O suplício do Papai Noel, de Claude Lévi-Strauss

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O suplício do papai noel, de Claude Lévi-Strauss

Editora Cosac Naify, 47 pgs.

O suplício do Papai Noel é uma leitura inusitada para a época natalina. Sabemos que o senso comum considera o Natal um momento de união com a família, com troca de presentes, até com um teor mágico – e pode ser assim, de fato. Mas não costumamos questionar o significado do Papai Noel, figura já tão presente no imaginário infantil, nas decorações natalinas, nos shoppings, nas piadas infames do tio inconveniente na ceia. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, pretende, então, trazer uma reflexão sobre essa figura. Papai Noel seria um mito, uma divindade ou uma lenda?

Lévi-Strauss não opta por respostas simples. Numa análise rasa, poderíamos afirmar que ele é uma lenda para crianças, e acabou. Ou ainda, que o Papai Noel é uma forte influência americana na França. Mas a questão é mais profunda e delicada. O ponto inicial da leitura traz a curiosidade de um fato pitoresco: o jornal France-Soir, em 1951, noticia que na véspera de Natal o Papai Noel foi queimado no átrio da catedral de Dijon, em frente às crianças do orfanato.

O Natal seria uma manifestação moderna, mas com algumas referências bem antigas quanto ao pinheiro, às luzes, à ceia. Não é, de fato, uma novidade, mas uma reconfiguração. A influência seria, pelo que o autor chama, de difusão de estímulo; ninguém na França escolheu o modelo de comemoração do Natal porque era americana, mas porque parecia conveniente, como a troca por um produto que funciona mais às suas necessidades.

Papai Noel foi queimado como símbolo, aparentemente. O período histórico falava num início de equilíbrio entre a opinião pública e a religião. Os anticlericalistas teriam visto a chance de parecerem os defensores do Papai Noel. Nesse sentido, Lévi-Strauss aponta que há um paradoxo nas motivações da Igreja e dos anticlericalistas: enquanto a primeira seria racional por assumir que o Papai Noel era uma imagem pagã, a segunda defendia, pelos próprios interesses, uma superstição. Como resolver esse empasse?

Primeiramente, Papai Noel teria sido uma invenção dos adultos. E está mais para divindade do que lenda, pois em um período exato do ano prestamos uma espécie de culto à sua imagem. O autor faz uma ligação curiosa, para mostrar que o personagem tem um quê de divindade: as katchina, dos índios do sudoeste norte-americano, seriam a figura cultuada por eles todo ano para se evitar o rapto das crianças. O que são as katchina? Crianças indígenas que morreram afogadas num rio e voltariam para raptar as outras crianças. A troca da tribo foi cultuá-las. Por medo do quê? Das próprias crianças, Strauss afirma numa das passagens mais fascinantes do curto ensaio.

Papai Noel parece um acordo tácito entre gerações. Ele é uma figura benevolente, que exige o bom comportamento anual da criança para que ela tenha seu reconhecimento em dezembro. E mais do que isso: os adultos não acreditam nele, portanto, o Papai Noel traz à tona o rito de passagem às gerações, como se se desvincular dele fosse a inserção à sociedade. Acrescento que o Natal seria, então, um limbo para essa criança que ainda precisará avançar alguns passos para ser considerado parte da sociedade.

A leitura do ensaio de Lévi-Strauss pode ser feita com tranquilidade, a escrita do autor flui com sagacidade, deixando bem claro os pontos que nos guiam ao desfecho. É um estudo interessante que deixa no ar a vontade de ser mais extenso e detalhado. Mesmo assim, o que temos já é o suficiente para pensar com mais profundidade sobre o significado do Natal e do Papai Noel. Seja durante a leitura corriqueira ou naquelas horas de tédio durante a ceia natalina. É como se você pudesse rir secretamente sobre o segredo do Papai Noel e das mensagens escondidas no culto a essa figura, entre uma garfada e outra do peru de Natal.

Nota: a edição da Cosac Naify é uma gracinha, em capa dura branca, com todas as pontuações no interior do livro em vermelho, e ainda vem numa capa de plástico rígido vermelha, como se fosse um presente.

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