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O olhar sobre o escritor

O primeiro momento em que se começa a ler determinada obra, o escritor ainda é um enigma. As páginas vão revelando o modo como ele costura a história e surpreende o leitor. Não é muito diferente ao ler crônicas publicadas no jornal. A semana dura tempo demais para chegar finalmente o dia com mais uma crônica publicada. E o mistério de querer saber do tema? Passam-se os olhos pelo texto rapidamente, linha por linha, com vontade de logo satisfazer a curiosidade.

Semanalmente, é grande a minha expectativa de ler a coluna escrita por Contardo Calligaris, às quintas-feiras na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada. São crônicas que reúnem fatos, notícias, com o conhecimento vasto do autor em Psicanálise e Filosofia; conseguem provocar intensas reflexões acerca do homem contemporâneo.

Assim, na Bienal do livro 2010, assisti a uma palestra no Salão de Ideias, com três grandes escritores: Ana Maria Machado, Moacyr Scliar e já citado, Contardo Calligaris. Consegui autógrafos e fotos com os dois primeiros. Ana Maria Machado é uma senhora com ar jovial e sorridente. Nem é preciso dizer que os três são extremamente cultos. Scliar é simpático e ficou orgulhoso quando lhe disse que, para um trabalho do ensino médio, toda a sala leu e adorara o livro dele, “O centauro no jardim”. Calligaris, após a palestra, já tinha ao seu lado uma jornalista aguardando uma entrevista. Aproximei-me dele e não tinha levado nenhum dos seus livros para um autógrafo. Grande erro! Mas pedi-lhe um abraço. E ele o deu, com um grande sorriso no rosto e ainda surpreso com tal pedido. Foi melhor que ganhar o autógrafo.

Por isso, ver um autor que se admira é incomum. Diante das palavras já na memória do leitor, ver quem as escreve é surpreendente, já que não é totalmente possível imaginar como ele é. Talvez se a sua escrita fosse muito erudita, logo se pensaria em um velhinho rabugento com uma fala difícil. Só estereótipo.

Acredito que não consegui imaginar nenhum desses autores quando li suas obras. Como é possível criar uma “intimidade” entre autor e leitor apenas pelas letras? O livro consegue essa proeza: adorar e ter carinho por Machado de Assis, mesmo que nunca seja possível vê-lo, afinal séculos nos separam. O mistério de quem está por trás das palavras instiga ainda mais o leitor em face do texto. Uma linha que revela um pouco de sua vida pessoal é guardada com carinho por quem a lê. E, mesmo que seja possível conhecer o autor, ele continuará a simbolizar todas as ideias que fascinaram o leitor.

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Sombras no beco

O som de gotas que caía sobre o asfalto ecoava pela rua próxima e irritava quem ouvisse. Era uma madrugada nebulosa, capaz de confundir qualquer um que andasse pela rua àquela hora. O rapaz saíra de um bar; bebera, surpreendentemente, uma quantidade moderada e só ficara no bar para adiar a voltar para casa. Nem poderia chamar de casa o quarto que alugara numa pensão qualquer. Estudava muito, morava em um lugar modesto e gastava seu dinheiro com livros de sebos. Devorava-os avidamente, como se as folhas gastas que contemplava indicassem a sabedoria esperançosa que salvara muitos da alienação.

A aparência do rapaz não importava muito. Podia-se dizer que era alto, moreno e usava um sobretudo, em que as mãos se escondiam dentro do bolso para afugentar o frio.

Algumas pessoas passavam por ele, absortas em conversas inúteis sobre celebridades, tempo e afins. Nada que importasse muito. O rapaz entrou num beco entre alguns prédios com paredes de tijolos extremamente antigas. Ao fundo o jovem ouvia o som da TV localizada em um quarto aleatório dos prédios de cinco andares. Passava os típicos programas de entretenimento para a madrugada. Será que quem os assistia sentia a solidão urbana que o aplacava?

A realidade para o rapaz parecia bem relativa. Enquanto preocupava-se em refletir acerca de ideias filosóficas, o restante dos que conhecia preferia isentar-se de tal discussão. “Afinal, para que discutir assuntos que muitas vezes não possuem respostas?”, pensou ironicamente. Se soubessem o quanto aquelas questões iluminavam a concepção de quem somos…

O beco estava precariamente iluminado. Algumas sombras passavam por ele, mas eram praticamente indefiníveis. Possivelmente um gato explorando a lata de lixo, ratos passando furtivamente entre restos de alimento. Naquele beco, as sombras pareciam enormes. Ilusões. Não eram iguais ao que se visualiza no mundo dos sentidos. Num beco, o rato pode tornar-se gigante e trazer um medo devasto. Mas, na realidade, era apenas um bichinho à procura de alimento. O gato, miticamente, pode ser assustador; entretanto, era só uma bola de pelos.

O rapaz continuava a andar, não sabia ainda por onde passava. No fundo, pressentia que em cada passo e pensamento residia uma superação daquilo que tratava como verdade absoluta. Era preciso o momento de questionar as sombras que via e pensar se não havia algo além delas.

À sua frente havia uma rua deserta, mas bem iluminada. Já era manhã, nem percebera; após a escuridão que vira, a luz que encontrou pertencia ao sol ainda iluminando timidamente o asfalto e os prédios. Porém, era uma luz significativa, o jovem percebeu a mudança pela qual passara. Não era mais alguém que sonhava em encontrar apenas a sabedoria dos livros. Não, essa sabedoria encontrava-se em cada pergunta que fez diante das sombras. Gatos e ratos podem ser muito mais do que se contempla no meio de uma neblina.

P.S. É um rascunho, ainda vou estender a história :p