Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.

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2 comentários sobre “Tempo, dono dos ritmos

  1. Sempre tenho essa sensação de que o tempo está se esgotando. E às vezes sinto-me melancólica achando que estou atrasada, com tantas coisas para fazer.
    Mas acho que a nossa essência está no passado, nos valores, no início do nosso aprendizado.
    O que fazemos é atualizar o tempo, nossas experiências, viver o momento.
    Não devemos lamentar pelo que já passou, pois estaremos perdendo tempo para realizar o que quiser no presente.
    Adorei o seu texto. Mais uma vez me fez refletir. Obrigada

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