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Coração a delatar melancolia

O clichê do dia frio e nublado, ouvir um blues e jazz. A voz doce de Norah Jones e as palavras duras e frias das páginas de Poe. Melancolia em ambos. Mas em uma há melancolia tranquila, comum à vida. Em outro é a melancolia destrutiva, da vida que nunca viu um feixe de luz e já apagou o passado, de tão longínquo, e a esperança do futuro, tão tolamente idealizada. Paz? Talvez só na primeira. A doçura de Jones consegue oscilar entre a melancolia e o contentamento, sem explicação. Poe está enterrado em si mesmo, com o coração a delatar a sua tristeza e a palpitar por todos os cômodos da consciência do escritor e do leitor. O terror finca palavras duras à alma já perdida do leitor, gruda nela, enterra sua sensação no fundo dessa alma. Mas o horror enterrado continua a palpitar como se estivesse vivo, igual a Berenice em seu conto. Jones consegue resgatar o sorriso doce e saudável da moça Berenice, em Poe. Se sua música for ouvida junto à leitura, milagrosamente ampara. O horror é sentido, mas no final do conto, abraça a tristeza e se faz sentir com um pouquinho de doçura. Poe e Norah Jones juntos? Possível apenas num dia nublado, música e conto, um servindo como remédio para a dor do outro.

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Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

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Segredo de um chão

Manhã de sexta-feira. A mãe do garotinho havia saído para a feira, voltaria com apenas algumas sacolas, o estritamente necessário. Ficava sempre a cargo do garotinho e da irmã a faxina da casa. A menina estava nos quartos, varrendo a poeira e tentando vencer o sono, varrê-lo em um ritmo constante e acordando aos pouquinhos.

Os dois adoravam limpar a cozinha. Jogavam baldes de água no azulejo e a viam escorrer com diversão, escovavam-no enquanto jogavam água um no outro. Até que o garotinho, com uma expressão sapeca, jogava um balde de água na irmã. Ah, ela se enfurecia! Mas sua vingança estava num balde também. Os dois, encharcados, enchiam a cozinha de risadas toda semana.

A outra tarefa do garoto era a de encerar o chão. Era uma tarefa difícil, não poderia exagerar muito na cera, para que não ficasse escorregadio. A sua mãe ficaria brava se o fizesse. Essa era a parte mais divertida da faxina, para ele. Encerava o chão pelo imenso corredor e sua imaginação o envolvia como a cera que se apegava ao chão.

Ele sempre assistia no cinema alguns musicais hollywoodianos. Adorava Fred Astaire e Gene Kelly! O sapateado, a dança era de tamanha magia que, por alguns momentos sobre o chão encerado ele coloca sapatinhos de madeira e tentava sapatear. Pulava, ria com o som, imaginava-se com um smoking elegante, dando giros no próprio eixo, agitando as pernas fortes e criando aquele som. O som da arte, o som da dança. Era ele que ecoava no cinema e o maravilhava. E, por minutos, ecoava em sua casa, pelo corredor, com tamanha vivacidade que o fazia acreditar que era Fred Astaire. Magrinho, como ele. Com gel no cabelo. Sorridente. E com o luxo do smoking.

Aquele corredor, com o chão de madeira meio gasto e envelhecido, ganhava vida com a cera tal qual o garotinho se sentia vivo ao incorporar Fred Astaire. Ao terminar a sua tarefa, dava um sorrisinho por guardar o segredo de ter o poder de trazer o musical e sua magia para casa.

O garotinho é o meu pai, que desde a infância, desde esse corredor, traz para casa o fascínio pelos musicais que transmitiu a mim. Ah, o cinema em geral! Charles Chaplin vejo desde pequena. E A Noviça Rebelde foi o primeiro musical que conheci. E hoje sou eu quem insiste para levá-lo nas peças musicais. Ele também tem uma coleção velhinha de gibis da Disney, a qual eu lia com todo o cuidado e com os olhos brilhando por serem de outra geração. E ainda me deixou a Arte como paixão. Os desenhos traçados por ele sempre eram o meu modelo enquanto eu tentava desenhar ainda muito pequena. Essa é a herança diária deixada pelo meu pai. Significa muito ver que grande parte do que sou e gosto é culpa dele!

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Somente sons

Este silêncio todo me atordoa.
O relógio, os pneus dos carros na rua,
O tilintar dos copos do vizinho.
Um silêncio preenchido de sons
Que passam despercebidos em outro momento
E agora são protagonistas do meu atordoamento.
É hora de ligar a televisão
Deixar ecoar a insanidade dos programas,
As notícias trágicas
E as novelas irreais?
Somente sons,
Que nessa frase já carrega consigo a sonoridade
A brincadeira da gramática.
Acho que prefiro o silêncio daqueles sons profanos,
Que adotam novas máscaras e ganham liberdade
Nessa redescoberta do som.