1

Cólera e matéria-prima

Ressoa em meus ouvidos os gritos coléricos de Álvaro de Campos.
Todo o ímpeto de gritar, a vontade de a sociedade esmagar
Os erros nomear…
Hoje, talvez, ele entendesse:
Falar de seu problema não o faz ser fútil diante de outros
O choro e a lamentação tem prazo de validade
Isso é fato.
Permitir o desmoronamento interior,
Como uma marca constante relembrando as dores,
Destrói a humanidade.
Mas o avançar do mundo anseia por uma circularidade louca
Possível?
Ascensão, queda…humores
Não são pelas lamentações que se pretende um ato a mais?
Esbravejar ao mundo o que o irrita é melhor do que não fazê-lo!
Então é isso!
Desejo do mundo o correr da água, veloz
Chegar a algum lugar!
Enlouquecidamente, a cada passo, quero o melhor!
Cansaço vai e vem…abstrato
Uma ilusão criada…
É dele que tento arrancar freneticamente
A matéria-prima
De quem eu sou.
4

Negação

Não penso que saiba muita coisa. A melancolia que me envolve por essa constatação não tem nenhum fundo socrático. Não, não quero parecer demonstrar uma sabedoria que não tenho. Isso fica com Sócrates. Não li muitos dos livros que a maioria considera clássicos da Literatura. Dostoievski, Hemingway, Tolstói. Gostaria de lê-los com o mesmo ímpeto que tenho ao comprá-los! E o Cinema, então? Inúmeros filmes à minha espera. Planejo o meu futuro, mas não sei se tais objetivos irão se consumar. E quem sabe? Não consigo decidir (e acho que nem precisa) se Capitu traiu mesmo Bentinho. Perguntaria ao Machado se pudesse. Provavelmente não conseguirei ler todos os livros de filosofia que desejo. Não sei fluentemente outras línguas. Só o português, e então ecoa em minha mente Pessoa, com “a minha pátria é a língua portuguesa”.  Não sei por que, apenas mera lembrança. Talvez eu tenha tempo para aprendê-las, assim espero! Não sei grandes frases e poesias para recitar por aí. Ou seja, eu não daria certo vivendo na Grécia Antiga, talvez não conseguiria declamar um só canto de Homero! Por fim, essa crônica não é uma referência intencional ao último capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que tudo é uma negação. Imagina, pessoas citadas aqui foram apenas homenageadas, são admiradas por mim. Nem sei o que me levou a escrever tudo isso. O propósito de ser irônica? A intertextualidade? Um desabafo que não leva a lugar nenhum? Quem sabe se por uma negação, encontro uma afirmativa? Digo que não sei, mas pelo menos conheço tais autores. Meio complicado isso. Então sei alguma coisa? Hm, talvez. Mas vamos combinar que conhecer e apreciar autores e filósofos vai além de citações. Lembro-me dos indivíduos pedantes que desfilam por aí, orgulhosamente, as citações que decoraram para recitar em jantares ou conversas informais, apenas com a intenção de parecer um conhecedor das artes ou algo do gênero. Talvez o único propósito aqui seja perceber que um conhecimento pode ser compreendido como superficial. Pois o engano ocorre quando o tal pedante se vê como especialista em tudo o que diz. A verdade é que admiro quem se diz amante de Literatura ou Cinema. Compreendo amante como aquele que é apaixonado pela área, mas reconhece o vasto conhecimento que ainda está à sua frente para ser aprendido. Melhor, vivido. Eu diria que Woody Allen, em Meia-noite em Paris, se expressou melhor. No filme, a arte deve ser vivida, não pelos livros, mas pela imaginação. O texto em si é uma profusão de autores, pela admiração que tenho por eles. Essas são ideias lançadas aleatoriamente aqui. Provavelmente compreenderei muito do que escrevi, no momento, aos poucos. Como isso é possível? Não sei! Com uma escrita descontrolada, sem parágrafos ou alguma formalidade necessária entre os grandes autores, encerro apenas dizendo que tudo fora uma vivência sobre o sentido da escrita, o conhecimento. Parece-me mais um devaneio, um monólogo que sempre terá continuidade…