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Indomável sonhadora

Indomável sonhadora
Dir. Benh Zeitlin
EUA 2013
Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry
 

Quvenzhané_WallisPobreza, a prova da força descomunal da natureza, a fragilidade humana, a necessidade de sobrevivência, o nascer e o morrer, a herança cultural, o mito. Pode-se dizer que esses são os elementos principais que se interligam no filme Indomável sonhadora. A Banheira, ilha fictícia na qual o filme se passa, encena uma ilha real, a Isle de Jean Charles, localizada entre Louisiana e o Golfo do México, alagada e deixada à própria sorte após o furacão Katrina. É nesse cenário em que se constitui a relação complexa entre Wink e sua filha, Hushpuppy.

A garotinha de 6 anos é uma força da natureza. Ela ouve as batidas do coração de toda criatura que vê, fascinada pela ordem da vida, como se a natureza fosse um grande ser vivo que pulsa e faz da menina parte desse grande espetáculo. A história se constitui pelo seu olhar, de criança que mescla fantasia do sonho presente nas pinturas rupestres apresentadas pela professora e a realidade visceral que toma o único lugar que ela conhece no mundo, fazendo-a questionar sobre o seu propósito em meio a natureza. Parece que a intenção do filme é apresentar o elo dessa menina com a criação do mundo. Se conhecemos a história do dilúvio bíblico, aqui a Banheira é tomada pela água também. Mas as criaturas vão sobreviver? Se a água baixar, voltará tudo ao normal?

As pinturas rupestres que a garota vê do javali se misturam aos desenhos que ela faz da mãe numa caixa de papelão, para lhe fazer companhia. É aí que se encontra a essência do filme. Enquanto as pinturas rupestres eram uma forma de narrar o cotidiano da caça, sendo um dos primeiros registros artísticos, datado do período Paleolítico superior (40.000 a.C.), os desenhos feitos singelamente no papelão é a maneira que a garota encontra de registrar a própria existência e dar um valor cultural a ela. Mesmo sendo parte da natureza, ela é um animal diferente. Ela tem em si algo que a impulsiona a se juntar em grupos, a amar o pai, a necessidade de encenar a sua vida pela arte. Hushpuppy não chega a ser a figura idílica do bom selvagem de Rousseau, mas retoma o arquétipo das primeiras civilizações.

A relação com o pai também é um ponto forte. Diria-se que é a principal, mas parece-me que a forma com que ela toma as pinturas rupestres, a figura do javali e dos animais que conhece influencia a compreensão que ela tem dessa relação paterna. Wink é apenas o seu provedor, a faz sobreviver e, como o ponto mais instintivo da raça humana, a função dele é a de transmitir à garota os conhecimentos necessários para sobreviver por conta própria. Com o tempo é que se vai revelando o amor entre os dois, timidamente.

O filme constrói de maneira intensa, pela narração em off da garota, todo esse cenário de sonho e realidade. Quvenzhané Wallis, a atriz que interpreta Hushpuppy, é impecável. Acreditamos na força, na fantasia e na infância imaculada da personagem, com muita facilidade e encanto. O filme ganha vida por ela. A relação entre pai e filha se mostra humana nos olhares, nos poucos diálogos e sempre muito convincentes.

Do começo ao fim, o filme arrepia e comove por mostrar essa faceta da miséria ocasionada pelo furacão Katrina. E, ainda, por ser através dos olhos dessa menina que encarna a força da natureza, a força que herdou dos pais e, principalmente, a força dos próprios sonhos. Ao ser apresentada ao mundo, Hushpuppy, então, comprova a sua individualidade pela primeira vez, não como filha de Wink, mas como filha da Banheira. Se, em certo ponto do filme, ela julga ter quebrado o mundo, ela percebe que é capaz de consertá-lo.

