Entrelinhas

Sorver o café como quem deseja apenas que ele permeie os caminhos melancólicos do pensamento. Um catalisador para a alma. Rapidamente o alívio toma conta das dúvidas. Sobra apenas o devaneio ao encarar as pessoas caminhando displicentemente. Ecoa a ideia de que tenho em mim, essencialmente, a capacidade de representar os objetos à minha frente. Eu, um artista que representa, também sou representado. Como assim? Risível, talvez. Mas é como se fossem aquelas pinturas, de Velásquez, em que o artista aparece pintando o próprio quadro, sabe? Ganho sentido quando represento. Muitos discutem se essa representação se faz visando a realidade como é. Às vezes, gosto daquela representação entrelaçada à imaginação. A cada sentido nas entrelinhas, as nuances da linguagem que uma frase escrita no papel ou dita levianamente não conseguem explicar. É aquela tentativa de falar mais, apoiada na palavra para representar, sempre com uma vírgula a mais, o que presencia, o que sente, o que vê. E quando chega ao suspiro de decepção ao perceber que não alcança o silêncio da resposta. Como descrever sentimentos sem o peso das palavras já tão pronunciadas, correndo o risco de torná-las clichê? O silêncio pode dizer mais? Às vezes parece ser mais fácil explicar o atordoamento nessa tentativa de representar os fatos do que realmente retratá-los como são. É disso que a arte vive. Difícil conseguir dizer qual é a essencialidade da palavra e do ser. Como fazê-lo sem representações? Não é a intenção dizer que se deve viver apenas com modelos da realidade, perdendo-se nas ilusões, a ponto de confundir o que imagina com o que é possível existir. Porém, como conseguir se desvencilhar do ato de representar, sem se deixar definir por essa ação? Estou na realidade, mas também na representação, no hábito de repetir o que creio ver e tentar alcançar as longínquas entrelinhas, até a palavra se esgotar e alcançar a explicação.

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2 comentários sobre “Entrelinhas

  1. Marina:
    Gostei da inspiração Heideggeriana e do modo como você soube colocar-se originalmente no texto. Também gostei do desafio de descobrir nas entrelinhas a sua mensagem! Muito interessante de ler!

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  2. E só de pensar que tudo isso começou com um gole de café!!! Talvez não eu não esteja captando toda essência do texto, já que peco pela falta de aprofudamento em filosofia, porém eu creio que o texto caiu em uma questão que mais cedo ou mais tarde caímos em reflexão. O que representamos, como somos representados e como representar em certas ocasiões e os instrumentos que usamos para fazer isso. E o que os próprios instrumentos podem representar, como eu mesma falei com a Marina brincando, é um texto, ou pelo menos a ideia contida nele, labirintísitico, sempre daremos uma volta e sempre podemos encontrar uma ideia que se liga outra…

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