Saiu o trailer de Saving Mr. Banks: Conheça a história por trás da adaptação de Mary Poppins

Matéria publicada no site Literatortura

Neste mês foi divulgado o primeiro trailer do filme Saving Mr. Banks, que finalmente levará às telas os bastidores da adaptação de Mary Poppins para o cinema, lançado em 1964. No elenco vemos Tom Hanks, caracterizado como Walt Disney, na tentativa conflituosa de convencer a escritora Pamela Travers (Emma Thompson) a vender os direitos para a produção do filme. O processo de criação, incluindo a tentativa de conseguir os direitos, durou cerca de 20 anos. Uma saga que poderemos conhecer com mais profundidade, assim como as motivações da autora ao criar Mary Poppins e a figura paterna de Mr. Banks.

A babá que desce do céu amparada por um guarda-chuva e muda o comportamento da família Banks foi criada pela autora britânica Pamela Travers em 1934, formando uma coleção de oito livros considerada clássica para o público infanto-juvenil. A história é composta pelo momento em que Mary Poppins chega à Rua das Cerejeiras, na qual Mr. Banks se encontra desesperado procurando uma babá para seus filhos. Os outros livros da coleção contam várias aventuras das crianças com Poppins no parque, na cozinha, a partida da babá e o seu retorno.

Há muitas razões pelas quais o filme se tornou especial. Foi o filme no qual Walt Disney mais esteve presente na concepção, pois permaneceu 20 anos tentando adquirir os direitos da história. A filha dele, Diane, havia lido os livros, indicando-os ao pai. Por isso, era tão significativo, para ele, criar esse filme.

Em 1934, foi publicado o primeiro livro de Mary Poppins. Em 1938, Walt Disney tentou adquirir os direitos. Mas a autora tinha muito receio de que Disney transformasse Poppins numa mocinha doce e saltitante, como podemos ver na fala do trailer de Saving Mr. Banks. Ela não aprovava a abordagem de Hollywood e as modificações que faziam durante o processo de adaptação. Até que ponto um autor deve permitir que sua obra seja aberta a novas visões? Voltaremos a essa questão em breve.

Em 1944, Walt Disney tentou novamente. Ele enviou o irmão à Nova York para convencer Travers. Mesmo assim ela não aprovou. Em 1959, Walt Disney viajou à Londres para um de seus compromissos e decidiu ligar para Travers. A autora disse que falar com Disney era o mesmo que conversar com um tio charmoso que tirava um relógio de bolso do colete e o balançava de maneira sedutora diante de seus olhos. Curioso ver que o próprio Disney deveria incorporar um personagem como uma artimanha esperta para, finalmente, convencer Travers.

Os irmãos Sherman começaram a trabalhar nas músicas em 1960. Como indicação de Walt Disney, ambos leram o primeiro livro de Travers e grifaram os capítulos que poderiam ser levados ao cinema. O que surpreendeu os compositores foi que Disney havia grifado os mesmos capítulos. Eles tinham em mãos as histórias variadas de Poppins, mas o filme precisou entrelaçá-las a fim de criar um enredo coeso.

Dois anos e meio depois, Walt Disney propôs que a autora fosse escutar o que haviam criado até então.  Após os Shermans terem trabalhado em todas as músicas, Travers chegou. E não gostou do que viu.  Era ela quem deveria dar o veredicto à história, e disso a equipe não sabia. Travers não gostou da história, da animação, das músicas. Quando, posteriormente, ela aprovou, em 1994, que a história fosse adaptada para os palcos, exigiu que tivesse apenas ingleses trabalhando na produção. Foi a maneira de obter uma adaptação mais fiel de sua obra.

No início do filme, Mary Poppins usa uma fita métrica que possui frases que qualificam a pessoa medida. Travers insistiu para que a tal fita aparecesse no filme, e exatamente naquela cena, pois a mãe da autora tivera o mesmo objeto quando criança. Isso é só uma amostra do quanto a obra era íntima para ela.

