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Prateleiras e sonhos

O abrir da geladeira me frustra
Por entre as prateleiras não há o que anseio
Essa fome vai além da fruta, do pão
Não é material e nem consumível
Talvez seja uma procura em vão
Vejo um espaço vazio ocupado por sonhos
Não-tateáveis
Intratáveis,
Porque imperam a nossa existência
Veem quando querem…são orgulhosos!
Ora são sonhos sem sabor, incógnitas
Ora sonhos palatáveis, com gostinho de doçura
Sonhar é o constante desejo do paladar à espera da fome abatida
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Palavras escritas na cartolina

Clara não parava de pensar no atraso em que se encontrava. Entrou no metrô cheio, espremeu-se por entre as pessoas em plena manhã de segunda-feira. Ia para mais um dia de trabalho na redação de um jornal, após uma noite mal dormida concentrada na reportagem que deveria apresentar. Por que escolhera aquela profissão? Na ficha de inscrição do vestibular a escolha parecia natural, mas no dia a dia, a opção tornava-se uma incógnita.

Mais uma estação e a porta se abriu. Uma menina, na faixa dos onze anos, entrou segurando os livros escolares. Ficou ao lado de Clara e olhou, discretamente, para o livro de Comunicação. Houve um lampejo de admiração e sonho. O fascínio com que a menina contemplava o livro era o que faltava para Clara na exaustão do cotidiano. A jovem sentira o mesmo fascínio por Jornalismo quando tinha a mesma idade. Onde estava esse olhar curioso?

As mãos de Clara suavam frias ao se ver novamente no momento em que, aos onze anos, precisou encenar um telejornal na escola. À sua frente estava a câmera para uma gravação escolar, nada profissional. A cartolina vinha com as palavras que deveria dizer. O que estou fazendo aqui? Estava expondo todo o seu nervosismo àqueles que a viam na hora de gravar, mas deveria mostrar segurança ao falar! Confuso demais para uma menina. Ficou zonza ao encarar as palavras corridas na cartolina branca. Só tinha que falar aquilo. Pra que se sentir nervosa?

Respirou fundo e pensou nas repórteres que via todo dia na TV. Parecia tão simples, para elas, contar sobre os problemas da cidade ou o assassinato de uma criança. Talvez fosse simples apenas aparentemente. No fundo, Clara imaginava as repórteres nervosas como ela. Bom, vamos acabar logo com isso. Melhorou a postura, ajeitou o terno, olhou para a câmera e, pausadamente, falou o que estava escrito na cartolina. Ah, consegui!

Ao encarar a sua imagem difusa refletida na porta do metrô, Clara deu uma risadinha, lembrando do nervosismo pelo qual passara na infância. Desde aquele momento decidiu fazer Jornalismo. A curiosidade pelo mundo, a imprevisibilidade que a surpreendia tal qual a epifania provocada pela menina no metrô. Agora que ia trabalhar, Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista.