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A desconhecida e pouco falada, mas grandiosa literatura luso-africana

Matéria escrita com Pedro Dalboni, para o site Literatortura

os-da-minha-ruaQuando falamos em literatura escrita na língua portuguesa, do que nos lembramos? De início, tomamos como referência grandes obras e autores portugueses, como Camões, Góis, João de Barros e assim por diante. Também nos lembramos de autores brasileiros: Machado de Assis, Jorge Amado, Oswald de Andrade, entre vários outros. Mas como é comum entre as pessoas, acabamos nos esquecendo que a literatura luso-africana também tem espaço como difusora de obras na língua portuguesa, oriundas de Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Cabo Verde. Esses são alguns dos países e cidades que também falam a língua portuguesa e, infelizmente, acabam sendo esquecidos, ou até mesmo, são desconhecidos por nós.

Como, então, é possível pontuar o surgimento da literatura luso-africana? Certamente houve obras perdidas no tempo, que caíram em esquecimento em meio a literatura colonial, aquela produzida pelos europeus, que os colocava como modelo de homem branco desbravador. Se formos apontar uma data na qual se destacaram os pioneiros da literatura luso-africana, foi na virada do século XIX para o XX, devido a expansão colonial da Inglaterra e da França no cenário do imperialismo. É importante dizer que, após a Segunda Guerra Mundial, já no século XX, houve a chamada literatura pós-colonial. Nas obras desses períodos e até mesmo após os anos 70 e 80, a literatura luso-africana continua tendo como forte característica apontar as relações de poder entre etnias e classes, o passado da escravidão, o anseio por independência de alguns países.

Um fato interessante de se observar é a importância da imprensa. Em Paris, no final do século XIX, a imprensa ganhou extrema importância para a disseminação de folhetins. Grandes autores como Victor Hugo e Alexandre Dumas ficaram conhecidos pelas publicações em folhetins. A popularidade da imprensa também se mostrou na Angola. Entre os anos de 1860 a 1900, surgiram vários jornais como o Jornal de Luanda, com uma abordagem mais colonialista; o jornal O Futuro de Angola e O Pharol foram outros jornais que também surgiram, sendo Echo de Angola o primeiro jornal de africanos. Havia democracia na expansão da atividade literária pelos jornais. E, claro, sofriam censura aqueles que se opunham aos anúncios oficiais da colônia.

E quais são alguns dos nomes conhecidos na literatura luso-africana? Podemos começar por José Luandino Vieira, escritor nascido em Portugal, que se mudou para a Angola, recusou o Prêmio Camões, um dos mais importantes prêmios literários a serem recebidos por um escritor de língua portuguesa pela sua obra, cuja parte dela são os livros A cidade e a infância e Luuanda. Também temos o autor angolano José Eduardo Agualusa, que conquistou prêmios como o de literatura RTP, o grande prêmio de conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, e o prêmio Independente de ficção estrangeira, produzido pelo diário britânico “The independent”. Dentre suas obras estão: Estação das chuvas e Nação Crioula. Por fim, Mia Couto, autor de Terra Sonâmbula e O último voo do flamingo, moçambicano, ganhou prêmios como o Prêmio Vergílio Ferreira, o da União Latina de Literaturas Românticas e o Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de literatura. Faz parte da Academia Brasileira de Letras, sendo o sexto ocupante da cadeira 5 e ainda neste mês, recebeu o Prêmio Camões 2013.

