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Como o Grinch roubou o Natal, de Dr. Seuss

Resenha publicada no site Indique um livro

Como o Grinch roubou o Natal, de Dr.Seuss

Companhia das Letras, 63 pgs.

Na edição americana: Random House, New York, 31 pgs.

Para quem assistiu ao filme de 2000 com Jim Carrey, Grinch já é uma figura conhecida. Mas o que poucos sabem é que a história é um clássico da literatura infantil chamado How the Grinch stole Christmas (Como o Grinch roubou o Natal). Uma criatura verde, com o coração dividido em 2 partes frias, pequenas e insensíveis à união e ao amor natalino. Grinch odeia o Natal. Ele observa ao longe, de sua caverna, os Whos se preparando para a grande comemoração: a mesa para a ceia feita com todos da vila, os presentes, as luzes que invadem as pequenas cabanas.  E o plano é impedir, o mais rápido possível, que o Natal aconteça dessa vez, após 53 anos aguentando os Whos cantando na ceia de Natal.

O Grinch tem, então,  uma grande ideia, uma terrível ideia: fantasiar-se de Papai Noel e fazer de seu cachorrinho Max uma rena, sair de sua caverna em um trenó e roubar o Natal dos Whos, sumir com cada presente, cada prato de comida que fosse para a ceia. Quando Grinch está prestes a colocar a árvore de Natal na chaminé, para roubá-la também, ele é surpreendido por Cindy-Lou, uma garotinha Who. Mas Grinch logo consegue enganá-la e sai da vila Who com todos os presentes dos moradores.

A questão é que, enquanto Grinch sobe a colina com seu trenó lotado de presentes, da vila Who vem um som. O monstrinho verde e maligno fica em choque: a cidade inteira estava reunida, cantando músicas natalinas, sem presentes, sem peru, sem pudim. E ele pensa, numa frase marcante para o pequeno livro: “Talvez o Natal não venha de uma loja. Talvez o Natal…talvez…signifique um pouco mais”.

“O que aconteceu, então? Bem…na vila Who eles disseram que o pequeno coração do Grinch aumentou três tamanhos naquele dia”. Com isso, Grinch finalmente viu o valor dos Whos, voltou à vila, devolveu os presentes e ele mesmo cortou o peru, na ceia, reunido aos moradores que tanto odiava.

Optei por fazer um resumo que revela o enredo da história, porque se trata de um livro infantil já com uma história conhecida, talvez devido ao filme. Encontrei em pdf a edição original em inglês, que conta com 31 páginas, aqui. É possível acompanhar a leitura simultaneamente ao audiobook do livro ou, se você preferir, apenas ouvi-lo enquanto vê as imagens no vídeo, aqui.

A edição de Grinch tem um trabalho de ilustração muito bem feito. Usa tons simbólicos, como o verde, o branco, o vermelho – as cores natalinas – enquanto preenche apenas alguns elementos do desenho feito em preto e branco. A narrativa é em forma de rima, o que é interessante notar acompanhando o audiobook, feita com uma delicadeza singular. Os sons emitidos pelo Grinch viram rima, há neologismo muito criativo utilizando o nome do personagem. Vale a experiência de acompanhar a leitura em inglês com o áudio. E o mais fascinante é que o Grinch é verde, uma cor que, no fim, percebemos que pertence à paleta de cores do Natal. Só foi preciso o coração do monstrinho verde multiplicar o seu tamanho, para ele perceber que fazia parte do Natal dos Whos.

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O suplício do Papai Noel, de Claude Lévi-Strauss

Resenha publicada no site Indique um livro

O suplício do papai noel, de Claude Lévi-Strauss

Editora Cosac Naify, 47 pgs.

O suplício do Papai Noel é uma leitura inusitada para a época natalina. Sabemos que o senso comum considera o Natal um momento de união com a família, com troca de presentes, até com um teor mágico – e pode ser assim, de fato. Mas não costumamos questionar o significado do Papai Noel, figura já tão presente no imaginário infantil, nas decorações natalinas, nos shoppings, nas piadas infames do tio inconveniente na ceia. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, pretende, então, trazer uma reflexão sobre essa figura. Papai Noel seria um mito, uma divindade ou uma lenda?

