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Dândi

Do meu passado sobraram os ternos antigos,
A bengala em prata luxuosa.
Dias brilhantes em taças e efêmeros amigos,
Que me viam rei de vida suntuosa.
 
A mim se voltavam olhares de admiração!
Ao mundo entediante eu cedia graça,
E a todos eu era inspiração!
Eu sabia adornar a desgraça.
 
O mundo está prestes a explodir,
Mas no luxo vivo intensamente.
Em roupas a inovação sei exprimir.
Sou um herói de alma impertinente!
 
Coroaram-me dândi,
Fui a esperança de uma época entediante.
E agora me resta esse poema incerto,
Ora com rimas, certeiro quanto a minha figura.
Ora inseguro…quebradiço, como minha época.
Aquela que ficou para trás.
A mim os olhos não se voltam,
E hoje sou apenas um sujeito mal-educado.
Minhas roupas parecem esquisitas
Ou insistem em me chamar de vintage.
Não sou vintage! Uso a época que foi minha!
Só vejo em mim a decepção
Que antes era esquecida nos bailes.
Agora ela me perturba,
Afoga-me em copos,
Em jogos de azar incessantes,
Em tardes suspensas no passado.
Sou um homem perdido num mundo hostil.
Tornei-me o que abominava:
Apenas um extravagante,
Sem coragem de persuadir, insultar, divertir.
Rabisco no papel algo que nem sei bem o que é.
Um poema, uma prosa, um grito.
Sei que o texto corresponde a mim.
Para sempre serei dândi,
Mesmo que apenas em meu espelho,
Em meu terno.
A você, ser desprezível desse mundo,
Fui o passado que desconhece.
Nunca saberá o que é ter um século seu!
Lamento, a você continuarei um herói,
Com minha bengala e meu orgulho. 
 
 
Para comemorar o 3º ano desse blog (:
Aqui está a música Dandy Darling, do Thiago Pethit, muito divertida e que me inspirou a escrever!
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Cortina

Os olhos pesam,
Ao ânimo persisto,
Mas dele logo desisto.
O sono invade a pálpebra,
Levo-me ao suspiro.
O pouco ar e entusiasmo se esvaem
Ah, é só uma breve desistência!
Acabo por me enrolar no cobertor e em reticências…
Deixe na mesa tudo assim mesmo!
Esta é a minha ínfima liberdade
Ai, a de respirar…
Por entre os segundos escorregadios.
Com exclamações já não me expresso mais,
A força dos braços, dos olhos vívidos,
Da mente impetuosa…são a sombra do dia.
Cansaço pela realidade vivida.
As cores se desbotam
Nesse leve fechar da cortina.
Repousar.
Só um pouco.
Amanhã sacudo essa cortina,
Para o tecido tremular corajosamente
E observar a vista novamente.
A se desvelar reinventada.
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Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.

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Poesia-ato

Pode falar o que for,
Pelas palavras envoltas em maldizer.
Se não dá para você a poesia compor,
Da escrita nunca vou me desfazer!
 
Longe estarei de qualquer amarra
E de línguas venenosas.
Pois dessa arte só extraio fanfarra,
E faço das palavras joias luminosas!
 
Por isso aqui sinto-me feliz!
No passo a passo meu mundo retrato,
Sua crítica é só minha força motriz
Que me leva a essa bela poesia-ato!
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Multidões no cofre

Chega o momento em que se conta os amigos. Contudo, esse momento é indeterminável. E, infelizmente, não se pode dizer que esse gesto irá cessar alguma vez em sua vida. Mesmo assim, há aqueles que você sabe que ficarão ao seu redor. Separa-os daqueles que são companhias efêmeras. As pessoas que viu uma vez ou outra. Toma-se para si as poucas moedinhas, mas as que valem mais, entre as dezenas que povoam o cofre. De um pote de moedas, partem-se mundos, multidões conectadas, pessoas incontáveis que passearam pela sua vida e guarda aquelas que se sentaram num banco próximo e ficaram para ouvi-lo falar, contaram sobre o seu dia ou apenas para observar junto com você as muitas alterações dos anos. Essas são moedinhas preciosas. Gastá-las? Não. Cultivá-las, como depositárias da sua sorte.

Em amizades ocorrem o mal humor – seja matinal ou não! -, as dissenções pelos simples gostos musicais ou cinematográficos. Ou até mesmo tempestades naquele dia em que nada vai bem. Mas que, no dia seguinte, não passa de uma garoa. E, no fim, parece apenas ter regado o jardim e volta tudo como era antes.

Amizades são circulares e, por isso, não se define começo e fim. Ter uma amizade não é tomar o ônibus num ponto, aproveitar a paisagem vista pela janela e, depois, descer e tomar outro rumo. De fato, isso acontece no convívio com algumas pessoas. Deixa-se de ver o outro por incompatibilidades, a revelação de que nunca foram amigos, há decepções, mas os desencontros são possíveis e pode significar apenas um breve adeus.

A verdade é que a amizade é uma experiência sinestésica. O abraço inigualável, a música que você gosta o outro ama com a mesma intensidade, o livro que emociona os dois, o docinho que gostam de comer juntos. Amigos são sons, gostos, palavras, gestos, expressões. O mais irônico é descobrir que, se antes você tinha uma multidão de pessoas em sua vida, mas poucas com grande significado, você descobre que aquelas poucas moedas selecionadas guardam em si multidões distintas que, juntas, já povoam infinitamente todo um cofre.

