Tábula rasa

Uma página em branco à minha frente e outras preenchidas espalhadas pela mesa. Não vejo mais o vazio que a mesa possuía antes de complementá-la com livros, papéis demarcados com conteúdos que resistiram aos séculos e hoje são transmitidos a mim. Linhas e mais linhas novas e velhas, simultaneamente, esperando para serem recebidas por essa página em branco que sou eu. Verdadeira tábula rasa.

É claro que nunca estamos completamente “vazios”. Mas é essa a sensação que dá ao contemplarmos a mudança. Não somos meros receptores, prontos para receber as linhas que outros escrevem em nós, sendo uma tábula rasa, como diria Locke. Porém, gosto de atualizar um pouco esse pensamento, em colocá-la como uma tábula em constante preencher-se e esvaziar-se de alguns itens.

E aí entram as páginas já citadas acima. Folhas que já ocuparam a mesa como se fossem parte dela, extremamente necessárias, hoje parecem mais elementos acumulados nela. Como abrir espaço para as novidades, sem ignorar as folhas que fazem parte do passado? Não é necessário jogar todas fora, mas tem algumas que não teriam exatamente uma utilidade. Hm, não gosto muito dessa palavra, já que é bem relativa a utilidade dos objetos. Para mim, uma fotografia antiga pode ser “útil”, resgata boas lembranças. Mas, para você, ela só pode ser um indício do tempo irrecuperável.

Volto o meu olhar para as folhas, novamente. Dá um aperto no coração saber que algumas precisam ser recicladas. Outras eu guardarei, não pela dita “utilidade”, mas pelo carinho que representam. Difícil esse papel de escolher o que irá preencher a tábula rasa…

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3 comentários sobre “Tábula rasa

  1. É, realmente, uma sensação estranha essa de “reciclar as nossas folhas”, ou essa sensação daquilo que já foi novo, folha recém-preenchida, e agora é só mais um elemento que devemos julgar se é ou não descartável, sendo essa palavra nõ tão acertada para descrever esse processo. Acho que se eu começar a falar tudo o que me veio à mente, vou começar a divagar aqui… Resumindo, se me despertou tantas reflexões, é porque eu gostei.. hehehe… Ótimo, Marina!!! Só no aguardo do “Cisne Negro” agora… E eu preciso tomar vergonha na cara e escrever também!!! Beijos

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  2. AAAAAHH! Que linda, usou o conceito do Locke que o Tio Douglas passou!
    E aposto que os papéis a ser reciclados são agês de exatas HAHAAHAHAHAHAHAHAHAH

    Mas isso foi MUITO, MUITO Paulo Freire: “Não somos meros receptores, prontos para receber as linhas que outros escrevem em nós” ahahahahahahahahaahaha

    Isso que é demais, o ser humano não é SÓ uma tábula rasa, mero receptor como seriam os macacos que, aprendendo, transmitem a informação para o outro. Somos tábulas se se permitem ser talhadas ou não e, em nosso livre-arbítrio, vamos nos construindo pouco a pouco como seres culturais, éticos, ontológicos e epistemológicos (tá, isso foi BEM MAIS Paulo Freie eheheh). Como diz, “Difícil esse papel de escolher o que irá preencher a tábula rasa…”. Temos a escolha de nossos atos, mais ainda, o papel de preencher-mo-nos como papel em branco. Fico feliz em saber que não guardou a papelada pelo utilitarismo pragmático de hoje em dia.

    Eu adoro essa dialética do Locke!!!
    Agora eu vou passar no blog na Natiko que ela prometeu escrever hihihihihi

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  3. Fico tão feliz pelo meu texto ter proporcionado reflexões! Sim, Nati, aguarde Cisne Negro, vou ver se rola um ensaio ou resenha.
    Gu, pensei nesse conceito aí do Paulo Freire, mas bem mais em Lacan, alienação/separação (essa é clássica!). Infelizmente, terei que me desfazer de algumas ags de exatas, porque tá lotado por aqui. Significa uma mudança e até certo “utilitarismo” pelo que eu posso guardar relacionado a matéria da faculdade. Porém, não fiz as ags só pela nota. E acho que isso já é a marca que ficou na tábula rasa, mais importante do que a folha concreta.
    Dizem que a ideia do Locke acabou servindo como base para o conservadorismo nas aulas, do aluno como mero receptor. Pode ser, mas a ideia dele não deixa de ser bem interessante para várias áreas…

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