Lévi-Strauss não opta por respostas simples. Numa análise rasa, poderíamos afirmar que ele é uma lenda para crianças, e acabou. Ou ainda, que o Papai Noel é uma forte influência americana na França. Mas a questão é mais profunda e delicada. O ponto inicial da leitura traz a curiosidade de um fato pitoresco: o jornal France-Soir, em 1951, noticia que na véspera de Natal o Papai Noel foi queimado no átrio da catedral de Dijon, em frente às crianças do orfanato.

O Natal seria uma manifestação moderna, mas com algumas referências bem antigas quanto ao pinheiro, às luzes, à ceia. Não é, de fato, uma novidade, mas uma reconfiguração. A influência seria, pelo que o autor chama, de difusão de estímulo; ninguém na França escolheu o modelo de comemoração do Natal porque era americana, mas porque parecia conveniente, como a troca por um produto que funciona mais às suas necessidades.

Papai Noel foi queimado como símbolo, aparentemente. O período histórico falava num início de equilíbrio entre a opinião pública e a religião. Os anticlericalistas teriam visto a chance de parecerem os defensores do Papai Noel. Nesse sentido, Lévi-Strauss aponta que há um paradoxo nas motivações da Igreja e dos anticlericalistas: enquanto a primeira seria racional por assumir que o Papai Noel era uma imagem pagã, a segunda defendia, pelos próprios interesses, uma superstição. Como resolver esse empasse?

Primeiramente, Papai Noel teria sido uma invenção dos adultos. E está mais para divindade do que lenda, pois em um período exato do ano prestamos uma espécie de culto à sua imagem. O autor faz uma ligação curiosa, para mostrar que o personagem tem um quê de divindade: as katchina, dos índios do sudoeste norte-americano, seriam a figura cultuada por eles todo ano para se evitar o rapto das crianças. O que são as katchina? Crianças indígenas que morreram afogadas num rio e voltariam para raptar as outras crianças. A troca da tribo foi cultuá-las. Por medo do quê? Das próprias crianças, Strauss afirma numa das passagens mais fascinantes do curto ensaio.

Papai Noel parece um acordo tácito entre gerações. Ele é uma figura benevolente, que exige o bom comportamento anual da criança para que ela tenha seu reconhecimento em dezembro. E mais do que isso: os adultos não acreditam nele, portanto, o Papai Noel traz à tona o rito de passagem às gerações, como se se desvincular dele fosse a inserção à sociedade. Acrescento que o Natal seria, então, um limbo para essa criança que ainda precisará avançar alguns passos para ser considerado parte da sociedade.

A leitura do ensaio de Lévi-Strauss pode ser feita com tranquilidade, a escrita do autor flui com sagacidade, deixando bem claro os pontos que nos guiam ao desfecho. É um estudo interessante que deixa no ar a vontade de ser mais extenso e detalhado. Mesmo assim, o que temos já é o suficiente para pensar com mais profundidade sobre o significado do Natal e do Papai Noel. Seja durante a leitura corriqueira ou naquelas horas de tédio durante a ceia natalina. É como se você pudesse rir secretamente sobre o segredo do Papai Noel e das mensagens escondidas no culto a essa figura, entre uma garfada e outra do peru de Natal.

Nota: a edição da Cosac Naify é uma gracinha, em capa dura branca, com todas as pontuações no interior do livro em vermelho, e ainda vem numa capa de plástico rígido vermelha, como se fosse um presente.

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As 10 dedicatórias mais fascinantes que encontrei no site Eu te dedico

Matéria publicada no site Literatortura

O site Eu te dedico (http://eutededico.com.br/) é um daqueles achados na internet que, instantaneamente, se torna um de seus favoritos. A idealizadora do site, Mariana Guglielmelli, teve a brilhante e também sensível ideia de criar um site no qual estão publicadas inúmeras dedicatórias escritas em livros. As pessoas podem enviar a foto do livro e a transcrição de suas dedicatórias, contando um pouco do porquê elas possuírem um significado singular. São quase histórias paralelas aos livros, podemos descobrir o que motivou algumas pessoas a presentearem as outras com aquelas obras e as histórias que estão ocultas nas palavras de carinho. Por isso, entrei em contato com a Mariana para que ela respondesse apenas algumas perguntas a fim de saber mais sobre o projeto.

