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Engrenagens e um cinema mágico

Magia. É assim que A invenção de Hugo Cabret se apresenta. É mágico, de tirar o fôlego. A história de um menino que vê o mundo como um relógio, a necessidade de consertar a vida das pessoas e mudar o rumo de tudo através da magia do Cinema.

Hugo Cabret é um órfão que mora escondido numa estação de trem parisiense, no início do século 20. Ele dá corda nos relógios do local e tem o dom de consertar tudo pela frente. Antes de morrer, o pai e o garoto estavam tentando consertar um misterioso autômato, uma espécie de boneco de ferro movimentado por engrenagens pertencentes aos relógios, com a função de escrever. A dificuldade encontrada pelo menino é achar uma chave compatível para dar a corda no boneco, além de consertá-lo. É uma maneira de relembrar o pai e ver se ele lhe deixou algum recado antes de morrer. Porém, aos poucos, o menino descobre que esse boneco está relacionado ao passado oculto do sr. George, dono de uma loja de brinquedos na estação de trem e tio de sua amiga Isabelle. Assim começa uma aventura surpreendente rumo à História do Cinema.

A beleza do filme está em todos os cantos. A poeticidade e o lirismo presentes na linguagem utilizada para mostrar a capacidade do cinema em realizar os sonhos faz o espectador sorrir e chorar simultaneamente, de tamanha delicadeza. Da mesma forma com que Hugo descobre o cinema como um estímulo à vida, o filme traz à tona memórias que cada pessoa já teve ao assistir um filme. A obra que mudou a sua vida, os atores que saíram das telas e se tornaram importantes no nosso dia a dia. A magia é envolvente demais.

Pode ser que aparenta ser inicialmente um filme infantil, mas ele cresce e fala das maiores questões humanas: os sonhos. Em um dos diálogos mais tocantes, Hugo diz a sua amiga que ele deseja consertar o sr. George, pois acredita que o mundo possui uma harmonia tal qual a de um relógio, que tudo tem um sentido. Quando uma pessoa perde o seu propósito de vida, nada tem mais sentido e é preciso consertar essa pessoa. Os passos dados por Hugo, além de trazer o sr. George novamente à vida, mudam tudo ao seu redor e o ajudam a encontrar o propósito para si mesmo.

Com uma Paris já inserida na modernidade, o filme é maior do que a tela. Serve para emocionar e estimular o espectador a olhar o Cinema com mais paixão. A invenção de Hugo Cabret recebeu 11 indicações ao Oscar e é difícil pensar se ele ou O Artista, também uma obra grandiosa que faz uma homenagem ao Cinema, merece ganhar o prêmio de Melhor Filme. O que importa é que, ao contemplar a última cena de ambos os filmes, a emoção e o estado de leveza continuam por um bom tempo na memória do espectador.

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Meryl e Margareth

Sabe-se o quanto é difícil fazer um filme biográfico, ainda mais quando a figura é controversa, polêmica e ainda ativa politicamente. A dicotomia direita-esquerda pesa muitas vezes no roteiro e na direção, cada palavra hoje pode ser compreendida de uma maneira e por isso o cuidado ao tratar da Dama de Ferro, apelido sarcasticamente dado à primeira mulher no cargo de Primeira-Ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher.

A frieza, o conservadorismo, o pulso firme ao governar a Inglaterra proibindo as manifestações sindicais, o gasto excessivo com uma guerra de motivos questionáveis tal qual a Guerra das Malvinas, a privatização e a recessão econômica após a Crise do Petróleo de 1979. Tudo isso caracterizou o governo de Thatcher. E ninguém menos que Meryl Streep para interpretar tal personagem complexa.

O filme aposta em flashbacks, com uma Margareth surpreendentemente envelhecida e frágil, com uma maquiagem muito real que consegue tirar qualquer vestígio do rosto conhecido de Meryl Streep, transferindo cada ruga da política para o rosto da personagem. Há cenas bonitas no filme, mostrando alguns fatos marcantes de sua história, mas o filme é de Meryl e Margareth juntas. As duas ofuscam o que poderia ser um filme biográfico, com os diálogos e o rigor característicos de um filme que tem como objetivo informar com maior exatidão.

Os fatos parecem estar meio soltos durante o filme, dando uma leve impressão de que falta uma autonomia do enredo em relação à personagem. Porém, ele não soa apenas como um filme comercial que busca a polêmica de uma personagem, colocando-a com uma só face. Devido à sensibilidade de Meryl ao tratar das nuances psicológicas de Margareth, é possível mergulhar nas lembranças da política sem qualquer peso na consciência por se envolver com a tristeza dessa mulher que assumiu um papel fortíssimo e com grandes responsabilidades. Não se trata de uma mulher maligna, apenas fria. Ela pode ser uma dama de ferro e inflexível até mesmo com os colegas de partido, mas a atuação de Streep permite humanidade e conquista o espectador.

