2

O transpassar pela renda

De sonhos ando farta,
A cada noite um cenário distinto.
Já não sei mais o que fazer.
Ah, esta noite foi um corvo que surgiu!
Ecoava ‘nunca mais’ em meu ouvido…
Acho que é Poe avisando que minha vida é finita,
Meu semestre é finito,
Que os livros não lidos
Perseguir-me-ão pela consciência.
E talvez nunca mais poderei recuperá-los.
Títulos dispersos,
Em aulas e pedaços de papéis,
Promessas espalhadas por aí.
Conhecimento deixado em banho-maria,
Retornará a mim em algum dia?
Bom, pode ser apenas esses mesmos livros,
Conduzindo-me ao passado até em sonhos.
Ao século dezenove tenho voltado,
Envolvendo-me em vestido adornado,
Pela renda, pelo passado, pela modernidade.
Renda essa que, por entre seu tecido vazado,
Visualizo o ideal de uma época nunca vista.
Ah, meus olhos não contemplaram esse passado,
Como saber, pois, se é real?
O corvo é mais um indício de um passado
Que não me pertence mais.
Um passado apenas ao alcance do sonho e das páginas…
De um poeta atormentado pelo seu presente,
Tão incerto entre o não-mais e o não-ainda!
É esse o passado-presente
Repousando acima da lareira, ameaçador,
Já brando na sua fantasmagoria
De passado e sonho.
Lareira com o fogo de um devir perdido,
Ideais misturados em um circular do mundo.
Ele volta à mesma forma? Nunca mais.
Anúncios
1

Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!

2

Fala

Sou meio hiperativa com as palavras desde pequena. Minha mãe deixou escapar esses dias que talvez a minha vó deve ter feito alguma simpatia escondida para que eu começasse a falar logo. Deve ser isso. Passou a fazer sentido. As pessoas, quando ligavam em casa (esse passado em que se utilizava telefone com frequência. E também porque eu era criança), acabavam por me estimular a falar. Contava tudo da escola, sobre o brinquedo que minha amiga tinha levado, qual eu escolhera para aquele dia, as histórias que eu criava para meus ursinhos e bonecas – essas eram longas, praticamente novelas – tudo era motivo para minha fala. Nos momentos de quietude eu deitava no quintal e gostava de olhar as nuvens e o céu girando. Não, isso não é recurso poético em meu texto e nem possui uma premissa implícita, como se estivesse dizendo “ah, desde pequena eu era uma pequena filósofa, questionava o mundo a meu redor!”. Não, era apenas curiosidade infantil, ficava olhando as nuvens se movimentando. Desfaziam-se em enigmáticas imagens que eu tentava decifrar. Talvez fossem o início de meus devaneios.

Os desenhos animados me conduziam a desenhar também. Lembrava das falas dos filmes do Harry Potter e as repetia. Tudo bem, talvez até hoje haja um resquício dessas falas na minha memória, não vou negar. Músicas da Disney também grudavam ao meu dia, mas eu gostava mesmo é de desenhar os personagens que conviviam comigo durante o dia, na TV. Talvez esse fosse o momento introspectivo em que as palavras do dia se tranquilizavam e eu deitava no chão do quarto apenas para desenhar. Sempre com música, Toquinho tocava com muita frequência em casa.

Depois que eu cresci e comecei a ler Fernando Pessoa eu entendi a história de sentir essa ebulição interna. Começo a falar e já quero escrever. Não com a grandiosidade dele. Mas sem dúvida o surgimento dos heterônimos nas obras de Pessoa despertaram em mim a ideia de que talvez não seja tão esquisito (um pouco) ter tantas ideias se cruzando mentalmente.

Durante as minhas aulas da faculdade, ouço palavras tão belas! Sinto-me Macabea com seu fascínio pelas palavras que ecoam no rádio. Pompidou, Baudelaire, Renoir…tudo relacionado a arte, não tem jeito. Eu percebo que, ao falar Kandinsky, as letras unidas provocam uma sonoridade tão profunda que me faz pensar, no momento da fala, em mágicas explosões de cores, linhas para todos os cantos. Não deixa de ser um tanto próximo das obras que ele já criou. E Delacroix? Que nome heroico! Não apenas porque ele pintou o quadro Liberdade guiando o povo, tão reproduzido por aí em capas de livros baratos de Os Miseráveis. Não, é um nome imponente que me faz imaginar uma transcendência do Dela para o croix que deve ser a responsável pela sensação grandiosa ao observar seus quadros, creio que até sorrio por dentro quando falo seu nome.

Após essa explanação tão repentina sobre os nomes dos artistas – provavelmente, ao terminar de escrever esse texto, vou achar que minhas observações foram insanas demais – eu percebo que sempre tenho mais uma palavra a acrescentar. Tanto à minha fala quanto a esse texto. É difícil lidar com a infinitude do discurso. Parece-me que a maior preciosidade que tenho é a linguagem, dada a mim para me socializar com os outros e, principalmente, traduzir a minha própria existência.

Mas como lidar com o fato de que sempre posso dizer algo a mais? Sei que às vezes o silêncio do final de um texto alcança maior profundidade do que determinadas frases, pois permite, humildemente, que fique ecoando em cantinhos da memória o que foi dito. Elas guardam-se lá e, com o passar do tempo, recriam-se. Proliferam-se em novas ideias. E é, desta forma, que vou enrolando-me em letras para construir um silêncio finito, que se explode em palavras e ideias novas.