Animações de cineasta alemão são vistas como propagandas pró-nazistas

Matéria publicada nos sites Causas PerdidasLiteratortura

Normalmente consideramos a animação um gênero cinematográfico inocente, feito para crianças com o único intuito de diverti-las e isenta de senso crítico. Mas há muito mais nos enredos feitos para este gênero. No site Literatortura já foram debatidos os temas adultos que surgem em animações como em “Os Simpsons” e nas produções da Disney – matéria que você pode conferir aqui. Muitas vezes são desenhos que não classificamos como o politicamente incorretos, os quais seriam vetados, mas existem mensagens que ficam nas entrelinhas e podem ser captadas por um espectador mais atento.

A animação também é capaz de transmitir valores e ideologias.  Diante disso, não foi somente Walt Disney que produziu animações famosas. Antes de Oliver Hirschbiegel e Roland Emmerich, tivemos na Alemanha um cineasta chamado Hans Fischerkoesen, que se inspirou no formato da Disney com uma finalidade distinta: ficou conhecido como um artista que pregava o nazismo por meio de suas animações.

Hans Fischerkoesen nasceu em 1896 e iniciou sua carreira como operador de rádio na Primeira Guerra Mundial. No entanto, com o fim da guerra ele passou a se dedicar à produção de comerciais em vídeo – o que seria o início para o que se tornariam as suas animações: uma propaganda ideológica. O diferencial deste cineasta estava no fato de que suas peças publicitárias tinham como marca uma pequena história criada por ele que cativava tanto espectadores quanto empresários – elevando, dessa forma, as vendas dos produtos.

Logo começou a Segunda Guerra e muitos dos artefatos que Hans vendia em seus comerciais se tornaram artigos de luxo devido à crise que a guerra instaurou no mercado. Obviamente, uma guerra custa caro, e isso representou uma aparente decadência em sua carreira. Por isso, foi nesse momento em que o trabalho de Hans tomou rumos diferentes.

Quem foi um dos grandes espectadores dos comerciais de Hans? Joseph Goebbels, simplesmente o Ministro de Propaganda do governo nazista. Se você já assistiu ao documentário de Peter Cohen – “Arquitetura da Destruição” – é possível perceber como Goebbels engendrou o preconceito aos judeus por meio da propaganda, relacionando-os à figura do rato que deveria ser dissipado da cidade por representar perigo. O nojo pelo rato – uma característica marcante na maioria das pessoas – foi usado aqui para implementar uma ojeriza ao judeu como ameaça à raça ariana. É claro que não é possível dizer o quanto é horrível pensar que muitas pessoas levaram o discurso a sério e que ele se tornou um dos princípios do nazismo. No entanto, é inegável que o golpe de marketing foi, infelizmente, astuto.

Goebbels sabia que Hitler queria produzir filmes educativos no estilo das animações de Walt Disney e contratou Hans para fazê-los, transmitindo assim a ideologia do nazismo de forma lúdica. Se encontrarmos a mensagem, podemos perceber que ela está quase nas entrelinhas e que oscila entre uma mensagem óbvia de que um cidadão precisa ser honesto e amar a sua pátria. No entanto, o perigo desses valores inculcados no espectador se revela somente para quem pensa que há outra faceta da história e se configura como a ameaça de instaurar o significado de um valor excludente e levado às últimas consequências como regra universal.

Hans Fischerkoesen produziu então, junto com Horst von Möllendorf – cartunista de um jornal de Berlim – três animações que ficaram conhecidas como suas produções mais importantes. Comecemos com “Weather-beaten Melody” (1942), logo abaixo. Essa animação conta a história de uma vespa que descobre uma vitrola antiga e consegue fazê-la funcionar com ajuda de seu ferrão. O filme pretende mostrar o quanto a vespa é corajosa, ousada e inovadora. Ela carrega, portanto, características humanas, como espírito aventureiro, competência e esperteza.

Assista Weather-beaten Melody aqui

Segundo matéria do Yahoo, essa foi uma tentativa nazista de reforçar alguns ideais de comportamento e conduta. A questão é que fica um pouco difícil definir sua mensagem como totalmente vinculada ao nazismo. De fato, a vespa soa como a líder que traz a paz de volta aos outros animais e restaura a beleza da primavera como se conhecesse o melhor para aquele povo. Quando um porco-espinho se aproxima e mostra que sabe tocar exatamente o mesmo que a vespa, ela logo o expulsa. Não o vimos mais: vemos somente ela, que continua liderando os demais. E o curioso é que quando a vespa está prestes a dormir de tão cansada, um dos insetos que está com os outros girando o disco para ser tocado acaba ajudando-a a se levantar e ainda a incita a tocar mais e mais.

