Segredo de um chão

Manhã de sexta-feira. A mãe do garotinho havia saído para a feira, voltaria com apenas algumas sacolas, o estritamente necessário. Ficava sempre a cargo do garotinho e da irmã a faxina da casa. A menina estava nos quartos, varrendo a poeira e tentando vencer o sono, varrê-lo em um ritmo constante e acordando aos pouquinhos.

Os dois adoravam limpar a cozinha. Jogavam baldes de água no azulejo e a viam escorrer com diversão, escovavam-no enquanto jogavam água um no outro. Até que o garotinho, com uma expressão sapeca, jogava um balde de água na irmã. Ah, ela se enfurecia! Mas sua vingança estava num balde também. Os dois, encharcados, enchiam a cozinha de risadas toda semana.

A outra tarefa do garoto era a de encerar o chão. Era uma tarefa difícil, não poderia exagerar muito na cera, para que não ficasse escorregadio. A sua mãe ficaria brava se o fizesse. Essa era a parte mais divertida da faxina, para ele. Encerava o chão pelo imenso corredor e sua imaginação o envolvia como a cera que se apegava ao chão.

Ele sempre assistia no cinema alguns musicais hollywoodianos. Adorava Fred Astaire e Gene Kelly! O sapateado, a dança era de tamanha magia que, por alguns momentos sobre o chão encerado ele coloca sapatinhos de madeira e tentava sapatear. Pulava, ria com o som, imaginava-se com um smoking elegante, dando giros no próprio eixo, agitando as pernas fortes e criando aquele som. O som da arte, o som da dança. Era ele que ecoava no cinema e o maravilhava. E, por minutos, ecoava em sua casa, pelo corredor, com tamanha vivacidade que o fazia acreditar que era Fred Astaire. Magrinho, como ele. Com gel no cabelo. Sorridente. E com o luxo do smoking.

Aquele corredor, com o chão de madeira meio gasto e envelhecido, ganhava vida com a cera tal qual o garotinho se sentia vivo ao incorporar Fred Astaire. Ao terminar a sua tarefa, dava um sorrisinho por guardar o segredo de ter o poder de trazer o musical e sua magia para casa.

O garotinho é o meu pai, que desde a infância, desde esse corredor, traz para casa o fascínio pelos musicais que transmitiu a mim. Ah, o cinema em geral! Charles Chaplin vejo desde pequena. E A Noviça Rebelde foi o primeiro musical que conheci. E hoje sou eu quem insiste para levá-lo nas peças musicais. Ele também tem uma coleção velhinha de gibis da Disney, a qual eu lia com todo o cuidado e com os olhos brilhando por serem de outra geração. E ainda me deixou a Arte como paixão. Os desenhos traçados por ele sempre eram o meu modelo enquanto eu tentava desenhar ainda muito pequena. Essa é a herança diária deixada pelo meu pai. Significa muito ver que grande parte do que sou e gosto é culpa dele!

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2 comentários sobre “Segredo de um chão

  1. Nossa, Marina! Imagino como o seu pai deve ter se emocionado com esse texto! Adorei muito!!! Espero que os meus filhos sejam como o seu pai e irmã e me ajudem a limpar a casa desse jeito!!! Sério, Má!! Adorei e dê feliz dia dos pais pra ele atrasado!!!

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  2. Me emocionei muito quando li esse texto. Já ouvi seu pai contar essa façanha muitas vezes, mas a forma como você transportou para o papel é digna de uma escritora!!! Sempre falo que você ao descrever uma cena consegue colocar muito sentimento e emoção para o seu leitor. Adoro os seus textos.

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