O javali que a acompanha durante o filme encarna a imponência da natureza, a forças das patas que podem levantar o solo ou causar um furacão se impõem. Mas logo percebe-se que essa força também está nos passos de Hushpuppy. Assim como o javali, criatura mítica imortalizada pelas pinturas rupestres, a garota arranca da figura dele a força descomunal dos ancestrais para a sua sobrevivência. Por fim, a natureza demonstra respeito, amizade, similitude por essa garota. Hushpuppy deseja que os cientistas do futuro saibam quem foi ela. Não vai ser nada fácil esquecê-la.

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O lado bom da vida

O lado bom da vida
Dir. David O. Russell
EUA/2013
Com Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver

o-lado-bom-da-vida-pipoca-cafe-e-cinemaO cinema já apresentou muitos tipos de casais, o amor à primeira vista, o casamento, o namoro inocente entre duas pessoas felizes que são apenas um pouco solitárias. Já conhecemos bem essa história. E, felizmente, O lado bom da vida – mesmo com esse título clichê na tradução brasileira – se despe do lugar comum e apresenta um amor que cresce gradualmente durante o filme entre duas pessoas que, no passado, tiveram a vida destruída e, agora, tentam reconstruí-la com as esperanças que sobraram.

Bradley Cooper interpreta Pat Solitano, um rapaz que perde o emprego e o casamento após um surto que põe em risco a vida de outras pessoas. Ele passa oito meses numa clínica de reabilitação e, ao voltar para a casa dos pais, está decidido em recuperar o tempo perdido. Do outro lado está Tiffany, interpretada por Jennifer Lawrence, uma moça agressiva que tenta superar a morte repentina do marido e o desequilíbrio que sofreu após essa perda. Esse certamente seria um casal improvável, mas que se mostra possível, pois ambos recebem o olho torto e duvidoso dos outros ao redor por serem considerados desajustados.

O filme funciona extremamente bem e envolve o espectador desde o início. A história é simples e o desenrolar dela também. Na verdade, é um filme que dá espaço para os atores construírem personagens complexos, muitas vezes desvendados por um olhar ou atitude, do que por uma frase dita. A começar por Bradley Cooper. Pat se perturba com uma música que ouve e se revolta com a morte de um personagem em um dos livros de Hemingway. Tudo vem de sensações que passamos a compartilhar com o personagem. Ele acorda os pais revoltado com a morte do personagem, esbravejando contra Hemingway, e a gente adota o argumento de Pat. Ele expõe a fragilidade da vida, nesse momento, pelo ato de fúria, que é a sua defesa, ao perceber que as expectativas para a vida, muitas vezes, são apenas isso, esperanças que não vão se concluir ou que são derrubadas por uma reviravolta da história. Ou seja, junto a Pat, até mesmo essa raiva por um escritor já morto se torna convincente.

No caso de Jennifer Lawrence, parece que ela não está atuando, tamanha a naturalidade com que a jovem atriz compõe Tiffany. Ela é agressiva, mas vulnerável, extremamente sincera, mas oculta os sentimentos mais profundos. E, mesmo sendo características contraditórias, elas funcionam bem na composição da personagem. Os momentos em que ela conversa com Pat e as mudanças bruscas de humor nunca soam forçadas, tamanha é a competência de Lawrence ao dar vida à personagem.

Assim, o filme mescla tensão, drama e comédia na medida certa, com um final contido e realista, não como nas comédias românticas em que há uma exaltação da superação. Essa superação já permeia todo o filme, com a naturalidade que poucos filmes conseguem imprimir. A verdade é que todos os personagens do filme possuem uma fragilidade que optam por esconder. E, tendo o futebol americano como o ponto que os une – além dessa fragilidade -, o filme demonstra que a estratégia de um jogo, assim como a vida, é lidar com a perda e tentar uma nova jogada, saber quando recuar para voltar ainda mais forte.

