O médico e o monstro, de R.L. Stevenson

Resenha publicada no site Indique um livro

Autor: Robert Louis Stevenson

Editora: L&PM Pocket, 2010, 108 pgs.

O médico e o monstro figura entre os clássicos do mistério e do horror. Não é um enredo que se faz explicitamente terrível; o horror se encontra nas entrelinhas. Nesse ponto, assim como em alguns contos de Edgar Allan Poe, encontramos o horror não na criatura grotesca, mas no interior humano.

A trama transcorre em Londres no final do século XIX. Narra a história de Dr.Jekyll, um médico respeitado pelo seu talento e suas virtudes. Ele busca fazer mais do que o imaginável, pela medicina. Ao mesmo tempo, inicia-se uma onda de assassinatos, como o de Sir Danvers, membro do parlamento.

Como se percebe, é claro, o título coloca em oposição o médico e o monstro. Mas o que fascina no enredo é como o lado obscuro pode se mostrar presente nas atitudes humanas. A leitura incita uma reflexão bem importante: a virtude é inata? Pode o homem ser bom naturalmente? As suas próprias escolhas são capazes de corrompê-lo? Mas corrompe o quê?

A obra de Robert Louis Stevenson está aí para mostrar que essas são perguntas com as quais nunca conseguimos lidar muito bem. O enredo de Stevenson revela o quanto a identidade humana é frágil. Tornou-se muito fácil condenar moralmente um criminoso, tomando-o quase como criatura à parte do mundo. Certamente, não dá para isentá-lo de sua ação. Porém, o que o livro traz à tona é o fato de que não há como separar pessoas em grupo de “virtuosos” e “viciosos” socialmente, como se os primeiros nunca pudessem errar e se tornar criminosos.

Nota-se esse contraste na Londres do XIX, pois se exalta as qualidades do parlamento e da alta classe, enquanto nas ruas centenas de pessoas são deixadas à deriva. Além disso, creio que a obra de Stevenson põe em dúvida teorias de eugenia, como a do médico Lombroso. Esse sustentou a tese de que poderíamos qualificar as pessoas como criminosas ou não de acordo com as feições do rosto – muitas referentes a traços étnicos. Com o tempo, ela se provou tendenciosa e cheia de preconceitos. Ou seja, Stevenson mostra que não é possível afirmarmos que um sujeito bem nascido ou de classe social elevada seja virtuoso e não pudesse ser um criminoso.

O livro de Stevenson é pequeno, mas provocante. Ao final da leitura, as ruas obscuras de Londres – e as da mente do Dr.Jekyll também – continuam na memória do leitor. Creio que não seja à toa o fato de o monstro do título, o Edward Hyde, ter esse sobrenome. No inglês, “hide” significa ocultar. Essa sensação de que há sempre algo à espreita, mas dentro de si mesmo, permeia todo o livro. Ficamos perturbados com essa ameaça. E qual é? Não é um monstro. É a raiva e as futuras ações do homem em estado de ebulição. Não há como colocá-las numa balança. O que o autor quer demonstrar é que não há lados nítidos que podemos escolher. A existência humana estaria entre ambos os personagens.

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