Como você teve a ideia de desenvolver o site? Foi observando o valor que tem uma dedicatória na sua vida?

Sempre gostei de dedicatórias, tanto de escrever quanto de ganhar. Tinha uma curiosidade sobre as dedicatórias que as outras pessoas ganhavam ou escreviam, mas só tinha acesso às minhas. Por isso, comecei a percorrer sebos e fotografar as que encontrava. Resolvi criar o blog para compartilhar esses “achados” e também para que as pessoas pudessem enviar suas contribuições. 

Como é a experiência de receber essas novas histórias concentradas em poucas linhas, com tanta intensidade, de outras pessoas? 

Tem sido uma experiência muito enriquecedora e gratificante. Dá pra perceber como, no fundo, somos todos parecidos – temos histórias de amizade, de ex-amores, de arrependimentos… Além disso, algumas dedicatórias despertaram minha vontade de ler certos títulos e, o que considero mais importante: pelas mensagens que recebo dos leitores, posso dizer que as dedicatórias publicadas, bem como as histórias que as acompanham, têm comovido e incentivado muitas pessoas a escrever dedicatórias e a dar livros como presente.

Qual é a sua descrição sobre a proximidade que a dedicatória fornece entre quem presenteia uma pessoa próxima e esse futuro leitor?

Acho que um livro com dedicatória é um dos presentes mais duradouros que se pode dar para alguém. Hoje em dia, trocamos muitas mensagens o tempo todo, mas elas se perdem. No caso da dedicatória, isso não acontece. Ela funciona como o registro de um momento, de uma intenção e sentimento e é raro que alguém se desfaça de um livro com uma marca tão importante.

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Como se percebe nas falas da Mariana, presentear alguém com um livro é conceder o prazer de viver outra história. Algo muda quando se conhece a fundo as páginas de um livro. A verdade é que o livro é quase uma epifania em palavras e páginas, em estado de ebulição. Se ela não ocorre agora, daqui a uns anos ela pode acertar em cheio o leitor. A questão é que uma epifania, por vezes, não modifica o estado de uma pessoa; é um momento passageiro de revelação. Os livros não. Milhares deles conseguem provocar alterações inimagináveis na vida cotidiana.

As dedicatórias do site são repletas de significados. Vemos pessoas indicando que se tome um copo de cólera às vezes – fato necessário para vivenciar a vida com intensidade -; outra destinando um livro sem qualquer propósito, simplesmente para mostrar o quanto a presença do outro é a delicadeza no mundo. Por isso, o site Eu te dedico é um presente. A possibilidade de multiplicar o acervo de histórias na nossa memória, conhecendo um pouquinho da vida de outras pessoas, provoca em você a vontade de também escrever na primeira página de um livro às pessoas que você admira.

Deste modo, resolvi criar uma lista das dez dedicatórias mais fascinantes do site. Não há nenhuma ordem qualificando-as e com certeza há muitas outras pelo site. Elas chamam a atenção por motivos distintos, tanto para você, leitor, quanto para mim. Foram escolhidas por manifestarem emoções e histórias diferentes: entre artista, escritor e seus fãs, entre namorados, pais e filhos, professor e aluno. Não pude evitar, enquanto escrevia essa matéria, o ímpeto de reler as dedicatórias nos meus livros e relembrar o significado das palavras que estão lá e as que deixei nos livros de meus amigos. Espero que você faça o mesmo!

O fascínio está em concluir que as belas histórias podem estar entre as relações cotidianas. E isso se define muito bem em uma das dedicatórias, escrita no livro A viagem do elefante, de Saramago, presente no site: “O que importa, na viagem, são os passageiros que encontramos no caminho”.

1.Dedicatória no livro Amor em Minúscula – Francesc Milralles.