Certamente, Margareth, com a sua firmeza insistente e até cega, tem a ambição ilimitada como fonte de seus erros. Os livros de História e os diálogos ideológicos a colocam como feita de ferro. O filme ousa em tentar ultrapassar as suas lembranças e achar uma mulher determinada em crescer. Talvez não seja possível dizer qual é a Margareth mais realista, porém a complexidade dada pelo filme parece aceitável.

O Cinema não precisa ser necessariamente real para contar uma história. Se quiser saber mais sobre Margareth, busque um livro, pois ele trará mais informações. O filme é uma oportunidade para presenciar uma excelente atuação que, sem sombra de dúvidas, dá um encanto novo a essa personagem histórica. Não dá para afirmar com exatidão se essa Margareth é verdadeira ou falsa, porém fica claro que sempre nos rendemos a Meryl Streep.

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O silêncio do Cinema

Com tantas inovações tecnológicas, homenzinhos azuis pipocando nas telas com Avatar e desenhos animados feitos pela Pixar, é de se ousar pensar que um filme mudo, hoje, não faria muito sucesso nos cinemas. Porém, O Artista prova o contrário. Ainda há sensibilidade para a estrutura dos filmes que iniciaram o encanto pelo Cinema.

Nos anos 20 em Hollywood, George Valentin é um ator famoso pelas caras e bocas que encena em seus filmes mudos, juntamente ao seu cãozinho Jack Russel. Em um momento inusitado conhece a jovem Peppy Miller e se encanta pela moça. Mais tarde, ambos atuam juntos. Mas os planos para o Cinema mudam, e George se vê diante do abandono de seu público, esse migrando agora para os filmes falados. É com a depressão que o ator vê o tempo passar repentinamente, o sorriso que antes enfeitava o seu rosto durante as cenas dos filmes agora se transforma em tristeza definitiva, ainda mais quando Peppy começa a ganhar notoriedade como atriz.

O personagem se depara com uma crise terrível que o leva a pensar qual é o real valor que possui na sociedade. As companhias foram embora quando o último filme mudo fora valorizado e para George só restou um amigo e o cachorro. Uma das belas cenas do filme mostra o ator jogando amarguradamente o uísque que bebia no próprio reflexo da mesa, com a angústia de ver o que sobrara se deteriorar. E agora que precisa escolher se ficará apenas lamentando ou tentará se adaptar, a corrosão de si mesmo se torna uma culpa que George não aguenta mais carregar. Entre os restos de rolos de filmes em sua casa destruída, também ficou o George que ele havia sido, para dar espaço a uma incógnita sobre quem ele seria deste momento em diante.

O filme trata de temas que já surgiram em outros filmes com a leveza e a simpatia proporcionadas por George e a adorável Peppy. É possível visualizar muito do musical Cantando na Chuva, a semelhança com o enredo, a transição do filme mudo ao falado, as cenas delicadamente engraçadas e até mesmo o ator Jean Dujardin, intérprete de George, é muito parecido com Gene Kelly. Sabe-se que Carlitos foi um ator renomado por dar vida a Charles Chaplin em seus filmes mudos. Mas uma das obras audaciosas e belas de Carlitos foi o filme falado Luzes da Ribalta, que mostra justamente um comediante angustiado com a distância do público que não ri mais de suas piadas. Como ambos os personagens dos filmes citados, George Valentin representa uma era e, principalmente, incorpora uma homenagem ao Cinema. Seja no musical de Gene Kelly ou na obra de Carlitos, George Valentin ressuscita o ator conhecido por seus grandes trabalhos; o sujeito angustiado por estar ultrapassado; o ator com medo de iniciar algo duvidoso. E ainda George é a transformação do Cinema.

A responsabilidade pelo excelente filme tem como origem as destacáveis atuações de Jean Dujardin como Valentin e Bérénice Bejo, como Peppy. O ator encarna a expressividade merecida de um ator desiludido, parecendo muito à vontade na tela, fazendo-nos jurar que realmente se trata de um filme dos anos 20. Bérénice é a mocinha dos filmes clássicos, sem tirar nem pôr. O mesmo charme, a simpatia e a doçura. Mas seria injusto deixar de falar sobre o cachorrinho Jack. Ele é o destaque do filme, poderia dizer personagem? O cachorrinho, na vida real, chama-se Uggie e até ganhou um Prêmio em Cannes por sua participação adorável no filme.

