“En Puntas” | Vídeo mostra bailarina dançando na ponta de facas

Matéria publicada no site Fashionatto. E com a honra de ter sido comentado pelo próprio diretor do vídeo, Javier Pérez: “Bello texto sobre mi video!!
Muchas gracias” 😀

Quando “Cisne Negro” chegou aos cinemas, pudemos ver uma nova faceta do ballet pela ótica da personagem Nina, interpretada com maestria por Natalie Portman. A jovem encarnava o medo e a fragilidade que se exigia ao papel de cisne branco, mas também precisava encarnar o oposto: a sensualidade e o perigo do cisne negro. A dualidade entre as características dos cisnes revela a dificuldade técnica em se assumir papéis muito díspares. Mais ainda: traz à tona os limites que, por vezes, o artista ultrapassa para atingir a perfeição.

Sabemos que o ballet exige não somente disciplina, mas sacrifício. A figura da bailarina muitas vezes foi envolta pelo ideário da jovem delicada e pura, com gestos e passos calculados e inocentes. Mas o que o filme “Cisne Negro” prova é que os bastidores e a escalada da bailarina até o momento em que o indescritível acontece – a perfeição dos passos – podem ser mais doentios e insanos do que imaginamos. Só vemos tule, brilho e elegância. A arte pode envolver sacrifícios. E a bailarina é a figura que encarna esse desafio com o próprio corpo.

Após essas considerações, pensemos no significado do vídeo abaixo. Ele foi feito pelo artista basco Javier Pérez. O vídeo nomeado En Puntas traz a bailarina Amélie Ségarra numa situação, no mínimo, perturbadora: ela se equilibra surpreendentemente na ponta de facas afiadas, em cima de um piano. Antes de continuar a leitura desse texto, veja primeiro o vídeo que tem, no máximo, 3 minutos. Vale experimentar por si mesmo.

Exclamações definiriam melhor a impressão que essa performance deixa no espectador. É difícil não se sobressaltar diante da tensão interminável do vídeo. Ela já começa ao ouvirmos a música delicada que sai de uma caixinha de música, segurada por uma única pessoa numa plateia quase fantasmagórica de tão vazia. A bailarina calça as sapatilhas atreladas às facas e se ergue por uma corda.

Aos poucos, já nos vemos inteiramente envolvidos, encarando os pés da bailarina, temerosos. O risco que a faca traça no piano arrepia. Porém, os gritos agudos da bailarina deixam marcas mais intensas do que aqueles riscos. Não dá para distinguir se os gritos são mera ficção e parte do espetáculo ou se ela sente dor e medo de cair. Uma pergunta que ficará sem resposta é quantos ensaios a bailarina teve para, finalmente, ficar na ponta das facas. Ou se ela se arriscou numa única tentativa.

Aos poucos, os passos que antes eram extremamente pesados se tornam mais leves e seguros, mas ainda definidos pela dor e pelo grito. O curioso é ver que a bailarina, por vezes, parece brincar com a nossa tensão, ampliando os riscos no piano a fim de esperar pela nossa reação. Ela não ouve, não vê ninguém. Não há crítica na plateia. A brincadeira se dá entre ela e o próprio corpo, mas nós, espectadores, somos quase a consciência da bailarina, que gosta de provar para si mesma (e para nós) o que ela pode fazer diante desse desafio.

A bailarina finaliza a performance sem aplausos. O que isso nos leva a pensar? A apresentação não deixa de ser uma bela metáfora de todos os anos de ensaio e aperfeiçoamento da artista. A plateia tem acesso ao produto final. Na verdade, o que não vemos são esses passos titubeantes no início de carreira e nem a dor intensa que as sapatilhas provocam sempre. Logo, as sapatilhas – e as facas, nessa apresentação – tornam-se parte do corpo da bailarina. Elas são a expressão de seu sacrifício e de sua arte.

O vídeo mexe com nossos sentidos. Ele quebra com a perspectiva que temos do ballet como uma expressão delicada do corpo. Ele é brusco, violento também. Colocar a bailarina numa situação-limite não chega a estar desvinculado de cada ensaio que é ultrapassado por ela durante a sua vida. Obviamente, as dores sentidas com as sapatilhas deixam marcas como os riscos no piano. E são acompanhados pelos gritos que, incrivelmente, continuam a soar na mente do espectador após o final da performance. Talvez sejamos a verdadeira plateia da bailarina. O aplauso seria vazio para tamanha entrega. O silêncio nos deixa atônitos e marca o último passo da perfeição.

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