O receio de Travers era ver os pais se tornarem mais afetuosos, no filme.  Ela traçava a mudança de Mr Banks de uma maneira peculiar. Não deveria ser “uma mudança de coração, porque ele foi sempre afetuoso. Mas preocupado com as responsabilidades”.  Com efeito, Mrs. Banks está preocupada com o movimento sufragista feminino, enquanto Mr. Banks com os compromissos do banco. Travers queria que o filme deixasse incólume a imagem que ela criara para os seus personagens, nunca sugerindo que a família fosse cruel e que as crianças eram vítimas. Mary Poppins surgiu para trazer à tona o amor que estava escondido entre os membros da família. Por isso o significado do atual filme sobre a adaptação de Mary Poppins: a babá veio para salvar o Mr. Banks, e não exclusivamente as crianças, como se as levasse para um mundo perfeito de aventuras e depois revelaria uma realidade imutável.

Segundo uma gravação feita em 1961, Travers disse o seguinte: “Deve-se prestar atenção à atmosfera do livro. É essencial ao livro e à história que Mary Poppins nunca seja indelicada com ninguém”. Travers era contraditória, segundo o elenco. “Ela era uma senhora bem incisiva”, disse Julie Andrews.

Para interpretar Mary Poppins, cogitaram outros nomes como o de Bette Davies. Mas, ao ver Camelot, Julie Andrews chamou a atenção de um dos irmãos Sherman. Walt Disney, então, foi aos bastidores da peça e encenou pequenos trechos do filme para convencer Andrews de que valeria a pena entrar no projeto. Ao saber que o marido da atriz era desenhista de cenários e figurinos, Disney o contratou também. Andrews disse, porém, que não poderia se comprometer ao papel, pois estava grávida. Mesmo assim, Disney resolveu esperar pelo período de gestação para ter a atriz no elenco.

Andrews ainda não sabia se faria My Fair Lady nos cinemas, musical que fez em Londres e na Broadway. Jack Warner, o produtor de My Fair Lady, resolveu não arriscar colocando-a no papel, já que era desconhecida no cinema. Mas Disney via que Julie Andrews era, de fato, Mary Poppins. O curioso é que, depois, Andrews ganhou o Oscar por Mary Poppins, o seu primeiro filme. E ela agradeceu a Jack Warner por não tê-la contratado para My Fair Lady, filme com o qual, por coincidência, Mary Poppins estava concorrendo ao Oscar no mesmo ano. Se não tivesse aceitado a proposta de Walt Disney, talvez Julie Andrews não teria adquirido os personagens que marcaram a sua carreira, posteriormente.

Sabia-se que havia um obstáculo, logo no início, para Julie Andrews: ela teria que fazer um teste para saber se Travers a aprovaria como protagonista. E foi aprovada. A autora disse que a atriz tinha o nariz certo para Poppins. A atriz conseguiu o tom certo para fazer de Mary Poppins uma personagem convencida e reservada, sem soar indelicada. Deu o tom de uma mulher independente, que sabe que é “praticamente perfeita em todos os sentidos”, como diz a música.

Durante as conversas que Robert Sherman teve com Travers, ele disse à autora: “nunca iremos tocar em uma palavra de seus livros. A imagem original nunca será tocada”. Esse era o verdadeiro receio de Travers. A imaginação da autora era o seu único refúgio diante dos problemas com alcoolismo do pai e as tentativas de suicídio da mãe. Por isso é compreensível a postura irredutível da autora quanto a personagem que a amparou, como se protegesse o que havia de mais precioso.

Pamela Travers sentia que o filme mudaria a sua vida. O fato de terem lançado o filme, adaptando suas obras, fez com que fosse conhecida unicamente como a autora de Mary Poppins. De acordo com uma matéria publicada pela The New Yorker, o filme também deixou uma profunda impressão sobre as gerações de crianças que o viram. Elas se tornaram adultos em uma América que criou um mito em torno da imagem da babá, como aquela que proporcionaria a felicidade supostamente perdida pela família que, antes, era considerada patriarcal. Ou ainda, passa a ocupar um espaço distinto na família em razão do ingresso de muitas mães no mercado de trabalho.