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Os Miseráveis

Os Miseráveis
Dir. Tom Hooper
Reino Unido – 2013
Com Hugh Jackman, Anne Hathaway, Russell Crowe

les_mis_miserables_film_movie_screening_early_buzz_reactions_reviews_critics_tom_hooper_anne_Hathaway_russell_crowe_amanda_seyfried_hugh_jackman_eddie_redmayne__Um homem preso injustamente, uma moça que vê seus sonhos serem despedaçados ao se tornar prostituta, um casal trapaceiro, uma menina que sonha com uma vida melhor, um rapaz que idealiza outra Paris, um garotinho que diz a verdade sobre a realidade em que vive. Personagens marginalizados por uma sociedade que vive na antítese da riqueza e da pobreza. É uma Paris repleta de pestes, mendigos e prostitutas destruídas tanto quanto os farrapos que usam e as maquiagens borradas que tentam ocultar o horror dessa Paris. É assim que o filme Os Miseráveis destrincha cada canto da cidade e dos personagens imortalizados por suas dores sempre atuais.

Os Miseráveis é um filme baseado no musical da Broadway, Les Misérables, de 1980. A versão cinematográfica é dirigida por Tom Hooper, o mesmo de O Discurso do Rei, vencedor do Oscar de melhor filme, em 2011. Les Mis narra a história imortalizada por Victor Hugo. Trata-se da história de Jean Valjean, preso por roubar um pão, que reconstrói a sua vida após oito anos, tornando-se prefeito e dono de uma fábrica, sob outra identidade. Por isso ele é procurado há anos por Javert, inspetor obcecado em cumprir a lei. Jean Valjean ajuda Fantine, jovem que se tornou prostituta por ser o único jeito de sustentar a sua filha Cosette, após ser demitida da fábrica de Valjean. A terceira parte do filme se passa em 1832, em meio a uma Paris exausta com a miséria e clamando por revolução. Jean Valjean é pai de Cosette, já uma jovem adulta que se apaixona por Marius, rapaz que se junta a outros estudantes para lutar contra o governo após a morte do general Lamarque.

Todo o filme é um grande espetáculo musical. Até mesmo diálogos se tornaram versos, o que pode cansar um pouco quem não simpatiza tanto com o gênero musical, durante as quase três horas de filme. Mas a novidade é que o diretor abandona o artificialismo dos musicais e põe os atores para cantar ao vivo nas cenas. Na maioria das vezes dá certo. Hugh Jackman (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine) são os maiores exemplos de que cantar ao vivo, trocando fortes agudos por sussurros muito mais sinceros e condizentes com o drama da história, realmente dá certo. Os closes nos rostos dos atores enquanto cantam um solo sincero e intimista nos faz compartilhar de um momento em que, se fosse possível a realidade ser musicada, seria daquele jeito, com o personagem cantando a si mesmo os sentimentos mais profundos. Também dá certo com Sasha Baron Cohen e Helena Boham Carter, que não possuem grandes vozes, mas são o ponto divertido do filme pela informalidade do canto e a malandragem dos personagens, combina perfeitamente.

Porém, às vezes tais números musicais ao vivo constrangem um pouco, especificamente no caso das cenas em que Russell Crowe canta. Ele não consegue sustentar um Javert à altura de Jean Valjean. Não se sente o receio que se deveria sentir de Javert quando ele aparece, como se fosse todo o Estado e a Lei em peso, perseguindo injustamente Valjean. Canta mecanicamente, sem a raiva e a dor que Javert sente pelo desejo de cumprir a justiça na qual ele acredita e orgulhar a medalha que carrega. Além disso, há músicas que exigem um canto mais alto, como One day more, música que precisa ser intensa por unir o burburinho do motim e os anseios de todos os personagens, e que no filme não se apresenta como a catarse que deveria ser.

É preciso destacar que é justa a indicação de Hugh Jackman e Anne Hathaway às categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante do Oscar. Hugh Jackman é um verdadeiro Jean Valjean, consegue se fazer protagonista retratando um personagem com todas as imperfeições e dilemas de um sujeito que se esforça para ser decente. E Anne Hathaway conquista a cumplicidade do espectador em pouco tempo na tela, dando realismo à Fantine e criando a própria versão da aclamada música I dreamed a dream, clássica na voz de muitas outras atrizes.

