Pés suspensos em devaneios

Hoje, André acordou diferente. Os pés formigavam quando levantou da cama. Parecia que não era mais um adolescente. Olhou-se no espelho, a barba por fazer o tornava mais adulto, mas não era isso. Os pés formigavam, o coração disparava.

Pode-se dizer que era um dia comum. André descia as escadas, sentava-se na mesa, cortava o pão, despejava o café na xícara. E tudo isso, agora, parecia ter um som diferente. Aliás, nunca reparara o quanto era sonoro o contato da faca com as casquinhas do pão. Escovar os dentes também parecia um gesto novo. E ele sentia ansiedade para estar do lado de fora.

Não é bem em casa que André sentia  os pés amarrados e seguros. Eles formigavam por desejar ir além das ruas que conhecia, do país que conhecia. Caminhavam por lojas, corredores, salas, aulas, cafés, livrarias, cinemas, museus, com o prazer da aventura de se surpreender com pequenos acontecimentos. Contato com o ar abafado depois que chovia, do vento bruto produzido pelo metrô que se aproximava, com gente de todas as expressões e roupas, com a luz da universidade que acabava no meio da aula, com a poluição, tudo possuía vida e era surpresa. Terra, concreto, pedrinhas, ideias se aglomeravam no solado ao voltar das ruas.

Após um dia cheio dessas sensações esquisitas, como se o mundo tivesse resolvido abrir seus olhos, André chegou em casa exausto e com os sapatos pesados, densos. Carregavam o mundo lá de fora. E a sujeira no tapete não era bem sujeira, era o que ele havia colhido em seu dia. O centro de São Paulo apinhado de gente, os vendedores ambulantes querendo vender, ternos, saias, saltos vestindo a cidade.

Era certo que devaneios André ainda tinha. Talvez tudo isso aí fosse devaneio. Mas, ora, eles são diferentes quando seus olhos e mente crescem. Havia pouco tempo em que começara a estudar o que gostava e parecia que o mundo ganhara mais peso. Antes apenas sombras nas quais ele acreditava, agora parecia que André visualizava o mundo desnudado e se encantava ainda mais com ele. Antes era fácil sonhar alto com o futuro. Agora, que ele começara a ser vivido, tornou-se mais concreto, espécie de uma escultura que finalmente ganhava os toques do visitante num museu, sem plaquinhas para proibir o contato com as sensações.

E, então, os devaneios passam a ser vistos como pipas enfeitando o céu. Quando brincam loucamente no azul, arriscam-se e, de repente se prendem ao telhado, até ao pneu do carro em movimento! Parecem desejar mais do que a liberdade dos céus. Elas querem um pouquinho de realidade. E, ao recebê-la, sabem o momento certo de se libertar mais uma vez, para se confundirem entre as nuvens.

E as sensações diárias não deixam de ser um despertador para a realidade mais imediata. Elas estão ali, prontas para serem encantadas. Talvez signifique achar graça da vida, mesmo quando se está melancólico e sozinho. Se antes os sapatos de André só encontravam sentido por entre os devaneios, agora eles sabem muito bem o passo que dão. Ainda possuem dúvidas. Mas ousam desgrudar-se do solo, vivendo entre mundos suspensos e maravilhosos, para logo voltarem ao chão. Mais vivos.

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Um comentário sobre “Pés suspensos em devaneios

  1. André voltou para as pontas do pelo do coelho. Redescobriu o mundo.
    Mas sabe que, quando eu comecei a ler o texto, me veio Kafka na cabeça e eu pensei que ele ia se transformar em uma formiga! rs
    Muito bom o texto, parabéns!

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