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Entre a pena e a palavra

A pena calada aguarda as palavras
O contorno leve de uma letra
Para desenhar no papel.
Sombras de ideias
Vagam por um deserto
Ansiosas pelo encontro
Entre sombra e corpo.
Ideias fugidias
Olham sarcásticas,
Desviando da pena.
Fogem divertidas pelo deserto.
Pontos de exclamação!
Interrogação?
Deixam a trilha na areia
Um pensamento vindo à tona.
A pena segura carinhosamente a mão da palavra
E encaminha-a para o papel
A inspiração toma conta do poeta
Em rimas, palavras e doçura.
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Noite estrelada

Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.

A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.

Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.

Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.

Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.

Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.

**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (:

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Clássico

Se hoje eu gosto de ouvir músicas clássicas como as de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Ray Charles, entre outros, foi pela convivência com o meu avô. Ele era músico, como já expressei em outra crônica minha. Tocava piston, mas, curiosamente, nunca o ouvi tocar, já que desistira da música.

Mesmo assim, o som da orquestra fazia parte do meu avô. Eu ousaria dizer que a vida dele era mesmo uma ópera, talvez com um sentido diferente do escrito por Machado de Assis, em Dom Casmurro. O som de cada instrumento fazia-lhe lembrar dos tempos áureos em que tocava nos carnavais paulistanos. Ou do clima romântico que a época sugeria.

A vantagem dos clássicos é que eles, apesar do tempo em que foram criados, continuam a emocionar. Tente ouvir a trajetória humana descrita em My Way (Frank Sinatra) ou o sonho utópico por um mundo pacífico em What a Wonderful World, de Louis Armstrong. São instrumentos mágicos que compõem essas músicas. Não que hoje as músicas sejam plenamente vazias. Mas músicas dos anos 50 têm um clima nostálgico, capaz de unir gerações em uma tarde, ao contar para os netos o seu período de mocidade.

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Capacete paulista

Feriado no Brasil ou no estado de São Paulo é sinônimo de descanso, viagem, dormir mais tarde. Porém, hoje, a data Nove de julho remete à Revolução Constitucionalista de 1932. Assinalar a importância de conhecer a História como um modo de perpetuar a existência humana e a Cultura já se tornou lugar-comum. Mas é a verdade.

Desde os sete anos de idade tenho um grande fascínio pelo túmulo de Clineu Braga de Magalhães, localizado no Cemitério São Paulo. Todo ano, quando ia deixar as flores no túmulo dos meus parentes, eu passava diante do túmulo adornado por um capacete e ficava maravilhada pela delicadeza dos traços e curiosa para entender o motivo da morte do soldado. A criança idealiza o soldado como uma imagem heroica de filmes norte-americanos e esquece – ou desconhece – o fato de São Paulo ter lutado em algumas revoluções.

Por óbvio, a imagem do soldado heroico é puramente ideológica e ufanista. Porém, é necessário entender o porquê do feriado existir e os motivos da revolução.

Entre 1930 e 1934, Getúlio Vargas estava no poder, mas o governo foi chamado de Provisório. As primeiras medidas do presidente foram suspender a Constituição, fechar o Legislativo e nomear interventores militares nos estados. Um deles foi João Alberto, interventor nordestino que residiria em São Paulo. Entretanto, o estado queria alguém paulista para ser interventor. E era um absurdo um país ser governado sem uma Constituição! Praticamente uma ditadura disfarçada, já que foi apenas em 1937 que Vargas deu um golpe, iniciando o Estado Novo, puramente ditatorial, repressor.

O sentimento populacional estava em estado de ebulição. No dia 23 de maio – sim, mais um nome de rua! – ocorreu o conhecido episódio MMDC, com as mortes de Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, considerados jovens heróis do sonho paulista. E foi no dia 9 de julho que realmente começou a luta armada.

