Fala

Sou meio hiperativa com as palavras desde pequena. Minha mãe deixou escapar esses dias que talvez a minha vó deve ter feito alguma simpatia escondida para que eu começasse a falar logo. Deve ser isso. Passou a fazer sentido. As pessoas, quando ligavam em casa (esse passado em que se utilizava telefone com frequência. E também porque eu era criança), acabavam por me estimular a falar. Contava tudo da escola, sobre o brinquedo que minha amiga tinha levado, qual eu escolhera para aquele dia, as histórias que eu criava para meus ursinhos e bonecas – essas eram longas, praticamente novelas – tudo era motivo para minha fala. Nos momentos de quietude eu deitava no quintal e gostava de olhar as nuvens e o céu girando. Não, isso não é recurso poético em meu texto e nem possui uma premissa implícita, como se estivesse dizendo “ah, desde pequena eu era uma pequena filósofa, questionava o mundo a meu redor!”. Não, era apenas curiosidade infantil, ficava olhando as nuvens se movimentando. Desfaziam-se em enigmáticas imagens que eu tentava decifrar. Talvez fossem o início de meus devaneios.

Os desenhos animados me conduziam a desenhar também. Lembrava das falas dos filmes do Harry Potter e as repetia. Tudo bem, talvez até hoje haja um resquício dessas falas na minha memória, não vou negar. Músicas da Disney também grudavam ao meu dia, mas eu gostava mesmo é de desenhar os personagens que conviviam comigo durante o dia, na TV. Talvez esse fosse o momento introspectivo em que as palavras do dia se tranquilizavam e eu deitava no chão do quarto apenas para desenhar. Sempre com música, Toquinho tocava com muita frequência em casa.

Depois que eu cresci e comecei a ler Fernando Pessoa eu entendi a história de sentir essa ebulição interna. Começo a falar e já quero escrever. Não com a grandiosidade dele. Mas sem dúvida o surgimento dos heterônimos nas obras de Pessoa despertaram em mim a ideia de que talvez não seja tão esquisito (um pouco) ter tantas ideias se cruzando mentalmente.

Durante as minhas aulas da faculdade, ouço palavras tão belas! Sinto-me Macabea com seu fascínio pelas palavras que ecoam no rádio. Pompidou, Baudelaire, Renoir…tudo relacionado a arte, não tem jeito. Eu percebo que, ao falar Kandinsky, as letras unidas provocam uma sonoridade tão profunda que me faz pensar, no momento da fala, em mágicas explosões de cores, linhas para todos os cantos. Não deixa de ser um tanto próximo das obras que ele já criou. E Delacroix? Que nome heroico! Não apenas porque ele pintou o quadro Liberdade guiando o povo, tão reproduzido por aí em capas de livros baratos de Os Miseráveis. Não, é um nome imponente que me faz imaginar uma transcendência do Dela para o croix que deve ser a responsável pela sensação grandiosa ao observar seus quadros, creio que até sorrio por dentro quando falo seu nome.

Após essa explanação tão repentina sobre os nomes dos artistas – provavelmente, ao terminar de escrever esse texto, vou achar que minhas observações foram insanas demais – eu percebo que sempre tenho mais uma palavra a acrescentar. Tanto à minha fala quanto a esse texto. É difícil lidar com a infinitude do discurso. Parece-me que a maior preciosidade que tenho é a linguagem, dada a mim para me socializar com os outros e, principalmente, traduzir a minha própria existência.

Mas como lidar com o fato de que sempre posso dizer algo a mais? Sei que às vezes o silêncio do final de um texto alcança maior profundidade do que determinadas frases, pois permite, humildemente, que fique ecoando em cantinhos da memória o que foi dito. Elas guardam-se lá e, com o passar do tempo, recriam-se. Proliferam-se em novas ideias. E é, desta forma, que vou enrolando-me em letras para construir um silêncio finito, que se explode em palavras e ideias novas.

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2 comentários sobre “Fala

  1. Por que eu tenho a impressão que eu já li esse texto, ou alguma coisa parecida? Tem algum escritor famoso que já escreveu sobre essa simpatia para falar logo? Mas independente disso, gostei muito de seu texto, creio que me sinta meio Macabea, mas não com tanta simplicidade que ela possuía, creio que você também, creio que somos mais ou menos como Sócrates que sempre está aberta a um novo conhecimento… Não sei se estou fugindo do propósito do texto, ele me fez divagar… rsrs

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  2. a língua (ou as línguas) é um meio para entender e ser entendido. desde que éramos crianças nos expressamos de alguma forma. Forma que foi se alterando ao longo do tempo, nem para melhor nem para pior, mas para algo diferente e novo. Adequado a novos tempos

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