Os Miseráveis

Os Miseráveis
Dir. Tom Hooper
Reino Unido – 2013
Com Hugh Jackman, Anne Hathaway, Russell Crowe

les_mis_miserables_film_movie_screening_early_buzz_reactions_reviews_critics_tom_hooper_anne_Hathaway_russell_crowe_amanda_seyfried_hugh_jackman_eddie_redmayne__Um homem preso injustamente, uma moça que vê seus sonhos serem despedaçados ao se tornar prostituta, um casal trapaceiro, uma menina que sonha com uma vida melhor, um rapaz que idealiza outra Paris, um garotinho que diz a verdade sobre a realidade em que vive. Personagens marginalizados por uma sociedade que vive na antítese da riqueza e da pobreza. É uma Paris repleta de pestes, mendigos e prostitutas destruídas tanto quanto os farrapos que usam e as maquiagens borradas que tentam ocultar o horror dessa Paris. É assim que o filme Os Miseráveis destrincha cada canto da cidade e dos personagens imortalizados por suas dores sempre atuais.

Os Miseráveis é um filme baseado no musical da Broadway, Les Misérables, de 1980. A versão cinematográfica é dirigida por Tom Hooper, o mesmo de O Discurso do Rei, vencedor do Oscar de melhor filme, em 2011. Les Mis narra a história imortalizada por Victor Hugo. Trata-se da história de Jean Valjean, preso por roubar um pão, que reconstrói a sua vida após oito anos, tornando-se prefeito e dono de uma fábrica, sob outra identidade. Por isso ele é procurado há anos por Javert, inspetor obcecado em cumprir a lei. Jean Valjean ajuda Fantine, jovem que se tornou prostituta por ser o único jeito de sustentar a sua filha Cosette, após ser demitida da fábrica de Valjean. A terceira parte do filme se passa em 1832, em meio a uma Paris exausta com a miséria e clamando por revolução. Jean Valjean é pai de Cosette, já uma jovem adulta que se apaixona por Marius, rapaz que se junta a outros estudantes para lutar contra o governo após a morte do general Lamarque.

Todo o filme é um grande espetáculo musical. Até mesmo diálogos se tornaram versos, o que pode cansar um pouco quem não simpatiza tanto com o gênero musical, durante as quase três horas de filme. Mas a novidade é que o diretor abandona o artificialismo dos musicais e põe os atores para cantar ao vivo nas cenas. Na maioria das vezes dá certo. Hugh Jackman (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine) são os maiores exemplos de que cantar ao vivo, trocando fortes agudos por sussurros muito mais sinceros e condizentes com o drama da história, realmente dá certo. Os closes nos rostos dos atores enquanto cantam um solo sincero e intimista nos faz compartilhar de um momento em que, se fosse possível a realidade ser musicada, seria daquele jeito, com o personagem cantando a si mesmo os sentimentos mais profundos. Também dá certo com Sasha Baron Cohen e Helena Boham Carter, que não possuem grandes vozes, mas são o ponto divertido do filme pela informalidade do canto e a malandragem dos personagens, combina perfeitamente.

Porém, às vezes tais números musicais ao vivo constrangem um pouco, especificamente no caso das cenas em que Russell Crowe canta. Ele não consegue sustentar um Javert à altura de Jean Valjean. Não se sente o receio que se deveria sentir de Javert quando ele aparece, como se fosse todo o Estado e a Lei em peso, perseguindo injustamente Valjean. Canta mecanicamente, sem a raiva e a dor que Javert sente pelo desejo de cumprir a justiça na qual ele acredita e orgulhar a medalha que carrega. Além disso, há músicas que exigem um canto mais alto, como One day more, música que precisa ser intensa por unir o burburinho do motim e os anseios de todos os personagens, e que no filme não se apresenta como a catarse que deveria ser.

É preciso destacar que é justa a indicação de Hugh Jackman e Anne Hathaway às categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante do Oscar. Hugh Jackman é um verdadeiro Jean Valjean, consegue se fazer protagonista retratando um personagem com todas as imperfeições e dilemas de um sujeito que se esforça para ser decente. E Anne Hathaway conquista a cumplicidade do espectador em pouco tempo na tela, dando realismo à Fantine e criando a própria versão da aclamada música I dreamed a dream, clássica na voz de muitas outras atrizes.

Samantha Barks e Eddie Redmayne, interpretando Éponine e Marius, respectivamente, também são excelentes surpresas no filme. Quanto ao elenco não se tem dúvidas de que acertaram nas escolhas, em geral. O que pode ser visto como pequena falha no filme é a tentativa de resumir as histórias, às vezes se atropelando – uma pena Amanda Seyfried ter aparecido tão pouco, como Cosette – e não dando tempo para um descanso, que seria adequado com um diálogo ou outro, faltando uma conexão entre as cenas.  Embora se perceba essa falha no filme, estranhamente ele continua sendo uma obra-prima que emociona e tira o fôlego. Se os closes podem soar dramáticos demais, eles conseguem captar a essência do musical e da obra de Hugo, horrorizando-nos com a miséria. A intenção clara do filme é emocionar, deseja nos fazer chorar, mas não tem como fugir disso, já que o enredo conhecido é, de fato, comovente.

Les Misérables é um filme que tem, sim, suas falhas. Mas que se tornam pequenas quando se acaba de ver o filme, pois sabe como se aprofundar com maestria nas emoções humanas. Por ser tão épico, esse espetáculo musical se torna, então, a catarse dos sentimentos dos personagens que povoavam Paris.  E, já que para eles é difícil encontrar uma voz diante da miséria, o filme se torna crível por meio das músicas. Assim, o canto consegue expor ao mesmo tempo a vulnerabilidade e o esforço pela sobrevivência desses personagens. Cantam por uma vida idealizada e pela liberdade. Como diz uma das canções,  é a música de um povo que não será escravo novamente.

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3 comentários sobre “Os Miseráveis

  1. Bom, vou comentar de novo rs.
    Exatamente isso, disse muito bem. É uma beleza de filme, mas não precisava ter todos os diálogos cantados. E merecem o Oscar, até esqueci dos outros papeis que tiveram. Vendo o filme, achei que a expressividade amena do Russell Crowe fosse proposital, por ser um cara inflexível.
    Ótimo texto!

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  2. Olha, o César tirou as palavras da minha boca… Eu também concordo com que ele disse com relação ao Russell Crowe… Porque, além de ser um cara inflexível, no final da história ele se mostra fraco, também… É interessante, eu gostei muito do desempenho dele no filme. Claro que o Jean Valjean e a Fantine roubam a cena… E eu senti um encanto especial pela Eponine, achei de uma delicadeza sublime… Sinceramente, a minha decepção foi com a Cosette depois de adulta… Acho que a presença dela marcou mais quando criança…
    E agora, fazendo um adendo, Helena Bohan Carter, que a cada filme, me conquista cada vez mais… Como fora citado no texto, ela pode não ser a melhor das cantoras, mas ela tem uma presença e uma atuação, que, já demorou pra ela ganhar um Oscar!

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  3. Adorei assistir o filme com você.
    É muito forte, tem muito sentimento.
    Quero assistir novamente, mas agora após a sua resenha, prestarei mais atenção a detalhes que não percebi. Lindo!!!

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