O fato curioso é que Mary Poppins se tornou sinônimo de uma babá que muda tudo magicamente. E sabemos que não é assim, na realidade. E nem era, de fato, a pretensão do filme ou da obra de Travers. O destino da família não se faz pelas mãos de Mary Poppins. Ela traz à tona o que havia se perdido entre a família. No fim, o filme é uma “anti-propaganda à babá”, nas palavras de The New Yorker; ela não deve ser a substituição dos pais na criação dos filhos e nem uma resolução paliativa à educação deles. A presença de Mary Poppins na família de Mr. Banks só revela que ele e a sua esposa poderiam cuidar dos próprios filhos, participando mais da formação deles. A questão é que a matéria aponta algo que não consideramos quando assistimos ao filme. Logo no final, Mrs Banks usa a faixa de sufragista para confeccionar a pipa. Segundo a matéria, Mrs. Banks precisa deixar de lado o movimento sufragista feminino para que possa cuidar dos filhos, enquanto vemos Mary Poppins sumindo no céu. Por isso, o filme passa a soar como uma defesa da família inglesa tradicional, liderada pelo pai e com a mãe em casa, organizando-a. E a babá como aquela que restituiu a ordem.

Será que foi essa Mary Poppins que Travers idealizou? Talvez no filme atual sobre a adaptação não vejamos a possibilidade de distinções entre a Mary Poppins da Disney e da autora. Mas é um ponto a se pensar, afinal, Travers não compartilhava desse tradicionalismo. Ela nunca casou, teve uma relação conturbada com um homem casado. Foi mãe solteira após optar em adotar gêmeos. A infância complicada da autora, na qual o pai morreu por alcoolismo e a mãe, por suicídio, certamente influenciou a sua visão da família e a entender o significado do abandono à criança.

É importante observar que o filme se passa em 1910, mas o livro tem como cenário a era da Depressão em Londres, nos anos 30. Ou seja, no livro Mrs. Banks não trabalha, fica em casa se ocupando de chás, encontros e empregados. E a família está em crise financeira. Isso nos conduz a um fato: Travers pretendia, na verdade, recriar a ideia de infância, diferente da qual tivera. E também diferente desse modelo patriarcal de família que podemos supor existir no filme de Disney. Ela começa a apresentar uma nova estrutura familiar. É claro que ainda vemos a família liderada pelo pai; mas, aos poucos, ela vai se tornando mais humana.

Quando Mary Poppins conquista as crianças, Michael pergunta se ela os abandonará um dia. É o medo de toda criança e que foi vivenciado por Travers. A confiança que ela tem em Mary Poppins é a que gostaria de ter sentido em relação aos pais; o simples cuidado com a alimentação e o afeto é o significado da existência de uma criança. Por isso o receio de perder o que lhe é essencial.

Desta forma, é importante considerar que sempre haverá distinções entre a obra original e a adaptação. Se Walt Disney não tivesse criado o filme, teríamos menos um clássico dos estúdios, muito ousado pelo período devido aos efeitos que usados nas cenas com desenhos animados e atores. Além das músicas e elenco, que são inesquecíveis. Mas Mary Poppins vai além da personagem hollywoodiana. Diante disso, era compreensível a oposição de Travers.

A pergunta que resta é se o filme Saving Mr. Banks mostrará que é provável não ter ocorrido um convívio totalmente pacífico entre Disney e Travers, no fim do processo. Por ser um filme criado pelos estúdios Walt Disney, provavelmente terá uma abordagem mais leve. Segundo The New Yorker, quando Travers foi à première do filme, ela não ficou totalmente satisfeita com o resultado. E Disney respondeu “Pamela, o navio navegou”. Pode ter sido frio da parte de Disney, mas fiquemos com essa frase. Mary Poppins nunca estará presa como propriedade a nenhum dos dois. Ela já é uma personagem independente que se tornou um ícone, podendo encontrar novos ventos para guiá-la a uma nova concepção.

O filme Saving Mr. Banks tem estreia prevista para 13 de dezembro de 2013 nos Estados Unidos e 10 de janeiro de 2014 no Brasil.

Confira o trailer de Saving Mr. Banks AQUI

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