Prédio espelhado queima carros e lojas. Como aliar arquitetura à vida?

Matéria publicada no site Causas Perdidas

No calor de rachar das grandes cidades, por vezes sentimos que somos capazes de fritar até um ovo do calor que emana do asfalto, de tão quente que está. Se isso antes só constava nas nossas expressões cotidianas

enquanto reclamávamos na rua, no ônibus, do calor que enfrentamos nas cidades, o inesperado ocorreu em Londres. Um prédio em construção tem causado espanto e desconforto. Inteiramente espelhado, com formato côncavo, a estrutura se transformou numa imensa lente de aumento. O sol refletido pelo espelho na calçada foi capaz de derreter a capota de um Jaguar e o seu retrovisor. Um salão de beleza teve o carpete queimado e a placa de anúncio deformada. O telhado e a pintura de um restaurante foram igualmente danificados. E, em matéria exibida pelo Jornal Nacional, um londrino conseguiu até mesmo fritar um ovo com o calor advindo da calçada.

O arranha-céu, apelidado de Walkie Talkie, foi desenvolvido pela construtora Land Securities, a qual se comprometeu a ressarcir com os custos dos consertos necessários, assim como a avaliar seu projeto arquitetônico para evitar que problemas como esses continuem ocorrendo. O Walkie Talkie, que deve ficar pronto no final deste ano, segundo as previsões da construtora, está avaliado em 200 milhões de libras.

Agora, uma grande armação feita com andaime e lonas começou a ser instalada na calçada para impedir o reflexo do sol. O curioso é que autoridades descobriram que o arquiteto responsável pela obra, o uruguaio Rafael Vinoly, é o mesmo que projetou o Hotel Vdara, em Las Vegas, inaugurado em 2010. Esta obra também tinha vidros arredondados e espelhados, os quais causavam queimaduras em hóspedes em dias ensolarados. Após notícias de pessoas feridas, o hotel precisou reforçar os guarda-sóis e tomar outras providências para garantir sombra e segurança aos frequentadores.

Há uma lenda que afirma que Arquimedes, um dos principais cientistas da Antiguidade Clássica, utilizava espelhos para concentrar a luz do Sol e queimar navios à distância durante a guerra de Siracusa (do ano 214 a.C. ao 212 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica), na colônia grega de Siracusa, ilha da Sicília. Nenhum grego ou romano relatou na época o suposto feito do inventor. Hoje, pesquisadores da Universidade de Nápoles dizem que se trata de uma lenda, e que Arquimedes teria usado, na verdade, canhões de vapor e não espelhos. Isso serve apenas como uma curiosidade para ilustrar que, mesmo sendo uma lenda em relação a Arquimedes, é possível um prédio se assemelhar a uma lente de aumento devido ao seu posicionamento e formato em relação ao sol. Diante desse fato, é óbvio esperar que um arquiteto tenha conhecimento suficiente para evitar que uma construção arquitetônica se torne perigosa às pessoas que estão a sua volta.

O fato soa irônico nas páginas e sites de jornais. A questão é que não estamos vendo um caso isolado de um prédio que deu errado hoje, somente em Londres. Não deixa de ser um exemplo sintomático e uma deformação, segundo Habermas, do projeto moderno arquitetônico. Compreendemos a Arquitetura Moderna na chave do ideário das vanguardas europeias do início do século XX. Essas se esforçavam para trazer a arte ao âmbito prático, ou seja, sem isolá-la da vida. As vanguardas tardias, a partir dos anos 1970, por sua vez buscavam não criar expectativas para uma “reconciliação entre arte e vida”.

A arquitetura moderna, como a de Le Corbusier, alia-se a um projeto urbano. Com Carta de Atenas, o arquiteto francês buscou projetar a arquitetura aliada às funções da cidade, isto é, um espaço urbano harmonioso, considerando as necessidades para habitação, recreação e a preservação de patrimônios históricos. Porém, deve-se destacar que é a Arquitetura, segundo Le Corbusier, “que preside os destinos da cidade”, ela a embeleza prezando pelo seu bem-estar e organização. Em face disso, Habermas via outro lado do projeto de Corbusier: o excessivo planejamento de cada cômodo da moradia e o funcionamento planejado da cidade poderia cair numa intenção em parte totalitária, de modo que o arquiteto tentasse prever até mesmo o indefinível na vida humana. Para pensar no prédio em questão, não é o objetivo definir se de fato haveria essa falha ou não no ideário de Le Corbusier. É possível existir falhas na execução do projeto ao aplicar demais o funcionalismo na cidade, mas não uma falha intrínseca à Arquitetura Moderna.