Sabemos que a recepção aos africanos aqui no Brasil foi mediante escravidão e imposição da cultura do colonizador. O que vemos nas obras da literatura luso-africana é a recuperação da própria cultura e o uso dela como resistência em alguns poemas. O curioso é percebê-la pela nuance da linguagem utilizada, as metáforas, que indiretamente apresentam a ferida da submissão violenta dos africanos aos colonizadores. No caso, alguns autores como Agostinho Neto, um dos dirigentes do movimento de independência da Angola, e primeiro presidente da Nova República, que escreveu durante o século XX, retoma em forma de poesia a dor histórica do período de escravidão (leia aqui o poema O Choro da África)

Não podemos nos esquecer, porém, que não é somente sobre a escravidão que a literatura luso-africana fala.  A independência da Angola em 1975 se encontra narrada com muita particularidade no livro “Os da minha rua”, de Ondjaki. Ele foca no pequeno mundo de Ndalu, nas brincadeiras de quintal, na novela Roque Santeiro que o garoto adora assistir, no sonho de nadar numa piscina de Fanta, nas despedidas e descobertas da infância, para apontar que, de alguma forma, a história do país invadia o quintal do garoto. Mas é uma história que entra sem bater na porta, ela aparece aqui e ali como mistério da vida adulta, que vai se entrelaçando à magia da infância de Ndalu. É nela que o garoto se ampara e mantém uma Luanda imaculada diante dos conflitos enfrentados para conquistar a independência do país.

Como exemplo de outro autor de literatura luso-africana, há o moçambicano Mia Couto. Ele também parte do significado da História para criar o seu enredo, mas o faz em um cenário fictício que soa como alegoria, no livro Antes de nascer o mundo. O protagonista também é um garoto, chamado Mwanito, que mora com o pai viúvo, o irmão, o tio, um agregado e uma jumenta na cidade fictícia Jesusalém, “onde Jesus haveria de se descrucificar”, inaugurada pelo pai com a finalidade de se isolarem e sobreviverem a um possível mundo que acabou. O garoto desconhece referências culturais, não há o “antes” nesse mundo, ele é proibido de aprender a ler e a escrever. Vive com um rio, uma árvore e a terra, que seriam a referência mais profunda que ele possui. Ou seja, ele mantém contato com aquilo que é mais essencial ao homem. Tudo muda quando surge uma mulher misteriosa na tal Jesusalém, sendo aquela que desestabiliza o mundo que duramente o pai do garoto, Silvestre, lutara para criar após se tornar viúvo. Assim, o passado do mundo volta e Jesusalém deve se redimir com ele.

Apesar da sensibilidade e qualidade da literatura luso-africana, muitos de nós não conhecemos os livros, histórias, contos e vários tipos de literatura que vêm dos nossos “irmãos de língua”.  Inclusive, para escrever essa matéria, tivemos a dificuldade de encontrar as informações necessárias. Isso só demonstra como a literatura luso-africana ainda precisa conquistar o próprio espaço. E é justamente esse o ponto comum que encontramos nos três autores citados. Nas obras deles, é possível ver a poesia e a prosa tentando retomar o contato do homem com a História e ver onde ele se encaixa nela. Seja em Jesusalém, seja na realidade sofrida pelos africanos no período colonial ou na Luanda ansiosa pela independência, as raízes históricas de cada povo se prendem à escrita e apontam a grande importância dela. A escrita funciona como registro do período, mas principalmente como um caminho à liberdade. Escreve-se para não deixar uma página em branco no passado de um povo. Assim, os três autores nos fazem perceber o homem histórico que há por todo canto. E uma literatura luso-africana que sabe dar voz à própria realidade.

Se quiser saber mais sobre a literatura luso-africana, seus nomes consagrados e a história dos autores, acesse: lusofonia

E ainda, para ler mais poemas de autores luso-africanos, acesse:  aqui

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Pigmaleão, de Bernard Shaw

Resenha para o site Indique um livro, do Literatortura

My Fair LadyUma florista que possui uma pronúncia grotesca, aos olhos de um eminente fonético,  torna-se o experimento para um homem que deseja provar que é possível fazer dessa moça pobre uma lady aos olhos da sociedade, só pela postura e o uso da língua inglesa. Essa é a história que conhecemos pelo filme My Fair Lady, com a atriz Audrey Hepburn, de 1964. Porém, ela não é inédita. Foi baseada na peça do dramaturgo Bernard Shaw. E o nome do livro é Pigmaleão, escrito em 1913.