“De: Marcos
Para: Stéfany

Estranho como o amor aparece em nossas vidas
com atos inofensivos, como ir a uma sorveteria
em uma tarde de quinta-feira que acaba se tornando
o início do nosso amor!
Realmente inexplicável esse tal de amor…
Feliz dia dos namorados minha doce e
amada Stéfany, que esse seja apenas o primeiro
de muitos anos juntos!
Vamos crescer juntos e espalhar nosso amor pelo mundo!
O difícil fazemos agora, o impossível levará algum tempo!”.

Definitivamente, esta dedicatória faz muitos roteiros hollywoodianos parecerem fracos. A dedicatória foi de Marcos para a namorada Stéfany Aguiar, como presente de dia dos namorados. E a escolha não foi por acaso. O enredo do livro traz pequenos acontecimentos que mudam a vida das pessoas, tal como a ida a uma sorveteria para que Marcos e Stéfany se conhecessem, mudando totalmente a vida de ambos.

2. Meu doce Rio – Lygia Clark

“Otavio (Lins?)
meu primo na
afetividade.

Clark”

Encontrar-se com um artista que você admira pode resultar em um livro autografado e nunca esquecido. A dedicatória foi enviada ao site por Clara Browne, a qual diz que o livro, de tão velhinho, já possui uma capa branca, anteriormente vermelha. O pai dela, Otavio Lins, estava numa exposição da artista Lygia Clark, quando a encontrou simplesmente a poucos passos de distância de uma de suas obras. Ele não sabia o que fazer, mas logo a artista o viu e disse “Pode vir. Pode me dar um abraço, pode me dar um beijo. Vem! Vem!”. Ela estava com esse livro e o autografou, dizendo que tinha um primo também chamado Otavio.

3. Toda poesia – Paulo Leminski

“Eu quero fotografar leminski
mesmo as vezes triste
em minhas sorteadas partes inteiras,
este poeta em frases
me tocaste distraída
fiz de mim esmera parte
de sua nunca poesia.

Lua ausente amanhecida
este pão na chapa quente
você endurecida capa
de um livro que
não me pertence.

Mari

14/3/13”

Esta dedicatória é curiosa. Marina, autora dela, escreveu na forma de um poema inspirado em Leminski. E foi um presente que ela resolveu dar a si mesma. A questão é que não deixa de ser uma homenagem endereçada a Leminski também, pela inspiração que ele incita em seus leitores, a transformarem o cotidiano em poesia.

4. A menina que roubava livros, Marcus Zusak

“Carol,
só existe um caminho
ao conhecimento. Só há uma
vereda à herança eterna que o
mundo nos permite: Os livros.

Espero que esse seja um
dos passos (livros) que formará o
perfil de uma grande pessoa.

Aproveite o máximo.

Com carinho e admiração
do seu professor,

Emanuel Freitas
04/set/2009”

Esta foi uma dedicatória que a Caroline Marques recebeu de seu professor de História, no aniversário dela de 15 anos. Tanto a obra quanto a dedicatória se mostram importantes para Caroline, pois foi o primeiro livro que ela ganhou de presente. Até então, a jovem tinha apenas os exemplares comprados por ela ou obras emprestadas. A dedicatória traz à tona o carinho e respeito entre professor e aluno, pois presentear alguém com um livro não deixa de ser a transmissão de um conhecimento ou a promessa de ampliar o olhar para novas histórias. Comove, nessa história, o fato de a figura do professor não deixar somente o conhecimento transmitido ao aluno, mas também o livro como um estímulo para que se encontrem os passos do conhecimento por conta própria.

5. A Terra dos Meninos Pelados – Graciliano Ramos

“Amora,
Esta pequena lembrança é para
te dizer que estar contigo é
ter encontrado a minha serra
de Taquaritu.
Quero que seja sempre minha
Princesa Caralâmpia, que irei (des)vestir
com túnicas cor de nuvens do céu,
enfeitar com broches de vaga-lume e
pulseiras de cobra coral só para o nosso prazer.
do sempre seu Felipe
(ou Pirundo, ou talvez Tatipirun,
ou qualquer coisa que quisermos
nesse jogo de verdade e faz-de-conta que é o amor)”

A particularidade que torna essa dedicatória muito bela é o uso da linguagem de Graciliano Ramos e as referências literárias da obra com a qual o namorado presenteia Alessandra Lemos, no dia dos namorados. Ambos são estudantes de literatura e esta foi a forma que ele encontrou de trazer o olhar sublime e especial da literatura para a vida de ambos.