Após essa breve explicação sobre o significado da Arquitetura Moderna, por que o prédio em Londres seria mais um exemplo sintomático de uma alteração no significado de arquitetura? Habermas vê que o desvio de rota do ideário moderno foi a arquitetura pós-guerra, a qual se apresentou em nome do estilo internacional, perdendo o caráter emancipatório da arquitetura. O prédio de Londres, que nem sequer está pronto, já é polêmico. Ele foi produzido com o intuito de ser meramente chamativo. Os espelhos aparentam – veja bem, aparentam – o que a gente define tortamente como “um prédio moderno” só porque ele parece fugir de tudo o que estamos acostumados a ver nas ruas. Parece inovador, mas não é. Nele, há somente a intenção de expô-lo puramente como um espetáculo majestoso aos olhos dos passantes na rua. Mas como ele, há milhares em toda parte. De diferente e emancipatório, o prédio de Londres só deve ter a capacidade de deformar carros e telhados de restaurantes. Só isso.

Dois exemplos são válidos para pensar como o prédio de Londres foi construído com o intuito de ser apenas um espetáculo. Fredric Jameson, no livro A virada cultural: reflexões sobre o pós-modernismo, vê a arquitetura recente como incompatível com as percepções que nós temos do espaço, pois houve uma “mutação no objeto” que não conseguimos acompanhar.

Jameson cita o Hotel Bonaventure, construído em Los Angeles pelo arquiteto John Portman. Ele reforça o que vimos anteriormente, que muitos exemplos da arquitetura contemporânea não inserem uma nova linguagem e sim, se constituem comercialmente, sem se adaptarem à cidade. O Bonaventure tem três entradas, com elevadores e escadas que permeiam o edifício numa ordem confusa e labiríntica e principalmente, o seu intento é ser uma cidade completa, possuindo tudo o que o hóspede necessita, como se fosse um shopping. Ou, nas palavras de Jameson, o Bonaventure “não quer ser uma parte da cidade, mas sim, o seu equivalente e o seu substituto”.

Um dos trechos mais interessantes do ensaio de Jameson é o seguinte trecho:

“Esse diagnóstico é, ao meu ver, confirmado pela pele de vidro espelhado do Bonaventure, cuja função pode ser primeiramente interpretada como o desenvolvimento de uma temática da tecnologia reprodutiva. Porém, em uma segunda leitura, é possível querer ressaltar o modo pelo qual a pele de vidro repele a cidade lá fora, uma repulsa para a qual temos analogias nos óculos de sol espelhados, que tornam impossível ao seu interlocutor ver os seus olhos e que, portanto, acabam denotando não só uma certa agressividade em relação ao outro, como um poder sobre ele”.

Assim como o Bonaventure, o Walkie Tolkie, prédio de Londres, faz mais do que repelir. Não é só um ataque literal, refletindo a luz solar e o calor escaldante já citados, mas principalmente porque ele se faz espelhado e descomunal para que contemplemos a suposta genialidade do arquiteto em querer produzir um edifício no formato côncavo. O prédio é uma tentativa de se impor na cidade.

Jameson ainda disserta sobre o real significado dos elevadores e escadas. Como fazem parte do espetáculo do Bonaventure, são mais do que um meio de locomoção. Os elevadores e escadas são adotados, agora, como os verdadeiros signos do movimento. Se você quiser caminhar com as próprias pernas no interior do prédio, estará perdido, não há uma escada que possa conduzi-lo exatamente para o local esperado. A confusão gerada no seu interior é proposital: o hotel se transforma em agente e é quem decide para onde o hóspede deve ir.

E não ocorre essa mesma interferência por parte do prédio de Londres? O pequeno estacionamento instalado em frente à calçada que recebe o reflexo direto dos espelhos precisou ser interditado. Carros e estabelecimentos foram danificados. As pessoas que precisavam usar a calçada diariamente como acesso sentiram mal-estar, tendo que mudar as suas rotas, desviando-se da luz solar refletida e do calor constante.

Desta forma, o significado do nome do prédio de Londres, Walkie Talkie, chega a ser uma escolha bem irônica. Conhecemos o objeto walkie-tolkie como um aparelho que possibilita a comunicação entre duas pessoas. Com a situação atual provocada pelo prédio, sente-se que a comunicação foi interceptada entre o prédio e a cidade e por isso, o ideário da arquitetura moderna não está presente nas paredes espelhadas do Walkie Talkie. O conflito foi instaurado entre edifício, arquiteto e habitantes, e a arma de guerra – que, olha só, Arquimedes poderia ter realmente usado contra os navios – finalmente são os raios solares, investidos por essa lente de aumento descomunal, contra a cidade.

Revisado por Maiara Marafon

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