Autodestruição

Sentada no ponto de ônibus, esperava o transporte que a levaria novamente para casa. Há alguns meses – não lembrava exatamente o tempo, talvez seis meses – pegara esse mesmo caminho. Tudo porque estava sem um caminho pelo qual caminhar.

Aquela mulher marcada pelo tempo, pequeninas rugas aparentes, fizera escolhas erradas. Obviamente, algumas escolhas foram certas. Talvez a de estar ali, à espera de um novo transporte. “Deixei uma garrafa com um restinho de vinho em casa”, pensou a senhora. Em outros tempos, esse resto seria o seu consolo. Agora, se se entregasse ao vinho ou a qualquer outra bebida, o seu fim estaria novamente próximo.

A rua deserta mostrava o quanto perdera. Não tinha filhos, foi casada por um bom tempo, mas o companheiro desistiu dela.

A senhora tinha um sentimento de autodestruição. Infeliz, percebera que não tinha nada. No momento, possuía apenas uma mala com poucos pertences. Fora derrotada pelos vícios. Tornou-se egocêntrica, alcoólica e destruiu a si mesma.

O transporte chegou. Deu o dinheiro ao cobrador, sentou-se. O dia estava nublado. Nada como o clichê dos romances, em que o sujeito caminha a um futuro ensolarado. Não sabia se seria iluminado, no caso dela. Porém, tentaria.

A rua anteriormente deserta agora começava a apinhar-se de gente. “Estou voltando à vida”, pensou exultante. Um leve sorriso cobria-lhe a face. Um pequeno rubor que antes se escondia também apareceu, timidamente. Mais pessoas foram enchendo o ônibus. Jovens conversando sobre a prova que tiveram na manhã, enquanto ouviam uma música aleatória no Ipod. Certamente, uma música para relaxar diante do desafio que enfrentaram. A senhora também tinha uma forte ligação com a música. Porém, as noites em que não conseguiu compor ao piano foram preenchidas pela bebida e a decepção por fracassar.

Em casa, deixara um vaso de flores precisando novamente de seus cuidados. A flor sobrevivia apenas pela água que recolocava no vaso. E ela, viveria pelo o quê? Teria que descobrir.

Roupas para passar, uma cadeira vazia, uma cama por arrumar. Uma casa silenciosa, pedindo para ouvir o som do piano. O resto de vinho. Este não teria espaço mais debaixo da cama como uma garantia de neutralizar os pesadelos que tinha. Ela deixou em casa apenas Quintana e Vinicius esperando pela sua companhia, noites aprofundadas pela poesia. Platão também a aguardava. Talvez apenas eles a esperassem, em papéis e brochuras.

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4 comentários sobre “Autodestruição

  1. Gostei do ritmo, da forma da escrita.. do texto em si – Excelente! Tenho apenas um questionamento: São mesmo os vícios que afundaram a vida da moça ou ela tê-los largado contribui para a manutenção de sua melancolia? Pode ser pessoal, mas me parece que a forma de abordagem do tópico contradiz outras afirmações do texto.

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    • O abandono do vício sempre será melancólico, infelizmente. Acho que a felicidade é algo muito instável para ela e entre a tristeza que sentia ao entregar-se à bebida e a tristeza de abandonar o vício – este aparentava ser a única garantia de consolo – a segunda opção parece mais viável para a personagem, já que pelo menos apresenta maiores opções de melhorar sua vida. É o jeito de descobrir qual ela prefere; apenas tentando. Se tiver algum ponto contraditório aí, vou rever!
      Obrigada por comentar (:

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  2. Eu entendi que a melancolia da senhora era devido as coisas boas da vida que perdeu ou deixou de fazer: não teve filhos, o companheiro que perdeu, as músicas que deixou de compor, os livros que não leu e até o vaso de flores que não molhou. Mas sempre existe esperança para recomeçar.

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  3. O que me pareceu primeiramente foi que o vício foi um consolo, mas em algum ponto ele se torna também culpado pelo passado. Relendo agora, depois do seu comentário, ficou mais claro.
    Gostei particularmente do trecho “estou voltando à vida”, no momento em que a rua enche. Pensei um pouco em Lévi-Strauss… Ela se inserindo na cultura e assumindo a posição de humana… Apesar disso, a perspectiva de “melhora” da vida é ainda deprimente – cliché, no mínimo. Como se ela se arrastasse em busca de algo mais agradável, mas não nutre esperanças de que será concreta e puramente BOM.
    Saudades de debater contigo!
    Beijo.

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