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Sinestesia e inspiração

Hoje o meu blog completa 2 anos e nada como postar um texto que aborda a inspiração para a escrita, um mundo à parte em que cabem as ficções e a imaginação sem limites, explorando a sinestesia das cores, da música e das texturas. Além disso, é uma relação ao tema do blog, um mundo lúdico em que um gato risonho pode muito bem aparecer e mostrar que o mundo é cheio de dúvidas. Boa leitura (:

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Focos de luzes. Vermelho. Azul. Amarelo. Delicadas aos meus olhos semi-cerrados. Não sei o que aconteceu. Até ontem deitei na cama esperando por repouso e hoje acordei diante de cores difusas. Posso estar sonhando dentro do meu sonho. Complexo para cogitar isso, não? Faço o esforço para me levantar…então sinto uma grama fresca roçar sob meus dedos. Abro os olhos lentamente. Um espetáculo aos meus olhos!

Uma profusão de cores, confetes a estourar rumo ao céu. Será que alcançam tamanha distância? Choveriam confetes coloridos, pintando a grama absurdamente verde? Não, eu não devia estar bem. Levar a sério uma explosão de confetes como se fosse um fenômeno natural? É um sonho, com toda certeza. Será?

Muitos palhaços dançavam à minha frente, convidativos, segurando a abertura de uma tenda enorme, azul. Ela se fundia ao céu.  Junto, uma banda empolgada proporcionava um som impossível de narrar. Talvez soasse como as músicas de Beirut. Cada instrumento compunha o espaço, o tempo, o mundo! Entorpecida pelo sono ou pela música, segui rumo à tenda, passando por muitos sorrisos e cores correndo à minha volta.

A questão é: não conseguia andar no interior da tenda. Havia pilhas de livros até o teto! Não conseguia visualizar o fim de tal pilha e nem o limite da tenda. Agora, olhando atentamente, onde estava o seu fim? Estava em um espaço infinito. Muitas pessoas, muitas mesmo, lançavam os seus olhares para o centro do picadeiro. O espetáculo comum de circo encantava o público: um elefante adornado por muito brilho tinha às suas costas uma garotinha se equilibrando, toda sorridente com uma sombrinha e um vestido lilás.

Percebi então que eu conhecia todas as pessoas naquele circo. Amigos, parentes, professores, escritores, filósofos, artistas. Todos dos quais eu gostava estavam lá. No mesmo sonho que eu. Bom, estavam no meu sonho, pelo menos. Numa fração de segundo, passaram a me olhar fixamente e a sorrir, sorrir, sorrir. Tudo ficou obtuso. Soava aos meus ouvidos “o caminho é por aí”, enquanto outra voz estridente dizia “melhor escolher outro caminho, menina!”. Parecia aquele gato sorridente de Alice no País das Maravilhas. Loucamente feliz, confuso, ambíguo. Ele queria definir a minha vida, mas simplesmente colocava o sim e o não no mesmo saco! Como escolher o meu caminho? Setas e mais setas começavam a surgir, o circo se desmanchava em aquarela desbotada, os sorrisos sumiam. Completamente sozinha num túnel pálido, restavam-me as setas para me guiar. Porém, eu me questionava: o lugar para onde elas desejam me enviar é para onde eu quero ir? Que caminho traçar?

Por que não retornar? Inspirei profundamente e segui em frente. As setas iam se desmanchando, corredores iam surgindo, a dificuldade de achar um caminho se acentuava. Precisava continuar, mesmo não sabendo em que resultaria. Não é isso o que os livros de auto-ajuda sempre dizem? Continuar em frente, o futuro é incerto, nunca desista…

Após alguns minutos de caminhada, um caderno gasto aparece à frente. Ao folhear as suas páginas, percebo que são os meus textos. O que faziam abandonados naquele lugar? Lembranças vêm à tona a cada trecho lido…”E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…”, “Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista”. Eu estava em cada trecho escrito, eu era aquele caderno. E realmente estava sonhando, aquele lugar pertencia a mim. Lugar em que me resguardo para escrever?

Meus olhos já estavam sonolentos novamente e havia o pressentimento de que dormiria nesse mundo e acordaria naquele que se denomina realidade. Foi então que mais um trecho se destacou aos meus olhos: “Não denomino ao certo o que desejo/Tenho o ímpeto de um mundo retratar/Resguardo-me com cuidado a um lugarejo/A fim de me maravilhar com as cores a passar”. Aquele era o meu lugarejo. Focos de luzes voltam a me entorpecer, envolvem meus olhos sonolentos, contando uma história de ninar. Narram o meu mundo à espera de um retorno.