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Heróis de um carnaval

A capa tremulava ao vento e o glitter caía delicadamente da estrelinha que ornava uma simples vareta. Os passos do super-homem e da fada faziam-se com urgência. O caminho seria árduo, cheio de perigos, mas eles sabiam de suas responsabilidades. Em alguma parte do mundo mais uma ditadura se desfazia e o super-homem seria chamado para apartar brigas e trazer a paz. A fadinha, bem, tinha como função realizar o sonho de mocinhas que queriam brilhar e ser tão belas quanto a capa da Vogue.

Uma multidão se formava à frente deles. Seriam admiradores? Pessoas que já precisavam de ajuda? Próximo a eles, o barulho de rodas os tirou desse sonho. O super-homem e a fadinha andavam rumo… ao ponto de ônibus. Não iam salvar mocinhas indefesas. A multidão à frente era uma fila de pessoas conturbadas a subir no ônibus, acreditando que suas vidas possuíam tanta urgência quanto a necessidade de salvar o mundo. Bem, a única missão do super-homem e da fadinha era o carnaval.

Entre eles, havia a mãe, conduzindo-os para o ponto de ônibus. Ela pintou a máscara nos olhos do filho com muito carinho, enquanto colocou a tiara nos cabelos castanhos da filha, a mesma que usara no carnaval ao conhecer o marido. O carnaval era simbólico para a família, pois marido e mulher casaram-se no carnaval, e os filhos, gêmeos, nasceram com a mesma felicidade de uma escola de samba entrando na Marquês de Sapucaí. A comemoração do evento era em blocos de rua, próximo ao bairro dos avós, ou em salões. Desta vez, o super-homem e a fadinha rumavam à escola para a comemoração.

No ônibus a balançar, alguns ignoravam as criancinhas, preocupados demais com os seus problemas. Uma pessoa ou outra sorria e exclamava “ah, que fofura!”. Só isso. Não reparavam o quanto o super-homem e a fada eram heroicos? No cotidiano, preferiam esconder a identidade, claro. Naquele dia, em especial, estavam mostrando a todos quem eram e só o que recebiam era um aperto na bochecha?

Ao chegar à escola, numa profusão de ciganas, princesas, homem-aranha e batman, havia crianças com a mesma fantasia! Mais um super-homem e uma fadinha! Mas eles eram únicos, como podem aparecer do nada? Não entraram em contato! A fadinha ficou desolada, sonhava em criar roupas num passe de mágica e agora via a sua magia ser roubada por uma fada qualquer. O super-homem nem se sentia mais tão heroico assim. Não serviria para nada nos conflitos mundiais. Os dois se encararam, melancolicamente, deram-se as mãos e sentaram-se em um banquinho, para observar a alegria das outras crianças.

Com um pacote de confetes, a mãe chegou alegremente a eles. Estranhou a face tristonha dos filhos, olhou em volta e logo viu a outra fada e o super-homem. “Ah, essas outras crianças só vestem uma fantasia no carnaval, por algumas horas. Eles não nasceram no carnaval. Desde o dia em que vocês vieram ao mundo, já são os meus heróis”. A mãe deu um beijinho em cada um, ajeitou a tiara da menina e a capa do filho.

A fadinha e o super-homem se olharam. A fantasia deles tinha lá a sua originalidade. A varinha de condão da outra fada soava tão falsa! E qual é o herói que não passou por uma crise? Vilões e concorrentes existem. Mas nenhum deles tinha uma tiara ou uma máscara como as que usavam. Munidos de confete, o super-homem e a fadinha foram para a brincadeira. Não precisavam de histórias em quadrinhos ou contos de fada para serem heróis.

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Tábula rasa

Uma página em branco à minha frente e outras preenchidas espalhadas pela mesa. Não vejo mais o vazio que a mesa possuía antes de complementá-la com livros, papéis demarcados com conteúdos que resistiram aos séculos e hoje são transmitidos a mim. Linhas e mais linhas novas e velhas, simultaneamente, esperando para serem recebidas por essa página em branco que sou eu. Verdadeira tábula rasa.

É claro que nunca estamos completamente “vazios”. Mas é essa a sensação que dá ao contemplarmos a mudança. Não somos meros receptores, prontos para receber as linhas que outros escrevem em nós, sendo uma tábula rasa, como diria Locke. Porém, gosto de atualizar um pouco esse pensamento, em colocá-la como uma tábula em constante preencher-se e esvaziar-se de alguns itens.

E aí entram as páginas já citadas acima. Folhas que já ocuparam a mesa como se fossem parte dela, extremamente necessárias, hoje parecem mais elementos acumulados nela. Como abrir espaço para as novidades, sem ignorar as folhas que fazem parte do passado? Não é necessário jogar todas fora, mas tem algumas que não teriam exatamente uma utilidade. Hm, não gosto muito dessa palavra, já que é bem relativa a utilidade dos objetos. Para mim, uma fotografia antiga pode ser “útil”, resgata boas lembranças. Mas, para você, ela só pode ser um indício do tempo irrecuperável.

Volto o meu olhar para as folhas, novamente. Dá um aperto no coração saber que algumas precisam ser recicladas. Outras eu guardarei, não pela dita “utilidade”, mas pelo carinho que representam. Difícil esse papel de escolher o que irá preencher a tábula rasa…