Não há dúvidas de que O artista é um filme especial. Consegue trazer os anos 20 de volta e testa o espectador. Inicialmente há o choque por notar que se trata de um filme mudo, parece ser necessária uma reeducação para ver um filme do gênero. Entretanto, o George cativante e expressivo ao sorrir e franzir a sobrancelha coloca-nos diante da magia cinematográfica apenas contando com a criatividade e o lirismo de uma boa história. Já inúmeras vezes narradas nas ficções, a história de amor ganha frescor e apresenta a poeticidade de uma arte que não precisa de palavras para emocionar e se tornar atemporal.

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Ao encontro da liberdade

Liberdade, escrita, e a coragem de expor o racismo numa época em que a segregação entre empregadas negras e patroas era aceitável. Tais definições correspondem ao filme Histórias Cruzadas, situado na década de 60, que leva em seu enredo as ações decisivas de várias mulheres em busca de mudanças.

Skeeter é uma jovem formada em jornalismo e anseia por ser escritora. Em mais um dos diversos encontros entre as mulheres da cidade de Mississipi, para tomar chá e falar de futilidades, a jovem ouve os comentários racistas das patroas que pretendem fazer um banheiro separado da casa apenas para as empregadas negras utilizarem, enfatizando que elas transmitiriam supostas doenças a seus filhos e que tal ação é apenas uma prevenção necessária. Diante desse racismo tão naturalmente aceito em relação às empregadas, Skeeter conclui que precisa relatar o outro lado da história. Aibileen é a primeira que lhe dá apoio, relatando as tristezas pelas quais já passara e como se sente por ter a responsabilidade de criar os filhos das patroas, quando essa devia ser a função delas. Aos poucos, outras empregadas aceitam o desafio de relatar as suas histórias, percebendo que podem mudar alguma coisa.

Curiosamente o filme é regido pela ideia da escrita como liberdade. Skeeter opta em trabalhar e criar algo relevante em vez de acomodar-se ao padrão da época, uma mulher que se casa e deixa os filhos para as empregadas cuidarem. A resposta que ela dá à cidade em que vive por meio dos relatos das empregadas é o jeito que encontra de se libertar. Aibileen e a amiga Minny também veem no momento em que narram as suas histórias, tão grandiosas para a pequena cozinha em que preparam o café na madrugada enquanto falam, o sacrifício que estão fazendo por uma resposta que muitas queriam dar. É claro que a exclusão, a vida de tristezas e sonhos despedaçados não se equiparam à escolha de Skeeter em não ser a mulher que se desejava na época, mas juntas conseguem alterar o significado de suas vidas.

Comparado a outros filmes que retratam o racismo marcante na década de 60, Histórias Cruzadas é um tanto “solar” e mantém uma leveza ao proporcionar algumas risadas e mostrar uma Mississipi colorida pelos vestidos das moças ricas. Poderia detalhar mais o contexto histórico, a importância de Martin Luther King e a luta por liberdade em outros estados.  Mas, surpreendentemente, consegue tocar com sutileza em um assunto tão triste quanto o racismo, levando o espectador às lágrimas facilmente, exatamente pelas ótimas atuações que preenchem a tela. Emma Stone, que não atuou em grandes filmes elogiados pela crítica, faz um ótimo trabalho, desenvolvendo uma personagem simpática e inteligente. Octavia Spencer dá o tom de rebeldia com a adorável Minny. E Viola Davis se destaca com uma grande atriz ao interpretar Aibileen, personagem multifacetado, cheio de memórias e o dom de contar histórias.

Mostrando com simplicidade o papel importante das mulheres pela luta de direitos civis, Histórias Cruzadas denomina a essência do homem como um ser livre. A escrita e a comunicação se colocam como parte dessa luta. Contando os próprios dramas e pensamentos, essas mulheres conseguem sobreviver e dar um sentido a si mesmas, livres de quaisquer grilhão social.

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Todo mundo

Todo mundo já se viu sozinho na multidão
Apertou-se ao casaco querendo fugir
Resistindo à dor que sonha um dia sorrir
Nas tardes que contemplam o chão.

 

O calafrio denuncia o medo de escolher
Como dar aos dias uma utilidade,
Analisar os limites para viver.
A escolha é a dolorosa liberdade.

 

O passado já está todo emaranhado,
O coração, com a tristeza, acostumado
Pulsa no casaco com uma mera lembrança,
Vestindo a face da desiludida criança.