Se alguém me mostrasse essa animação sem afirmar que foi criada por uma pessoa que trabalhou para Hitler, eu provavelmente não seria capaz de afirmar que há uma relação direta com o nazismo. No mínimo poderia dizer que a tal vespa é arrogante, já que me pareceria mais interessante que todos contribuíssem para que isso acontecesse, visto que se trata de uma animação que celebra a alegria. Mas é possível – considerando o ano no qual foi feita (e isso não podemos deixar de lado aqui) – que exista algo que nos faça lembrar a intenção de Hitler em criar uma nova Alemanha, com o intuito de colocar-se como o líder capaz de reerguê-la e salvá-la da derrota na Primeira Guerra Mundial. A vespa fecha os olhos para os insetos que residiam numa vitrola enquanto dança e se exibe aos outros, exigindo somente que estivessem lá para girar o disco enquanto apresenta a sua superioridade. No entanto, a vitrola está quebrada, e quem conseguirá trazê-la de volta à vida? A vespa, é claro. Vendo dessa forma, então, é possível encontrar uma semelhança com os princípios nazistas.

Já em “The Snowman” (1943), o protagonista (um boneco de neve) decide se esconder em um freezer para esperar por temperaturas melhores. Quando ele sai, no mês de julho, acaba por derreter. A impressão que dá é que se uma criança desavisada visse esse vídeo certamente ficaria bem melancólica ao perceber que o protagonista – um boneco de neve saltitante – derrete enquanto os coelhinhos apontam rindo para a poça (que era ele após derreter) e acabam pegando a cenoura, que antes era o seu nariz. Quais personagens eles representam?

Assista The Snowman aqui

Uma matéria do Yahoo diz apenas que os animais retratados (um coelho, um cachorro e uma joaninha) são metáforas dos nazistas. E só. No entanto, não me parece suficiente dizer apenas isso sobre essa animação. Ela demonstra ter uma mensagem por trás de sua história, principalmente por conta do final ambíguo. Você não sabe por quem torcer, se ri com os coelhinhos ou lamenta pelo boneco de neve. O que significou o seu derretimento?

Parece que há uma relação entre causa e efeito no fato de que o boneco de neve escolheu ficar no freezer e esperar para vivenciar a tão sonhada primavera que ele nunca havia presenciado. Para ele, essa estação soaria como um elemento perfeito, para sair do frio que – olha só a ironia – era a própria composição dele, como de qualquer boneco de neve. O derretimento seria como um castigo, pois ele gostaria de abandonar as suas raízes, a tradição ou justamente a sua raça (no caso, a matéria na qual ele era feito).

A alegria do boneco de neve em saltitar por aí e refazer-se quando derrete pela primeira vez é transmitida, aparentemente, como uma característica irritante: afinal, o boneco sonha com o novo e isso vai de encontro com a tradição. Por isso ele é castigado, tendo o que restara de si absorvido pela grama e sendo meramente esquecido. Assim, esse personagem parece remeter aos judeus. Se ele morre no final, não é como o herói que supera algo que é exaltado ao fim, por exemplo. A moral da animação parece mais com a ideia de que se você ousa sonhar demais com a utopia de viver num lugar que você mesmo tenha escolhido, só pode ser castigado. Em outras palavras: você continua sendo feito de neve e, na “perfeição” da primavera, você não se encaixa de forma alguma por conta da matéria da qual você é feito. Logo, deve ser meramente eliminado – como a raça “impura” dos judeus em meio à Alemanha (essa “primavera perfeita”), que marcha para o futuro cheio de glória construído pela raça ariana aos olhos do nazismo.

A terceira animação é “The Silly Goose” (1944). Na trama, uma gansa fêmea vai para além de suas fronteiras, encontra uma raposa e resolve acompanhá-la. A raposa mantém outros animais em estado de escravidão, mas logo a gansa consegue fugir e voltar para a família. O curioso é constatar que, aqui, a gansa é considerada diferente do grupo: é vaidosa, passa maquiagem, usa sapatos de salto e é iludida pela raposa com trajes masculinos e comportamento malandro. É uma gansa independente que, em vez de seguir a mãe, anda sozinha por aí explorando o que está a sua volta.