6. Robin Hood – A lenda da liberdade – Pedro Bandeira

“Querido amigo Wendell,
eu pretendia entregar-lhe esta
surpresa pessoalmente mas,
como as circunstâncias impediram
nosso encontro, aqui vai a surpresa
carregada com o mesmo carinho.
Do seu amigo
Pedro
2012”

e
“Dedico este livro ao meu jovem amigo
Wendell Reis Silva, de Betim, Minas Gerais.”

A história desta dedicatória é fascinante. Wendell Silva, desde criança, é fã do escritor Pedro Bandeira. Por isso, na adolescência, ele entrou em contato com o autor. Pedro, muito gentil, respondeu. E desta forma a relação entre ambos foi se constituindo. Wendell mandava sugestões para as novas aventuras dos Karas, enquanto o escritor respondia dizendo que eram boas. A amizade entre os dois cresceu, Wendell recebeu livros autografados do autor, deu livros a Bandeira. É comovente se identificar com a história entre eles, quem não gostaria de ter estabelecido o mesmo contato com Pedro Bandeira e poder conversar sobre as aventuras dos Karas? Bom, chegou o dia em que eles finalmente se conheceriam na Bienal do livro em BH. Porém, houve uma chuva forte, que cancelou justamente o dia em que ele poderia encontra-lo. Mas, felizmente, Pedro Bandeira já preparava uma surpresa a Wendell: ele mandou ao jovem, pelo correio, um livro especialmente dedicado a ele. Felizmente, mais tarde, Wendell conheceu Pedro num evento do SESC Palladium. Um exemplar que é impossível de esquecer.

7. Ask the Dust, John Fante

“A ti não necessitaria escrever;
seriam seus a dedicatória,
o prólogo
as linhas, os pontos finais, vírgulas,
acentos e
o resto.
O todo.
Pois sem ti não haveria o verbo,
Amor.
Paulo Gustavo
03/08/13”

A explicação é simples para a dedicatória ter sido especial a Regina Trindade. Ela recebeu de seu “pequeno Fante”, referência ao autor do livro. A beleza se encontra na forma poética com que ele expressa a necessidade da existência dela para que conhecesse o significado do verbo Amar e existisse cada item da dedicatória.

8. Guia dos mochileiros das galáxias – Douglas Adams

“Oi, amor!
Bom, eu sei que não fui democrática na escolha
do livro, não faço ideia se gosta desse estilo,
mas isso daqui é uma das minhas paixões
da vida, e como você é outra, quero te apresentar a essa.
Eu pedi pra não abrir enquanto estivesse
aí porque espero que até lá tenha conseguido
falar (sonoramente) que te amo.
Porque, olha, eu te amo.
Eu te amo daqui até o Restaurante no Fim do Universo.
E você é pra mim, hoje, minha Vida, Universo e Tudo Mais.
E você sabe o quanto me tornou (praticamente) inofensiva.
T.
Até mais, e obrigada pelos peixes!”

Esta dedicatória foi escrita pela Thalita Pires ao namorado, livro que ela comprou para presenteá-lo durante a viagem que os dois fariam. As referências ao enredo do livro tornam-na encantadora, como uma demonstração física de que o amor dos dois alcança o infinito dos enredos literários e até de possíveis universos.

9. O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

“A Taci
Do Dr. Roberto.

“A infância é a melhor fase da
nossa vida’

Em 23/dez/73

Roberto da Rocha e Silva”

A dedicatória é simples, mas a história que a envolve é belíssima. Mariana Rocha conta que o livro foi dado pelo pai a mãe dela quando eles estavam prestes a se casar. Ambos se separaram há 10 anos. A questão é que a mãe optou por se desfazer dos pertences que o lembrava. Quando Mariana casou, ela levou consigo as poucas lembranças que sobraram deles juntos. E uma das mais importantes é esse exemplar do Pequeno Príncipe. Mas foi necessário guardá-lo com muito cuidado, pois uma das irmãs queria levá-lo para casa e a mãe ouviu parte da conversa. Para que o livro não fosse destruído, Mariana correu para escondê-lo e registrar a dedicatória numa foto.