Samantha Barks e Eddie Redmayne, interpretando Éponine e Marius, respectivamente, também são excelentes surpresas no filme. Quanto ao elenco não se tem dúvidas de que acertaram nas escolhas, em geral. O que pode ser visto como pequena falha no filme é a tentativa de resumir as histórias, às vezes se atropelando – uma pena Amanda Seyfried ter aparecido tão pouco, como Cosette – e não dando tempo para um descanso, que seria adequado com um diálogo ou outro, faltando uma conexão entre as cenas.  Embora se perceba essa falha no filme, estranhamente ele continua sendo uma obra-prima que emociona e tira o fôlego. Se os closes podem soar dramáticos demais, eles conseguem captar a essência do musical e da obra de Hugo, horrorizando-nos com a miséria. A intenção clara do filme é emocionar, deseja nos fazer chorar, mas não tem como fugir disso, já que o enredo conhecido é, de fato, comovente.

Les Misérables é um filme que tem, sim, suas falhas. Mas que se tornam pequenas quando se acaba de ver o filme, pois sabe como se aprofundar com maestria nas emoções humanas. Por ser tão épico, esse espetáculo musical se torna, então, a catarse dos sentimentos dos personagens que povoavam Paris.  E, já que para eles é difícil encontrar uma voz diante da miséria, o filme se torna crível por meio das músicas. Assim, o canto consegue expor ao mesmo tempo a vulnerabilidade e o esforço pela sobrevivência desses personagens. Cantam por uma vida idealizada e pela liberdade. Como diz uma das canções,  é a música de um povo que não será escravo novamente.

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Fantasmas

Móveis têm alma. Manifestam a dor quando emperram. A maçaneta cai em revolta, o parafuso se solta em cansaço, exigem de nós um empurrãozinho para se mexerem, a força que eles não têm. Porque a porta sente dor no corpo, tentando acomodar a alma carregada de saudade. A porta não quer se fechar diante da possibilidade de, ao abri-la, só receber o vento anunciando o vazio, dor da despedida.

O caderno carrega o peso do lápis que marcou as suas folhas com a mesma intensidade do passado registrado e agora esquecido. Os livros, com as anotações do leitor, post it colorindo as folhas com observações relevantes também já esquecidas. Nunca se sabe se serão abertos novamente. Os lps, abandonados, guardam as músicas que o Ipod ostenta.

Os objetos têm alma e sonham com a liberdade de se livrarem desse peso. Os seres humanos podem muito bem esquecer, se distrair, conhecer outras pessoas. Os objetos, não. Ficam lá, guardando fantasmas. E, muitas vezes, o único poder que possuem é o de provocar, colocar-se na nossa frente para mostrar que sabem muito mais do que imaginamos.

Nunca subestime um objeto. Ele vive de morte e vida. Aguarda o toque, a alegria para voltar à vida. Mas quando estão quietos, não estão exatamente mortos. Só em repouso, sabendo que a qualquer momento os fantasmas que eles guardam vão se corresponder com a lembrança que o seu inconsciente guarda tão bem.

É o mesmo que deixar um pingo da torneira vazar. Com o som martelando, a torneira provoca os cômodos a relembrar tudo. A nossa cabeça martela com o som de todos os objetos ecoando memórias. É como se o pingo denunciasse que tem o poder de libertar toda uma corrente d’água de melancolia ou um efêmero contentamento que um dia se sentiu.

É assim que objetos saem do estatuto de mercadoria e se tornam lembranças concretas. É um grande mistério…ao mesmo tempo eles guardam não sei que magia, o mistério da alma que carregam, sem serem vistas ou plenamente acessadas. Mas a corporificam, lançam o lembrete de que houve uma vida. Fantasmas escondidos nas cortinas como crianças brincando de pique-esconde ou velhinhos acomodados nas poltronas, esperando para contar histórias. Aquelas que conhecemos, mas fazemos o esforço de esquecer.