Família talentosa! 10 pais e filhos escritores marcantes

Matéria publicada no site Literatortura

“Filho de peixe, peixinho é”. Certamente, você já ouviu esse ditado, muitas vezes citado orgulhosamente quando nos deparamos com alguém que possui o mesmo talento surpreendente da família. Mas não dá para considerá-la verdadeira. Esse ditado nos faz pressupor que genética e laços familiares definem a pessoa como somente uma extensão dos pais ou que poderíamos herdar determinado talento por simplesmente ter nascido naquela família.

Não dá para negar que temos muito de nossos pais, mas não é algo herdado geneticamente, e sim, pelo convívio e as experiências que vamos adquirindo durante o tempo em que desenvolvemos a relação familiar. Afinal, a educação influencia quem seremos no decorrer de nosso crescimento.

Pensando nisso, inicialmente, fui escrevendo essa matéria com a impressão de que a relação entre pais e filhos escritores seria fascinante, entrelaçada pelos livros. Mas a verdade é que temos essa visão um tanto inocente, pois nós mesmos, como leitores, misturamos a impressão que temos sobre o significado da leitura e as nossas experiências com os livros. Não pareceria bom ter uma família com o mesmo gosto que você? Aparentemente, sim.

Como um leitor comum, a relação que temos com os livros e com escritores costuma ser carregada de carinho. As lembranças que temos realmente nos influenciam. Um livro que seu pai deu a você de aniversário; a primeira coletânea de histórias infantis que você ganha assim que aprende a ler; uma dica de livro dada a esmo – mas nunca esquecida -; uma história lida antes de você dormir; o primeiro livro sem imagens apresentado a você, um leitor ainda precoce. Ou até mesmo um momento inesquecível como ganhar, das mãos dos seus pais, os livros que pertenceram a eles quando tinham a sua idade. Tudo isso se torna uma lembrança muito doce, para quem é simplesmente um leitor em formação. Faz com que a gente se apaixone ainda mais pela literatura.

 Sabemos que é comum os pais influenciarem seus filhos quanto à profissão que eles irão seguir. Muitos optam por serem médicos, advogados, pois se espelham na família, admiram a profissão ou, em casos mais específicos, escolhem-na por pressão. E os filhos de escritores? Vendo-os criando tantas histórias fascinantes, não é possível se encantar e querer seguir os passos dos pais?

Parece, à primeira vista, ser curiosa a relação entre eles, permeada pelas ficções. E pode ser realmente boa para o filho, encontrando na família um apoio para aquilo que passa a significar muito a ele: a escrita. Se a relação com o pai foi boa, ele servirá como inspiração, fato que podemos observar logo abaixo com a família de Stephen King. Não teve jeito, os filhos se tornaram fascinados, também, pelas histórias de horror, personagens que passam a aparecer nos cenários que eles criaram como escritores, agora já adultos.

Ter um pai escritor pode proporcionar um companheirismo diferente. Divide-se entre pai e filho as expectativas e o momento inquietante de partir de um papel em branco a uma verdadeira criação literária. Mas, em outros casos, escrever se torna um peso complicado com o qual lidar, pois se tornam inevitáveis as comparações entre pai e filho, se o primeiro obteve grande reconhecimento literário.

Mais ainda, pode ser conturbada a relação entre ambos. E isso já não se explica pela escolha da mesma profissão, mas sim do que ocorre entre a família. Infelizmente, no caso do escritor John Steinbeck IV, filho do autor John Steinbeck, além de carregar o mesmo nome do pai, o passado em sua companhia foi doloroso. No fim, a escrita tornou-se o seu consolo e única forma de relatar suas experiências, talvez para canalizar o sofrimento pelo qual passou.

Desta forma, há mais de uma faceta na relação entre pais e filhos escritores, como em qualquer outra família. O fato de ser escritora não torna uma família melhor. Os dramas fazem parte desse microcosmo. Mesmo que a relação não tenha sido boa entre os dois, no fim das contas o amor pela escrita acaba falando mais alto. E é por ela que as lembranças se convertem em uma criação importante. Ou em mais um modo de ficar próximo da inspiração paterna e o amor pelas ficções que esse proporcionou ao longo da formação do filho.