 

Sonhos no bolso pedem o fôlego de uma nova vida
Mas encontram as asas destruídas no chão.
Voar se torna restos de uma expectativa diluída
A revolucionária vida que se reduzira em ínfimo grão.

 

Todo mundo já sorriu com os olhos devastados,
Tentou arrumar a própria casa com as emoções confusas.
Viu o céu outrora azul se fechar em temores resignados.
E quis ser racional apesar das ideias difusas.

 

Todo mundo passa a ver que a vida é um turbilhão,
Aprende-se que o humor vive ao lado da melancolia.
O segredo é fazer de tal antítese uma harmonia
E não olhar um mundo vivo na escuridão.

 

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Por entre os fios, a solidão

Medianera, o lado de um prédio que apresenta as falhas, as rachaduras, o que se tenta esconder com merchandising, propagandas falsas. Duas pessoas com dificuldade de mostrar seus sentimentos, veem a existência engolida pela multidão da cidade, aceitam viver anônimos. Essas frases não correspondem apenas a um filme e sim, dois: Românticos anônimos e Medianeras.

Jean-René e Angélique fazem parte do primeiro. São emotivos demais, sentem a ansiedade em cada parte de seus dias. A insegurança não permite que exponham seus talentos e, quando amam, optam pelo sentimento oculto, anônimos em tudo. O medo de enfrentar o que vem à tona faz Angélique cantarolar para si mesma I have confidence, do musical A Noviça Rebelde. Como se houvesse uma voz em si mesma – que ela desconhece – capaz de proporcionar confiança e salvá-la dos possíveis fracassos pelos quais pode passar se der um passo adiante em sua vida. Jean-René cresceu sob a cautela exagerada dos pais, que comemoravam se não ocorresse nada de diferente em suas vidas, pois assim significava que estavam em segurança. Para Angélique e Jean-René, viver em segurança é a forma que encontram de não enfrentar o inesperado do lado de fora. Optam pelo que é cômodo e duradouro. Mas como agir se duas pessoas inseguras e com medo de arriscar se apaixonam?

Martin e Mariana também são solitários. Vivem numa Buenos Aires emaranhada por fios que – dito pela própria Mariana – serviriam para unir as pessoas, o que não ocorre, apenas separam as pessoas na cidade, colocando cada um em seu devido lugar. Martin tem como companhia uma cadelinha e o computador. As músicas que ouve servem como refúgio para um cotidiano vazio, cheio de fobias. Leva a vida de forma metódica e evita ao máximo sair de casa. Ele vê na fotografia uma maneira de encarar o mundo à sua maneira e tentar transformar a realidade que vê. Mariana ama observar os prédios, pois é formada em arquitetura. Mas, como tudo em sua vida, vive de projetos. Trabalha como vitrinista de uma loja. Em casa guarda os manequins masculinos e femininos, que mudam de roupa de acordo com a estação. Na casa da jovem, os manequins se encontram despidos, talvez demonstrando as fragilidades que Mariana tem. Ela se sente observada apenas quando se encontra na vitrine, montando uma realidade paralela à da ampla Buenos Aires, e insiste em procurar o Wally por entre a multidão representada no livro “Onde está Wally?”, aguardando por alguém que mude sua vida repentinamente.

Esses quatro personagens, apesar de constituírem filmes de nacionalidades diferentes – um é francês e o outro é argentino – conseguem transmitir com delicadeza, profundidade e inteligência a solidão em meio às relações sociais. Não é difícil se identificar com tais personagens. Uma cidade que vê o seu passado, seja o chocolate maravilhosamente criado há muito tempo e existente na memória de gerações, ou os prédios históricos apagados pela novidade do edifício recém-construído, demonstra a necessidade que as pessoas sentem de conseguir dizer quem são, construir uma identidade e deixar-se interligar por outras pessoas.

Angélique, Jean-René, Martin e Mariana representam os temores, as falhas e os sonhos humanos. Pode-se dizer que os quatro aguardam por alguém que os resgate da monotonia e infelicidade cotidianas. Por entre pessoas desconhecidas e encontros efêmeros, resta buscar a autonomia enfrentando os próprios medos. Esperar por alguém como o Wally, que tanto se ocultara quando se olhou fixamente para uma mesma página, talvez não seja a primeira solução. Tirar a vida da página dos projetos significa olhar as maiores falhas que se possui, tais quais as rachaduras que se deseja ocultar em medianeras. Para encontrar o Wally, há várias opções: a sorte, um olhar clínico,
a análise metódica de cada centímetro da página. Mas, principalmente, a busca por Wally significa encontrar a própria identidade em meio à multidão.

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