O silêncio do Cinema

Com tantas inovações tecnológicas, homenzinhos azuis pipocando nas telas com Avatar e desenhos animados feitos pela Pixar, é de se ousar pensar que um filme mudo, hoje, não faria muito sucesso nos cinemas. Porém, O Artista prova o contrário. Ainda há sensibilidade para a estrutura dos filmes que iniciaram o encanto pelo Cinema.

Nos anos 20 em Hollywood, George Valentin é um ator famoso pelas caras e bocas que encena em seus filmes mudos, juntamente ao seu cãozinho Jack Russel. Em um momento inusitado conhece a jovem Peppy Miller e se encanta pela moça. Mais tarde, ambos atuam juntos. Mas os planos para o Cinema mudam, e George se vê diante do abandono de seu público, esse migrando agora para os filmes falados. É com a depressão que o ator vê o tempo passar repentinamente, o sorriso que antes enfeitava o seu rosto durante as cenas dos filmes agora se transforma em tristeza definitiva, ainda mais quando Peppy começa a ganhar notoriedade como atriz.

O personagem se depara com uma crise terrível que o leva a pensar qual é o real valor que possui na sociedade. As companhias foram embora quando o último filme mudo fora valorizado e para George só restou um amigo e o cachorro. Uma das belas cenas do filme mostra o ator jogando amarguradamente o uísque que bebia no próprio reflexo da mesa, com a angústia de ver o que sobrara se deteriorar. E agora que precisa escolher se ficará apenas lamentando ou tentará se adaptar, a corrosão de si mesmo se torna uma culpa que George não aguenta mais carregar. Entre os restos de rolos de filmes em sua casa destruída, também ficou o George que ele havia sido, para dar espaço a uma incógnita sobre quem ele seria deste momento em diante.

O filme trata de temas que já surgiram em outros filmes com a leveza e a simpatia proporcionadas por George e a adorável Peppy. É possível visualizar muito do musical Cantando na Chuva, a semelhança com o enredo, a transição do filme mudo ao falado, as cenas delicadamente engraçadas e até mesmo o ator Jean Dujardin, intérprete de George, é muito parecido com Gene Kelly. Sabe-se que Carlitos foi um ator renomado por dar vida a Charles Chaplin em seus filmes mudos. Mas uma das obras audaciosas e belas de Carlitos foi o filme falado Luzes da Ribalta, que mostra justamente um comediante angustiado com a distância do público que não ri mais de suas piadas. Como ambos os personagens dos filmes citados, George Valentin representa uma era e, principalmente, incorpora uma homenagem ao Cinema. Seja no musical de Gene Kelly ou na obra de Carlitos, George Valentin ressuscita o ator conhecido por seus grandes trabalhos; o sujeito angustiado por estar ultrapassado; o ator com medo de iniciar algo duvidoso. E ainda George é a transformação do Cinema.

A responsabilidade pelo excelente filme tem como origem as destacáveis atuações de Jean Dujardin como Valentin e Bérénice Bejo, como Peppy. O ator encarna a expressividade merecida de um ator desiludido, parecendo muito à vontade na tela, fazendo-nos jurar que realmente se trata de um filme dos anos 20. Bérénice é a mocinha dos filmes clássicos, sem tirar nem pôr. O mesmo charme, a simpatia e a doçura. Mas seria injusto deixar de falar sobre o cachorrinho Jack. Ele é o destaque do filme, poderia dizer personagem? O cachorrinho, na vida real, chama-se Uggie e até ganhou um Prêmio em Cannes por sua participação adorável no filme.

Não há dúvidas de que O artista é um filme especial. Consegue trazer os anos 20 de volta e testa o espectador. Inicialmente há o choque por notar que se trata de um filme mudo, parece ser necessária uma reeducação para ver um filme do gênero. Entretanto, o George cativante e expressivo ao sorrir e franzir a sobrancelha coloca-nos diante da magia cinematográfica apenas contando com a criatividade e o lirismo de uma boa história. Já inúmeras vezes narradas nas ficções, a história de amor ganha frescor e apresenta a poeticidade de uma arte que não precisa de palavras para emocionar e se tornar atemporal.

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3 comentários sobre “O silêncio do Cinema

  1. Fico impressionada com a sua sensibilidade e capacidade de detalhar os sentimentos e a essência do filme. Você nos envolve com seus comentários e análises. Dá uma vontade imensa de assistir o filme.

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  2. Marininha, o que eu posso dizer?!

    Me emocionei só de ler essa resenha, imagina eu assistindo esse filme?!?! Eu acho que você deveria virar crítica de cinema, porque o jeito que você descreveu, não só esse filme, mas todos os outros, nos deixa com uma vontade imensa de ver, como disse a Rosana, e em alguns casos, rever… Continue sempre fazendo essas resenhas!!! hehehe

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