10. Livro feito por Paola Sardenberg

“Dedicatória:

Eu dedico esse livro a minha
avó porque está sempre ao meu
lado te amo vovó”

Esta aqui é tão adorável que derreteria o coração até do Grinch, a ponto deste dizer que ama o Natal. Falo da dedicatória escrita por Paola Sardenberg, no período de sua alfabetização. O amor pela avó fez com que Paola escrevesse um livrinho com uma dedicatória a ela. Para uma criança que está aprendendo a escrever, cada letra tem um forte significado. Deveríamos mantê-lo até hoje. A palavra carrega o que, por vezes, só existe no silêncio. Por isso, essa dedicatória, escrita com tanta doçura, merece muito estar aqui. A Paola, já adulta, reencontrou essa dedicatória após duas semanas sem sua avó. Portanto, é uma lembrança forte marcada no papel, para se guardar com carinho.

Fotos dos livros aqui

Revisado por Paloma Israely

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O médico e o monstro, de R.L. Stevenson

Resenha publicada no site Indique um livro

Autor: Robert Louis Stevenson

Editora: L&PM Pocket, 2010, 108 pgs.

O médico e o monstro figura entre os clássicos do mistério e do horror. Não é um enredo que se faz explicitamente terrível; o horror se encontra nas entrelinhas. Nesse ponto, assim como em alguns contos de Edgar Allan Poe, encontramos o horror não na criatura grotesca, mas no interior humano.

A trama transcorre em Londres no final do século XIX. Narra a história de Dr.Jekyll, um médico respeitado pelo seu talento e suas virtudes. Ele busca fazer mais do que o imaginável, pela medicina. Ao mesmo tempo, inicia-se uma onda de assassinatos, como o de Sir Danvers, membro do parlamento.

Como se percebe, é claro, o título coloca em oposição o médico e o monstro. Mas o que fascina no enredo é como o lado obscuro pode se mostrar presente nas atitudes humanas. A leitura incita uma reflexão bem importante: a virtude é inata? Pode o homem ser bom naturalmente? As suas próprias escolhas são capazes de corrompê-lo? Mas corrompe o quê?

A obra de Robert Louis Stevenson está aí para mostrar que essas são perguntas com as quais nunca conseguimos lidar muito bem. O enredo de Stevenson revela o quanto a identidade humana é frágil. Tornou-se muito fácil condenar moralmente um criminoso, tomando-o quase como criatura à parte do mundo. Certamente, não dá para isentá-lo de sua ação. Porém, o que o livro traz à tona é o fato de que não há como separar pessoas em grupo de “virtuosos” e “viciosos” socialmente, como se os primeiros nunca pudessem errar e se tornar criminosos.

Nota-se esse contraste na Londres do XIX, pois se exalta as qualidades do parlamento e da alta classe, enquanto nas ruas centenas de pessoas são deixadas à deriva. Além disso, creio que a obra de Stevenson põe em dúvida teorias de eugenia, como a do médico Lombroso. Esse sustentou a tese de que poderíamos qualificar as pessoas como criminosas ou não de acordo com as feições do rosto – muitas referentes a traços étnicos. Com o tempo, ela se provou tendenciosa e cheia de preconceitos. Ou seja, Stevenson mostra que não é possível afirmarmos que um sujeito bem nascido ou de classe social elevada seja virtuoso e não pudesse ser um criminoso.

O livro de Stevenson é pequeno, mas provocante. Ao final da leitura, as ruas obscuras de Londres – e as da mente do Dr.Jekyll também – continuam na memória do leitor. Creio que não seja à toa o fato de o monstro do título, o Edward Hyde, ter esse sobrenome. No inglês, “hide” significa ocultar. Essa sensação de que há sempre algo à espreita, mas dentro de si mesmo, permeia todo o livro. Ficamos perturbados com essa ameaça. E qual é? Não é um monstro. É a raiva e as futuras ações do homem em estado de ebulição. Não há como colocá-las numa balança. O que o autor quer demonstrar é que não há lados nítidos que podemos escolher. A existência humana estaria entre ambos os personagens.