Por isso, reunimos aqui uma breve lista de escritores consagrados que possuem filhos também apaixonados pela escrita e que seguiram os passos da família.

1 – Alexandre Dumas: sabemos da grande importância de Dumas para a literatura. Mas não podemos esquecer que Dumas é um sobrenome dividido entre dois escritores, pai e filho. Alexandre Dumas Pai foi responsável por obras como  O Conde de Monte Cristo e a trilogia Os Romances de D’Artagnan nos quais surgem os Três Mosqueteiros e O Homem da Máscara de Ferro. E Alexandre Dumas Filho, inspirado pela carreira do pai, nos presenteou com mais um clássico literário assinado pelo célebre nome, o livro A Dama das Camélias. O curioso é que ele é filho ilegítimo de Dumas com uma costureira e, por isso, o autor tirou a criança da guarda da mãe. Devido ao sofrimento da separação da própria mãe presenciada por Dumas filho, a figura feminina permeia constantemente as obras dele. Enquanto o primeiro constrói enredos mais imaginativos e cheios de aventuras, o segundo é autor de obras mais provocativas em relação à burguesia.

2 – Érico Veríssimo: no Brasil, temos a família Veríssimo. Érico, autor da saga O Tempo e o Vento, inspirou seu filho e tão clássico quanto o pai, Luis Fernando Veríssimo, autor de romances consagrados e dono das melhores crônicas do país, como parte das coletâneas Comédias para se ler na escola e Comédias da vida privada. E as duas filhas de Luis, Mariana e Fernanda, optaram também pelo jornalismo e pela literatura. Luis diz lembrar muito do pai, “ele nunca foi um ativista político, mas foi um homem correto, decente e coerente nas suas posições e declarações”, e ainda acrescenta: “meu pai foi um dos maiores romancistas brasileiros e sua obra continua atual e importante. Tenho orgulho disso e não tenho nenhuma pretensão de igualá-lo”. Mas, paradoxalmente, ele diz que nunca conversou com o pai sobre literatura, o que foi uma das causas, segundo ele, para que começasse a escrever tão tarde, tendo seu primeiro livro de crônicas publicado com 37 anos.

3 – H. G. Wells: ele é o autor de A Guerra dos Mundos, livro de 1898 que fez milhares de pessoas acreditarem que a Terra estava sendo invadida por alienígenas, ao ouvir uma transmissão de rádio, em 1938. Não eram marcianos e sim, a divulgação do filme que adaptou o livro. O que poucos sabem é que o filho Anthony West, inspirado pelo pai talentoso e um dos mestres da ficção científica, também foi escritor, o qual escreveu meia dúzia de livros, incluindo uma biografia sobre Wells, Aspectos de uma vida.

4 – Stephen King: talvez nem todo mundo saiba, mas Stephen King também teve dois filhos escritores. Joe Hill, já lançou dois romances, A Estrada da Noite e Fantasmas do século XX, além de trabalhar com Graphic Novels. Tanto que uma de suas obras, O Pacto, deve ser lançada em breve nos cinemas, com o ator Daniel Radcliffe. Já Owen Hill, o caçula de King, lançou três livros, mas recebeu fortes críticas, nos Estados Unidos. Fico pensando quais tipos de histórias Stephen deveria contar para os filhos, antes de dormir. A presença de criaturas fantásticas e o clima de terror presentes em King também se mostram nas obras de Joe. Segundo o caçula, histórias de horror são o negócio da família.

