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Boas festas

Nesta época festiva, final de ano, os discursos de “Feliz Natal e um próspero Ano Novo” parecem se repetir há séculos; pipocam nos meios de comunicação e nas despedidas escolares ou do trabalho. A tradição natalina não é estruturalista, mas talvez o desejo que nós temos por mudanças, novidades esteja aí há muito tempo. Pelo menos há 7 mil anos antes do nascimento de Jesus, essa data era a celebração do solstício de inverno, uma noite mais longa no hemisfério norte e o Sol ficava mais tempo no céu, o que representaria o “renascimento” dele. Portanto, o Natal é diferente para cada cultura e momento histórico. Montar a árvore natalina, colocar enfeites é uma convenção social, mas, de alguma forma, nos compõe e nos integra à sociedade. Claro que não se pode deixar de pensar que essa época é muito comercial também. Mas essa questão a gente deixa para Marx analisar, se Natal é capitalista demais ou não. No momento, o que importa é ver que o presente está sendo encaminhado para a posição de passado e o intangível nos aguarda, independente da data escolhida para  comemorar. Todo momento é receptivo para a reflexão, porém o final de ano representa uma mudança temporal (mais uma convenção?) e simboliza a renovação de sonhos. Por isso, renovo neste post a paixão pela escrita que me estimulou a fazer este blog há um ano, de uma forma bem metalinguística: escrevendo mais um post. Deixo o recado poético de Mário Quintana diante Das Utopias:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não quere-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
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Face tristonha

Deparo-me com a loucura festiva do Natal e Ano-Novo
E as despedidas batem à minha porta e mostram a sua face tristonha
O ontem não é mais o meu hoje; é simplesmente o não mais.
Esse é mais um enigma a cada dia que passa.
Um velhinho uma vez já falara:
“Não sabemos o que o futuro nos espera!”
Apoiando, sabiamente, os óculos na ponta do nariz…
Óculos que já viram muito…
Gostaria de ter o poder das mágicas cartomantes
Encontrar no tarô as respostas para o mundo!
Mesmo com esse sonho desvairado de entender o futuro
Qual seria a graça de acordar
E saber, matematicamente, o que nos espera?
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Em meio a Atenas e aos modernistas

Assim como Mário Quintana disse na crônica “Coisas e pessoas”, sinto que também possuo a tendência de personificar as coisas. Desde pequena eu gosto de imaginar as matérias da escola como pessoas. Já que não tenho muita facilidade em Matemática, essa logo foi um velhinho com sobrancelhas arqueadas e um olhar inquisidor. Hoje, está mais para um velhinho sarcástico que ri da gente quando põe na lousa uma fórmula que “explica” o mundo. Como um amontoado de números e letras ao quadrado pode explicar por que estamos aqui?

História sempre me pareceu alguém que logo saca do bolso uma linha do tempo e começa a falar, empolgadamente, do processo de emancipação que a Revolução Francesa simbolizou. Ao mesmo tempo, narrava com muita emoção as revoltas que ocorreram na República Oligárquica. Essas narrativas sempre foram compatíveis às aventuras de Ulisses, cheias de perigo e significados, sempre empolgantes. O término de cada capítulo sobre História sempre significou para mim o mistério do que viria a seguir.

Já Literatura sempre me faz evocar a imagem de Camões ou Machado de Assis, é normal. Mas a palavra em si, tão imponente, vai de encontro à imagem simpática que tenho dos modernistas, poetas e intelectuais numa roda de samba celebrando a vida. Definir Literatura personificando-a é injusto; ora parece a tradição clássica de Olavo Bilac; ora a irreverência do Oswald de Andrade e a paixão pela vida de Vinicius de Moraes.

Enquanto algumas matérias criaram em minha mente a ideia de uma matéria antiga, clássica, Filosofia é o oposto de todas. É a “velha-nova” disciplina, imagino-a tal qual uma jovem, mas parecida com a deusa Atenas que mitifiquei. Não é à toa vê-la como a deusa, pois a Filosofia veio exatamente do conflito entre razão e mito. Seria a deusa Atenas apenas por simbolizar a sabedoria; e jovem, pois sempre está se modificando através do pensamento e da dialética. Embora tenha essa ideia da Filosofia, prefiro não vê-la incorporada apenas na figura de Sócrates ou algum outro filósofo. É o mesmo impasse que ocorre com Literatura: seria injusto achar que a disciplina se concentra apenas na imagem de uma pessoa.

De qualquer forma, sei que as matérias que personifiquei fazem parte do meu cotidiano, reinventam-se, estão sempre jovens como Atenas ou o espírito modernista da geração de 22. Pode parecer loucura, mas personificar as disciplinas é fazê-las vivas, independente dos séculos aos quais pertenceram.