O cotidiano pelos olhos do fotógrafo Henri Cartier-Bresson

Matéria publicada no site Fashionatto

Não é difícil reconhecer uma fotografia do francês Henri Cartier-Bresson. Ele tinha o enorme talento de congelar momentos que pareciam ter surgido magicamente para ele, um momento que parou para as lentes do fotógrafo sabendo que seria inesquecível. Mas a verdade é que Bresson tinha um olhar apurado para o aspecto por vezes cômico ou melancólico presente nas ruas, no cotidiano das pessoas. A sinceridade no seu registro salta da fotografia.

O pai do fotojornalismo moderno nasceu em 1908, em Chanteloupe, na França, e morreu em 2004. Sua fotografia foi influenciada pelo húngaro André Kertész. Bresson teve inúmeros discípulos que também se tornaram lendas da fotografia, entre eles Robert Doisneau, Willy Ronis e Edouard Boubat. Mais um ponto interessante de sua carreira é que as fotografias de Bresson já estamparam revistas como a “Life”, a “Vogue” e a “Harper’s Bazaar”. Várias figuras conquistaram as lentes de sua câmera, registrando os últimos dias de Ghandi e ainda Pablo Picasso, Braque, Alberto Giacometti, Henri Matisse, Paul Claudel, Paul Valéry, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus.

O que a fotografia almeja, muitas vezes, é revelar a identidade de um povo inserido naquele contexto em que o fotógrafo se encontra, apresentar o que ninguém visualiza como arte, descobrir pequenas cenas de gênero a fim de apresentar ao mundo outras possíveis realidades ocultas no cimento urbano. O que salta aos nossos olhos diante de uma foto de Bresson é a capacidade da imagem em falar por si mesma. Comumente, busca-se a legenda que explica o sentido da foto tirada pelo artista em um museu como uma luva que veste perfeitamente a foto. A questão é que, vendo não só essas fotos de Bresson, mas de muitos artistas, é possível perceber que a plaquinha, essa luva, pode ser imperfeita. Nós conseguimos interpretar Bresson livremente e é isso que a fotografia deseja: instigar o observador a fazer parte dela. Assim, o momento estático, na foto, se presentifica com inúmeras possibilidades de interpretação.

Se olharmos com atenção para as fotos de Bresson, veremos que ele aplica poeticamente a geometria aos seus trabalhos. Na composição das imagens, ele integra linhas verticais, horizontais e diagonais, curvas, sombras, triângulos, círculos, convertidas ao olhar do artista.

Acerca do momento decisivo para o clique, Bresson disse que, às vezes, costumava ocorrer espontaneamente ou alguns exigiam paciência dele para esperar o momento certo. Inflexivelmente, Bresson esperava. Ele era muito metódico e, assim, sabia quando a pessoa estava no espaço e composição perfeitos para ser clicada.

Henri Cartier-Bresson conheceu vários lugares no mundo, como Índia, toda a Europa, Estados Unidos, China e África. Quando ele viajava, era capaz de aprender com a cultura local, observando-a respeitosamente. Por exemplo, quando ele estava fotografando na Índia, optou por ficar durante um ano imerso na cultura indiana a fim de retratá-la fielmente.

Encontramos nos trabalhos dele, também, o talento para tirar fotos de crianças brincando pelas ruas, criando imagens envoltas numa beleza nostálgica da infância. Quando fotografava nas ruas, sabia se colocar como um observador discreto. Para ele, era como se houvessem mundos distintos para desbravar, mas que pediam atenção e cuidado para que não perdessem a poesia da cena. A figura de um fotógrafo não deixa de ser a de um aventureiro em meio a um mar bravio, com ondas inesperadas. O clique da câmera deve ser perspicaz para que a cena sobreviva.

Podemos tentar decifrar a cena de algumas das fotos de Bresson. Um menino carregando garrafas, aparentemente bem pesadas, as quais ele abraça com um sorriso contido, mas orgulhoso por sua força, como se fosse um herói por carregá-las. Talvez ele tenha recebido alguns trocados para ajudar uma senhora. Ou a mãe dele, exausta, pediu que o filho as levasse para casa ou para o quintal, organizando uma festa familiar. Como se pode ver, a foto é capaz de dizer inúmeros discursos.

Um casal deitado na praia, entre os cascalhos, protegidos do sol por um guarda-chuva. Fica no ar o mistério dos rostos ocultos e se estão se beijando, dormindo. O tom inesperado e criativo da foto está no uso do guarda-chuva para protegê-los do sol, e não da chuva.

Talvez na foto ao lado, Bresson tenha visitado uma escola. As crianças ficaram curiosas diante da câmera e, timidamente, resolveram olhar, ingenuamente achando que não seriam vistas. Será que essa foi uma foto de fato planejada? Nunca saberemos. Pode ser que Bresson tenha ficado esperando o momento em que a escadaria estivesse lotada de crianças para, finalmente, clicar. O interessante é o aspecto vertiginoso da escada encaracolada. Olhamos a foto, mas parece que seus personagens nos veem também. Estamos, mais do que nas outras, sob a perspectiva do próprio Bresson. A troca de olhares fica em suspenso e parece que, simultaneamente, as crianças aguçam nossa curiosidade e nós, espectadores de Bresson, provocamos o mesmo nelas.

Desta foto parece até mesmo soarem os risos das crianças. E pela perspectiva de um buraco em um muro, como se estivéssemos à espreita observando, como uma criança se esconde. O buraco terá sido provocado por algum bombardeio? Será um lugar inóspito, habitado somente por essas crianças durante algumas horas de brincadeira?

Já essa foto parece remeter ao quadro Banhistas em Asnières (1884), de Georges Seurat, e à presença do barco nas obras de Monet. As pessoas sentadas à margem do rio, o barco à espera, o piquenique no gramado, o valor que as saídas do meio urbano tomaram no final do século XIX. Parece que isso vibra na foto de Bresson como referências.

Por fim, a foto ao lado é memorável. O reflexo perfeito do homem a saltar na poça. É como se houvessem duas fotos inseridas em uma só, nos fazendo pensar o que pode ser ilusão ou não. Muitas das críticas iniciais à fotografia, no final do século XIX, diziam que ela limitaria a imagem ao que é exposto, como se fosse uma mera cópia da realidade. Porém, podemos conceber a fotografia como mais uma maneira de chocar nosso olhar. Por vezes, ela guarda na imagem não a verdade sobre um acontecimento, mas o choque perpetuado, uma memória. E, sendo assim, pode ganhar novas interpretações e significados, chocando ou não quem a contempla. Permanece na fotografia o contato instigante com duas vidas – a realidade concreta e a retratada na foto – como se a ficção tremeluzisse na poça que o homem salta, mostrando que está lá para ser vista pelos nossos olhos.

As palavras do jornalista Truman Capote definem bem a personalidade de Bresson, um homem apaixonado pelo seu ofício. “Ele dançava na calçada como uma libélula inquieta, três grandes Leica penduradas ao pescoço, a quarta colada ao olho, tac-tac-tac, disparando cliques com uma intensa alegria e uma concentração religiosa de todo o seu ser. Nervoso e alegre, dedicado ao seu ofício, Cartier-Bresson é um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático”. Dessa dança frenética pelas ruas, cenas foram reveladas não somente por uma câmera, mas pelo nosso olhar, que as contempla no papel e na própria vida.

Fonte.

Revisado por: Nathália Rinaldi.

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2 comentários sobre “O cotidiano pelos olhos do fotógrafo Henri Cartier-Bresson

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