Eliza Doolitle é a mocinha que vende flores na porta de um teatro em um dia chuvoso. Ela grita por entre os vestidos e peles luxuosas das damas que aguardam o carro, pede para comprarem uma simples flor de seu cesto, única forma de sustento para a garota que mora em um quartinho e se aquece com farrapos e a própria saia. Acho que ela já cativa logo no início, quando é narrado o seu quarto. É paupérrimo. E ela é a preciosidade daquele quarto, não por ser uma moça que pode se tornar uma dama, mas por sobreviver por conta própria, pela simplicidade com que sonha em ter a própria lojinha.

Voltando ao enredo, o som rude do sotaque de Eliza é o que chama atenção do professor Higgins, que toma nota do chamado cockney, dialeto presente na Inglaterra. A moça resolve procurá-lo e pedir para ter algumas aulas, já que ela quer ter a própria lojinha para vender suas flores e aprender a se expressar melhor aos futuros clientes. Higgins, então, decide oferecer essas aulas. Mas claro que não é por gentileza que ele faz isso. Se Eliza for moldada e se tornar uma lady, ele será elogiado por todos da alta sociedade como aquele que sabe praticamente criar pessoas “civilizadas” apenas ensinando a tão exaltada língua inglesa. Ou seja, Pigmaleão expõe o cinismo de muitos eruditos por aí que se julgam conhecedores da língua, a alta sociedade hipócrita que se engana só por meia dúzia de palavras e uma boa vestimenta. E tudo isso nos diálogos afiadíssimos e divertidos de Bernard Shaw.

Não é por acaso que a peça foi intitulada Pigmaleão, é mais uma boa ideia de Shaw. Segundo Ovídio, na mitologia grega, Pigmaleão era rei de Chipre e escultor, que, na tentativa de reproduzir a mulher ideal, apaixona-se pela própria estátua que esculpiu. Pois então, já viu no que vai dar esses cinco atos do livro, né? Mas não espere frases apaixonadas. A relação entre Eliza e Higgins é complexa, pois é desigual. O professor se alimenta do poder que exerce na moça, acha que ofereceu o mundo a ela e que, por isso, naturalmente, Eliza deveria ficar aos seus pés pelo resto da vida. Mas Eliza é uma mocinha determinada, não serve para ser uma escultura a ser exaltada ao lado de um professor que gosta de contar vantagem pelo conhecimento que tem de fonética.

A tradução de Millôr Fernandes para o livro dá peculiaridade à obra. Bernard Shaw tentou transferir o cockney para a escrita, por meio da grafia, mas depois de muitas tentativas, achou impossível, resolveu escrever normalmente e deixar para os atores que fariam a peça o desafio de reproduzir o dialeto. Millôr, porém, resolveu tentar transferir o cockney para a língua portuguesa. Mas é importante dizer que, ao fazer isso, Millôr não desrespeitou de modo algum os sotaques presentes no Brasil, pensando que haveria um sotaque “errado” para contrapor às expressões de Higgins. O sotaque soa caipira, mas não por esse ser um sotaque que algum estudioso veria como errado, mas por ser semelhante ao som do cockney, que enfatiza mais a letra R. Assim, ele apostou na rapidez da forma coloquial, escreve errado propositalmente para indicar a pronúncia, com a finalidade de reproduzir a ideia do que é o cockney.

Em suma, Pigmaleão é uma obra leve, com um toque de comédia de costumes. E ainda extremamente atual. Quantas pessoas são desprezadas só porque não falam o que seria definido como norma culta? Higgins tinha todo o conhecimento da língua inglesa, mas não sabia ser sutil e muito menos delicado e polido com as pessoas ao redor. A sua riqueza não garantia um bom caráter. As flores que Eliza vendia por um preço tão barato eram muito mais genuínas do que as letras, que eram um simples meio de alcançar a perfeição ilusória, por Higgins. As flores valiam muito para ela, enquanto as letras eram desperdiçadas pelo professor numa tentativa incessante de provar ser o melhor. Está aí o recado de George Bernard Shaw.