Inspirado na letra da música The Party, de Regina Spektor (ouça aqui).

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Infinitos

Não é fácil tratar da passagem da adolescência para a fase adulta no cinema sem parecer repetitivo, fazer do roteiro mera repetição de fórmulas do aluno desajustado, perdido em suas escolhas, sofrendo discriminação na escola e ganhando a liberdade numa juventude desenfreada. Muitos apostam na superficialidade e o resultado é um adolescente sem a consciência da real importância desse período de mudanças e escolhas, um personagem distante da realidade.

Entretanto – suspiro com grande alívio – não é esse o caso do enredo do filme As vantagens de ser invisível. Pelo contrário. É um filme inesquecível por conseguir justamente se entrelaçar à vivência do espectador sem soar clichê em nenhum momento. Você lembra que já foi jovem um dia, independente dos anos que se passaram e, mesmo com experiências diferentes daquelas enfrentadas pelos personagens, é possível sair do filme interligado a eles.

A história é a de Charlie um garoto que viu a morte e o sofrimento de pessoas próximas, fatos que o levaram à depressão e à ideia de que possuía culpa pelos acontecimentos. Com essa carga, o jovem ingressa no ensino médio. Para aplacar a solidão, Charlie, que deseja ser escritor, redige cartas a um amigo imaginário, contando-lhe as expectativas. Os anos foram árduos para ele e agora, para o seu próprio bem, precisa de amigos. Felizmente, conhece Patrick – figura espirituosa duramente apelidada pelos outros de “Nada” -, a sua meia-irmã encantadora Sam, além do adorável professor de literatura e outros amigos considerados desajustados. Ao longo do filme, a cada pequena frase e tomada de cena, vai se desvelando a amargura da vida de cada personagem, profundamente misturada a tudo aquilo que os faz importantes e singulares na vida de Charlie.

O curioso é perceber que todos os personagens se envolvem com as pessoas erradas. E, justamente tendo isso em comum, encontram uns nos outros o conforto de finalmente possuir uma relação saudável e marcante. A ideia que o filme apresenta – a de que temos o amor que pensamos merecer – é a base psicológica dos personagens. E o período vivido por eles se torna decisivo porque os coloca face os grandes erros já cometidos no passado. É um passado que volta como um turbilhão, mesclando-se ao presente como alucinações ou dores às vezes amortecidas pelo tempo, mas que os põem no limite da decisão. E, principalmente, os empurram ao futuro.

Mesmo que o filme trate das dores dos personagens complexamente, ele consegue a proeza de ser sublime e leve. As músicas de estilo indie e rock dos anos 80 que embalam o filme não são mera trilha sonora. As letras, as melodias melancólicas que oscilam entre o desespero e o contentamento, servem como representação do perfil desses jovens que estão em dúvida quanto ao que foram e ao que serão. E é nisso que reside a máxima do filme, “somos infinitos”, sem dúvida compondo uma das cenas mais emocionantes do filme devido à sua simplicidade nas poucas palavras. Quando Charlie, Sam e Patrick correm pelo túnel, no carro e com o volume do rádio no máximo, eles se sentem infinitos. Porque nesse passar das luzes, da estrada, tudo não passa de um borrão. Mas eles estão lá, no carro ou onde quer que estejam, existindo essencialmente. Sem problemas, sem sofrimentos. O que pode soar paradoxal é que eles existem infinitamente no momento em que a música os embala. Ela acaba? Sim. Mas a vivência, não.

É desta forma que o filme se torna profundamente importante e surpreendente. São pelas poucas palavras, que já carregam muita poeticidade e sinceridade, que se traça cada personagem. Todos recebem destaque, pois são um mosaico de sentimentos que compõem Charlie, como a mixagem de músicas que eles costumavam fazer em suas fitas, com as músicas mais importantes. Os personagens são como essas músicas, postas juntas em uma fita, em uma vida, compondo algo singular.

O filme, obviamente, não daria certo se não houvesse um elenco excelente. Ezra Miller faz de Patrick uma figura engraçada, mas sem se esquecer de seus dramas. Sam é a mocinha que soa como a primeira musa de Charlie, com a atuação exuberante e leve de Emma Watson. Nesse caso, esquece-se que ela tem o nome ligado ao papel de Hermione, em Harry Potter. Logan Lerman faz muito bem o tímido Charlie e expõe com naturalidade as suas transformações, sem trair a essência do personagem.

“Somos infinitos”. É com essa frase que o filme se torna inesquecível e os personagens também. Charlie, Sam, Patrick não precisam de residência fixa. Eles existem por toda parte, funcionam em qualquer parte do mundo. São suspensos por suas histórias nesse universo, livres e espalhados por aí, prontos para o segundo em que a melodia de uma música os tornar infinitos.

Resenha compartilhada pela Rocco Jovens leitores, aqui (:

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Ofício

Ideias discorrem pela caneta
Esboço que já respira e incendeia.
No tempo legislador da ampulheta,
Ao acordar, a vida me esbofeteia.
 
Busco nas esquinas a epifania.
Foge de meu traço a imaginação?
O mundo me reprime em anarquia
Do infinito busco uma só visão.
 
Avante à luta! Com um lápis e espada 
Torno em escrever heroico meu ofício! 
É da luta que crio grande arte.
 
Assim, são as ruas meu baluarte,
Construção poética do artifício 
Em calçada viva, minha morada.
 

(Soneto decassílabo, com rimas em abab e cdeedc)