Assista The Silly Goose aqui (parte 1)

E veja aqui a parte 2

Sabendo o que ocorreu com os judeus no campo de concentração, diria que a raposa é uma alegoria de Hitler, que sabia iludir facilmente quanto ao bem que o nazismo poderia significar. Mas parece que a animação quer dizer outra coisa. Levando em conta o final feliz em que a gansa se casa e pune o filho que ousa desobedecê-la ao desejar ser livre, os judeus seriam simbolizados pela raposa. O fato de ela escravizar os animais é só um artifício para que os espectadores a odeiem e prefiram o outro lado – a comunidade feliz. E mais: esse ódio pela raposa, por conseguinte, pode nos levar a odiar também a gansa, que deseja se expressar livremente (afinal, ela teria sido tola por acreditar na raposa). E aí está, novamente, o castigo para quem ousa se distanciar da tradição e da tão ovacionada instituição familiar. E sabemos que o nazismo tinha como princípio o nacionalismo, que diluía a individualidade e fazia do povo uma massa manipulada pela ilusão de sacrifício, união e amor pela pátria.

E por que esses vídeos são tão ambíguos? Em parte porque depende de nossa interpretação. É mais fácil distinguir a identidade dos personagens se há um final inesperado, como no caso do boneco de neve. Ou, se vemos um maniqueísmo tão marcado quanto no terceiro vídeo analisado, logo pensamos qual é a ideologia de cada lado, se há o bom e o mau, e, inevitavelmente, com qual concordamos. No primeiro vídeo fica mais difícil visualizar a influência nazista justamente porque deseja aparentar inocência pela alegria que a vespa fornece aos insetos, pelo clima de festa e pelo modo como ela contagia a todos.

Não diria que Hans Fischerkoesen é tão culpado assim pelas animações que criou, pelo menos pelas que foram analisadas aqui. Não podemos negar que há sutileza no tratamento da ideologia e que a boa qualidade da animação é visível, independentemente do que elas pretendiam transmitir. Elas são, de fato, nebulosas, e recebem a influência do período no qual foram feitas. Mas penso que as propagandas desenvolvidas por Goebbels tenham sido muito mais graves, pois o ataque aos judeus era ainda mais veemente quando os tratavam como a escória do país.

Com a derrota da Alemanha na Segunda Guerra, Hans Fischerkoesen foi preso pelos russos em um campo de concentração como colaborador do nazismo. No entanto, ele manteve a criatividade mesmo nessa situação, desenhando retratos dos soldados soviéticos que conviviam com ele. Em 1948, Fischerkoesen foi julgado, absolvido e liberado. Posto que  não era um comunista, ele não foi autorizado a trabalhar na indústria cinematográfica alemã localizada no Oriente. Ele e sua esposa conseguiram fugir para a Alemanha Ocidental, onde o cineasta pôde retomar a produção de filmes publicitários até 1969. Fischerkoesen morreu em 1973.

Ademais, há algo que ainda dificulta a interpretação das animações de Hans. Para complicar a situação, há vários sites e artigos os quais exprimem que ele teria colocado uma crítica ao próprio nazismo em mensagens subliminares nas suas animações. Talvez isso explique por que elas utilizam uma linguagem tão dúbia, na qual encontramos a dificuldade de saber qual discurso o cineasta, de fato, defende.

A perseguição dos animais ao boneco de neve pode ser compreendida também como a dos nazistas aos judeus que, no fim, resulta no extermínio em massa desses. Como já foi dito, “The Snowman” deixa um gosto amargo na boca e a dificuldade em discernir a real mensagem do vídeo. O esquema de escravidão engendrado pela raposa, em “The Silly Goose”, também nos faz questionar se seria a representação do horror no campo de concentração ou um mero artifício para odiarmos o personagem. O final em que a gansa se converte numa mãe de família que pune o filho tem uma pontada de ironia, principalmente quando ela encolhe os ombros em sinal de submissão ao marido. De certa forma, o caráter subversivo da gansa, no início, parece exercer um encanto no espectador. No entanto, mais uma ambiguidade pode ser notada: no primeiro vídeo, o cineasta opta por utilizar o jazz – justamente um gênero que fora proibido na Alemanha – como trilha sonora. E se reparamos bem, próximo da vitrola se encontra uma cinta-liga. O aspecto de abandono do lugar deixa subentendido um jogo erótico, proibido numa sociedade que esperava da mulher um papel unicamente familiar.

De mais a mais, esse maniqueísmo presente em “The Silly Goose” ou o final perturbador de “The Snowman” podem ser indícios de que Fischerkoesen criou uma propaganda pró-nazista por encomenda, mas que deixara resquícios do que ele mesmo pensava sobre o que via. É uma teoria que – tendo em vista esses elementos de duplo sentido – se torna possível. No entanto, esse aspecto não transforma o trabalho de Hans Fischerkoesen em um mero instrumento do Partido Nazista – o que o faria ser odiado e esquecido -, mas em uma pertinente possibilidade de estudo sobre o uso do discurso numa animação e sobre as influências de um período histórico no processo criativo do cineasta.

Para saber mais sobre essa ambiguidade no trabalho de Hans Fischerkoesen, clique aqui.

fonte

Revisado por Bruno Oliveira

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