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Entrelinhas

Sorver o café como quem deseja apenas que ele permeie os caminhos melancólicos do pensamento. Um catalisador para a alma. Rapidamente o alívio toma conta das dúvidas. Sobra apenas o devaneio ao encarar as pessoas caminhando displicentemente. Ecoa a ideia de que tenho em mim, essencialmente, a capacidade de representar os objetos à minha frente. Eu, um artista que representa, também sou representado. Como assim? Risível, talvez. Mas é como se fossem aquelas pinturas, de Velásquez, em que o artista aparece pintando o próprio quadro, sabe? Ganho sentido quando represento. Muitos discutem se essa representação se faz visando a realidade como é. Às vezes, gosto daquela representação entrelaçada à imaginação. A cada sentido nas entrelinhas, as nuances da linguagem que uma frase escrita no papel ou dita levianamente não conseguem explicar. É aquela tentativa de falar mais, apoiada na palavra para representar, sempre com uma vírgula a mais, o que presencia, o que sente, o que vê. E quando chega ao suspiro de decepção ao perceber que não alcança o silêncio da resposta. Como descrever sentimentos sem o peso das palavras já tão pronunciadas, correndo o risco de torná-las clichê? O silêncio pode dizer mais? Às vezes parece ser mais fácil explicar o atordoamento nessa tentativa de representar os fatos do que realmente retratá-los como são. É disso que a arte vive. Difícil conseguir dizer qual é a essencialidade da palavra e do ser. Como fazê-lo sem representações? Não é a intenção dizer que se deve viver apenas com modelos da realidade, perdendo-se nas ilusões, a ponto de confundir o que imagina com o que é possível existir. Porém, como conseguir se desvencilhar do ato de representar, sem se deixar definir por essa ação? Estou na realidade, mas também na representação, no hábito de repetir o que creio ver e tentar alcançar as longínquas entrelinhas, até a palavra se esgotar e alcançar a explicação.

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A valsa das flores

Domingo silencioso. Mia liga o computador, o wallpaper do filme favorito se forma na tela em frente a ela. Nem a ficção anima o mais tedioso dia da semana. Ninguém manda notícias. No facebook, compartilham as mesmas mensagens, tirinhas que não são mais engraçadas, poucas conversas. Nada no e-mail, o que a entristece. Em dias atuais, com a promessa de conexão com o mundo, um tempo que nunca para, o tédio e o silêncio desse domingo não faziam parte do pacote que idealizava para essa dita nova geração.

Mia percebe que a solução seria escolher alguma música para ouvir e resgatar o seu domingo. Não fizera muita coisa durante a semana. Porém, sempre domingo aparenta ser um dia que se arrasta para uma semana que, para ela, precisa ser surpreendente. Aguardava por notícias de um novo emprego, cansara de tocar em casamentos e festas de formatura, apenas. O que desejava mesmo era conseguir se estabilizar, dar aula de música clássica. Meu sonho é tocar numa orquestra sinfônica! Iria me ver no palco junto a outras pessoas finalmente criando um momento significativo para quem ouvisse. Desde a menina olhando perplexamente a cada descoberta dos instrumentos tocando à sua frente…como aconteceu comigo. Ou o senhor mais idoso, que acompanha a música clássica como forma de resgate da própria memória.

Quando costuma sair às ruas, Mia encontra uma sinfonia de buzinas, rodas, conversas, iluminada por semáforos e faróis. É dessa poesia e ficção que Mia vive. Percebe música ao entrar no movimentado restaurante para almoçar. Quando acorda e vai à padaria, o som da máquina de café a desperta. E o dia que está se espreguiçando para acordar pede pequenos acordes de violão. Cada momento do dia possui uma música.

Tchaikovsky. Essa seria a escolha de seu domingo. O único que poderia terminar com o tédio. A valsa das flores se inicia (clique aqui para ouvir). A harpa delicada anuncia os primeiros momentos de magia. Surge uma profusão de instrumentos, preparando Mia. E a valsa começa. O deslizar de um vestido rosado esvoaça pelo salão e envolve a jovem. Um sonho com as cores mais delicadas. Era isso que sempre Mia imaginava ao ouvir Tchaikovsky.

Impossível ficar imune a ele. Gostava de ouvi-lo quando ia ao teatro com a mãe assistir Quebra-Nozes e o que a encantava era a orquestra oculta, a origem daquele espetáculo. Mesmo quando apenas acompanha a partitura, sem qualquer instrumento, um cenário se forma na imaginação da jovem. Vê os instrumentos como personagens, envolvidos por diálogos. A valsa das flores é um conto sempre com o clímax da dança. Encontra nobres discutindo suas propriedades; mulheres compostas por todo tipo de tecido, maquiagem e brilho enfeitando suas roupas caríssimas, o champanhe adornando as mãos enluvadas. Um mundo à parte. O momento em que a mais jovem das moças surge no baile para se apresentar à sociedade entontece a todos e é acompanhado pelos cochichos no salão. O medo pelo futuro logo se esvai por entre o vestido rosado que a modela, lembrando a delicadeza das mais belas flores. Todos no baile se deixam envolver pelos passos sincronizados da música, próximos do grande clímax. O coração acelera, a dança se intensifica. Suspiros, o inflar do peito toma conta de Mia, a ansiedade a cada nuance dos instrumentos pomposos, expondo a arte da composição. O ímpeto de dançar, percorrer todo o salão! Respirar com a valsa, tocar cada centímetro da música! Quem ela era? Não sabia! Mas encontrava-se naquele salão com tanta facilidade, a música a explicava sem palavras! A imaginação de Mia dançava junto aos pares daquele salão, os instrumentos se preparavam para o último suspiro, um final memorável! Todos os instrumentos se unem vigorosamente, gritam afinados! O grande final!

 A sensação da música soando aos ouvidos. Existente em cada parte do corpo de Mia. Fora apenas imaginação. Olha para a tela do computador como se aguardasse visualizar seu devaneio. Os fones de ouvido tornaram-se quietos. Sempre achei esquisito…a música preenche o silêncio, mas é imaterial. Como tocá-la? Apenas sabia que o cenário deixara os últimos tons de cor em suspenso, possivelmente esperando para serem despertados por Mia, novamente com Tchaikovsky.