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Você sabia que o primeiro cinema do mundo voltou a funcionar?

Matéria publicada no site Literatortura

O ano é de 1896. Cerca de 250 espectadores se aglomeram numa sala de projeção para assistir um pequeno filme dos irmãos Lumière: A Chegada do Trem em La Ciotat. O filme consistia em uma cena que entrou para a história do cinema. Um trem surgia do horizonte e se aproximava com tamanho realismo que a plateia, surpresa por nunca ter visto uma projeção, ficou apavorada com a possibilidade de serem atingidas pelo trem que figurava na tela. É considerado o primeiro documentário feito na história do cinema.

Video aqui

Um pouco da aura do século XIX, felizmente, voltou para ficar, no dia 9 de outubro, na França. O cinema que exibiu o filme dos Lumière – o l’Eden Théâtre, em La Ciotat – foi reinaugurado. Esse é o cinema mais antigo do mundo, o qual foi fechado em 1995. Nessa reinauguração, foram substituídas as cadeiras antigas por novas, agora brilhantes e de veludo. Ele também foi todo pintado, recebeu azulejos novos na fachada e o piso teve seu carpete substituído por madeira de carvalho.

Para celebrar a reinauguração, uma montagem dos filmes dos Lumière foi apresentada no cinema, juntamente à restauração do filme emblemático dos cineastas pela Fundação Mundial de Cinema de Martin Scorsese. Diversos filmes antigos dos Lumière foram exibidos na reinauguração, que teve como atração principal o filme americano “Sindicato de Ladrões” (1954), de Elia Kazan, com Marlon Brando como estrela. Grandes nomes do cinema francês, como o diretor Roman Polanski e a atriz Nathalie Baye, compareceram à cerimônia.

“Esse é um prédio importante, não apenas para a história do cinema, mas para as pessoas da região. Gostamos de dizer que metade das pessoas de La Ciotat conheceu a outra metade no Eden e, quando essas pessoas vieram ver o que fizemos, muitas delas estavam tão felizes de ter seu cinema de volta que até choraram”, disse Guy Guistini, presidente da associação L’Eden des Lumières, que ajudou a financiar a renovação, ao jornal britânico “The Guardian”.

Antes desse mito hollywoodiano que se expandiu no decorrer do século XX, como o símbolo da indústria cinematográfica, havia La Ciotat como o início da sétima arte. Uma pequena e pitoresca cidade no Mediterrâneo que semeou o que se tornaria praticamente indispensável na vida humana como maneira de interpretação sobre a própria existência: o cinema.

Já havia máquinas que exibiam imagens quando Auguste e Louis Lumière criaram a Cinématographe Lumière, uma caixa de madeira que não tirava somente fotos, mas também desenvolvia e as projetava numa tela. Após patentear a invenção, os irmãos exibiram filmes curtos para uma audiência de 33 pessoas no Grande Café em Paris, em 1895, em seguida na casa de verão da família Lumière. E, finalmente, no l’Eden Théâtre.

O cinema abriu em junho de 1889 como um teatro e espaço para concertos, mas também apresentou óperas e tragédias Greco-Romanas. Ele fechou em 1982 após o dono ser assassinado por ladrões que queriam roubar os lucros da casa e também pela queda das vendas de ingressos. Continuou aberto durante uma semana, uma vez por ano, a fim de exibir pequenos festivais de filmes. Mas fechou em 1995 e foi deixado em estado de abandono. Adeptos do teatro continuaram a insistir na reabertura do cinema, mas só conseguiram adesão e dinheiro para investimento quando Marseille foi nomeada capital europeia da cultura em 2013.

O retorno de l’Eden Théâtre é incomensurável. Busca recuperar uma nostalgia que não idealizamos com frequência. Afinal, o cinema que está em nosso ideário se constituiu tardiamente. Pode-se dizer, porém, que o filme A Invenção de Hugo Cabret trouxe à luz novamente, ao grande público, a história da origem do cinema, com George Méliès e os irmãos Lumière. Ver o cinema mais antigo do mundo voltar à vida, colocando-o numa nova realidade, significa não admitir que uma parte da história seja esquecida entre destroços e abandono.