5 – Dias Gomes: renomado autor de novelas, peças para o teatro e membro da Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes também possui importante careira na literatura com publicações como A dama da noite e Odorico na Cabeça. E ainda a ótima peça O pagador de promessas, que originou o filme de 1962 que ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, por Melhor Filme. A filha dele, Mayra Dias Gomes, também decidiu seguir a carreira do pai, tendo entre seus livros Mil e uma noites de silêncio e Fugalaça. Como curiosidade, Dias Gomes foi casado com a também autora de novelas Janete Clair, que escreveu Irmãos Coragem e Selva de Pedra. Podemos dizer que ambos foram marcantes para o gênero na televisão, criando modelos que, hoje, são repetidos incansavelmente pelas novelas da programação.

Três gerações de escritores do jornal The New Yorker: John Updike, o filho David e Linda, mãe de John.

6 – John Updike: escritor, crítico literário e vencedor de dois prêmios Pullitzer por Rabbit Run, John Updike é conhecido como autor de As Bruxas de Eastwick. Ele teve quatro filhos, sendo um deles David Undike, autor de diversas histórias publicadas em jornais e uma coletânea de quatro livros destinados a crianças, as quais foram ilustradas por ele. Ele também é professor e fotógrafo. Curiosamente, ele ilustrou com fotos de sua autoria o livro infantil A Helpful Alphabet of Friendly Objects, escrito por seu pai, John Updike.

7 – Carlos Nejar: um dos principais poetas brasileiros, membro imortal da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar deixou obras ricas de vocabulário, como Sélesis. Nelas presenciamos o uso de aliterações, que proporcionam uma musicalidade aos versos, construídas belamente pelo autor. O filho do autor, o irreverente Fabrício Carpinejar, é um dos principais escritores da literatura contemporânea, o qual aborda em seus livros temas recorrentes ao cotidiano. E ainda, no livro, Um Terno de Pássaros ao Sul, Carpinejar faz o que a crítica considera uma versão do clássico Carta ao Pai, de Kafka.

8 – John Steinbeck: uma lenda da literatura, com o Nobel e o Pulitzer na estante, Steinbeck teve dois filhos, Thomas e John IV. E os dois se tornaram escritores. Thomas escreveu roteiros e documentários diversos, assim como um livro de contos, Down to a Soundless Sea, o qual foi publicado em seis línguas. John IV serviu no Vietnã como correspondente de guerra. E isso proporcionou a ele tamanha experiência que o levou a relatar o que presenciou nas páginas do In Touch. Mas a relação dele com os pais não foi boa, envolvido em um mundo de alcoolismo, divórcio, a distância do pai e um provável abuso dos pais e alguns amigos próximos da família, fato que o levou a começar a escrever sua autobiografia The Other Side of Eden, livro publicado após a sua morte, com co-autoria da esposa do autor.

9 – William F. Buckley: comentarista e fundador da revista National Review, figura presente em diversos jornais televisivos e autor de mais de 50 livros sobre a escrita, fala, história, política, Buckley também criou uma série de romances sobre um agente da CIA chamado Blackford Oakes. Seu filho, Christopher Buckley, é conhecido como um satirista político e por romances como Obrigado por Fumar e Little Green Men.

10 – Família Waughs: o trabalho dessa família foi épico. Produziu escritores por quatro gerações. Primeiro foi Arthur Waugh, que rompeu com a tradição familiar da medicina e se tornou um influente colunista, editor e biógrafo. E, então, Arthur teve dois filhos, Alec e Evelyn, os quais continuaram o legado de seu pai. Auberon, filho de Evelyn, é responsável pela biografia da família, com o livro Pais e Filhos. E Peter Waugh, filho de Alec, não é escritor. Ele relata, em entrevista ao The Guardian, que sempre foi muito distante do pai. Arthur Waugh sempre deixava claro a diferença que fazia entre Alec e Evelyn, preferindo o primeiro. Para Evelyn, havia rancor pela relação quase incestuosa entre Arthur e Alec, pois o patriarca considerava como único herdeiro o filho favorito. E Alec acabou sendo um pai negligente com Peter, demonstrando desinteresse pela presença do filho. Porém, nos últimos anos de convivência com o pai, a relação entre eles se estabeleceu com mais carinho e proximidade, apesar da melancolia quanto ao passado.

Fonte.

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