sujeito deve contemplar o mundo, como um mar em ressaca, conflituoso; esse mar não pode se estabilizar excessivamente diante das representações criadas para explicar o mundo que está fora da janela.

A dicotomia humana precisa ser compreendida. Criar estereótipos é mecanizar o olhar nas relações sociais. Imagens são emprestadas para compor modelos, mas precisam encarar a mudança. Apegar-se somente a essas imagens leva à deterioração as características fascinantes do ser humano: a capacidade de produzir metáforas e questionar, por meio dessa “poesia do olhar”, a realidade que está no horizonte.