Diante desse fato, não é difícil se lembrar do Cine Belas Artes, o qual foi fechado há dois anos em São Paulo, após 43 anos como um dos cinemas mais antigos da cidade. Ou tantos outros cinemas de rua que viraram igrejas, shoppings, estacionamentos ou lojas. Em janeiro de 2013, o jornal Estadão divulgou (aqui) que a prefeitura de São Paulo tem o objetivo de transformar o prédio do Cine Belas Artes em um espaço cultural, tentando se desvencilhar da polêmica que foi a desapropriação do imóvel em 2011, enquanto dizia-se que o cinema se tornaria um centro comercial. A questão é que já foi declarado que funcionará uma loja no local. Mas a fachada foi tombada e hoje se encontra pichada e abandonada, fato que dificulta o funcionamento da possível loja. Ou seja, é uma situação extremamente incerta, da qual ainda não temos ideia de seu desfecho.

Na matéria feita pelo Estadão, segundo o advogado Marcelo Manhães, representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Conpresp), “O público que hoje frequenta cinema de rua é muito restrito e o dinheiro pode ser aplicado em outras prioridades”, afirma. “Não é o espaço que retrata a importância do cinema, e sim o conceito dele. Então pode ser em outro lugar, não naquela localização tão famosa e tão cara.”

Levando em consideração que são raros os cinemas de rua que sobraram e pela história que eles carregam, a preservação de um cinema – seja o l’Eden Thêatre, seja o Belas Artes – é de extrema relevância. Certamente, o apelo de filmes europeus não é o mesmo dos filmes blockbusters que ocupam mais de uma sala nos cinemas de shoppings. E aqui, realmente não é questão de qualidade do filme, se ele se enquadra ou não no termo que se passou a usar como cult. Não é isso. Significa aqui dizer que é preciso ter um cinema (quer dizer, mais de um) que esteja inclinado a expor outros gêneros cinematográficos, de outras nacionalidades, os quais não conseguem espaço em cinemas de grande público. Para quem deseja conhecer outras vertentes cinematográficas – como um espectador curioso, profissional da área ou um amante da sétima arte – a experiência de vê-las no cinema deve ser preservada. O choque, a exploração estética do filme, o trabalho do elenco, o cuidado apurado do diretor em filmar as cenas de modo consciente, tudo isso se acrescenta à experiência de estar diante da tela. Por quê? Você não o faz sozinho. Há um público que reage de maneiras distintas ou semelhantes a você. O cinema é catarse.

Ademais, um prédio que agrega o cinema não é somente um espaço físico. O que podemos nomear como conceito, algo universal, é o cinema e o significado da linguagem que ele usa em cada película. Posso ver um filme de outra nacionalidade e me identificar com ele. É possível ver um filme mudo e compreendê-lo com a mesma intensidade de um filme falado. Ou seja, ele pode ser, sim, um conceito e, portanto, universal. Mas quando ele se situa em um prédio que tem em si uma história, deve-se ter um cuidado maior na interpretação do prédio como um patrimônio. Há um público que se identifica não somente com a programação, mas que o vê como um símbolo detentor, fisicamente, da memória conservada pelos filmes vistos. Não conseguimos presentificar uma memória, apenas os objetos conseguem remeter a elas. O Belas Artes, o l’Eden Théâtre mantêm presos no espaço a experiência vivida por inúmeras pessoas. Ele acaba por se constituir como um reservatório de memórias.

O significado do cinema está em expandir a interpretação que possuímos do mundo. O cinema não existe para si mesmo. Ele precisa da fruição do espectador, dessa troca inexata entre nós e a linguagem existente nele. Por isso, recuperar o espaço do cinema é preservar publicamente a singularidade que ele tem: a capacidade de fazer uma plateia entrar magicamente em choque com um trem em movimento numa tela.

Se quiser saber mais sobre o significado de um patrimônio histórico, o Causas Perdidas fez uma matéria aqui: “Patrimônio? Para que serve?”

Fonte.

Revisado por Carlos Cavalcanti