Infinitos

Não é fácil tratar da passagem da adolescência para a fase adulta no cinema sem parecer repetitivo, fazer do roteiro mera repetição de fórmulas do aluno desajustado, perdido em suas escolhas, sofrendo discriminação na escola e ganhando a liberdade numa juventude desenfreada. Muitos apostam na superficialidade e o resultado é um adolescente sem a consciência da real importância desse período de mudanças e escolhas, um personagem distante da realidade.

Entretanto – suspiro com grande alívio – não é esse o caso do enredo do filme As vantagens de ser invisível. Pelo contrário. É um filme inesquecível por conseguir justamente se entrelaçar à vivência do espectador sem soar clichê em nenhum momento. Você lembra que já foi jovem um dia, independente dos anos que se passaram e, mesmo com experiências diferentes daquelas enfrentadas pelos personagens, é possível sair do filme interligado a eles.

A história é a de Charlie um garoto que viu a morte e o sofrimento de pessoas próximas, fatos que o levaram à depressão e à ideia de que possuía culpa pelos acontecimentos. Com essa carga, o jovem ingressa no ensino médio. Para aplacar a solidão, Charlie, que deseja ser escritor, redige cartas a um amigo imaginário, contando-lhe as expectativas. Os anos foram árduos para ele e agora, para o seu próprio bem, precisa de amigos. Felizmente, conhece Patrick – figura espirituosa duramente apelidada pelos outros de “Nada” -, a sua meia-irmã encantadora Sam, além do adorável professor de literatura e outros amigos considerados desajustados. Ao longo do filme, a cada pequena frase e tomada de cena, vai se desvelando a amargura da vida de cada personagem, profundamente misturada a tudo aquilo que os faz importantes e singulares na vida de Charlie.

O curioso é perceber que todos os personagens se envolvem com as pessoas erradas. E, justamente tendo isso em comum, encontram uns nos outros o conforto de finalmente possuir uma relação saudável e marcante. A ideia que o filme apresenta – a de que temos o amor que pensamos merecer – é a base psicológica dos personagens. E o período vivido por eles se torna decisivo porque os coloca face os grandes erros já cometidos no passado. É um passado que volta como um turbilhão, mesclando-se ao presente como alucinações ou dores às vezes amortecidas pelo tempo, mas que os põem no limite da decisão. E, principalmente, os empurram ao futuro.

Mesmo que o filme trate das dores dos personagens complexamente, ele consegue a proeza de ser sublime e leve. As músicas de estilo indie e rock dos anos 80 que embalam o filme não são mera trilha sonora. As letras, as melodias melancólicas que oscilam entre o desespero e o contentamento, servem como representação do perfil desses jovens que estão em dúvida quanto ao que foram e ao que serão. E é nisso que reside a máxima do filme, “somos infinitos”, sem dúvida compondo uma das cenas mais emocionantes do filme devido à sua simplicidade nas poucas palavras. Quando Charlie, Sam e Patrick correm pelo túnel, no carro e com o volume do rádio no máximo, eles se sentem infinitos. Porque nesse passar das luzes, da estrada, tudo não passa de um borrão. Mas eles estão lá, no carro ou onde quer que estejam, existindo essencialmente. Sem problemas, sem sofrimentos. O que pode soar paradoxal é que eles existem infinitamente no momento em que a música os embala. Ela acaba? Sim. Mas a vivência, não.

É desta forma que o filme se torna profundamente importante e surpreendente. São pelas poucas palavras, que já carregam muita poeticidade e sinceridade, que se traça cada personagem. Todos recebem destaque, pois são um mosaico de sentimentos que compõem Charlie, como a mixagem de músicas que eles costumavam fazer em suas fitas, com as músicas mais importantes. Os personagens são como essas músicas, postas juntas em uma fita, em uma vida, compondo algo singular.

O filme, obviamente, não daria certo se não houvesse um elenco excelente. Ezra Miller faz de Patrick uma figura engraçada, mas sem se esquecer de seus dramas. Sam é a mocinha que soa como a primeira musa de Charlie, com a atuação exuberante e leve de Emma Watson. Nesse caso, esquece-se que ela tem o nome ligado ao papel de Hermione, em Harry Potter. Logan Lerman faz muito bem o tímido Charlie e expõe com naturalidade as suas transformações, sem trair a essência do personagem.

“Somos infinitos”. É com essa frase que o filme se torna inesquecível e os personagens também. Charlie, Sam, Patrick não precisam de residência fixa. Eles existem por toda parte, funcionam em qualquer parte do mundo. São suspensos por suas histórias nesse universo, livres e espalhados por aí, prontos para o segundo em que a melodia de uma música os tornar infinitos.

Resenha compartilhada pela Rocco Jovens leitores, aqui (:

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