Clineu Braga de Magalhães participou do Batalhão 14 de julho. Era estudante do terceiro ano de engenharia do Mackenzie College. Morreu com um tiro no coração, aos 21 anos.

O curioso é que sempre fui fascinada pelo túmulo dele, sem saber de sua participação na luta armada. Só sabia dos acontecimentos históricos. Deixar uma rosa sobre o ramo de café, a espada, a bandeira paulista e o capacete fez desse Nove de julho um motivo para renovar o clima histórico. 

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Autodestruição

Sentada no ponto de ônibus, esperava o transporte que a levaria novamente para casa. Há alguns meses – não lembrava exatamente o tempo, talvez seis meses – pegara esse mesmo caminho. Tudo porque estava sem um caminho pelo qual caminhar.

Aquela mulher marcada pelo tempo, pequeninas rugas aparentes, fizera escolhas erradas. Obviamente, algumas escolhas foram certas. Talvez a de estar ali, à espera de um novo transporte. “Deixei uma garrafa com um restinho de vinho em casa”, pensou a senhora. Em outros tempos, esse resto seria o seu consolo. Agora, se se entregasse ao vinho ou a qualquer outra bebida, o seu fim estaria novamente próximo.

A rua deserta mostrava o quanto perdera. Não tinha filhos, foi casada por um bom tempo, mas o companheiro desistiu dela.

A senhora tinha um sentimento de autodestruição. Infeliz, percebera que não tinha nada. No momento, possuía apenas uma mala com poucos pertences. Fora derrotada pelos vícios. Tornou-se egocêntrica, alcoólica e destruiu a si mesma.

O transporte chegou. Deu o dinheiro ao cobrador, sentou-se. O dia estava nublado. Nada como o clichê dos romances, em que o sujeito caminha a um futuro ensolarado. Não sabia se seria iluminado, no caso dela. Porém, tentaria.

A rua anteriormente deserta agora começava a apinhar-se de gente. “Estou voltando à vida”, pensou exultante. Um leve sorriso cobria-lhe a face. Um pequeno rubor que antes se escondia também apareceu, timidamente. Mais pessoas foram enchendo o ônibus. Jovens conversando sobre a prova que tiveram na manhã, enquanto ouviam uma música aleatória no Ipod. Certamente, uma música para relaxar diante do desafio que enfrentaram. A senhora também tinha uma forte ligação com a música. Porém, as noites em que não conseguiu compor ao piano foram preenchidas pela bebida e a decepção por fracassar.

Em casa, deixara um vaso de flores precisando novamente de seus cuidados. A flor sobrevivia apenas pela água que recolocava no vaso. E ela, viveria pelo o quê? Teria que descobrir.

Roupas para passar, uma cadeira vazia, uma cama por arrumar. Uma casa silenciosa, pedindo para ouvir o som do piano. O resto de vinho. Este não teria espaço mais debaixo da cama como uma garantia de neutralizar os pesadelos que tinha. Ela deixou em casa apenas Quintana e Vinicius esperando pela sua companhia, noites aprofundadas pela poesia. Platão também a aguardava. Talvez apenas eles a esperassem, em papéis e brochuras.

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Catarse brasileira

Mais um drible sagaz
Um corte fugaz
Não é desta vez
Que o Brasil será hexa
 
Primeiro momento,
Esperança e sentimento
A vitória estava no bolso
E o Brasil contava com o ouro
 
Ouro brasileiro, na bandeira almeja
Mais uma estrelinha
Para guardar num baú de conquistas
 
Mas a inteligência holandesa
Superou a malandragem brasileira
A bola sorriu para a Europa
E deixou o Brasil sem liderar a Copa
 
Agora, a catarse traz o choro
Alguns milhões de brasileiros
Vão trabalhar no dia seguinte
Com um nó na garganta
 
As vuvuzelas vão se calar
O verde-amarelo irá p’ra gaveta
E a estrelinha tão aguardada
A vitória no coração vai aguardar