Brancos e plásticos

Há mais de seis meses, passei de ônibus em frente a um caminhão parado na calçada de um shopping na Paulista, à noite. Mesmo sendo tão rápido, é surpreendente perceber que essa cena se mantém fresca na memória, por talvez ser fria, cruel, misteriosa. Eram pernas empilhadas, de manequins femininos e masculinos. A porta aberta do caminhão os desvelava, criaturas que nem sei bem se um dia estiveram vivas.

Sei que ostentaram roupas da estação. Se bem que hoje é difícil falar em que estação estamos, diante de tantas oscilações. Será que isso não atingia os manequins? Viviam na vitrine quando expunham a roupa da coleção. Recebiam olhar de aprovação, desaprovação, lamento porque o dinheiro estava curto naquele mês. De crianças apontando para a mãe a cor bonita do vestido.

Mas para onde vão os manequins? Haverá um limbo para aquelas almas talhadas no plástico? Eles adormecem no escuro, quando o mercado parece repousar. Só parece, nunca cessa. Eles ficam estáticos, à espera da próxima exposição do dia. Aquelas pernas brancas e frias, expostas ao frio da rua pareciam revelar o lado macabro do abandono. Eram bonecos, mas havia uma aura naquela pele branca de plástico, única matéria das quais eram feitos os manequins. Pareciam mais quentes que a temperatura da rua. Talvez sejam só bonecos em que se ostenta os maiores desejos de consumo.

Por que eu escreveria sobre manequins? É instigante pensar se eles teriam algum poder. Eles seduzem, mas não sabem como fazê-lo. Ora parecem esconder segredos, ora são inocentes. Sei que ainda sinto a angústia de vê-los despidos num caminhão. Abandonados na própria plasticidade, falsos. Efêmeros, entristecidos, e achei isso só de ver suas pernas. Sempre encarei muito os manequins das lojas, quando pequena. Parecia que havia algum lampejo no olhar deles. Desta vez, o fato de ver tantos manequins juntos foi mais forte. E nem sei bem o porquê.

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4 comentários sobre “Brancos e plásticos

  1. Imagina o que você sentiria, então, se você passasse na frente da loja de manequins que tem aqui perto da minha casa… É realmente estranho vê-los despidos… Quarta passei pela loja e vi um vendedor mostrando na vitrine um manequim sem nada para um casal de compradores. Os 3 pares de olhos muito atento ao corpo desnudo do manequim, 1 par explicando e 2 concordando… Foi uma cena bizarra…

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    • Realmente impressionante, Nati! Creio que em ambas as cenas o que assusta é a vulnerabilidade desses bonecos que são semelhantes ao homem apenas em formato, mas que carregam o mistério dessa proximidade. Feito pelo homem e parecido com o homem. Na sua cena, surpreende o fato do manequim ser igualmente uma mercadoria. Benjamin me inspirou nessa prosa porque na virada do séc.XIX para o XX havia um grande interesse por objetos antigos, bonecos abandonados, manequins que ganhariam vida…tudo isso teria uma fantasmagoria, uma sobrevida. Interessante, né?

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  2. Poxa, como é interessante que um tema cotidiano, como um caminhão cheio de manequins, possa ser mote para um texto tão divertido e perspicaz! Fantastico texto, Srta.Marina!
    Parabéns!

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  3. Você nota uma simples cena, que muitas pessoas nem perceberiam e a descreve perfeitamente, com uma explosão de sentimentos, detalhes, questionamentos.
    Sempre que leio seus textos fico me perguntando como você imagina tudo isso.
    Você sabe passar tão bem tudo isso para o papel que eu fico imaginando a cena. Parabéns!!! Adorei!

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