Coração a delatar melancolia

O clichê do dia frio e nublado, ouvir um blues e jazz. A voz doce de Norah Jones e as palavras duras e frias das páginas de Poe. Melancolia em ambos. Mas em uma há melancolia tranquila, comum à vida. Em outro é a melancolia destrutiva, da vida que nunca viu um feixe de luz e já apagou o passado, de tão longínquo, e a esperança do futuro, tão tolamente idealizada. Paz? Talvez só na primeira. A doçura de Jones consegue oscilar entre a melancolia e o contentamento, sem explicação. Poe está enterrado em si mesmo, com o coração a delatar a sua tristeza e a palpitar por todos os cômodos da consciência do escritor e do leitor. O terror finca palavras duras à alma já perdida do leitor, gruda nela, enterra sua sensação no fundo dessa alma. Mas o horror enterrado continua a palpitar como se estivesse vivo, igual a Berenice em seu conto. Jones consegue resgatar o sorriso doce e saudável da moça Berenice, em Poe. Se sua música for ouvida junto à leitura, milagrosamente ampara. O horror é sentido, mas no final do conto, abraça a tristeza e se faz sentir com um pouquinho de doçura. Poe e Norah Jones juntos? Possível apenas num dia nublado, música e conto, um servindo como remédio para a dor do outro.

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Um comentário sobre “Coração a delatar melancolia

  1. Nossa!!!! Eu vou aprender a ouvir Norah Jones e reler o meu livro do Poe!!! Adorei essa questão do amparo que a Norah daria à leitura… Criando assim uma relação paradoxal!!! Gostei mesmo!!!

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